Vivi toda a minha infância e adolescência numa casa pequenina e muito degradada, que hoje em dia já não existe, e da qual guardo as melhores e as piores lembranças. Recordo-me perfeitamente da pior de todas: a água que teimava em pingar do tecto do meu quarto, por cima da minha cabeça, enquanto eu dormia. Até ao ponto de um fenómeno ainda hoje por explicar, que foi o de, desviada a cama no minúsculo quarto para evitar a goteira por cima da cabeceira, a água deixasse de aparecer do lugar onde aparecia de início para voltar, teimosamente, a pingar por cima da almofada.
Lembro-me doutra ocasião em que foi preciso abrir sulcos no chão (dessa vez resolveu aparecer por esse lado) e da sensação de desalento e desconsolo que era ver aqueles circuitos de água a fazer-me sentir que estava pouco menos do que na rua. E lembro-me do rosto do meu pai nessa época, e dele a subir ao telhado para ver se havia telhas partidas, e a pôr lonas por cima do telhado, e a cavar os sulcos no chão de cimento. Ele punha uma expressão que eu não entendia na altura mas que hoje percebo melhor, que era a cara de um pai que tinha uma casa que metia água pelo quarto da filha, e isso ser o melhor que se podia arranjar.
Agora que penso nisso acho que me ficou alguma coisa de trauma em relação a esses tempos. Naquela altura, o mais simples aguaceiro representava para mim algo de negativo e motivo de angústia, e ficava ali a torcer para que parasse depressa, antes que descobrisse o caminho para o meu espaço. Esta angústia permanece até hoje. Não gosto de chuva. Bole-me com os nervos. E acho que vai ser assim para todo o sempre.
Curiosamente, ainda não consegui ter nenhuma casa onde o problema de lá entrar água não se coloque. Na que tinha anteriormente, a marquise mal amanhada e já ressequida pelo sol, deixava entrar água quando ela vinha tocada a vento. Era um desconsolo. Actualmente, são os bidés das casas de banho que devem ter alguma coisa nos canos a entupir, e quando são usados, lá vem uma pequena, porém irritante, quantidade de água, destruir o meu refúgio, que ser quer aconchegado e principalmente, seco.
(Que isto são doces comparado com o que aconteceu a muitas pessoas hoje. Longe de mim. Mal por mal, nunca tive que ir com a roupa do corpo dormir sabe-se lá onde. Adiante.)
Hoje também foi dia de muita água. Sozinha dentro do carro, passei lençóis de água sempre a acelerar e a rezar para que o carro não me falhasse, levei horas intermináveis nas filas de trânsito, e enquanto olhava para fora e via carros e mais carros, toda a gente parada, e a chuva, maldita chuva cada vez mais violenta, o sentimento que surgiu foi o daquela mesma angústia do tempo em que acordava de noite, com a água a molhar-me a cama.
Passada a borrasca, paragem na casa dos pais para cumprimentar e contar as desventuras do dia. Manifesto a apreensão, de certeza que infundada, de que ao longo do dia, a água tenha subido para dentro de casa, afinal é um rés-do-chão e os bidés andam armados em parvos. Falo no assunto de modo despreocupado, é só um pequeno receio, nada objectivo o faz esperar, a casa é quase nova. Mas sei que o que fala cá mais fundo é esta angústia que nunca mais desapareceu totalmente, e me faz andar de janela em janela sempre que começa a cair com mais força, pelo sim pelo não.
Já de mão na porta para sair, o pedido veio da sala inevitável, "depois quando chegares, diz qualquer coisa". Quando cheguei as apreensões dissiparam-se e fui de imediato dissipar as dele, que estava tudo bem, fica descansado.
De maneiras que por hoje, pai, apesar da muita água que caiu, podemos mandar calar o nosso pequeno trauma. A angústia que ambos conhecemos tão bem vai poder dormir descansada, porque a água permanece do lado de fora, enquanto que nós estamos secos e a salvo, do lado de dentro.
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
terça-feira, fevereiro 05, 2008
Ser diferente
Não ser capaz de alinhar com o rebanho em que se nasceu. Haverá maior provação do que essa?
Se estás destinado a ser carpinteiro tens que ser carpinteiro e mais nada, escultura é coisa para maricas. Desde quando é que os serventes de pedreiro se põem a desenhar casas? Se nasceste no meio de analfabetos para que te agarras aos livros como se fossem a coisa melhor do mundo? Se aqui toda a gente arrota e dá traques à mesa, para que te pões tu com esses modos de senhora chique, a virar a cara para o lado?
E então fica-se a um canto da sala, a congeminar outros mundos que não aquele a que se está confinado. No dia de Carnaval os outros põem as máscaras, a sua fica agarrada à cara o ano inteiro. Passam-se muitas horas em silêncio, a sós com desejos e sonhos e raivas e medos, tantos medos, tantos. A casa é pequena e tem tectos baixos, obriga a andar curvado. Mas é uma casa, e nunca nos vai abandonar, se não a abandonarmos. Fora dela é a escuridão, o vazio, o desconhecido.
O diferente.
Quantos não ficam vergados por esses medos e se deixam ficar, num esforço eterno para alinharem com o rebanho onde, por fatalidade ou desafio divino, foram parar. Quem os poderá censurar, a solidão custa tanto a suportar.
Outros porém, não conseguem lidar com esta insatisfação. Aceitam a solidão como boa companheira e desalinham do rebanho. Colocam uma nova máscara, feita de bom-humor perante a incompreensão, indiferença face à rejeição. Revestem-na com determinação, para assegurar que a parte da frente não se desmorona. E com ela caminham, à procura dos mundos que lhe pertencem, não por nascimento, mas pela vontade de mais Ser.
Para os que caminham, para os que ficam parados, a provação é grande e o preço a pagar é elevado. Em dia de Carnaval tiram as máscaras e choram baixinho a dor das escolhas que ficaram por tomar.
Se estás destinado a ser carpinteiro tens que ser carpinteiro e mais nada, escultura é coisa para maricas. Desde quando é que os serventes de pedreiro se põem a desenhar casas? Se nasceste no meio de analfabetos para que te agarras aos livros como se fossem a coisa melhor do mundo? Se aqui toda a gente arrota e dá traques à mesa, para que te pões tu com esses modos de senhora chique, a virar a cara para o lado?
E então fica-se a um canto da sala, a congeminar outros mundos que não aquele a que se está confinado. No dia de Carnaval os outros põem as máscaras, a sua fica agarrada à cara o ano inteiro. Passam-se muitas horas em silêncio, a sós com desejos e sonhos e raivas e medos, tantos medos, tantos. A casa é pequena e tem tectos baixos, obriga a andar curvado. Mas é uma casa, e nunca nos vai abandonar, se não a abandonarmos. Fora dela é a escuridão, o vazio, o desconhecido.
O diferente.
Quantos não ficam vergados por esses medos e se deixam ficar, num esforço eterno para alinharem com o rebanho onde, por fatalidade ou desafio divino, foram parar. Quem os poderá censurar, a solidão custa tanto a suportar.
Outros porém, não conseguem lidar com esta insatisfação. Aceitam a solidão como boa companheira e desalinham do rebanho. Colocam uma nova máscara, feita de bom-humor perante a incompreensão, indiferença face à rejeição. Revestem-na com determinação, para assegurar que a parte da frente não se desmorona. E com ela caminham, à procura dos mundos que lhe pertencem, não por nascimento, mas pela vontade de mais Ser.
Para os que caminham, para os que ficam parados, a provação é grande e o preço a pagar é elevado. Em dia de Carnaval tiram as máscaras e choram baixinho a dor das escolhas que ficaram por tomar.
sábado, janeiro 26, 2008
Não anda a dar
É por isso que não tenho escrito. Não anda mesmo a dar.
O mês de Janeiro entrou com a exigência que se esperava, e a par disso, umas complicações de saúde novas que me têm deitado um pouco abaixo, resumem o meu silêncio.
Para além de outras merdas, que agora não me apetece referir.
E então é isso. O dia resume-se a levantar às sete e meia, trabalhar, trabalhar, trabalhar, comer nos intervalos, chegar a casa tarde, engolir anti-inflamatórios e comprimidos para a febre, que não pode ser, tenho que me aguentar para o dia seguinte, que horas são, onze, vou-me deitar.
De maneiras que é isto, e como se pode ver, não anda a dar.
Tá-se. :s
O mês de Janeiro entrou com a exigência que se esperava, e a par disso, umas complicações de saúde novas que me têm deitado um pouco abaixo, resumem o meu silêncio.
Para além de outras merdas, que agora não me apetece referir.
E então é isso. O dia resume-se a levantar às sete e meia, trabalhar, trabalhar, trabalhar, comer nos intervalos, chegar a casa tarde, engolir anti-inflamatórios e comprimidos para a febre, que não pode ser, tenho que me aguentar para o dia seguinte, que horas são, onze, vou-me deitar.
De maneiras que é isto, e como se pode ver, não anda a dar.
Tá-se. :s
quarta-feira, janeiro 09, 2008
Antecipação
Ele (atencioso, preocupado): Tens que contratar alguém para te tratar da casa.
Eu: (suspiro) Eu sei.
Ele (insistindo): Tu depois não vais ter tempo...
Eu (ligeiramente abespinhada): Eu-sei.
(silêncio)
Eu (já a elevar a voz): A questão é que eu já estou mesmo a ver no que é que isso vai dar, percebes, essas pessoas regra geral limpam o que está à vista, eu já sei que sou esquisita com a limpeza da casa, vou começar a espreitar por baixo da cama, a olhar para o exaustor cheio de gordura, o frigorífico, os tapetes que às vezes, tipo, de vez em quando, convém sacudir e limpar a parte do chão que eles tapam...
(pausa para tomar fôlego)
... e depois a seguir lá estou eu a pagar todos os meses e a ter que arranjar tempo para limpar eu na mesma!
Ele (contemporizador): Mas então, também não deves generalizar, às tantas até podes encontrar alguém competente, que limpe como tu gostas, estás aí a fazer um bicho de sete cabeças, e quem sabe, até pode perfeitamente correr bem! E ganhas qualidade de vida, ao fim e ao cabo...
Eu: Mas como (angustiada), é que pode correr bem, se eu ainda não contratei a mulher da limpeza e já estou irritada com ela?...
Eu: (suspiro) Eu sei.
Ele (insistindo): Tu depois não vais ter tempo...
Eu (ligeiramente abespinhada): Eu-sei.
(silêncio)
Eu (já a elevar a voz): A questão é que eu já estou mesmo a ver no que é que isso vai dar, percebes, essas pessoas regra geral limpam o que está à vista, eu já sei que sou esquisita com a limpeza da casa, vou começar a espreitar por baixo da cama, a olhar para o exaustor cheio de gordura, o frigorífico, os tapetes que às vezes, tipo, de vez em quando, convém sacudir e limpar a parte do chão que eles tapam...
(pausa para tomar fôlego)
... e depois a seguir lá estou eu a pagar todos os meses e a ter que arranjar tempo para limpar eu na mesma!
Ele (contemporizador): Mas então, também não deves generalizar, às tantas até podes encontrar alguém competente, que limpe como tu gostas, estás aí a fazer um bicho de sete cabeças, e quem sabe, até pode perfeitamente correr bem! E ganhas qualidade de vida, ao fim e ao cabo...
Eu: Mas como (angustiada), é que pode correr bem, se eu ainda não contratei a mulher da limpeza e já estou irritada com ela?...
quarta-feira, janeiro 02, 2008
Verdade irrefutável como esta não há
Entrei obviamente de dieta, como aliás se impõe depois desta quadra repleta de disparates de ordem alimentar.
O bolo de bolacha e a tarte de natas que ainda estão no frigorífico é que não sabem disto.
Mas isso é um problema que é deles, não é meu.
E Deus me livre de começar o ano a desperdiçar comida, era o que faltava.
Ou seja, na minha cabeça o conceito da dieta já está interiorizado. E isso é o mais importante de tudo, não me venham com merdas. Ah e tal, mas estás a comer porcarias na mesma. Não senhora. Estou a zelar para que a comidinha não se estrague, que isso é que não pode ser.
É dentro desta lógica inabalável que é possível, verdadeiramente, estar de dieta enquanto se come bolo de bolacha.
Mai nada.
O bolo de bolacha e a tarte de natas que ainda estão no frigorífico é que não sabem disto.
Mas isso é um problema que é deles, não é meu.
E Deus me livre de começar o ano a desperdiçar comida, era o que faltava.
Ou seja, na minha cabeça o conceito da dieta já está interiorizado. E isso é o mais importante de tudo, não me venham com merdas. Ah e tal, mas estás a comer porcarias na mesma. Não senhora. Estou a zelar para que a comidinha não se estrague, que isso é que não pode ser.
É dentro desta lógica inabalável que é possível, verdadeiramente, estar de dieta enquanto se come bolo de bolacha.
Mai nada.
segunda-feira, dezembro 31, 2007
2008
Eis os votos que me vieram à cabeça, enquanto pensava em mim e naqueles que amo:
Saúde acima de tudo, e não, não é um lugar comum. Aprendi nos últimos dois anos a valorizá-la mais depois de a ver a fugir-me, e a fugir de quem me está mais próximo.
Força, coragem, determinação, inspiração, para que os novos caminhos a trilhar permitam que nos transformemos naquilo que seremos, continuando porém a sermos iguais a nós próprios.
Alegrias, sucessos, risos, que a cada esforço honesto para ser mais e para mais ser, corresponda a legítima compensação.
Faço votos de sorrisos cúmplices. De beijos na boca cheios de vontade. De gargalhadas à volta de assuntos sem sentido nenhum. Do prazer de conversar sobre as coisas importantes.
Peço pelas amizades sinceras, ou seja, aquelas que não são incondicionais. Pelos laços mais profundos que juntam as pessoas que se amam, sejam pais, mães, irmãos, amantes, primos afastados ou apenas almas que se (re)conhecem como seus pares.
Que em 2008 não nos faltem os afectos. E a disposição para encher o peito de ar fresco todas as manhãs.
Ou talvez se dê o caso desta malta aqui em baixo conseguir dizer isto tudo e muito mais com menos palavreado e aquele arrebatamento que faz com que a vida valha a pena:
Um 2008 com amor. E sem lugares-comuns.
Saúde acima de tudo, e não, não é um lugar comum. Aprendi nos últimos dois anos a valorizá-la mais depois de a ver a fugir-me, e a fugir de quem me está mais próximo.
Força, coragem, determinação, inspiração, para que os novos caminhos a trilhar permitam que nos transformemos naquilo que seremos, continuando porém a sermos iguais a nós próprios.
Alegrias, sucessos, risos, que a cada esforço honesto para ser mais e para mais ser, corresponda a legítima compensação.
Faço votos de sorrisos cúmplices. De beijos na boca cheios de vontade. De gargalhadas à volta de assuntos sem sentido nenhum. Do prazer de conversar sobre as coisas importantes.
Peço pelas amizades sinceras, ou seja, aquelas que não são incondicionais. Pelos laços mais profundos que juntam as pessoas que se amam, sejam pais, mães, irmãos, amantes, primos afastados ou apenas almas que se (re)conhecem como seus pares.
Que em 2008 não nos faltem os afectos. E a disposição para encher o peito de ar fresco todas as manhãs.
Ou talvez se dê o caso desta malta aqui em baixo conseguir dizer isto tudo e muito mais com menos palavreado e aquele arrebatamento que faz com que a vida valha a pena:
Um 2008 com amor. E sem lugares-comuns.
domingo, dezembro 30, 2007
Tertúlia de Mentirosos #2
"O demónio sofredor
Uma história sem origem conhecida, mas que se encontra um pouco por toda a parte, diz que um demónio encontrou outro demónio a rebolar-se pelo chão, gritando e chorando, como tomado por uma dor incomparável.
- De que sofres? - perguntou o primeiro demónio.
Entre dois soluços, o outro respondeu:
- Tenho em mim um anjo. E ele atormenta-me."
Uma história sem origem conhecida, mas que se encontra um pouco por toda a parte, diz que um demónio encontrou outro demónio a rebolar-se pelo chão, gritando e chorando, como tomado por uma dor incomparável.
- De que sofres? - perguntou o primeiro demónio.
Entre dois soluços, o outro respondeu:
- Tenho em mim um anjo. E ele atormenta-me."
in Tertúlia de Mentirosos
de Jean-Claude Carrière
Editorial Teorema
de Jean-Claude Carrière
Editorial Teorema
segunda-feira, dezembro 24, 2007
sábado, dezembro 22, 2007
O Pai Natal e o Menino Jesus
"O Pai Natal também te traz prendas no Natal?", perguntou ele em tempos. E uma pessoa fica assim sem saber o que fazer. Por um lado, há que ser sincera com as crianças e ajudá-las a desenvolverem um espírito crítico, que lhes vai fazer uma falta desgraçada pela vida fora. Por outro, também há aquele sentimento piedoso que diz, não destruas já o mito do Pai Natal ao menino, que ainda só tem sete anos, senão ainda passas tu a ser a personificação da bruxa má da Branca de Neve, e destróis um mito para criar outro. Desenrasquei a coisa dizendo, não que o Pai Natal não existe, mas apenas que nunca o tinha visto. E que na verdade, a mim quem me dava prendas no Natal era a minha mãe, o meu pai, a minha irmã, e por aí a fora, se há Pai Natal não sei que nunca o vi. Digamos que assumi a minha postura agnóstica, não em relação a Deus, mas em relação ao Pai Natal. O garoto lá decidiu não prolongar a conversa, para meu grande alívio, antes que aquilo ainda me deixasse bem enterrada.
Hoje virou-se para o presépio. Ah e tal, o presépio é onde nasceu o Jesus, não é? Bom, respondo eu como quem pisa vidros descalça, o presépio mostra como era o lugar onde nasceu Jesus, e mostra também quem lá estava (grande auto-domínio, frase inteira sem nenhum "dizem que" ou "decidiram que era assim" pelo meio). O burro, responde ele muito depressa, e a vaca, e digo eu, sim, o Jesus nasceu num estábulo, por isso é que lá estavam esses animais todos. Silêncio. A seguir voltou à carga: e o pai dele era o José. Antes que me conseguisse conter dei comigo a responder, eu estou firmemente convencida disso. A minha resposta foi entendida como uma confirmação pura e simples, e mais uma vez ficámos assim.
Mas aquela necessidade de esclarecer a paternidade do menino Jesus, tenho esperança que já sejam sinais de alguma consciência crítica!...
Hoje virou-se para o presépio. Ah e tal, o presépio é onde nasceu o Jesus, não é? Bom, respondo eu como quem pisa vidros descalça, o presépio mostra como era o lugar onde nasceu Jesus, e mostra também quem lá estava (grande auto-domínio, frase inteira sem nenhum "dizem que" ou "decidiram que era assim" pelo meio). O burro, responde ele muito depressa, e a vaca, e digo eu, sim, o Jesus nasceu num estábulo, por isso é que lá estavam esses animais todos. Silêncio. A seguir voltou à carga: e o pai dele era o José. Antes que me conseguisse conter dei comigo a responder, eu estou firmemente convencida disso. A minha resposta foi entendida como uma confirmação pura e simples, e mais uma vez ficámos assim.
Mas aquela necessidade de esclarecer a paternidade do menino Jesus, tenho esperança que já sejam sinais de alguma consciência crítica!...
sexta-feira, dezembro 21, 2007
Canção de Natal (e ai de quem disser o contrário)
"Dá um mergulho no mar
Dá um mergulho sem olhar p'ra trás
Dá um salto no ar
Só para veres do que és capaz
Arrisca mais uma vez
Nem que seja só por arriscar
Nunca se tem muito a perder
Dá um mergulho no mar
Há tantas coisas por fazer
E tantas por inventar
Dá um mergulho no mar
E tu vais ver
Tu vais jogar
Tu vais perder
Tu vais tentar
Mais uma vez
E tu vais ver
E tu vais rir
Tu vais ganhar
Tens pouco tempo para ser só teu
Não esperes nem deixes passar
Essa vontade que quer
Dar um mergulho no mar
Arrisca mais uma vez
Nem que seja só por arriscar
Nunca se tem muito a perder
Dá um mergulho no mar
Há tantas coisas por fazer
E tantas por inventar
Dá um mergulho no mar
E tu vais ver
Tu vais jogar
Tu vais perder
Tu vais tentar
Mais uma vez
Tu vais jogar
E tu vais ver
E tu vais gostar
Tu vais chorar
E tu vais rir
Dá um mergulho no mar
Há-de chegar o dia
Em que vais querer parar
Até chegar esse dia
Quero-te ver a saltar
E tu vais ver
Tu vais jogar
Tu vais perder
Tu vais tentar
Mais uma vez
Tu vais jogar
E tu vais ver
E tu vais gostar
Tu vais chorar
E tu vais rir
Dá um mergulho no mar"
É a nossa canção para esta época, meu querido. Feliz Natal.
Dá um mergulho sem olhar p'ra trás
Dá um salto no ar
Só para veres do que és capaz
Arrisca mais uma vez
Nem que seja só por arriscar
Nunca se tem muito a perder
Dá um mergulho no mar
Há tantas coisas por fazer
E tantas por inventar
Dá um mergulho no mar
E tu vais ver
Tu vais jogar
Tu vais perder
Tu vais tentar
Mais uma vez
E tu vais ver
E tu vais rir
Tu vais ganhar
Tens pouco tempo para ser só teu
Não esperes nem deixes passar
Essa vontade que quer
Dar um mergulho no mar
Arrisca mais uma vez
Nem que seja só por arriscar
Nunca se tem muito a perder
Dá um mergulho no mar
Há tantas coisas por fazer
E tantas por inventar
Dá um mergulho no mar
E tu vais ver
Tu vais jogar
Tu vais perder
Tu vais tentar
Mais uma vez
Tu vais jogar
E tu vais ver
E tu vais gostar
Tu vais chorar
E tu vais rir
Dá um mergulho no mar
Há-de chegar o dia
Em que vais querer parar
Até chegar esse dia
Quero-te ver a saltar
E tu vais ver
Tu vais jogar
Tu vais perder
Tu vais tentar
Mais uma vez
Tu vais jogar
E tu vais ver
E tu vais gostar
Tu vais chorar
E tu vais rir
Dá um mergulho no mar"
Xutos e Pontapés
É a nossa canção para esta época, meu querido. Feliz Natal.
segunda-feira, dezembro 17, 2007
Teoria da relatividade
Passeavam ao meio da tarde, de braço dado, os passos e os espíritos alinhados, aproveitando a última meia-hora de sol daquele dia. À sua frente o esqueleto de um projecto que não vingou, rodeado de um estaleiro que, ao que tudo indica, se instalou para destruir e não para construir. E dizia ele, mais vale deitarem abaixo de uma vez, a Expo já foi há quase dez anos, se não vingou, que venha algo novo.
Realmente, dizia ela olhando para o alto da torre, que coisa estranha é pensar que já passaram quase dez anos sobre a Expo! E pensava ainda, que coisa estranha é, por vezes, pensar em tudo o que passa e se passa ao longo de dez anos nas nossas vidas.
A par destas conjecturas, pressentiu mais do que viu uns olhos postos nela, e foi então que reconheceu alguém bem seu conhecido, passando de bicicleta.
Sorriu perante a ironia dos factos e dos pensamentos. Não era na torre que estava a mais visível marca da passagem do tempo. A grande marca estava afinal no passeio a pé, no braço dado, e no outro braço que saudou sem mágoas o homem da bicicleta, deixando-o levar consigo o tempo que já passou.
Realmente, dizia ela olhando para o alto da torre, que coisa estranha é pensar que já passaram quase dez anos sobre a Expo! E pensava ainda, que coisa estranha é, por vezes, pensar em tudo o que passa e se passa ao longo de dez anos nas nossas vidas.
A par destas conjecturas, pressentiu mais do que viu uns olhos postos nela, e foi então que reconheceu alguém bem seu conhecido, passando de bicicleta.
Sorriu perante a ironia dos factos e dos pensamentos. Não era na torre que estava a mais visível marca da passagem do tempo. A grande marca estava afinal no passeio a pé, no braço dado, e no outro braço que saudou sem mágoas o homem da bicicleta, deixando-o levar consigo o tempo que já passou.
sábado, dezembro 08, 2007
Tertúlia de Mentirosos
"A mulher à beira do rio
(...)
Dois jovens monges zen fizeram juntos o juramento de nunca tocar numa mulher. Tratava-se de uma decisão ardente e total a que durante muito tempo ambos se mostraram fiéis.
Um dia, quando viajavam, preparavam-se para atravessar o leito de um rio em cheia quando viram aparecer uma jovem mulher de rara beleza que lhes pediu ajuda para transpor as águas impetuosas. Tinha grande necessidade de atravessar aquele rio, explicou, para ir socorrer o seu pai doente. Sozinha e frágil, não podia arriscar.
O primeiro monge, sem sequer escutar as palavras da mulher, avançou para o rio e atravessou-o. O segundo monge tomou a mulher nos braços e, mais lentamente, mais dificilmente, com a ajuda de uma corda, levou-a para a outra margem.
A jovem agradeceu e afastou-se rapidamente. Os dois monges retomaram o seu caminho. Durante mais de uma hora mantiveram-se em silêncio. A certa altura o primeiro monge, que já não podia continuar calado, irrompeu em cólera, em censuras e disse ao seu companheiro:
- Como pudeste quebrar o teu juramento? A tua jura sagrada? O juramento que pronunciámos juntos? Não sentes vergonha? Como pudeste tomar aquela mulher nos teus braços?
- Olha - diz o outro -, (...) ainda a trazes tu?"
(...)
Dois jovens monges zen fizeram juntos o juramento de nunca tocar numa mulher. Tratava-se de uma decisão ardente e total a que durante muito tempo ambos se mostraram fiéis.
Um dia, quando viajavam, preparavam-se para atravessar o leito de um rio em cheia quando viram aparecer uma jovem mulher de rara beleza que lhes pediu ajuda para transpor as águas impetuosas. Tinha grande necessidade de atravessar aquele rio, explicou, para ir socorrer o seu pai doente. Sozinha e frágil, não podia arriscar.
O primeiro monge, sem sequer escutar as palavras da mulher, avançou para o rio e atravessou-o. O segundo monge tomou a mulher nos braços e, mais lentamente, mais dificilmente, com a ajuda de uma corda, levou-a para a outra margem.
A jovem agradeceu e afastou-se rapidamente. Os dois monges retomaram o seu caminho. Durante mais de uma hora mantiveram-se em silêncio. A certa altura o primeiro monge, que já não podia continuar calado, irrompeu em cólera, em censuras e disse ao seu companheiro:
- Como pudeste quebrar o teu juramento? A tua jura sagrada? O juramento que pronunciámos juntos? Não sentes vergonha? Como pudeste tomar aquela mulher nos teus braços?
- Olha - diz o outro -, (...) ainda a trazes tu?"
in Tertúlia de Mentirosos
de Jean-Claude Carrière
Editorial Teorema
quarta-feira, dezembro 05, 2007
Convenhamos
O anúncio até está engraçado, e eu percebo a ideia e tal.
Mas convenhamos. Imaginar que uma mulher se aproxima de uma máquina de café, tem um homem à frente dela, ele vira-se e é o George Clooney. E ela continua apenas interessada em tirar um cafezinho.
Vamos pensar nisto só por um bocadinho.
Realmente. Estes publicitários por vezes ultrapassam os limites do razoável.
terça-feira, dezembro 04, 2007
São quatro
Mas apenas a três deles já lhes consegui aprender a personalidade. O outro continua fugidio, mais solitário, nem sei ainda se é gato ou gata.
Nenhum deles parece gato de rua, de tão meigos que são. Há um então que é uma graça, porque ainda tem reminiscências de gatinho. Corre atrás de qualquer coisa que mexa, é um destemido, vem para o colo de modo próprio, e já esteve à beira de me entrar em casa.
A outra é a fêmea do grupo, e fazendo jus a isso, quem sabe se também com autoridades de mãe, lidera. Faladora, faz questão de chamar sempre que passo por ela, outra característica tipicamente feminina, que aos outros ainda não lhes conheço um miau.
E depois há o tímido. O que quer e não quer. O que me vira as costas quando o chamo, e faz de conta que não ouve. O que abala a fugir quando vê a mão erguer-se, quase a tocar-lhe a cabeça, para fazer festas. Que se senta a um metro de onde eu me sento mas não arreda pé, a fingir para ele próprio que não quer saber de mim para nada. Que dá imediatamente um passo para trás quando vê os companheiros a chegarem-se à frente e fica só a olhar, tal e qual como tantos de nós fazemos pela vida fora.
É a ele que eu vejo com mais frequência, porque ultimamente passa muito tempo próximo da minha janela. Quando o chamo começa a rebolar no chão de felicidade, vai se aproximando sempre a rebolar, deita-se no parapeito da janela com as patas para o ar, mas sempre a uma distância tal que não me permite chegar-lhe. Ele próprio estica as patas até ao limite e ficamos ali os dois, suspensos neste toque que não chega a ser, eu porque não consigo lá chegar mesmo querendo, ele porque não consegue ainda querer o suficiente.
No outro dia conseguimos, os dois. Ao fim de um tempo infinito à janela, ao frio (será por isso esta dorzita de garganta? Mas que se lixe, para os gatos nunca me faltou paciência), lá o consegui atrair a mim à conta de brincadeira, numa altura em que os companheiros andavam por outras paragens. Aceitou as festas até ao ponto de lhas fazer na barriga, o local mais sensível para os bichanos, e que eles não consentem a qualquer um. Totalmente rendido, colocou uma pata no meu braço, como quem quer retribuir os afagos, e olhou-me de uma forma tão intensa que senti sinceramente o meu carinho a ser correspondido. Foram apenas alguns segundos de silêncio e magia. Mas encheram-me o coração de coisas positivas.
A seguir lembrou-se que era tímido, deu um salto e foi-se embora, porque afinal, o senhor gato precisa de continuar a ser fiel a si próprio e à sua reputação!...
Nenhum deles parece gato de rua, de tão meigos que são. Há um então que é uma graça, porque ainda tem reminiscências de gatinho. Corre atrás de qualquer coisa que mexa, é um destemido, vem para o colo de modo próprio, e já esteve à beira de me entrar em casa.
A outra é a fêmea do grupo, e fazendo jus a isso, quem sabe se também com autoridades de mãe, lidera. Faladora, faz questão de chamar sempre que passo por ela, outra característica tipicamente feminina, que aos outros ainda não lhes conheço um miau.
E depois há o tímido. O que quer e não quer. O que me vira as costas quando o chamo, e faz de conta que não ouve. O que abala a fugir quando vê a mão erguer-se, quase a tocar-lhe a cabeça, para fazer festas. Que se senta a um metro de onde eu me sento mas não arreda pé, a fingir para ele próprio que não quer saber de mim para nada. Que dá imediatamente um passo para trás quando vê os companheiros a chegarem-se à frente e fica só a olhar, tal e qual como tantos de nós fazemos pela vida fora.
É a ele que eu vejo com mais frequência, porque ultimamente passa muito tempo próximo da minha janela. Quando o chamo começa a rebolar no chão de felicidade, vai se aproximando sempre a rebolar, deita-se no parapeito da janela com as patas para o ar, mas sempre a uma distância tal que não me permite chegar-lhe. Ele próprio estica as patas até ao limite e ficamos ali os dois, suspensos neste toque que não chega a ser, eu porque não consigo lá chegar mesmo querendo, ele porque não consegue ainda querer o suficiente.
No outro dia conseguimos, os dois. Ao fim de um tempo infinito à janela, ao frio (será por isso esta dorzita de garganta? Mas que se lixe, para os gatos nunca me faltou paciência), lá o consegui atrair a mim à conta de brincadeira, numa altura em que os companheiros andavam por outras paragens. Aceitou as festas até ao ponto de lhas fazer na barriga, o local mais sensível para os bichanos, e que eles não consentem a qualquer um. Totalmente rendido, colocou uma pata no meu braço, como quem quer retribuir os afagos, e olhou-me de uma forma tão intensa que senti sinceramente o meu carinho a ser correspondido. Foram apenas alguns segundos de silêncio e magia. Mas encheram-me o coração de coisas positivas.
A seguir lembrou-se que era tímido, deu um salto e foi-se embora, porque afinal, o senhor gato precisa de continuar a ser fiel a si próprio e à sua reputação!...
quinta-feira, novembro 29, 2007
Como é que se iPod evitar isto?
Haverá alguma razão plausível para uns tipos da Citibank me mandarem 62, repito, 62 e-mails todos seguidos a dizer "Este Natal temos um iPod para si"?
Eliminei-os a todos sem sequer querer saber o que fiz eu para merecer 62 ofertas de um iPod este Natal. Mais concretamente, concluí que não os iPod aturar...
Eliminei-os a todos sem sequer querer saber o que fiz eu para merecer 62 ofertas de um iPod este Natal. Mais concretamente, concluí que não os iPod aturar...
quinta-feira, novembro 22, 2007
Pois a mim agrada-me
Este Scolari que me consegue sempre inspirar admiração.
Este Scolari na sua forma genuína de ser, que já atingiu aquele patamar em que não tem que fazer de conta que algo o chateia, quando o chateia.
Este Scolari que ferve em pouca água, mas que tem tomates para se chegar à frente e admitir os próprios erros.
Este Scolari que estabelece objectivos gerais e os atinge, e depois não está para aturar comentários corrosivos disfarçados de jornalismos responsáveis.
Este Scolari que é frontal, autêntico, competente, falível, sofredor, empenhado.
Acho que ele é mesmo muito bom. Talvez por isso ande aí tanto fazedor de opinião pública a desejar de o ver pelas costas. É esta nossa desgraçada mediocridade, que sempre prefere um fracasso do qual todos nos possamos queixar, a um sucesso que tenha o sabor agridoce do trabalho árduo.
Não me espantarei se o homem um dia destes ficar tão farto de (n)os aturar, que pense seriamente em abandonar algo mais do que apenas a sala de imprensa. Será uma pena. Mas ao menos nessa altura, haverá muitas horas de emissão nas televisões para os comentadores comentarem até rebentarem.
Este Scolari na sua forma genuína de ser, que já atingiu aquele patamar em que não tem que fazer de conta que algo o chateia, quando o chateia.
Este Scolari que ferve em pouca água, mas que tem tomates para se chegar à frente e admitir os próprios erros.
Este Scolari que estabelece objectivos gerais e os atinge, e depois não está para aturar comentários corrosivos disfarçados de jornalismos responsáveis.
Este Scolari que é frontal, autêntico, competente, falível, sofredor, empenhado.
Acho que ele é mesmo muito bom. Talvez por isso ande aí tanto fazedor de opinião pública a desejar de o ver pelas costas. É esta nossa desgraçada mediocridade, que sempre prefere um fracasso do qual todos nos possamos queixar, a um sucesso que tenha o sabor agridoce do trabalho árduo.
Não me espantarei se o homem um dia destes ficar tão farto de (n)os aturar, que pense seriamente em abandonar algo mais do que apenas a sala de imprensa. Será uma pena. Mas ao menos nessa altura, haverá muitas horas de emissão nas televisões para os comentadores comentarem até rebentarem.
segunda-feira, novembro 19, 2007
Actualização de links
Revista e aumentada, cá está a lista de links actualizada com os meus preferidos. Enjoy it!
sábado, novembro 17, 2007
Consideração de ordem doméstica
Qual "CIF Inox" qual carapuça. Detergente da loiça. Dinheiro do meu já não têm mais.
sexta-feira, novembro 16, 2007
Sobre a inveja
(Abençoadas as amigas, que nos dão inspiração para escrever quando ela teima em não aparecer.)
Sobre a inveja. Também eu já tenho reflectido um bocado sobre esta questão, e acho que este é, possivelmente, o sentimento mais negativo que existe. Muito pior que o ódio, pior até que o rancor (se bem que também este é muito corrosivo, porque nos deixa amarrados a más lembranças e não nos deixa seguir em frente). Estes sentimentos, pelo menos, têm alguma motivação na sua base.
Para mim não é bem inveja essa coisa de olhar para o lado e ver outra pessoa ter, ou conquistar algo que também desejamos para nós próprios. Porque esse olhar em si mesmo não deseja mal à pessoa que o conseguiu, simplesmente nos confronta com as nossas próprias realidades, e pode até servir-nos de bom exemplo, gerando novos desafios que nos levem a firmar objectivos, ou em última análise, a compreender as nossas limitações.
A inveja, não. Ao contrário do que possa parecer, a inveja não tem nenhum objecto ou objectivo, e por isso mesmo é que não passa de uma coisa oca, repleta apenas de más vibrações e eternas frustações. Desengane-se quem pense que o invejoso alguma vez fica contente quando alcança aquilo que inveja. Isso nunca acontece. Ele apenas quer acreditar que isso será suficiente para apaziguar a sua oca existência. Na verdade, o que o invejoso gostava, era de ter tudo o que os outros têm, que os outros perdessem aquilo que têm e isso lhes causasse sofrimento, e que ele pudesse estar a assistir a tudo. E ainda assim, ainda assim, continuaria a invejar o facto de não ter a vida dessas pessoas, sofrimento incluído, de não ser outra pessoa qualquer, que não ele próprio.
Em boa verdade, a inveja não está relacionada com o ter, mas sim com o ser, e mesmo que o pretenso objecto da inveja seja alcançado, o espírito permanece na obscuridade, porque aquilo que o invejoso consegue nunca lhe permite preencher esse imenso buraco-negro que é o seu não-ser.
Como é que isto se combate? Acho que mantendo a maior distância possível dessas pessoas. E quando não se consegue, com a indiferença. Ripostar apenas no caso de nos tentarem fazer mal. Porque de resto, e na maior parte dos casos, são as maiores vítimas delas próprias, que deve ser muito triste olhar para o espelho e ver apenas o reflexo dos outros, sem ser capaz de olhar de frente para si mesmo, e enfrentar aquilo (aquele) que é.
Sobre a inveja. Também eu já tenho reflectido um bocado sobre esta questão, e acho que este é, possivelmente, o sentimento mais negativo que existe. Muito pior que o ódio, pior até que o rancor (se bem que também este é muito corrosivo, porque nos deixa amarrados a más lembranças e não nos deixa seguir em frente). Estes sentimentos, pelo menos, têm alguma motivação na sua base.
Para mim não é bem inveja essa coisa de olhar para o lado e ver outra pessoa ter, ou conquistar algo que também desejamos para nós próprios. Porque esse olhar em si mesmo não deseja mal à pessoa que o conseguiu, simplesmente nos confronta com as nossas próprias realidades, e pode até servir-nos de bom exemplo, gerando novos desafios que nos levem a firmar objectivos, ou em última análise, a compreender as nossas limitações.
A inveja, não. Ao contrário do que possa parecer, a inveja não tem nenhum objecto ou objectivo, e por isso mesmo é que não passa de uma coisa oca, repleta apenas de más vibrações e eternas frustações. Desengane-se quem pense que o invejoso alguma vez fica contente quando alcança aquilo que inveja. Isso nunca acontece. Ele apenas quer acreditar que isso será suficiente para apaziguar a sua oca existência. Na verdade, o que o invejoso gostava, era de ter tudo o que os outros têm, que os outros perdessem aquilo que têm e isso lhes causasse sofrimento, e que ele pudesse estar a assistir a tudo. E ainda assim, ainda assim, continuaria a invejar o facto de não ter a vida dessas pessoas, sofrimento incluído, de não ser outra pessoa qualquer, que não ele próprio.
Em boa verdade, a inveja não está relacionada com o ter, mas sim com o ser, e mesmo que o pretenso objecto da inveja seja alcançado, o espírito permanece na obscuridade, porque aquilo que o invejoso consegue nunca lhe permite preencher esse imenso buraco-negro que é o seu não-ser.
Como é que isto se combate? Acho que mantendo a maior distância possível dessas pessoas. E quando não se consegue, com a indiferença. Ripostar apenas no caso de nos tentarem fazer mal. Porque de resto, e na maior parte dos casos, são as maiores vítimas delas próprias, que deve ser muito triste olhar para o espelho e ver apenas o reflexo dos outros, sem ser capaz de olhar de frente para si mesmo, e enfrentar aquilo (aquele) que é.
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