quarta-feira, maio 13, 2009

Cortesia vs Sinceridade

Veio isto hoje a propósito de coisa nenhuma. Mas provavelmente já toda a gente conhece bem aquelas situações em que nos oferecem algo, especialmente comida, por mero gesto de cortesia. "É servido?", perguntam-nos, esperando apenas que o outro responda "não, obrigado". Para os mais refinados até há quem prolongue a coisa, e acrescente um "veja lá, não faça cerimónia", só para ouvir o outro dizer, "obrigadíssimo, mas não quero, deixe estar".

Não sei se foi o meu pai que inventou, eu por mim nunca ouvi a mais ninguém. Se calhar é aquilo que vai na cabeça de muitos quando, educadamente, fazem a perguntinha polida, à espera da resposta politicamente correcta. É, digamos, uma forma mais sincera de colocar a pergunta:

É servido, deste pouco que mal me chega, oferecido de má vontade, quem aceita não tem vergonha nenhuma?...

sexta-feira, abril 17, 2009

Do amor e outros demónios*

* Título vilmente roubado a um livro muito bonito de Gabriel Garcia Márquez cuja qualidade nada tem a ver com os disparates que irão agora seguir-se. Fica o aviso.

O meu querido companheiro tem duas características relativas ao sono das quais me apetece falar.

Uma das características, que tem a sua graça, é que ele por vezes fala durante o sono. E não deixa de ser peculiar acordar durante a noite a ouvir uma voz muito séria e compenetrada a dizer "com este já são dois presidentes da república". Ou simplesmente a dizer "jfrtsd lpvzx çptrqs".

A outra que não tem assim tanta graça chama-se ressonar. Algo que lhe causa a ele próprio bastante embaraço e tristeza por me sujeitar a tal coisa, mas que obviamente, não pode controlar. Enquanto estou acordada e durante o dia é coisa que encaro com calma, compreensão, e não o amo menos por causa disto. Mas em certas noites mais problemáticas, e estando eu desesperada a tentar dormir fico capaz de lhe desentupir as vias respiratórias com os fios dos candeeiros das mesas de cabeceira e desejar que todas, mas todas as noites da minha vida a partir daquela sejam passadas a dormir sozinha.

É especialmente bizarro quando há sexo. Porque a malta vai para a cama, aconchega-se, conversa sobre o dia que correu, os que estão para vir, faz planos e tal (o chamado convívio), a dado momento atira-se para a trungalhundice (o chamado sexo), a seguir há mais aconchego, mais carícias, muito carinho e quando finalmente se instala o cansaço, é hora de dormir. Beijinho, beijinho, até amanhã, até amanhã, e finalmente o silêncio total. Ora quando eu já estou naquele limbo entre o sono e o acordado, quase a passar-me para o lado de lá, eis que surge deitada ao meu lado uma besta que eu desconheço, com quem jamais trocaria quaisquer fluidos, mas que afinal está ali, disposta a roncar até que a minha noite se torne num verdadeiro inferno.

Já sei que, com sorte, se o conseguir fazer voltar-se sobre o seu lado direito o ronco pára. Mas como é que se faz com que um peso morto de 75 kg se volte na cama para um lado que ele não quer ir? Não é com força, porque isso é impossível. Falar também não adianta, porque quando há diálogo ele é sempre igual e é assim:

(Abanão. Abanão com mais força.)
- Amigo, vira-te para o lado, estás a ressonar...

(Resmungo, seguido de resposta em tom muito ofendido comigo e note-se, enquanto continua a dormir profundamente)
- Como é que eu posso estar a ressonar se eu estou acordado?...

(Sempre que lhe digo que ele está a ressonar, isso é sempre impossível porque ele está sempre acordado. Sempre, sempre. No dia seguinte nunca se lembra de nada. Tão querido.)

De maneiras que na maior parte das vezes o que me valem são as cócegas. Ai gostas de dormir de barriguinha para cima com os braços atirados por cima da cabeça? Então espera aí que já te lixas. Deixa cá fazer-te uma cócegazinha no sovaco que é um instante enquanto tu dás um salto para o outro lado, até parece que tens uma mola. O problema é que por vezes resulta, por vezes não...

Aqui há uns dias atrás, depois de uma noite mal dormida em que o ronco ganhou às cócegas e eu fui parar ao sofá da sala, comentava este problemazito com outra colega de infortúnio. Que depois de me ouvir lamentar-me dos roncos do meu companheiro, sensibilizada e totalmente solidária (been there, done that) pronunciou estas palavras da mais profunda sabedoria:

"Eu sinceramente não sei para que é que as mulheres levam tanto tempo a escolher um homem. A sério, se são todos iguais, para quê tanto trabalho a escolher? Podia ser um qualquer!..."

sexta-feira, abril 10, 2009

Boa Páscoa

"No cortejo dos penitentes
Vão culpados pecadores da gula
Vão culpados da sensualidade
Castigados até à medula
Vão os tíbios e frouxos no amor
Imaculados como o Criador
Vão culpados por abstinência
Vão culpados das suas carências
No cortejo dos penitentes
Os homens cortam suas próprias carnes
São ofertas que fazem aos céus
Ao mais alto de todos os céus
No cortejo dos penitentes
Os sacerdotes da austera vida
Vão contentes e muito enfeitados
Sobre as cinzas dos sacrificados
E cantam louvores
Ao Deus

Abranda Senhor
A pena dos mortos
P’ra que te louvem
Com sono quieto

No cortejo
Os penitentes
Bebem tragos da bebida amarga
Da urina que depois vomitam
Pela noite mal aventurada
No cortejo
Os penitentes
Comem postas de sangue coalhado
Da sangria dos outros romeiros
Suavemente mutilados
E cantam louvores
Ao Deus

Abranda Senhor
A pena dos mortos
P’ra que te louvem
Com sono quieto"

Fausto Bordalo Dias, "O Cortejo dos Penitentes"

Este blog

Ressente-se da minha vida actual. E receio que vá continuar a ser assim, não é apenas uma questão de falta de tempo (que é um facto), mas também de falta de outras coisas. O cansaço tolhe-me a inspiração para ficções. E quanto às realidades, tenho perfeita noção de que, para meu próprio bem e de muitos à minha volta, quanto menos expostas estiverem, melhor.

Penso cada vez mais nos meus textos, guardados na gaveta a ganhar pó, e que poderiam ser dados a conhecer por ese meio, pelo menos a alguns de vós, que à distância aprendi a estimar como se de amigos se tratassem. Porém, receio pela exibição on-line de textos inéditos, como protegê-los da apropriação de terceiros? A preguiça ainda não me deixou ir registá-los, é verdade. Mas se o fizer, será suficiente? Não é que lhes ache especial qualidade literária, mas ainda assim pertencem-me, e bons ou maus, não os quero associados a outro nome que não o meu.

Entretanto, e porque a época da Páscoa me põe sempre a pensar nas contradições da religião católica, alguém me indica ó fáxavor onde encontro a letra de uma canção do Fausto, "O Cortejo dos Penitentes"? De forma algo distorcida, é certo, julgo ser uma canção apropriada para a época, mas não a consegui encontrar.

Obrigadinha, e votos de uma grande overdose de amêndoas para todos.

quarta-feira, março 18, 2009

Era uma vez um homem velho que não queria morrer

Era um homem como outro qualquer, com virtudes e defeitos, estes mais salientes pelo azedume próprio da idade, aquelas porém fazendo-se notar apesar deles e dando conta do seu verdadeiro modo de ser. Um homem banal, que havia já cumprido a sua vida, e gozava agora o passar de dias menos agitados, próprios para a sua idade. Mas este homem, silencioso nas suas reflexões e receios, sabia para onde o levavam aqueles agradáveis dias por preencher, e embora o seu corpo pedisse já pelo merecido descanso, a cabeça segredava-lhe lá de dentro que se parasse, morria. A cabeça daquele homem velho ainda não sabia o que fazer à morte. Por isso, o homem velho lia.

Sentava-se à janela e lia muitos livros, gostava dos clássicos (afinal era um homem velho), dizia que Júlio Verne era o melhor autor de sempre. Quando não tinha nada novo para ler, relia os livros do Júlio Verne. E para se alimentar de novas leituras, pedia à filha que lhe trouxesse livros, daqueles que ela não tinha tempo para ler porque vivia ainda num tempo em que os dias eram muito agitados e à sua cabeça nem lhe ocorriam cogitações que tivessem a morte como possibilidade.

A filha gostava de ver o homem velho a ler à janela. Olhava para as suas prateleiras e escolhia livros para lhe levar, tinha muitos, mas com o passar do tempo já todos haviam sido lidos. No entanto, era preciso continuar a alimentar a cabeça do homem velho com livros, porque aquela leitura para passar o tempo era a chave que fazia com que o tempo não passasse tão depressa. Então um dia a filha, que muito estimava o seu pai e queria que ele vivesse para sempre, começou a comprar novos livros que lhe agradariam a si própria ler, mas que não lia, por causa da agitação dos seus dias. E foi assim que, por muitos e muitos anos, o homem velho foi descobrindo antes dela a magia daqueles livros que serviam para prolongar a vida, ocupando depois o seu lugar nas prateleiras. Aqueles livros tornaram-se também num excelente tema de conversa e de partilha, deste não gostei, aquele é interessante, este já podes levar, li-o em dois dias, não conseguia parar.

Quando enfim a lógica da vida se impôs, que é como quem diz, a morte chegou e levou o homem velho, a filha estava grata aos livros por cada minuto a mais de vida plena que o seu pai tinha alcançado com a ajuda deles. É claro que os livros não conseguiram, nem a isso estavam obrigados, preencher o imenso vazio que se instalou com a morte do homem velho, e que todos os que o amaram vieram a descobrir dentro de si próprios. A mesma lógica de vida fez novamente o seu papel, e apesar do vazio, ou melhor, levando-o o consigo para sempre, todos seguiram com os seus assuntos. Ficaram os livros, à espera.

Chegou enfim o tempo em que a filha se tornou ela própria numa mulher velha, de dias pouco agitados. Como quem regressa à companhia de velhos amigos, voltou a percorrer com os dedos as suas prateleiras, pejadas de livros dos quais apenas tinha ouvido falar. A sua cabeça dizia-lhe baixinho que se parasse, morria. Os livros ali estavam, para que se alimentasse deles.

Segura de que a vida ainda tinha muita coisa nova para lhe dar a descobrir, e que a morte tinha ainda que esperar que terminasse a leitura de muitos milhares de páginas, sentou-se à janela, colocou os óculos e começou a ler.

quinta-feira, março 12, 2009

Interessante


Sendo os U2 uma banda que nunca buliu um átomo que seja com o meu gosto musical (ok, podem começar a chover as pedradas e decretos de excomunhão), não deixa de ser curioso que me tenha calhado uma das poucas músicas de que gosto.

Private Joke: E realmente acho que não se percebe nada do que o Bono diz enquanto canta.

sábado, fevereiro 28, 2009

Verdades e mentiras

Aqui estão elas:

1. Já participei num espectáculo de teatro em que fazia strip-tease.
Verdade. No contexto de um espectáculo de sensibilização ambiental, em 1995, eu era uma das musas do rio Tejo e despia voluptuosamente uma capa que simbolizava a poluição que ia pelo rio. Sí tirei a capa. Mas como em qualquer espectáculo de strip, o que faz o efeito todo não é o que se mostra por baixo da roupa, mas sim a maneira como se tira a roupa. São anos da minha vida cheios de recordações maravilhosas e guardo-os sempre com muito carinho, mesmo sabendo que, em alguns momentos, fiz opções que nos anos seguintes se fizeram pagar bem caro.

2. Guardo religiosamente um autógrafo de Phil Collins, conquistado em Julho de 2004 no Avalade XXI.
Mentira. Gosto muito das músicas do Phil Collins, "Against All Odds" é um guilty pleasure sem dúvida, e lamento bastante nunca o ter visto ao vivo, mas realmente nunca aconteceu tal coisa. Além disso, também não sou muito de andar a sacar autógrafos, de maneiras que se o tivesse ido ver, um autógrafo é coisa que certamente não iria pedir.

3. Nunca fumei um único cigarro na vida, nem sequer uma passa, nem de tabaco nem de outra coisa qualquer.
Verdade. Nunca senti essa vontade, ou curiosidade, ou o que quer que seja que leve as pessoas a fumar. Não percebo as motivações que estão por trás de mexer numa coisa que cheira mal, que é cara e que toda a gente sabe que provoca problemas de saúde. Dizem que sabe bem. Pois. Wathever.

4. De todas as vezes que tive acidentes de viação, estava parada ou circulava a menos de 10 kms/hora.
Verdade. Felizmente também não se contam muitos, mas num deles fazia uma curva depois de ter parado num stop e surgiu do nada uma mota que embateu quando eu já quase tinha completado a curva. Numa noite de carnaval em que todos os cinco ocupantes do meu carro estavam mascarados, foi bizarro. Numa segunda vez estava mesmo estacionada na berma. Um carro bateu noutro, que por sua vez veio bater no meu, desgovernado.

5. Adoro filmes de espionagem ou de mafiosos.
Mentira. Estes e filmes de terror são géneros que eu não aprecio de todo. Talvez porque sou muito susceptível e com tendência a viver intensamente a acção de qualquer filme. Estamos a falar de uma pessoa que chora a ver o Dumbo. De todas as vezes que vê o Dumbo.

6. Acredito piamente que os computadores absorvem a ansiedade das pessoas e por isso avariam nos momentos mais críticos.
Verdade. E posso prová-lo empiricamente. Diga-me lá o leitor se de todas as vezes em que o computador se passou não foi sempre em vésperas de entregar aquele trabalho do qual dependia a sua vida? E quando perdeu documentos, não foram sempre aqueles relatórios de 50 páginas que lhe levaram semanas a fazer e dos quais, obviamente, não fez backups? Vai-me dizer que a máquina avariou alguma vez quando só tinha começado a escrever meia-dúzia de linhas? Não, pois não? Lá está.

7. Sou especialmente boa a memorizar fisionomias e nomes de pessoas.
Mentira. É dos meus maiores andicaps. E as agruras que isto me traz. Num segundo dizem-me o nome de uma pessoa, no segundo seguinte eu já não me lembro de como é que se chama. Uma cara que eu veja uma única vez durante pouco tempo, posso passar por ela pouco tempo depois que já não sei de quem se trata. Agora então com o trabalho que eu tenho, isto é uma coisa que me traz verdadeiro sofrimento. Ter que estabelecer onde é que se sentam pessoas que eu não conheço de lado nenhum e memorizar-lhes os nomes e as caras para saber para onde as encaminho, fico com suores frios só de pensar nisso.

8. Tenho uma certa tensão sexual em relação ao Eng.º Sócrates.
Verdade. O macho que se apresente com tiques de arrogância, frieza e determinação tem muito boas condições de me conseguir dar a volta. É um certo estilo "special one" que eu acho extremamente atraente. Uma tendência que me tem trazido muitos amargos de boca ao longo da vida, mas que não envolveram em momento algum o Eng.º Sócrates. Até à data, pelo menos, que o futuro a Deus pertence.

9. A última coisa que faço todas as noites antes de ir para a cama é pentear o cabelo.
Verdade. Porque no dia seguinte fica mais fácil de pentear. Tão simples quanto isso.

sábado, fevereiro 21, 2009

Que eu nem gosto de correntes

... a não ser daquelas às quais acho piada.

Formulada esta frase de grande coerência, e depois de fazer uma pequena fita blogosférica porque uma certa pessoa não me incluiu numa corrente à qual achei piada, salvou a honra do convento o Filipe, que me colocou no rol dos que deverão fazer o seguinte: apresentar uma lista de 9 coisas sobre mim em que 3 delas sejam mentira.

E de maneiras que a coisa reza assim:

1- Já participei num espectáculo de teatro em que fazia strip-tease.
2 - Guardo religiosamente um autógrafo de Phil Collins, conquistado em Julho de 2004 no Avalade XXI.
3 - Nunca fumei um único cigarro na vida, nem sequer uma passa, nem de tabaco nem de outra coisa qualquer.
4 - De todas as vezes que tive acidentes de viação, estava parada ou circulava a menos de 10 kms/hora.
5 - Adoro filmes de espionagem ou de mafiosos.
6 - Acredito piamente que os computadores absorvem a ansiedade das pessoas e por isso avariam nos momentos mais críticos.
7 - Sou especialmente boa a memorizar fisionomias e nomes de pessoas.
8 - Tenho uma certa tensão sexual em relação ao Eng.º Sócrates.
9 - A última coisa que faço todas as noites antes de ir para a cama é pentear o cabelo.

E agora, aqui vai o desafio para a Xana, o doutor JC, Quim, Redjan, a Olinda, Susana, Ana Raquel, Rui, e Patologista. Enjoy!

(e se não acharem piada ignorem, que é o que eu faço na maior parte das vezes)

PS: É suposto a malta agora pôr-se a adivinhar sobre quais são mentira, por isso estejam à vontade, tirando a Xana, que já sabe todas! :-)

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Metafísica, e da boa

Ouvindo doutos representantes da Igreja Católica nos últimos tempos, deu-me vontade de pedir a essa sagrada instituição que esclareça a minha pobre cabeça loira sobre esta dúvida que me anda a atormentar:

De entre os seguintes atentados às leis da natureza e aos mais básicos princípios da ordem moral e dos bons costumes, qual deles é o pior?

Hipótese A: Homossexual casar com homossexual;

Hipótese B: Mulher heterossexual casar com homem heterossexual, porém este último sendo muçulmano;

Hipótese C: Homem e mulher heterossexuais, a borrifarem-se para a igreja e para o que dizem os padres, andarem na trungalhunguice, partilhando vivências, contas bancárias e diversos tipos de fluidos corporais sem estarem casados.

Pensando bem, deixem lá estar a resposta. Assim como assim, cada um sabe de si, e a haver Deus, deve chegar para olhar por todos.

Até dos padres que dizem, tipo, coisas.

Ou de outra forma, não seria Deus.

domingo, fevereiro 08, 2009

Auto-estima, ou a ausência dela

Quem me dera não viver tão permanentemente com esta sensação de culpa. Porque não fui suficientemente boa, suficientemente rápida, suficientemente esperta, suficientemente justa, suficientemente disponível, suficientemente atenta, a culpa é sempre, mas sempre, toda minha.

E quando me pergunto se podia ter feito mais, se podia ter ido mais além, a resposta que dou a mim própria é implacável e diz-me sempre que podia sim senhor, ter feito mais. Então vem este desânimo de pensar que mesmo dando tanto de mim, parece que nunca é o suficiente.

Racionalmente sei considerar que não será bem assim, até porque há tanta coisa que nem eu nem ninguém pode controlar. Mas o que me mata devagarinho é esta angústia permanente que me condena a sentir-me sempre, se não culpada de tudo, de certeza que de alguma coisa.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Perdidos, literalmente (ou isto há coisas que só comigo)

Meses a programar esta compra. Mas era certo que ia ser feita. Que eu quando gosto de algo sempre tive esta característica, exploro a coisa até à exaustão, uma coisa assim meio obssessiva. E de maneiras que quando é assim quero ter os originais, não é cá piratarias, quero ter tudo e saber tudo e conhecer todas as curiosidades, leio sobre os autores, os actores, o que foi e o que está para ser. É por causa desta mania que só me faltam 3 volumes para ter a obra completa do Saramago, que do Gabriel Garcia Márquez também tenho uma data deles, do Robert A. Heinlein julgo ter hoje em dia todos os que foram publicados em Português (os muito bons e os que não valem a ponta de um caracol), tenho a série "Norte e Sul" toda gravadinha em vhs e devidamente arrumada a ganhar pó, e faltava-me imperdoavelmente a segunda temporada de "Perdidos" para fazer companhia à primeira, terceira e quarta que já cá moram.


Ora aproveitando um vale de desconto de 10 €, ontem passei pelo Jumbo e não foi tarde nem foi cedo, toca de comprar a segunda temporada, já vista e bem minha conhecida, mas que deveria ocupar o seu legítimo lugar na prateleira. De interesse só mesmo os extras e ao chegar a casa, a curiosidade mandou rasgar o papel celofane, vai de abrir a caixa com o dvd dos extras para ver o que tinha, caixa essa que veio a verificar-se, estava... vazia. Tal como a caixa com o cd número seis, cinco, quatro, três, dois e um. Todos vazios!


Lá vai ela recambiada para o Jumbo outra vez, felizmente tudo gente que me achou com cara de quem não ia roubar os dvd's das caixas para depois ir lá reclamar, então mas a embalagem estava com o celofane, estava sim senhor, mas os dvd's não estavam lá, não estavam realmente, como é que isto pode ser, não sei mas quero outra ó fáxavor, que eu não dei agora mesmo quase 40 € por uma caixa de cartão e sete caixas de plástico, o design é giro sim senhor, e sem dúvida que toda e qualquer visão do Sayid me deixa num estado de animação em pontos dentro de mim que só eu é que sei, mas há limites, minha senhora do atendimento ao cliente, há limites.


Deram-me outra. Abri e lá estavam eles, os dvd's todos dentro das respectivas caixas. Finalmente, a tão projectada aquisição consumou-se e a segunda temporada juntou-se às outras.


Vim pelo caminho a pensar. Tá bem que a série se chama "Perdidos", mas isto assim já é um bocadinho ridículo, não?... ;-)

sábado, janeiro 03, 2009

Maçãs verdes

Encontrei-a por acaso na frutaria. Já estava na caixa para ir embora mas ainda lhe faltavam umas maçãs verdes que queria comprar, perguntava à menina da caixa onde estavam.

Eu à espera com os meus limões para registar, juntei-me ao esforço de perceber o que pretendia a velhota, sem maior capacidade de se exprimir do que isto, dizendo que queria maçãs verdes. Das que fazem bem aos intestinos.

Seriam as reinetas, perguntei, disse ela que se calhar sim, a desorientação a ver-se-lhe bem nos olhos, apontámos e quando as viu disse que não, que não era nada daquilo. Eram umas maçãs verdes, que faziam bem aos intestinos, mas que se calhar afinal eram peras, e que deixássemos estar, iam da próxima vez. Rematou dizendo mais para ela que para nós, "estou mesmo maluca...", com a voz cheia de frustração e embaraço por não se conseguir fazer entender.

Consegui adivinhar que as maçãs verdes afinal eram kiwis, veio a alegria de se encontrar o fio à meada que andava perdido no meio do vazio. O mundo retomou a sua marcha normal.

Saí com os meus limões e com muita vontade de chorar. Ninguém devia passar por esta infelicidade de se ser traído pelo próprio corpo, deixando-nos incapazes para sermos autónomos, encarcerados dentro da própria cabeça, sem podermos comunicar, gradualmente a esquecermo-nos de quem somos. E ninguém devia estar sujeito a ver os que ama passarem por esta infelicidade.

Tocou-me muito fundo aquela velhota hoje. A minha mãe está na mesma, se não estiver pior. O futuro não prenuncia nada de bom.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Natal: a saga #1

Prendas a comprar: 11 (mas aposto um braço em como me estou a esquecer de alguém)

Ideias concretas sobre prendas a comprar: 2

Horas passadas hoje às compras: 6

Prendas compradas: 1 (e 1/2)

Quilómetos percorridos de carro: 87 (boa parte deles a tentar estacionar)

Quilómetros percorridos a pé: 5.973

Tentativas frustradas de encontrar estacionamento perto de uma superfície comercial: 1 (Há muito mais jovens preocupados com o seu futuro do que eu imaginava, ou então não)

Fatias de bolo-rei comidas vorazmente para dar conta da frustração: 2 (podia ter sido pior)

Amanhã é outro dia, e coiso e tal...

segunda-feira, novembro 24, 2008

Salsicha não te desgraces

Este é dos blogues mais engraçados, bem escritos e imaginativos que tenho encontrado, no género "blogue de gaja".

A maior pena que tenha é não ser eu a escrevê-lo! :-)

segunda-feira, novembro 17, 2008

A aula de ginástica mais cara da minha vida

Deve ter sido hoje.

Indo eu atrasada, a grande velocidade a caminho do ginásio, não parei numa passadeira na qual tentavam atravessar dois cidadãos, que se viram obrigados a parar para eu passar.

Eram dois polícias de segurança pública.

Ainda tive tempo de ver pelo espelho retrovisor um deles a puxar de um bloco de notas e de uma caneta, daí que tenha ficado com esta ideia, não sei...

Episódio vagamente semelhante a um sketch de gato fedorento

(No balcão do bar do ginásio, depois da aula)

- Vem buscar a sopinha?
- Sim, se faz favor.

(embrulhando a sopa)

- Então, correu bem o treininho?
- Sim... Depois não se esqueça de registar também a água que levei há pouco...
- Uma aguinha de meio-litro, certo?
- Certo (inho).

quinta-feira, novembro 13, 2008

A viagem do Elefante

"(...) Comandante, a religião hinduísta é muito complicada, só um indiano está capacitado para compreendê-la, e nem todos o consequem, Creio recordar que me disseste que és cristão, E eu recordo-me de ter respondido, mais ou menos, meu comandante, mais ou menos, Que quer isso dizer na realidade, és ou não és cristão, Baptizaram-me na índia quando eu era pequeno, E depois, Depois, nada, respondeu o cornaca com um encolher de ombros, Nunca praticaste, Não fui chamado, senhor, devem ter-se esquecido de mim, Não perdeste nada com isso, disse a voz desconhecida que não foi possível localizar, mas que, embora isto não seja crível, pareceu ter brotado das brasas da fogueira. Fez-se um grande silêncio só interrompido pelos estalidos da lenha a arder. Segundo a tua religião, quem foi que criou o universo, perguntou o comandante, Brama, meu senhor, Então, esse é deus, Sim, mas não o único, Explica-te, É que não basta ter criado o universo, é preciso também quem o conserve, e essa é a tarefa de de outro deus, um que se chama vixnu, Há mais deuses para além desses, cornaca, Temos milhares, mas o terceiro em importância é siva, o destruidor. Queres dizer que aquilo que vixnu conserva, siva o destrói, Não, meu comandante, com siva, a morte é entendida como princípio gerador da vida, Se bem percebo, os três fazem parte de uma trindade, são uma trindade, como no cristianismo, No cristianismo são quatro, meu comandante, com perdão do atrevimento, Quatro, exclamou o comandante, estupefacto, quem é esse quarto, A virgem, meu senhor, A virgem está fora disto, o que temos é o pai, o filho e o espírito santo, E a virgem, Se não te explicas, corto-te a cabeça, como fizeram ao elefante, Nunca ouvi pedir nada a deus, nem a jesus, nem ao espírito santo, mas a virgem não tem mãos a medir com tantos rogos, preces e solicitações que lhe chegam a casa a todas as horas do dia e da noite (...)"
José Saramago, A Viagem do Elefante

quinta-feira, novembro 06, 2008

Ódios de estimação

A senhora doutora antes de o ser, já o era. Soube sempre o que queria e chegou lá depressa. Nada se atravessou no seu caminho.

Programou a sua vida ao minuto e ao segundo, escolheu a dedo amigos e namorados, estes sim, que são respeitáveis e estão feitos à minha imagem e semelhança, estes não, que são inconstantes e embebedam-se, não vão à igreja, são promíscuos. Agora estudo, agora namoro, agora saio com amigos e sou muito divertida, agora caso-me e sou uma mãe de família exemplar e só me dou com gente ao meu nível. Hoje em dia é uma mulher de suceso.

Outra senhora doutora usa o título mas não o deixa entranhar-se.

Demorou muito tempo a crescer e a perceber o que queria, avançou por tentativa e erro, seguiu por caminhos pouco utilizados e isso trouxe-lhe do melhor e do pior. Portou-se mal, teve amantes, não acredita nos deuses das igrejas, nunca casou. Hoje em dia é uma mulher de sucesso.

Encontraram-se hoje por acaso, velhas conhecidas do tempo em que uma e outra não eram mais do que um projecto de mulheres adultas. Caminhos opostos percorridos, a animosidade desses tempos foi a mesma nestes tempos. Os sorrisos foram amarelos, os cumprimentos hipócritas. Ambas preferiam não se terem encontrado, não se respeitam mais hoje do que há 15 anos atrás. Apenas um pouco mais de base, baton e talvez, mais uns centímetros nos saltos dos sapatos.

Acontece que hoje, uma delas estava mais bem vestida, eh eh....