domingo, abril 08, 2007

Informática, essa grande desconhecida...

Alguém me poderá explicar porque carga d'água é que o Microsoft Outlook agora só recebe mensagens, e não envia nenhuma?

Qualquer que seja o endereço de e-mail para onde eu tente enviar algo, um gajo que eu não conheço de lado nenhum, chamado Administrador do Sistema, manda-me à merda com esta conversa:

"A sua mensagem não chegou a um ou mais destinatários.
Assunto: Teste
Enviada: 08-04-2007 23:27

Não foi possível contactar os seguintes destinatários:
'blimunda_setluas@mail.pt' em 08-04-2007 23:27
554 5.7.1 : Recipient address rejected: Access denied"


Juro que não fiz nada para merecer isto. E o que é estranho é que recebe tudo na perfeição. Será viroseira?... Raios partam os computadores, ainda dizem que as mulheres é que são inconstantes...

sábado, abril 07, 2007

Ontem

Dormir até às onze.
Passear em Cascais e apanhar sol à beira-mal.
Gelado Santini de morango e marabunda.
Sexo.
Cinema.

Tenho que concordar com a comunidade religiosa. Ontem foi mesmo Sexta-Feira santa!...

quinta-feira, março 29, 2007

"I only ask of God"

Gosto de música. Mas as palavras... São elas, quase sempre, as que realmente me comovem. Como desta vez:

Sólo le pido a Dios
León Gieco

"Sólo le pido a Dios
que el dolor no me sea indiferente,
que la reseca muerte no me encuentre
vacío y solo sin haber hecho lo suficiente.

Sólo le pido a Dios
que lo injusto no me sea indiferente,
que no me abofeteen la otra mejilla
después que una garra me arañó esta suerte.

Sólo le pido a Dios
que la guerra no me sea indiferente,
es un monstruo grande y pisa fuerte
toda la pobre inocencia de la gente.

Sólo le pido a Dios
que el engaño no me sea indiferente
si un traidor puede más que unos cuantos,
que esos cuantos no lo olviden fácilmente.

Sólo le pido a Dios
que el futuro no me sea indiferente,
desahuciado está el que tiene que marchar
a vivir una cultura diferente."

A canção veio da Argentina, de 1978. Mas está viva. Na música dos Outlandish, mas também neste mundo civilizado, democrático(?), desenvolvido, e porém tão desnorteado, em que vivemos. Descubro-a viva dentro de mim própria, nos acontecimentos que ditam o meu dia-a-dia.

Para o bem e para o mal. Está viva.

terça-feira, março 27, 2007

A minha primeira aventura homeopática

(Depois de passar mais uma série de dias sem acesso à internet, porque a Memória RAM estava a precisar que um especialista em informática passasse cá por casa, a tirasse do sítio, lhe desse uma assopradela, lhe tirasse o pó com um pano macio, e a voltasse a colocar no local respectivo, aqui estou eu uma vez mais.)

Fui ao homeopata. A Albicans sossegou mas não morreu, e vai daí resolvi combater o meu cepticismo com uma resolução que não tem contra-argumentação possível: eu hei-de fazer tudo, mas tudo o que esteja ao meu alcance, para combater esta doença que me assaltou. Porque melhorar não é o mesmo que ficar boa, e melhorar à base de medicamentos que só fazem "festas ao bicho", exigia que eu fosse pelo menos ver o que estava para lá da medicina tradicional.

E lá fui eu. O doutor foi bem recomendado, professor catedrático e não sei quê. Uma coisa vi eu logo quando lá cheguei: com uma sala de espera tão repleta, desde crianças a velhinhos de bengala, é estatisticamente improvável que tanta gente ande ao engano. Com o meu cepticismo a gritar-me aos ouvidos: "É um charlatão! Vais sair daqui sem um tostãozinho para amostra!", sentei-me e esperei, que as decisões, quando se tomam, são para levar adiante. E esperei. E esperei mais um bocadinho, e continuei a esperar, que pelos vistos aquilo é mesmo assim que funciona.

E lá entrei para falar com o senhor. Expus-lhe o problema Albicans, e da parte dele só ouvi coisas razoáveis, o que me agradou. Propôs-se a reforçar o meu sistema imunitário, mantendo todos os tratamentos que a medicina tradicional me tinha prescrito. "Cada coisa no seu lugar, disse ele". Lembrou que a Candida Albicans não é como uma bactéria estranha ao nosso corpo, que se combate e expulsa, e o problema fica resolvido. A Albicans vive dentro de nós, e a única coisa que se pode fazer é dar ao nosso corpo as ferramentas que e ele precisa para não a deixar andar desgovernada. Que a bicha aprende a criar resistência e depois é uma chatice, quanto mais é agredida, mais ela se revolta. E até aqui tudo bem.

A seguir, manda-me ir para um aparelhómetro, e faz o quê? Observa-me o olho! O olho! E passando desde já à frente de algum pensamento mais brejeiro da parte de quem esteja a ler estas linhas, era um aparelho em tudo semelhante aos que existem nos consultórios de oftalmologia, ok? Fiquei depois a saber que a Iridologia (observação da íris) é uma prática dos médicos homeopatas, porque dizem eles, é possível ver na íris os males do corpo da pessoa. (Estou a escrever isto e ao mesmo tempo o meu cepticismo aperta-me o pescoço, abana-me e dá-me caroladas na cabeça, tudo ao mesmo tempo).

E pronto. Deixei lá ficar quase 200 euros. O doutor mandou-me voltar ao fim de um mês de tratamento para, palavras da funcionária da entrada, "me dar um olhinho". Já a tinha ouvido a utilizar a expressão enquanto esperava pela minha vez, só depois percebi que aquilo tinha um sentido literal!

Já comecei o tratamento. Não fiz alergia até agora, do mal o menos. Quanto aos resultados, vamos lá a ver. Peço desculpa a quem possa estar com vontade de saber o que é que eu ando a tomar, mas acho que não devo dizer. Ainda não sei que efeitos práticos vai ter, não conheço assim tão bem este tipo de medicamentos, e não quero pensar que alguém vá à procura destas coisas, mal informada e na base do desespero. Quando muito, se alguém quiser saber o nome do homeopata, estou à disposição.

Para já, e cepticismos à parte, estou de peito aberto nesta forma alternativa de levar a Albicans ao engano. Quem sabe?...

domingo, março 18, 2007

Cada poeta tem a sua ninfa

No final do fim-de-semana, juntámo-nos as três, como tantas vezes acontece. Eu, a irmã e a sobrinha, à mesa do café depois do jantar. Fascinadas com Ninfa Artémis*, que a letra passou a servir de teaser no meio das conversas (Gatoooooooooo!... Comoqueresqueeusejagatooooooo!... Vou pintarospelospubicooooooooosss!...), do que é que se haveria de falar? De literatura, pois claro.

Do "Memorial do Convento", que a jovem de 17 anos anda a ler com grande sacrifício, mas que não desiste. Dos poemas de Saramago, que ela não conhece. De Fernando Pessoa, que continua a fascinar mais velhos e mais novos. Do Cântico Negro, de José Régio, que eu recito de cor desde que tinha a idade dela, e que ela já recita de cor com a mesma idade que eu tinha. E então recitou-se o poema de novo, as palavras tão belas e sempre tão vivas, que se saboreiam como a um bom vinho (Vem por aqui, dizem-me alguns com olhos doces, Estendendo-me os braços e seguros, De que seria bom que eu os ouvisse, Quando me dizem: "vem por aqui" - e não é que a catraia tinha razão, é "que eu os ouvisse", e não "que eu os seguisse", como eu dizia... Bolas!...).

De novo Ninfa Artémis, mais Fernando Pessoa, Come Restos (pelos vistos outra grande obra poética que para mim permanece desconhecida), sim, que no fundo tudo é arte, e depois cada um que decida qual a arte que é boa ou má.

Na mesa ao lado, entre dois elementos do sexo masculino, a conversa era outra. Já nós estávamos para sair, um deles pega numa nota, cheira-a e diz alto e bom som: "Ai que horror, esta nota cheira a corrimento! Estas mulheres são umas porcas, misturam as notas com os pensos higiénicos!...". Olhámos umas para as outras e saímos rapidamente, para rir à vontade. E para "cantar", que de repente o teaser fazia todo o sentido: "Gatooooooooooo!..."

* Quem não teve contacto com o Laboratolarilolela, de Nuno Markl, da passada Sexta-Feira, não vai perceber nada desta conversa.

quarta-feira, março 14, 2007

De regresso

E pronto, foi hoje que voltei a ter internet em casa. Depois de estar aqui um tempo a marrar com o Blogger, que pelos vistos estava com um qualquer problema técnico demoninado "anhar", lá consegui entrar nesta porra.

Estou contentinha. Novamente ligada ao mundo, retomando contactos com amigos cibernautas, espero agora retomar o ritmo habitual na actualização desta choça. Para breve, a minha primeira aventura homeopática!...

quarta-feira, março 07, 2007

Caminhos de ferro, cabeças de abóbora

E venho eu desembestada a correr pela estação dos comboios afora, ainda por cima decidi calçar as botas mais pesadas que tenho, e para chegar ao raio da linha é preciso galgar umas escadas que nunca mais acabam, primeiro a subir e depois a descer, e a menina já vai dizendo "atenção, senhores passageiros, o comboio que você precisa de apanhar já está a chegar à linha número 3 e você ainda nem chegou à máquina de tirar os bilhetes, o próximo comboio chegará depois de você apanhar mais meia-hora de seca. Obrigada pela vossa atenção".

Caguei para o bilhete e corri, corri, e apanhei o comboio. Uff, uff, revisor à vista, aqui vou eu com o meu sorriso número 52, exclusivo para quando quero ser agradável e conquistar a simpatia dos revisores da CP. Senhor revisor muito bom dia, uff, uff, eu queria comprar um bilhete, uff, se faz favor, uff, uff, porque não tive tempo de comprar o bilhete...

E diz-me o revisor da CP, com uma cara de "sou um bom profissional e nem sequer estou a ligar nenhuma a essas duas copas B tamanho 36 que estão a subir e a descer a ritmo acelerado mesmo à frente do meu nariz", minha senhora, da maneira como estão as multas hoje em dia, mais vale esperar meia-hora pelo próximo comboio. Arrisca-se a pagar uma multa que pode chegar a 360 euros.

E digo eu, mas, mas, mas, repare, eu não tive tempo... e vim logo ter consigo, eu até quero pagar o bilhete, está a ver? Então mas não posso tirar o bilhete no comboio porquê? E diz ele, pois, realmente, nós hoje em dia só podemos vender bilhetes a deficientes e no caso das máquinas nas estações estarem avariadas.

Deixe-me ver se percebi bem, disse eu. Eu estou aqui na sua frente, honestamente dizendo que vim a correr para o comboio e não consegui tirar o bilhete, e nesse caso tenho que pagar multa. Se lhe mentir e disser que a máquina estava avariada, já me pode vender o bilhete? E diz ele, pois, quer-se dizer, eu teria sempre que comunicar para a "central" (seja lá onde isso for) e confirmar se realmente há ou não avaria, eles também nem sempre conseguem confirmar logo de seguida, e se a senhora chegar ao seu destino sem eu ter a confirmação também não a ia prender no comboio, não é?

Ah, pois é. De moldes que tendo em conta a minha honestidade (e quem sabe, o peitinho a arfar), o senhor revisor da CP foi amigo e deixou-me viajar de borla. E fiquei a saber que para os cérebros desta grande empresa, mais vale um utente mentiroso que um utente sincero. Para a próxima mais vale não arriscar...

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Impedimentos

Por causa dumas políticas pseudo-moralizadoras e ilusoriamente restritivas de algum pessoal mais abusador, os meus colegas informáticos, que com toda a certeza passam 100% do seu horário de expediente recorrendo à internet para fins exclusivamente profissionais (e se não o fizerem também nunca ninguém vai saber porque eles, para além de donos da moral e dos bons costumes, são os administradores do sistema), deixei esta semana de ter acesso às caixas de comentários do blogger e à minha própria conta. O que não me permite comentar, nem actualizar esta chafarica no trabalho.

Por causa disso, e porque os meus dias continuam a um ritmo alucinante (nova entrevista para mudar de emprego, marcação de nova consulta para a mãe, muito trabalho - sim, que eu entre uns comentários em blogs e umas novas postagens sempre vou fazendo alguma coisinha -, imobiliárias para angariar a venda da minha casa e já lá vão quase dois anos, amigos a precisarem da minha atenção e eu a precisar da atenção deles), não tem dado para deixar novos posts.

É a ironia do cibernauta, não posta porque não tem assunto, e outras vezes não posta porque os assuntos são tantos que não sobra tempo para escrever. Vou oferecer-me de prenda de anos a instalação da netcabo, e a partir daí volto a estar ligada ao mundo a partir de casa.

Pois, porque amanhã também acontecem muitas coisas. Uma delas é ir com a minha mãe para o hospital, a ver se é desta que ela é consultada. Outra é celebrar o aniversário número 35!...

sábado, fevereiro 17, 2007

Suor, muito suor


Enquanto se está no meio duma aula de ginástica, com o suor a escorrer pela cara abaixo e pelo corpo todo, parando o dito apenas onde a imaginação de qualquer um queira conceber, com o cérebro aos gritos a dizer de forma alternada "já cheeeeeeeega!" e "áaaaaaaaguaaaaaaaaa!", passam-nos coisas muito estranhas pela cabeça.




Ontem, quando a monitora deu a ordem "virar de barriga para cima, e abdominais!", eu dei comigo a conceber este pensamento: "eh pá, finalmente um bocadinho para poder descansar e recuperar algum fôlego". E depois pensei, isto está a dar cabo de mim. Então eu já assumo com descanso estar de barriga para cima a fazer abdominais à maluca?... Em que monstro da actividade física está esta mulher a tornar-me?

E as dores? Estou aqui que nem me aguento... E o bem que aquilo me faz? Maravilha!...

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Acontecimentos, demasiados

"Entre os dias que correm menos mal
Lá vem um que nos dá mais que fazer"

É assim que eu me sinto em relação ao dia de ontem. Tantos dias às vezes que se arrastam uns atrás dos outros, e depois quando algo de significativo tem que suceder, bumba!, vem tudo ao mesmo tempo.

A minha mãe bastante doente, e o desespero para lhe arranjar a assistência médica apropriada.
A minha própria saúde, uma preocupação constante e a requerer muito do meu tempo.
A vida profissional em fase determinante, com contactos e mais contactos, e a necessidade de estar atenta, assertiva, bem disposta, calma.

Tudo isto levou a que ontem eu tivesse uma óptima conversa com um superior hierárquico, uma colposcopia na Maternidade Alfredo da Costa, mais outra conversa, desta vez péssima, com outro superior hierárquico, e no meio de tudo isto, procurar consulta para a mãe, tentar com todos os meios ao nosso alcance que ela seja atendida o mais depressa possível, tentar que a conversa péssima não se sobreponha à conversa óptima... Só sei que no fim do dia a minha cabeça doía e tudo o que me apetecia era colo.

Abençoados anti-depressivos. Não fossem eles, e tenho a certeza absoluta que ontem o meu dia tinha sido um desastre. E abençoados sejam os anjos da guarda, a irmã anjo-da-guarda e eterna companheira de angústias (e alegrias!), os amigos anjos-da-guarda que andam a trabalhar na sombra só porque querem o meu bem, o companheiro anjo-da-guarda que permanece ao meu lado apesar de todos os problemas que andamos a enfrentar há tanto tempo.

Hoje é outro dia. Existir é isto.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Sou contra

Esta coisa nova do Blogger. Isto era para quê? Simplificar, não era?...

Depois de me mudarem para isto compulsivamente, nunca mais consegui deixar comentários noutros blogs, porque esta porra está sempre a pedir-me para validar o e-mail, ou lá o que é. Nem sequer no meu próprio blog! Tenho que entrar no blogger e só depois é que fico "reconhecível". Mas que treta!...

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Será que sou assísmica?...

Como é que isto pode ser? Pessoas sentadas a um metro de mim, disseram de repente: "Sentiram isto? A minha secretária abanou!". E eu, nada. Nadinha. Passou-me completamente ao lado, não senti nada, mais outro tremor de terra, tudo a dizer que sim senhor, que a terra tremeu, e eu aqui estou, sem saber o que isso é.

Que eu não queria assim um tremor de terra de deitar prédios abaixo, nada disso, mas caramba, gostava de perceber como é esta sensação de ter o chão a tremer debaixo dos pés. Mas eu devo sofrer de uma patologia qualquer. Não há pessoas que não sentem dor? Eu devo ter uma insensibilidade congénita aos sismos. Sou assísmica, só pode ser. E parecendo que não, isto pode explicar muita coisa...

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Cada tiro cada melro, cada cavadela cada minhoca

Você é “Against All Odds” de Phil Collins: você tem uma grande dificuldade em deixar o passado ficar no passado. As relações deixam-lhe marcas para a vida e um coração partido é mal que lhe demora a sarar.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Vivam os anti-depressivos!

Na Segunda-Feira passada cheguei ao pé do meu médico num estado de tal maneira miserável, que ao fim de cinco segundos ele já estava a passar a receita dos comprimidinhos que fazem rir os elefantes. "A pílula da felicidade", foi o que ele lhe chamou. E sim, infelizmente a depressão é mais outro efeito colatoral do problema que já chateia tanto que já nem me apetece pronunciar-lhe o nome. É isso mesmo, olha, vou dar um nome à puta da minha candidíase. Vai passar a chamar-se Voldemort, ou aquela cujo nome não pode ser pronunciado.

Que isto só me faz lembrar aquela anedota do médico que atende um doente com diarreia, e que por engano lhe passa calmantes. Mais tarde quando o encontra e lhe pergunta se está melhor, o doente responde: "muito melhor, senhor doutor. Eu continuo a borrar-me todo, mas agora já não me ralo".

Mas não é que a coisa funciona? Desde Segunda-Feira para cá que já consigo dormir sem pesadelos estúpidos, não ando a chorar por tudo e por nada, tenho as ideias mais claras, e isto é que eu acho fantástico, recebi ontem a convocatória para uma entrevista de emprego, e hoje tive uma conversa com um amigo que pode ter sido uma ajuda preciosa para definir o meu futuro profissional. Ah! E pagaram-me o almoço num restaurante fino dois dias seguidos!

É o que diz a minha irmã. À conta dos anti-depressivos ainda vendo a casa já esta semana!...

terça-feira, janeiro 30, 2007

Prós e prós

Gostei do "Prós e Contras" ontem. Pelo menos até à uma da manhã (hei!), que a seguir já não estava a dar mais. E no meio de tanto argumento demagógico a favor do não, foi bom ver mais outro cair por terra (e não foi só este). Falo daquela ideia da liberalização versus penalização, e de que não existirá, depois da vitória do SIM, quaisquer acções de esclarecimento dirigidas às mulheres que pretendam interromper a gravidez.

Eu também não conhecia a proposta de lei, mas realmente, não há nada como a gente ler e pensar pela nossa cabeça.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Desabafos sobre a IVG

Quando comecei a visitar blogs, este foi um dos que me prenderam a atenção de imediato. Infelizmente chegou ao fim, era muitíssimo bem escrito e mostrava a visão do ser humano que muitas vezes os médicos deixam escondida.

Neste sítio encontram-se duas histórias que, do meu ponto de vista, acabam por completar-se. Ora vejam:

Ela não quer saber
"Tem 21 anos. Está internada no serviço de Puérperas porque nasceu o seu segundo filho. Sabe o que quer, queria ter estes dois filhos, foi tudo planeado. Não foi a uma única consulta com a Médica de Familia ou com um Ginecologista. A gravidez não foi vigiada, não tendo feito qualquer análise ou ecografia ao longo da gravidez. A meio do período gestacional foi internada por ameaça de parto pré-termo, abandonando em seguida o hospital contra as recomendações dos médicos. Alguns meses depois nasceu o bebé, prematuramente. Quando questionada sobre anticoncepção diz que vai tomar a pílula. Pela evidente irresponsabilidade que apresenta sugerimos que colocasse um implante subcutâneo, que a impedirá de engravidar durante 3 anos. Recusa, diz que é muito nova. Basicamente, é daquelas pessoas que "não quer saber". Não quer saber a opinião dos médicos, não quer saber se a gravidez é normal, não quer saber se o bebé está bem ou não, não quer saber se o bebé fica bem ou não. Não quer saber, pura e simplesmente. Sabe o que quer, de momento quer sair novamente do hospital, apesar de ser ainda cedo.Voluntários para dar dois pares de estalos? Eu não posso..."

Permito-me deixar só uma deixa, a discussão fica em aberto, obviamente: A esta mulher, não há Lei nenhuma que a leve a um tribunal ou que a condene. O corpo é dela, a decisão é dela, pode ser negligente à vontade nas suas gestações, e eu pergunto-me, que direito à vida é este, e porque é que também não hão-de haver formas legais para impedir estas atitudes?

E depois, a outra face da moeda:

Já fez abortos?
"Esta pergunta não é feita todos os dias... Não é, também, feita por todas as pessoas. No entanto, os médicos precisam muitas vezes de saber se uma determinada mulher já fez interrupções voluntárias da gravidez (IVG), pelo que é uma pergunta frequente no consultório de um Médico de Família. As respostas, essas, ficam lá dentro. Antes de ser estudante de medicina, não sei se por ser muito novo e inocente ou por contactar pouco com estas realidades, não fazia ideia se eram muitas ou poucas as mulheres que abortam. Devo dizer que fiquei surpreendido com o que encontrei: uma enorme percentagem das mulheres acima dos 25 anos já fez uma IVG. Arrisco afirmar que provavelmente mais de metade das mulheres já o fez... Este número não decorre de nenhum estudo estatístico (se os há), mas apenas do que me apercebo no dia a dia da prática clínica.Antes de chamar a Ana, uma mulher de 42 anos, a minha tutora deu uma vista de olhos no processo. Rapidamente recordámos a história: tinha estado na consulta há cerca de três semanas, grávida. Tinha entrado descontraidamente no consultório com um teste rápido positivo. Na altura pedimos análises laboratoriais e uma ecografia obstétrica. Assim que saiu do consultória a minha tutora afirmou categoricamente: "Vai fazer um aborto.". Era já mãe de dois rapazes, e não tinha planeado engravidar. Não usava qualquer método anticoncepcional apesar da insistência da minha tutora na consulta de planeamento familiar.A minha tutora disse-me "Queres ver como fez um aborto?" e chamou a Ana. Entrou no gabinete com o mesmo ar descontraido da outra vez. Sentou-se, e disse: "Tenho uma coisa que se calhar era melhor falar só com a doutora...". A minha tutora respondeu-lhe que eu já sabia o que era, podia contar à vontade... Confirmava-se: tinha tentado abortar. Foi ao Ginecologista/Obstetra em consulta particular fazer a ecografia obstétrica que tinhamos pedido na consulta anterior, onde confirmou a presença de um saco gestacional. Nada contou ao Ginecologista da sua intenção, e comprou os já famosos comprimidos abortivos (aqueles que servem para as patologias do estômago). Desconheço como obteve acesso aos comprimidos (mas reconheço que não deve ser nada compicado, com mais ou menos dinheiro...), mas ingeriu-os na quantidade que lhe foi recomendada pela vizinha. Pouco tempo depois teve uma pequena hemorragia. Explicou: "Da última vez tinha feito no bidé, e vi sair qualquer coisa. Desta vez não tive coragem, e fui para a sanita...". Não me surpreendi com a recorrência da situação, uma vez que as pessoas facilmente se habituam a utilizar o aborto como "método anticoncepcional"... Já não tinha tido mais perdas de sangue, dores ou corrimentos desde então, e vinha agora pedir as análises laboratoriais que confirmariam o sucesso do aborto. Observei-a, e facilmente senti o fundo uterino. Das duas uma: ou tinha um útero grande ou ainda estava grávida. Não tinhamos o relatório da ecografia obstétrica para tentar avaliar a existência de miomas, uma vez que ela tinha queimado o relatório na lareira para apagar os registos daquela gravidez. Qualquer que fosse a situação, uma certeza eu tinha: aquela gravidez não iria seguir por muito mais tempo... Passámos nova ecografia, desta vez "mascarada" de ecografia pélvica. Pensando alto afirmou que teria que ir a outro Ginecologista, não queria contar ao primeiro o que tinha sucedido. Afirmou ainda que se houvesse algum problema iria às Urgências do Hospital fazer uma "raspagem", mas naturalmente não iria contar a verdade. Expliquei-lhe que tal como nós naquele consultório, também os médicos da Urgência não são polícias. Não nos compete, como médicos, julga-la. Mas é importante que tenhamos em mão toda a informação possível para a tratar convenientemente. Lembrou a mediática história do enfermeiro que denunciou às autoridades uma doente que tinha abortado. Relembrámo-la que o enfermeiro em causa tinha sido penalizado por quebrar o sigilo profissional a que estava obrigado, e que as queixas tinham por isso sido retiradas. Encolheu os ombros, sorriu, e disse que fosse como fosse a situação se resolveria. E saiu, com descontracção semelhante àquela com que havia entrado."

Esta história fala de muitas coisas. Fala de uma pessoa que pelos vistos recorre ao aborto como método anti-concepcional, o que obviamente não é bom. Mas a verdade é que a Lei, tal como está, não impede as pessoas irresponsáveis de terem um comportamento irresponsável. Para ultrapassar estes problemas será necessário trabalhar noutras frentes. O que eu mais retenho, sempre que leio esta história, é o seu final. Que tudo se resolverá. Que de uma maneira ou doutra, uma mulher não queira ser mãe, não vai ser. E enquanto esta Lei estiver como está, há pessoas a enriquecer em grande estilo à custa do aborto clandestino, há mulheres a serem exploradas num momento de grande fragilidade, e depois há muitas delas a engrossarem a despesa do Estado, porque quando as coisas correm mal é lá que vão parar para acabar de resolver.

Educação sexual? Com certeza. Planeamento familiar? O mais possível. Apoio social às famílias que optam pelo nascimento das crianças? Evidentemente. Mas nada disso está actualmente em discussão, pois não?

A Lei actual é injusta, penalizadora, discriminatória. Não protege a vida de ninguém, nem dos que cá estão, nem dos que estão para chegar. Do meu ponto de vista, o VOTO SIM é a forma mais responsável, enquanto cidadã, de defender o direito à vida. Uma vida com mais igualdade, descomplexada, livre de preconceitos morais e religiosos, uma vida com dignidade. Para todas e para todos.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Os tectos

São as barreiras que nos impedem de subir mais alto. Lembrei-me hoje de um colega de faculdade que era brilhante em todas as áreas de estudo, e que se lamentava muito da prisão que representavam os tectos. Isto porque havia professores de certas cadeiras que não davam mais de 17. E 17, para este meu colega que tinha capacidade para muitíssimo mais, era o tecto que o deixava inerte, injustamente associado a um nível que era manifestamente pouco para as suas reais capacidades.

Hoje puseram-me debaixo de um tecto novo. Chamaram-me a atenção para a qualidade do estuque que o ornamenta, para a iluminação e para o facto de estar pintado de fresco, de uma cor que vai mesmo bem com os meus olhos verdes. Eu olhei para cima e vi exactamente aquilo que é, um tecto, nada mais que isso. A mesma pressão claustrofóbica a manter-me bem rentinha ao chão, onde permaneça debaixo d'olho e não possa fazer muitas ondas.

Está bem. Que seja. Há já muito tempo que ando a escavar um buraco na parede, e os tectos só seguram quem se acomoda a eles.

Não é o caso.