quinta-feira, março 20, 2008

Assustador



A vários níveis, diria. Primeiro, pela degradação a que chegam aquelas duas pessoas. Depois, pelos risos e ambiente de festa generalizada que se vive perante uma violência daquelas, contrariado apenas por, talvez, dois alunos que lá vão sentindo vagamente que aquilo não está certo e que alguma coisa tem que ser feita.

Depois ainda, pela(s) inconsciência(s) da gravidade da situação, que se vêem em expressões como "espectáculo!" e "a velha vai cair". Como se fosse tudo uma grande paródia.

Entretanto, oiço na SIC uma pedopsiquiatra a dizer que hoje em dia, para os jovens, o telemóvel é como que uma "extensão do próprio corpo", mais ou menos a justificar a reacção da aluna. Pode ser que tenha razão. Mas esta mania que Freud tem de explicar tudo às vezes irrita-me um bocadinho. Por vezes parece-me que se está a nivelar por baixo, a exigir pouco ou quase nada, e ainda assim, cada vez menos. Que quantidade brutal de erros ao nível da educação, dos afectos, é que levam um jovem àquele ponto? E mais assustador do que descobrir isso, será talvez descobrir que não há assim tantos erros, e que ainda assim foi ali que ela chegou...

Em jeito de escape, deixei-me invadir por um pensamento feito do mais puro egoísmo: aquela miudagem é a que vai andar a trabalhar para me pagar a reforma. Perante isto, é inevitável pensar cada vez mais seriamente em fazer um PPR. Seriously...

sábado, março 08, 2008

Duas mulheres encontram-se na esplanada para beber cerveja e falar de futebol

- Olá, como estás? Não vens nada com boa cara. Aconteceu alguma coisa?

- Nem te conto. Acabei de dar de caras com o Rabiola do meu ex-marido!

- Então, não levantes mau testemunho, ele até pode ter muitos defeitos mas nunca teve fama de gostar de homens...

- Acredita que eu sei muito bem. Ainda nem há um mês me deixou, vê lá tu que ainda agora dei de caras com ele no meio da rua, agarrado àquela Makukula da inglesa, a loira de farmácia com pernas até ao pescoço, que trabalha na sapataria, estás a ver quem é?... Uma vergonha, é só o que te digo.

- Bem, amiga, faço ideia o teu estado. Deves ter ficado completamente Sektioui com essa novidade!

- Quem, eu? Nem penses nisso. Quem anda a fazer figuras tristes é ele. Oh, é claro que fiquei capaz de pregar um valente par de Stepanov a cada um, mas é nas situações mais difíceis que uma mulher deve saber manter o nível, e aquilo é gente que não interessa a ninguém.

- Pois, realmente. Mas e ele, não te viu?

- Viu, pois! Sentiu-se tão mal com a figura que ia a fazer que até veio atrás de mim com explicações da treta. Ainda teve a lata de me dizer que a inglesa agora "Izmailov, Adelaide, tenta compreender!". Palhaço!... Mandei-o à Mrdakovic, que é o que ele merece ouvir, e vim-me embora.

- Os homens são uns ingratos. Pensar nos anos que lhe dedicaste, a aturar-lhe as bebedeiras. Sim, que alturas houve em que ele vivia agarrado ao Tonel, não interessava que fosse branco ou tinto, e tu ali, sempre presente...

- Oh, tu sabes lá o que eu passei. Mas não me arrependo, sabes, fiz tudo por amor. No princípio, aquele homem era um ídolo para mim, um Zoro! Mas a coisas mudam, amiga. Quem ma prega uma vez não ma prega segunda. Por mim, pode-lhe cair um Kazmierczak em cima que o deixe paralítico para o resto da vida! Sempre queria ver nessa altura onde ia parar o "Izmailov" pela Makukula!... Não quero saber, já N'Doye.

- Ai, olha, estou a ver que esse encontro te deixou muito perturbada. Tens que ultrapassar, pôr esse Fajardo para trás das costas! Vamos mas é mudar de assunto, que tal comermos qualquer coisa? Já são horas de almoço.

- Sim, é o melhor. Ainda por cima aqui servem um Fucile Carbonara que é mesmo o que me está a apetecer. Com uma Sepsi, que é para ver se refresco as ideias! E eu nem te perguntei a ti como estás, cheguei aqui a despejar as minhas mágoas, grande amiga que eu sou, realmente...

- Oh, eu estou bem. Tirando esta maldita constipação, que já ando Romagnoli há mais de quinze dias. Até já perdi a conta aos pacotes de lenços de papel que gastei...

- Não te dás bem com o Farnerud? Eu não quero outra coisa, quando me ponho assim como tu estás, ataco logo com dois de oito em oito horas, e em meia-dúzia de dias fico óptima!...

- Boa ideia, agora em acabando de almoçar, vou ali à farmácia comprar.

Cabecinhas ocas

Terminada a minha aula de ginástica, costumo ser rápida a deixar o balneário. Prefiro a minha própria casa de banho à do ginásio. Costumo demorar meia hora no duche e não me parece nada prático andar a transportar os frascos todos que são necessários: shampô, amaciador, gel de banho, roll-on, body milk, reparador de pontas... De maneiras que a minha rotina é, terminada a aula, chegar ao cacifo, vestir dois casacos por cima da roupa suada, agarrar no saco e vamos embora que se faz (mesmo!) tarde.

Nisto, passo por um grupinho de meninas na casa dos 15-16 anos, máximo. Alegremente, preparam-se para a aula de step que se segue à minha, a mesma monitora já as espera no andar de cima. E no que consiste a preparação daquelas alimárias, com perdão da expressão, mas que considero plenamente justificada dada a idiotice a que pude assistir? Pois a preparação consiste em enrolarem o abdómen em película aderente! Bem apertadinho, que é para o ventre ficar liso! E depois coloca-se a roupa por cima, ninguém dá por nada, e as meninas "maximizam" o esforço que vão praticar para terem a certeza que perdem mesmo peso à séria!...

A sério, eu nem queria acreditar em tamanho disparate. Naturalmente, já não abandonei o ginásio tão rápido quanto contava. Antes disso fui dar conta do observado a quem de direito, e estou para saber na próxima semana que fim levou esta história. Espero que alguém lhes explique com calma os riscos que aquela ideia triste lhes traz para a sua saúde, nomeadamente cairem para o lado durante a aula, que por sinal é bem puxada, já que a monitora até é bastante exigente.

Espero que alguém tenha uma conversa calma e pedagógica com as cabecinhas ocas. Eu não era de certeza a pessoa indicada para o fazer. Enquanto me ia embora permaneciam na minha cabeça apenas duas coisas: estalos na cara, ou então obrigá-las a engolir o raio da película aderente. e definitivamente, nenhuma destas duas hipóteses serviriam para algo de construtivo...

sábado, março 01, 2008

Teoria da relatividade #2

Não deixa de ter o seu interesse, isto de gerir imponderáveis ao mesmo tempo que se limpam casas de banho (ora cá está uma vantagem de não ter contratado nenhuma empregada doméstica).

É que assim fica-se com uma perspectiva completamente diferente, quer da limpeza da casa de banho, quer do imponderável. Muito enriquecedor, é o que me apraz dizer.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

36

Em regra não costumo fazer nada especial neste dia, e para todos os efeitos é um dia como os outros, mas na verdade não é. Porque no meio das felicitações, do aconchego dos amigos mais próximos, do beijo do pai e da mãe, nunca deixo de meditar um pouco mais profundamente sobre o meu percurso de vida, aquilo que sou, e o que tenho ainda pela frente.

É um aniversário em ano bissexto, e estou de muito bem com a vida. Há que aproveitar esta fase tão boa, porque em boa verdade não sei se alguma vez estive tão realizada em tantos aspectos ao mesmo tempo: pessoal, familiar, profissional. Sinto-me inteira. E estou capaz de seguir em frente para outras coisas, porque ainda é muito cedo para calçar as pantufas.

Ainda pensei em dizer mais umas tantas coisas, mas em boa verdade não iria dizer muito mais do que isto: hoje estarei bem perto daqueles que me saboreiam o doce e o amargo ao longo de todos os dias de cada ano. E sei que os meus motivos de celebração também são os deles, e vice-versa. Isso é tudo o que importa. Muito obrigada a todos vós, porque são a minha estrutura.

E embora num outro nível, obrigada também a todos e todas os que passam por aqui, e que acabam por fazer também parte dos meus dias, quantas vezes com a sensação de que já somos velhos amigos... :-)

domingo, fevereiro 24, 2008

Chocolate a dar com um pau







Que isto, nem tudo pode ser trabalho. Hoje o dia passou-se em Óbidos, entre alguns amigos, uma vista magnífica (que a chuva infelizmente não deixou explorar como deve ser), e autênticas overdoses calóricas.


Foi a primeira vez que fui a Óbidos, e tenho a certeza que não foi a última. Da próxima vez pode ser com menos chocolate, mas por hoje, as "espetadas" de frutas envoltas em chocolate, a ginja dentro do copo de chocolate, entre outras coisas começadas por "c", acabadas em "e" e com "hocolat" pelo meio, deixaram este dia mesmo muito doce. E ligeiramente nauseado para o final do dia, mas nada que não se possa combater à base de água com gás.

PS: A foto aqui de cima foi também colocada com o propósito de me lembrar na próxima semana do tamanho em que o meu cabelo já estava, antes de eu decidir debastá-lo sem dó nem piedade. Isto é claro, se não chegar a mudar de ideias antes desta Quinta-Feira!...

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Água

Vivi toda a minha infância e adolescência numa casa pequenina e muito degradada, que hoje em dia já não existe, e da qual guardo as melhores e as piores lembranças. Recordo-me perfeitamente da pior de todas: a água que teimava em pingar do tecto do meu quarto, por cima da minha cabeça, enquanto eu dormia. Até ao ponto de um fenómeno ainda hoje por explicar, que foi o de, desviada a cama no minúsculo quarto para evitar a goteira por cima da cabeceira, a água deixasse de aparecer do lugar onde aparecia de início para voltar, teimosamente, a pingar por cima da almofada.

Lembro-me doutra ocasião em que foi preciso abrir sulcos no chão (dessa vez resolveu aparecer por esse lado) e da sensação de desalento e desconsolo que era ver aqueles circuitos de água a fazer-me sentir que estava pouco menos do que na rua. E lembro-me do rosto do meu pai nessa época, e dele a subir ao telhado para ver se havia telhas partidas, e a pôr lonas por cima do telhado, e a cavar os sulcos no chão de cimento. Ele punha uma expressão que eu não entendia na altura mas que hoje percebo melhor, que era a cara de um pai que tinha uma casa que metia água pelo quarto da filha, e isso ser o melhor que se podia arranjar.

Agora que penso nisso acho que me ficou alguma coisa de trauma em relação a esses tempos. Naquela altura, o mais simples aguaceiro representava para mim algo de negativo e motivo de angústia, e ficava ali a torcer para que parasse depressa, antes que descobrisse o caminho para o meu espaço. Esta angústia permanece até hoje. Não gosto de chuva. Bole-me com os nervos. E acho que vai ser assim para todo o sempre.

Curiosamente, ainda não consegui ter nenhuma casa onde o problema de lá entrar água não se coloque. Na que tinha anteriormente, a marquise mal amanhada e já ressequida pelo sol, deixava entrar água quando ela vinha tocada a vento. Era um desconsolo. Actualmente, são os bidés das casas de banho que devem ter alguma coisa nos canos a entupir, e quando são usados, lá vem uma pequena, porém irritante, quantidade de água, destruir o meu refúgio, que ser quer aconchegado e principalmente, seco.

(Que isto são doces comparado com o que aconteceu a muitas pessoas hoje. Longe de mim. Mal por mal, nunca tive que ir com a roupa do corpo dormir sabe-se lá onde. Adiante.)

Hoje também foi dia de muita água. Sozinha dentro do carro, passei lençóis de água sempre a acelerar e a rezar para que o carro não me falhasse, levei horas intermináveis nas filas de trânsito, e enquanto olhava para fora e via carros e mais carros, toda a gente parada, e a chuva, maldita chuva cada vez mais violenta, o sentimento que surgiu foi o daquela mesma angústia do tempo em que acordava de noite, com a água a molhar-me a cama.

Passada a borrasca, paragem na casa dos pais para cumprimentar e contar as desventuras do dia. Manifesto a apreensão, de certeza que infundada, de que ao longo do dia, a água tenha subido para dentro de casa, afinal é um rés-do-chão e os bidés andam armados em parvos. Falo no assunto de modo despreocupado, é só um pequeno receio, nada objectivo o faz esperar, a casa é quase nova. Mas sei que o que fala cá mais fundo é esta angústia que nunca mais desapareceu totalmente, e me faz andar de janela em janela sempre que começa a cair com mais força, pelo sim pelo não.

Já de mão na porta para sair, o pedido veio da sala inevitável, "depois quando chegares, diz qualquer coisa". Quando cheguei as apreensões dissiparam-se e fui de imediato dissipar as dele, que estava tudo bem, fica descansado.

De maneiras que por hoje, pai, apesar da muita água que caiu, podemos mandar calar o nosso pequeno trauma. A angústia que ambos conhecemos tão bem vai poder dormir descansada, porque a água permanece do lado de fora, enquanto que nós estamos secos e a salvo, do lado de dentro.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Ser diferente

Não ser capaz de alinhar com o rebanho em que se nasceu. Haverá maior provação do que essa?

Se estás destinado a ser carpinteiro tens que ser carpinteiro e mais nada, escultura é coisa para maricas. Desde quando é que os serventes de pedreiro se põem a desenhar casas? Se nasceste no meio de analfabetos para que te agarras aos livros como se fossem a coisa melhor do mundo? Se aqui toda a gente arrota e dá traques à mesa, para que te pões tu com esses modos de senhora chique, a virar a cara para o lado?

E então fica-se a um canto da sala, a congeminar outros mundos que não aquele a que se está confinado. No dia de Carnaval os outros põem as máscaras, a sua fica agarrada à cara o ano inteiro. Passam-se muitas horas em silêncio, a sós com desejos e sonhos e raivas e medos, tantos medos, tantos. A casa é pequena e tem tectos baixos, obriga a andar curvado. Mas é uma casa, e nunca nos vai abandonar, se não a abandonarmos. Fora dela é a escuridão, o vazio, o desconhecido.

O diferente.

Quantos não ficam vergados por esses medos e se deixam ficar, num esforço eterno para alinharem com o rebanho onde, por fatalidade ou desafio divino, foram parar. Quem os poderá censurar, a solidão custa tanto a suportar.

Outros porém, não conseguem lidar com esta insatisfação. Aceitam a solidão como boa companheira e desalinham do rebanho. Colocam uma nova máscara, feita de bom-humor perante a incompreensão, indiferença face à rejeição. Revestem-na com determinação, para assegurar que a parte da frente não se desmorona. E com ela caminham, à procura dos mundos que lhe pertencem, não por nascimento, mas pela vontade de mais Ser.

Para os que caminham, para os que ficam parados, a provação é grande e o preço a pagar é elevado. Em dia de Carnaval tiram as máscaras e choram baixinho a dor das escolhas que ficaram por tomar.

sábado, janeiro 26, 2008

Não anda a dar

É por isso que não tenho escrito. Não anda mesmo a dar.

O mês de Janeiro entrou com a exigência que se esperava, e a par disso, umas complicações de saúde novas que me têm deitado um pouco abaixo, resumem o meu silêncio.

Para além de outras merdas, que agora não me apetece referir.

E então é isso. O dia resume-se a levantar às sete e meia, trabalhar, trabalhar, trabalhar, comer nos intervalos, chegar a casa tarde, engolir anti-inflamatórios e comprimidos para a febre, que não pode ser, tenho que me aguentar para o dia seguinte, que horas são, onze, vou-me deitar.

De maneiras que é isto, e como se pode ver, não anda a dar.

Tá-se. :s

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Antecipação

Ele (atencioso, preocupado): Tens que contratar alguém para te tratar da casa.

Eu: (suspiro) Eu sei.

Ele (insistindo): Tu depois não vais ter tempo...

Eu (ligeiramente abespinhada): Eu-sei.

(silêncio)

Eu (já a elevar a voz): A questão é que eu já estou mesmo a ver no que é que isso vai dar, percebes, essas pessoas regra geral limpam o que está à vista, eu já sei que sou esquisita com a limpeza da casa, vou começar a espreitar por baixo da cama, a olhar para o exaustor cheio de gordura, o frigorífico, os tapetes que às vezes, tipo, de vez em quando, convém sacudir e limpar a parte do chão que eles tapam...

(pausa para tomar fôlego)

... e depois a seguir lá estou eu a pagar todos os meses e a ter que arranjar tempo para limpar eu na mesma!

Ele (contemporizador): Mas então, também não deves generalizar, às tantas até podes encontrar alguém competente, que limpe como tu gostas, estás aí a fazer um bicho de sete cabeças, e quem sabe, até pode perfeitamente correr bem! E ganhas qualidade de vida, ao fim e ao cabo...

Eu: Mas como (angustiada), é que pode correr bem, se eu ainda não contratei a mulher da limpeza e já estou irritada com ela?...

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Verdade irrefutável como esta não há

Entrei obviamente de dieta, como aliás se impõe depois desta quadra repleta de disparates de ordem alimentar.

O bolo de bolacha e a tarte de natas que ainda estão no frigorífico é que não sabem disto.

Mas isso é um problema que é deles, não é meu.

E Deus me livre de começar o ano a desperdiçar comida, era o que faltava.

Ou seja, na minha cabeça o conceito da dieta já está interiorizado. E isso é o mais importante de tudo, não me venham com merdas. Ah e tal, mas estás a comer porcarias na mesma. Não senhora. Estou a zelar para que a comidinha não se estrague, que isso é que não pode ser.

É dentro desta lógica inabalável que é possível, verdadeiramente, estar de dieta enquanto se come bolo de bolacha.

Mai nada.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

2008

Eis os votos que me vieram à cabeça, enquanto pensava em mim e naqueles que amo:

Saúde acima de tudo, e não, não é um lugar comum. Aprendi nos últimos dois anos a valorizá-la mais depois de a ver a fugir-me, e a fugir de quem me está mais próximo.

Força, coragem, determinação, inspiração, para que os novos caminhos a trilhar permitam que nos transformemos naquilo que seremos, continuando porém a sermos iguais a nós próprios.

Alegrias, sucessos, risos, que a cada esforço honesto para ser mais e para mais ser, corresponda a legítima compensação.

Faço votos de sorrisos cúmplices. De beijos na boca cheios de vontade. De gargalhadas à volta de assuntos sem sentido nenhum. Do prazer de conversar sobre as coisas importantes.

Peço pelas amizades sinceras, ou seja, aquelas que não são incondicionais. Pelos laços mais profundos que juntam as pessoas que se amam, sejam pais, mães, irmãos, amantes, primos afastados ou apenas almas que se (re)conhecem como seus pares.

Que em 2008 não nos faltem os afectos. E a disposição para encher o peito de ar fresco todas as manhãs.

Ou talvez se dê o caso desta malta aqui em baixo conseguir dizer isto tudo e muito mais com menos palavreado e aquele arrebatamento que faz com que a vida valha a pena:






Um 2008 com amor. E sem lugares-comuns.

domingo, dezembro 30, 2007

Tertúlia de Mentirosos #2

"O demónio sofredor

Uma história sem origem conhecida, mas que se encontra um pouco por toda a parte, diz que um demónio encontrou outro demónio a rebolar-se pelo chão, gritando e chorando, como tomado por uma dor incomparável.

- De que sofres? - perguntou o primeiro demónio.

Entre dois soluços, o outro respondeu:

- Tenho em mim um anjo. E ele atormenta-me."
in Tertúlia de Mentirosos
de Jean-Claude Carrière
Editorial Teorema

sábado, dezembro 22, 2007

O Pai Natal e o Menino Jesus

"O Pai Natal também te traz prendas no Natal?", perguntou ele em tempos. E uma pessoa fica assim sem saber o que fazer. Por um lado, há que ser sincera com as crianças e ajudá-las a desenvolverem um espírito crítico, que lhes vai fazer uma falta desgraçada pela vida fora. Por outro, também há aquele sentimento piedoso que diz, não destruas já o mito do Pai Natal ao menino, que ainda só tem sete anos, senão ainda passas tu a ser a personificação da bruxa má da Branca de Neve, e destróis um mito para criar outro. Desenrasquei a coisa dizendo, não que o Pai Natal não existe, mas apenas que nunca o tinha visto. E que na verdade, a mim quem me dava prendas no Natal era a minha mãe, o meu pai, a minha irmã, e por aí a fora, se há Pai Natal não sei que nunca o vi. Digamos que assumi a minha postura agnóstica, não em relação a Deus, mas em relação ao Pai Natal. O garoto lá decidiu não prolongar a conversa, para meu grande alívio, antes que aquilo ainda me deixasse bem enterrada.

Hoje virou-se para o presépio. Ah e tal, o presépio é onde nasceu o Jesus, não é? Bom, respondo eu como quem pisa vidros descalça, o presépio mostra como era o lugar onde nasceu Jesus, e mostra também quem lá estava (grande auto-domínio, frase inteira sem nenhum "dizem que" ou "decidiram que era assim" pelo meio). O burro, responde ele muito depressa, e a vaca, e digo eu, sim, o Jesus nasceu num estábulo, por isso é que lá estavam esses animais todos. Silêncio. A seguir voltou à carga: e o pai dele era o José. Antes que me conseguisse conter dei comigo a responder, eu estou firmemente convencida disso. A minha resposta foi entendida como uma confirmação pura e simples, e mais uma vez ficámos assim.

Mas aquela necessidade de esclarecer a paternidade do menino Jesus, tenho esperança que já sejam sinais de alguma consciência crítica!...

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Canção de Natal (e ai de quem disser o contrário)

"Dá um mergulho no mar
Dá um mergulho sem olhar p'ra trás
Dá um salto no ar
Só para veres do que és capaz

Arrisca mais uma vez
Nem que seja só por arriscar
Nunca se tem muito a perder
Dá um mergulho no mar

Há tantas coisas por fazer
E tantas por inventar
Dá um mergulho no mar

E tu vais ver
Tu vais jogar
Tu vais perder
Tu vais tentar
Mais uma vez
E tu vais ver
E tu vais rir
Tu vais ganhar

Tens pouco tempo para ser só teu
Não esperes nem deixes passar
Essa vontade que quer
Dar um mergulho no mar

Arrisca mais uma vez
Nem que seja só por arriscar
Nunca se tem muito a perder
Dá um mergulho no mar

Há tantas coisas por fazer
E tantas por inventar
Dá um mergulho no mar

E tu vais ver
Tu vais jogar
Tu vais perder
Tu vais tentar
Mais uma vez
Tu vais jogar
E tu vais ver
E tu vais gostar
Tu vais chorar
E tu vais rir
Dá um mergulho no mar

Há-de chegar o dia
Em que vais querer parar
Até chegar esse dia
Quero-te ver a saltar

E tu vais ver
Tu vais jogar
Tu vais perder
Tu vais tentar
Mais uma vez
Tu vais jogar
E tu vais ver
E tu vais gostar
Tu vais chorar
E tu vais rir
Dá um mergulho no mar"
Xutos e Pontapés

É a nossa canção para esta época, meu querido. Feliz Natal.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Teoria da relatividade

Passeavam ao meio da tarde, de braço dado, os passos e os espíritos alinhados, aproveitando a última meia-hora de sol daquele dia. À sua frente o esqueleto de um projecto que não vingou, rodeado de um estaleiro que, ao que tudo indica, se instalou para destruir e não para construir. E dizia ele, mais vale deitarem abaixo de uma vez, a Expo já foi há quase dez anos, se não vingou, que venha algo novo.

Realmente, dizia ela olhando para o alto da torre, que coisa estranha é pensar que já passaram quase dez anos sobre a Expo! E pensava ainda, que coisa estranha é, por vezes, pensar em tudo o que passa e se passa ao longo de dez anos nas nossas vidas.

A par destas conjecturas, pressentiu mais do que viu uns olhos postos nela, e foi então que reconheceu alguém bem seu conhecido, passando de bicicleta.

Sorriu perante a ironia dos factos e dos pensamentos. Não era na torre que estava a mais visível marca da passagem do tempo. A grande marca estava afinal no passeio a pé, no braço dado, e no outro braço que saudou sem mágoas o homem da bicicleta, deixando-o levar consigo o tempo que já passou.

sábado, dezembro 08, 2007

Tertúlia de Mentirosos

"A mulher à beira do rio

(...)

Dois jovens monges zen fizeram juntos o juramento de nunca tocar numa mulher. Tratava-se de uma decisão ardente e total a que durante muito tempo ambos se mostraram fiéis.

Um dia, quando viajavam, preparavam-se para atravessar o leito de um rio em cheia quando viram aparecer uma jovem mulher de rara beleza que lhes pediu ajuda para transpor as águas impetuosas. Tinha grande necessidade de atravessar aquele rio, explicou, para ir socorrer o seu pai doente. Sozinha e frágil, não podia arriscar.

O primeiro monge, sem sequer escutar as palavras da mulher, avançou para o rio e atravessou-o. O segundo monge tomou a mulher nos braços e, mais lentamente, mais dificilmente, com a ajuda de uma corda, levou-a para a outra margem.

A jovem agradeceu e afastou-se rapidamente. Os dois monges retomaram o seu caminho. Durante mais de uma hora mantiveram-se em silêncio. A certa altura o primeiro monge, que já não podia continuar calado, irrompeu em cólera, em censuras e disse ao seu companheiro:

- Como pudeste quebrar o teu juramento? A tua jura sagrada? O juramento que pronunciámos juntos? Não sentes vergonha? Como pudeste tomar aquela mulher nos teus braços?

- Olha - diz o outro -, (...) ainda a trazes tu?"

in Tertúlia de Mentirosos
de Jean-Claude Carrière
Editorial Teorema

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Convenhamos

O anúncio até está engraçado, e eu percebo a ideia e tal.
Mas convenhamos. Imaginar que uma mulher se aproxima de uma máquina de café, tem um homem à frente dela, ele vira-se e é o George Clooney. E ela continua apenas interessada em tirar um cafezinho.

Vamos pensar nisto só por um bocadinho.

Realmente. Estes publicitários por vezes ultrapassam os limites do razoável.

terça-feira, dezembro 04, 2007

São quatro

Mas apenas a três deles já lhes consegui aprender a personalidade. O outro continua fugidio, mais solitário, nem sei ainda se é gato ou gata.


Nenhum deles parece gato de rua, de tão meigos que são. Há um então que é uma graça, porque ainda tem reminiscências de gatinho. Corre atrás de qualquer coisa que mexa, é um destemido, vem para o colo de modo próprio, e já esteve à beira de me entrar em casa.

A outra é a fêmea do grupo, e fazendo jus a isso, quem sabe se também com autoridades de mãe, lidera. Faladora, faz questão de chamar sempre que passo por ela, outra característica tipicamente feminina, que aos outros ainda não lhes conheço um miau.

E depois há o tímido. O que quer e não quer. O que me vira as costas quando o chamo, e faz de conta que não ouve. O que abala a fugir quando vê a mão erguer-se, quase a tocar-lhe a cabeça, para fazer festas. Que se senta a um metro de onde eu me sento mas não arreda pé, a fingir para ele próprio que não quer saber de mim para nada. Que dá imediatamente um passo para trás quando vê os companheiros a chegarem-se à frente e fica só a olhar, tal e qual como tantos de nós fazemos pela vida fora.

É a ele que eu vejo com mais frequência, porque ultimamente passa muito tempo próximo da minha janela. Quando o chamo começa a rebolar no chão de felicidade, vai se aproximando sempre a rebolar, deita-se no parapeito da janela com as patas para o ar, mas sempre a uma distância tal que não me permite chegar-lhe. Ele próprio estica as patas até ao limite e ficamos ali os dois, suspensos neste toque que não chega a ser, eu porque não consigo lá chegar mesmo querendo, ele porque não consegue ainda querer o suficiente.

No outro dia conseguimos, os dois. Ao fim de um tempo infinito à janela, ao frio (será por isso esta dorzita de garganta? Mas que se lixe, para os gatos nunca me faltou paciência), lá o consegui atrair a mim à conta de brincadeira, numa altura em que os companheiros andavam por outras paragens. Aceitou as festas até ao ponto de lhas fazer na barriga, o local mais sensível para os bichanos, e que eles não consentem a qualquer um. Totalmente rendido, colocou uma pata no meu braço, como quem quer retribuir os afagos, e olhou-me de uma forma tão intensa que senti sinceramente o meu carinho a ser correspondido. Foram apenas alguns segundos de silêncio e magia. Mas encheram-me o coração de coisas positivas.

A seguir lembrou-se que era tímido, deu um salto e foi-se embora, porque afinal, o senhor gato precisa de continuar a ser fiel a si próprio e à sua reputação!...