quinta-feira, novembro 10, 2005

Pilha de limão??

Pronto. Gente com necessidades algo caricatas começa a vir cá parar.

Teoria da relatividade

"Bom dia, doutora", disseram-me respeitosamente no corredor, enquanto eu me dirigia apressada para a casa-de-banho, a fim de satisfazer a necessidade fisiológica número dois.

quarta-feira, novembro 09, 2005

O Natal é quando as lojas quiserem

"Ando desesperadamente à procura de uma árvore de Natal toda branca e não encontro em lado nenhum!!"

Isto disse uma senhora, à porta da loja dos trezentos*. Desesperada? Por uma árvore de Natal branca? Mas hoje são 09 de Novembro ou 09 de Dezembro? Faltam quase dois meses para o Natal e a senhora anda desesperada? E não encontra? Claro que não encontra, se esperar mais um bocadinho que as coisas cheguem às lojas talvez encontre... Não?... E quando estiver a uma semana do Natal? O mais certo é andar a tomar calmantes para os nervos, se agora já anda desesperada...

Quando se chega a esta altura fica tudo um bocado parvinho com o Natal, não fica? Se calhar é por causa disso que eu, prái há uns três anos, já nem me dou ao trabalho de fazer árvore de Natal. É muito stress, muita pressão, e eu sou muito fraquinha para estas coisas...

* Já não são trezentos, mas toda a gente ainda as chama assim. É uma loja-maravilha com coisas porreiras, algumas baratas, outras nem tanto, que nos fazem falta para a casa mas que noutras lojas custam umas barbaridades de dinheiro e a gente quer coisas giras mas não somos ricas e aquelas ficam bem à mesma e às vezes até fazem o mesmo efeito, e que também tem coisas boas para oferecer às pessoas que merecem prenda mas que não justifica estar a gastar assim tanto dinheiro com elas, porque são muitas e depois não há orçamento que aguente, que nem é por não gostarmos delas, falo das pessoas, não das coisas, e que também tem coisas boas para comprar, porque são mesmo muito baratinhas, que é para quando a gente nos apetece simplesmente comprar, não importa o quê, podemos levar dali qualquer coisita que nem sequer gastamos muito e ficamos contentes e animadas para o resto do dia, enfim, toda a gente compreende, acho, que tipo de loja é que é. Pelo menos as mulheres devem ter percebido...

terça-feira, novembro 08, 2005

Olhóóó brooooche fresquiiiiinhoooo!!!!

A recém-chegada chefe gosta muito de broches. Não há casaquinho que não traga um, ao tom do tecido, em forma de rosa ou de outras flores menores, de libelinha ou outros insectos, com brilhantes de várias cores, com pendentes, uns pequeninos, outros mais avantajados, sem broche é que não pode ser, é como um jardim sem flores.

Há uma chefe maior que aquela, que também não dispensa o seu brochezito, porém mais discreta na escolha das formas, dos materiais e das cores, naquele caso o broche apenas retoca o figurino mas não vale por si mesmo, o peito que o carrega é que faz daquele um broche digno de tanto respeitinho.

E é assim que nascem as modas, meus amigos. Desde há uns dias para cá que é ver as sub-chefes e as chefes menores, as aspirantes a chefes, as secretárias das chefes, todas com o seu belo broche orgulhosamente exibido! E nas reuniões onde todas se juntam? Aí é que é mesmo lindo de se ver, tanto broche junto, florinhas, libelinhas, lacinhos, corderosinhas, amarelinhos, azulinhos…

Há uma desgraçada que olha em volta, e no meio de tanto broche reunido, vê-se a si mesma completamente nua, sem um único broche a que possa chamar seu. Está bem lixada. Aqui na brocholândia não tem qualquer futuro…

... Quanto a mim, até sou capaz de me safar no meio disto tudo. Há já muito tempo que sou adepta do broche. Mas não sei, é um broche mais artesanal, sem lantejoulas, tosco e sem brilho. Alguns nem têm forma definida. Não, tou lixada também. Não sou digna de andar a par com os broches que por aí andam...

domingo, novembro 06, 2005

Um padre improvável (II)

E de moldes que lá fui eu, ouvir o Padre Mário falar dos livros dele. Com os livros por ponto de partida, foi um bom exercício de abertura das consciências. Muita blasfémia. Aquele homem blasfema que se farta.

Diz que o pecado original é uma coisa parva que nunca existiu realmente, e que como o pecado original é uma aldrabice, Jesus Cristo também não veio ao mundo para redimir ninguém. Diz que a Igreja tal como está organizada, não tem nada a ver com o que Jesus ensinava. Falou dos padres que recomendam em média umas dez almas por missa, se fizermos as contas a 15 € por alma, fica o padre com o dia ganho, quanto às almas, que ganharão elas com isso. Falou do sistema de recolha de dinheiro que existe em Fátima, que suga as moedinhas, uma maravilha da técnica para bem da caridade, que separa imediatamente o dinheiro graúdo do miúdo, o coloca em sacos, ao fim do dia está tudo prontinho a depositar.

Achei muita piada, que a dada altura falou de como Jesus gostava de estar à mesa, sendo este o lugar que considerava mais privilegiado para a troca de ideias. Um pouco mais tarde na conversa falou dos seus tempos de seminarista, e de como na hora da refeição era imposto o silêncio, quebrado apenas pela leitura em alta voz de um qualquer texto bendito. Diz que esta Igreja já não presta, e que a única coisa que resta fazer é acabar com ela.

Falou muito de liberdade. Daquela que só é possível quando lemos, ouvimos, conversamos, e depois pensamos pela nossa própria cabeça, que esta última parte é que é muito difícil e pouca gente está para aí virada. Uma liberdade que olha para o sistema e denuncia o que está mal. Mesmo que incomode. Mesmo pagando por isso, que o sistema não gosta de quem o põe em causa. Nunca gostou, aliás. No fundo foi por isso que Jesus foi crucificado, por causa de incomodar o sistema.

O Padre Mário nunca foi excomungado, mas segundo a própria opinião, nunca o foi para que não recaiam ainda mais atenções sobre si. Em contrapartida, o Anuário da Igreja, onde constam os nomes de todos os padres de todas as dioceses do País, não o inclui a ele. Não tem Paróquia nem consta na lista, faz de conta que não existe. Pela calada, sem dar nas vistas que a inquisição já lá vai, o coice está dado. Diz que não se rala com isso. Fora da Igreja faz melhor o que considera ser a sua missão.

Fala de um Jesus Cristo que é desconhecido de muita gente, e desgraçadamente, é desconhecido de muitos católicos. Fala de se ter a fé de Jesus, ao invés de se ter fé em Jesus.

Comprei para mim O Outro Evangelho Segundo Jesus Cristo. Trata-se de uma “tradução actualizada e anotada” do Evangelho de Jesus segundo São Marcos, um dos quatro Evangelhos Canónicos, presumivelmente o mais antigo de todos, escrito apenas 12 a 14 anos depois da morte de Jesus. Palavras do autor, “Jesus, o de Nazaré, não tem praticamente nada a ver com Jesus, o do Império Romano de Constantino, nem com Jesus, o da Cristandade Ocidental que se lhe seguiu, nem com Jesus, o da Cúria Romana dos nossos dias, nem com Jesus, o das seitas pseudocristãs milagreiras (…)”. Fui-lhe pedir para me assinar o livro e eis o que escreveu: “E agora que vamos fazer com este Jesus? Vamos ser como ele?”.

Para já, vou continuando a ler coisas sobre ele, coisa que de facto venho fazendo há anos, pese embora sem qualquer tipo de fervor religioso. Digamos que é um interesse muito grande, que no entanto não é justo classificar de apenas académico. Se calhar, é um fascínio pelo mistério, a sensação de que há mais na história de Jesus para conhecer e compreender.

O Padre Mário diz coisas com muito sentido. Vale a pena conhecer o que ele tem a dizer, acho eu. Pareceu-me um gaijo cumadeveser.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Um padre improvável (I)

Amanhã conto passar algum tempo a ouvir este senhor a falar.

Vou comprar mais uns livros para a pilha, é o que é. Este Padre é autor de livros com nomes tão sugestivos quanto "Fátima Nunca Mais", "Fátimamente", "E Deus disse: do que eu gosto é de política, não de religião", "O Outro Evangelho sobre Jesus Cristo", e o meu título preferido, "E se com o Papa enterrarmos também esta Igreja Católica Romana?".

Ainda não o conheço, mas já gosto dele.

Nota que não tem nada a ver (ou então tem): Já comecei a ler "As Intermitências da Morte". Logo no primeiro capítulo diz-se uma coisa gira. "Sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há Igreja." E o meu comentário é: ora aí está.

quinta-feira, novembro 03, 2005

Está tudo bem

Eu é que ando cheia de trabalho e sem tempo, nem sequer para coçar os tomates, de moldes que é uma sorte não os ter, senão era outra coisa que ficava por fazer.

Até já.

sexta-feira, outubro 28, 2005

Máscaras

Todos nós as usamos. São assim uma espécie de lente de aumentar, servem para evidenciar alguma coisa que se queira mostrar bem, de tal forma que até pareça maior do que aquilo que é. É muito útil, porque ao mesmo tempo que exaltamos o que queremos mostrar, também nos protegemos, e até escondemos aquilo que temos de menos bom.

Há pessoas que andam sempre mascaradas. Pelo sim pelo não. E assim exibem orgulhosamente a máscara que as torna pessoas de grande virtude, a máscara que evidencia a sua grande inteligência, a máscara que faz delas uma grande simpatia, a máscara que dá provas da sua grande competência, a máscara que as dota de uma grande sensibilidade e de um amor ao próximo – e a Deus – muito, mas mesmo muito grande.

Às vezes caem as máscaras. Quando isso acontece é uma tristeza, porque quase sempre, caídas elas, vamos a ver quem está por trás e a única coisa que encontramos é…

… uma pessoa pequena.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Mudar

É sempre bom, nem que seja para pior. Acredito nisto, sinceramente.

Mas só por hoje, estou com dores de cabeça.

Greve de juizes

Confesso que não tenho uma opinião inteiramente formada. Que eles têm uma vida muito melhor que a minha, e que a ideia de juízes a fazerem greve me parece tão inusitada quanto as maçãs a caírem para cima, lá isso é verdade.

Por outro lado, os meus princípios de esquerda têm como lei fundamental que todos têm direito à greve, e quando se fala em abdicar disto, seja para que classe for, começo logo a torcer o nariz.

Mas tudo isto é teoria. Quem pelos vistos anda dentro do convento tem outras histórias para contar. Continuo com dúvidas, mas fiquei a pensar nisto.

terça-feira, outubro 25, 2005

Ressaca

Reconfortou-me hoje de manhã ler isto. Na minha modesta opinião, este rapaz é um grande talento, muito para além da história do homem do bolo, e que com tão tenra idade tem sabido muito bem evitar os deslumbramentos, deixar de lado o caminho mais fácil e construir uma carreira cumadeveser.

Há uns anos atrás, também eu pude experimentar a vertigem que provoca o medo antes do espectáculo. E depois, a sensação de se estar vivo que o palco nos provoca. Veste-se um personagem que nada tem a ver connosco. Não somos nós. Mas é o nosso modo de ser mais íntimo que está ali escancarado, para os outros verem, para nós próprios descobrirmos. É isto que faz a ressaca. Acho eu.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Como se isto interessasse a alguém...

... Passei a colocar aqui ao lado a indicação dos canhenhos que for lendo.

Obrigada à amiga xana por ter permitido o copy/paste, sem o qual esta fabulosa inovação bloggística não teria sido possível.

domingo, outubro 23, 2005

A casa é bizarra como eu

Primeiro foi a prateleira da estante. Tombou de um dos lados, quase sem barulho nenhum, fez assim um "ploft", como quem diz, "ai credo, que já me custa tanto a aguentar este peso em cima". Tombou mas segurou estoicamente os livros em cima, o que foi positivo.

Ao fim de dois dias tombou outra. Grande espalhafato, livros pelo meio do chão, mas eu já tinha comprado coisas para substituir as outras coisas que se tinham partido e que servem para segurar as prateleiras nas estantes. Endireitei as prateleiras, pus os livros em cima outra vez.

Depois foram os estores da marquise. Cordão que serve para abrir e fechar, partido. Ou seja, ainda tenho que mudar esta porra toda antes de vender a casa.

Há bocado, e isto é que é muito estranho, dei com a mesma primeira prateleira outra vez tombada exactamente da mesma forma, com a coisa nova que eu lhe tinha posto, também ela partida. O interruptor da cozinha ameaça avariar-se a qualquer momento.

Não há dúvidas. A minha vontade de mudar de casa está a começar a transferir-se para os materiais que me rodeiam. A casa já sabe que eu desisti dela. Quer-me cá parecer que agora é ela que está a desistir de mim...

Agora já só rezo para que não se estrague nada de realmente sério e dispendioso de consertar, tipo, a canalização, ou a máquina de lavar...

sábado, outubro 22, 2005

Será bom sinal?...

Desde há uns meses para cá, têm sido vários os mediadores imobiliários que me entram pela casa adentro.

Hoje entrou cá um que foi direito à estante repleta com a obra (quase) completa do Saramago e confessou-se também ele um admirador do nosso Nobel. Apontou os livros de que gosta mais, e confessou aqueles que não consegue ler nem entender. Ficámos ali um bocado, a falar dos livros.

Não sei se tem jeito ou não para vender casas, mas os gostos litérários do senhor já me deixaram com uma certa sensação de bom augúrio...

sexta-feira, outubro 21, 2005

Todos os homens são maricas quando estão com gripe

É mais uma letra daquele álbum do Vitorino, com letras de António Lobo Antunes.

Inspirada pelas notícias da gripe das aves e por alguns casos da vida comum, aqui fica mais esta pérola:

"Pachos na testa
Terço na mão
Uma botija
Chá de limão
Zaragotoas
Vinho com mel
3 aspirinas
Creme na pele

Dói-me a garganta
Chamo a mulher
Ai Lurdes, Lurdes
Que vou morrer
Mede-me a febre
Olha-me a goela
Cala os miúdos
Fecha a janela

Não quero canja
Nem a salada
Ai Lurdes, Lurdes
Não vales nada
Se tu sonhasses
Como me sinto
Já vejo a morte
Nunca te minto

Já vejo o inferno
Chamas diabos
Anjos estranhos
Cornos e rabos
Vejo os demónios
Nas suas danças
Tigres sem litras
Bodes de tranças

Choros de coruja
Risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes
Que foi aquilo
Não é chuva
No meu postigo
Ai Lurdes, Lurdes
Fica comigo

Não é o vento
A cirandar
Nem são as vozes
Que vêm do mar
Não é o pingo
De uma torneira
Põe-me a santinha
À cabeceira

Compõe-me a colcha
Fala ao prior
Pousa o Jesus
No cobertor
Chama o doutor
Passa a chamada
Ai Lurdes, Lurdes
Nem dás por nada

Faz-me tisanas
E pão de ló
Não te levantes
Que fico só
Aqui sozinho
A apodrecer
Ai Lurdes, Lurdes
Que vou morrer"

quarta-feira, outubro 19, 2005

Beijos e orgasmos

Edvard Munch, nascido na Noruega em Dezembro de 1863. Gustav Klimt, nascido na Áustria em Julho de 1862. São os respectivos autores das obras que aparecem abaixo, sob o mesmo nome:

The Kiss, 1897 The Kiss, 1907-1908

É curioso, não é? Mas não é o único exemplo, que me leva a concluir que Klimt se inspirava bastante no Expressionismo de Munch:

Madonna, 1894-5 Danae, 1907-8

Segundo as descrições, ambos os artistas encontraram estas diferentes formas para expressar o orgasmo feminino.

Muito bom. Refiro-me ao trabalho de Munch e de Klimt, não ao orgasmo feminino, hein?... Para constatar o óbvio não é preciso vir para aqui postar...

quinta-feira, outubro 13, 2005

Livrai-nos do mal

A cidade onde sempre vivi tem 30.000 habitantes*. Ora, num sítio onde vive tanta gente a coisa mais natural deste mundo é que, com regularidade, morra mais do que uma pessoa no mesmo dia, e portanto, dois ou mais núcleos familiares se juntem na casa mortuária numa mesma noite, para passar aquelas horas que são muito dolorosas e que ninguém deseja, mas que todos nós já tivemos que enfrentar, seja por conta da morte de um parente próximo, ou simplesmente para mostrar solidariedade junto dos nossos amigos.

Ora, aqui nesta cidade a casa mortuária há anos que não corresponde às necessidades. Um espaço exíguo, a cair de velho, de difícil acesso, que não oferece as mínimas condições, nem sequer de dignidade para com o morto, quanto mais para com os vivos, que naquela hora já têm bem a sua conta.

Recentemente, foi inaugurada nesta mesma cidade uma mega igreja que do meu ponto de vista é a coisa mais inútil que pode haver. Um elefante branco que é o catolicismo no exercício pleno da sua megalomania, instalado num terreno enorme que estava mesmo bem situado para a construção de um centro cultural, por exemplo, coisa que esta cidade também não tem, e que nos fazia muito mais falta.

Adiante. Inútil para mim, a não ser justamente no que respeita à casa mortuária, que pelos vistos existe nesta nova igreja, finalmente com o número de salas e espaços adequados à dimensão da cidade onde está instalada.

Tudo muito bonito, não fosse a dita igreja estar mesmo ao lado de uma escola do primeiro ciclo. Então não é que os pais desta escola desde o início se insurgiram contra a presença da casa mortuária ao lado da escola, e não querem que os filhos estejam “paredes meias” com o ir e vir de carros funerários, pessoas a chorar e vestidas de negro, enfim, receiam que as crianças fiquem traumatizadas!...

A casa mortuária está fechada por conta deste grupo de pessoas, e a cidade continua a recorrer ao tal espaço que há mais de 10 anos não tem condições para servir a população.

Eu peço imensa desculpa. Não sou mãe e já sei que quem tem filhos sente as coisas doutra maneira e tal, e que se eu tivesse um filho também não gostava e coiso. Mas digam-me lá uma coisa: a morte não faz parte da vida? Traumatizados porquê? Então não compete aos pais, educadores e professores, explicar aos meninos o que é a morte e que o que é que ela implica? Não se querem dar a esse trabalho? Quer-me cá parecer que estes miúdos até podiam ter ali alguma vantagem em relação a outros, que com o poder de encaixe que eles têm rapidamente compreenderiam o que se estava ali a passar, e seguiam em frente. Estarei enganada?...

Mas que raio de maneira de educar é esta que parte do princípio que as crianças têm que crescer cristalizadas numa bolha cor-de-rosa com cheiro a morango, onde tudo são sorrisos, facilidades, roupinhas Bennetton e chocolates Kinder? A vida não é assim. A vida cheira mal, é perigosa, está cheia de gente má, traz consigo muitos problemas e desgostos, e por causa disso, muitas vezes a vida faz-nos chorar e sentirmo-nos infelizes. E todos os dias há gente que morre. Se as crianças não são preparadas para isto tudo, em que espécie de pessoas é que se irão tornar?

Já para não falar que estão 30.000 habitantes a serem prejudicados por conta do egoísmo dos pais de 300 alunos.

Não se fique com a ideia que, para mim, os miúdos serem criados ao pontapé é que é bom. Não é nada disso. É claro para mim que a protecção está na essência de se criar um filho. Mas parece-me que hoje em dia, em resultado de (felizmente) muitas famílias poderem dispor de melhores condições de vida, há a tentação de super-hiper-proteger, dar tudo já que se pode dar tudo, e como sempre acontece, o excesso nunca é benéfico.

Resta saber se muitas vezes a hiper-protecção não serve também para descarregar as consciências, uma qualquer forma de compensação sobre outras coisas que não se dão, seja porque não se tem para dar, seja porque não há tempo para dar. Os tais afectos, a tal educação, a tal formação… Mas isto dava pano para muito mais e eu hoje até já me alonguei...

Eu estou mesmo só revoltada porque a casa mortuária devia funcionar, raios!!

* Nota da energúmena que escreve estas balelas: a minha triste cabeça loira não escorreu o suficiente para reparar que 123.000 habitantes era capaz de ser um grandessíssimo exagero, justificado apenas pelo facto de eu estar a olhar para o número de habitantes do Concelho, e não da freguesia em questão. De moldes que o número correcto é aquele que agora está ali em cima, com as minhas sinceras desculpas à meia-dúzia de pessoas estranhas que se dá ao trabalho de vir aqui ler estas coisas.

terça-feira, outubro 11, 2005

Uma desgraça nunca vem só

Se houvesse justiça no mundo, uma mulher constipada jamais estaria, ao mesmo tempo, menstruada!

... Mas este mundo não é justo.

sexta-feira, outubro 07, 2005

BEMVINDO SR. PRESIDENTE

"Soubera eu que o senhor vinha
e com certeza não me tinha
apanhado na cozinha

ovos mexidos com salsichas
batata frita de pacote
e o que sobrou de um happy-meal
três embalagens de ketchup

Soubera eu que no rastreio
eu tinha sido o escolhido
um caso típico do meio

teria pedido ao serviço
que à parte de me ter dispensado
que atribuísse qualquer verba
p`ra eu tratar do convidado

Não é casa que se mostre
não é casa que se mostre
a um visitante tão ilustre

Mas
Benvindo Sr. Presidente
do Consenso Capicua
sente sente
Vá! Aqui no sofá
a casa é sua!
um café? Cerveja já não há
a casa é sua!
vou buscar a vassoura e a pá
a casa é sua!
e um banco corrido para estes senhores
Como é que se chamam?
Ah! Assessores…

Soubera eu do seu programa
e teria pelo menos
recolhido o sofá-cama

foi lá que ressonei pesado
sonhei vinganças de ex-marido
e nem senti que a mãe e o puto
p`la manhã tinham fugido

mas isso agora não interessa
mas isso agora não interessa
fotos, poses, peça, peça

Mas
Benvindo Sr. Presidente
do Consenso Capicua
sente sente

Vá! Aqui no sofá
a casa é sua!
um café? Cerveja já não há
a casa é sua!
vou buscar a vassoura e a pá
a casa é sua!
e um banco corrido para estes senhores
Como é que se chamam?

Ah! Assessores…

Soubera eu desta visita
e não me tinha agora aqui
a queixar-me da desdita
do futuro um parasita
eu que quis vida bonita

a sua agenda é apertada
e a sua vida correria
posso já ficar sózinho
ou quer ainda que sorria?

o certo é que o senhor merece
o certo é que o senhor merece
esquecer o que me acontece

Benvindo Sr. Presidente
do Consenso Capicua
sente sente
Vá! Aqui no sofá
a casa é sua!
um café? Cerveja já não há
a casa é sua!
vou buscar a vassoura e a pá
a casa é sua!
e um banco corrido para estes senhores
Como é que se chamam?
Ah! Assessores…
"

Sérgio Godinho, in "Lupa", 2000
Vamos lá então votar...

quinta-feira, outubro 06, 2005

- Dói-me tudo!...

... E tenho isto tudo apanhado. Ai, ai, ai, estou a sofrer tanto, eu nem devia estar aqui!...

- Realmente, o senhor está com um ar muito doente. Devia estar era em casa, metido na cama... Não é melhor sentar-se?...

- Não, não, menina, que eu só consigo estar de pé, nem sentado me aguento, veja bem a minha desgraça! Estou de baixa, não consigo trabalhar... Até a respirar me dói, estou todo esfolado... (tosse, tosse, mostra as feridas), AI!, AI!, ai, ai, ai...

- Então, mas, mas... O que é se passa consigo? Caiu dumas escadas abaixo,teve um acidente em serviço, está tuberculoso, tem um cancro em fase terminal, é o quê?...

- Nada disso. Estive nas esperas de toiros e fui colhido. Ai, ai, ai, coitado de mim, que podia ter morrido, sou um desgraçado, ai que dores, ai, ai...