terça-feira, setembro 08, 2009

quinta-feira, setembro 03, 2009

Debates à parte #1

E o prémio "O que eu gostava mesmo era de ser apresentador do Fama Show" vai para...

O jornalista de exteriores da SIC à porta dos estúdios de Paço d'Arcos que tudo o que soube perguntar ao Jerónimo de Sousa antes do início do debate foi esta pergunta fundamental:

"Porque é que escolheu essa gravata entre o vermelho e o bordeaux?"

... À qual se seguiu uma conversa de profundo teor, com o senhor dirigente político, algo embaraçado (pudera!), a ver-se obrigado a dizer que é a esposa quem o ajuda nessas coisas.

Ao que o jornalista ainda insistiu, passando da gravata à cor do fato.

E terminando ainda com esta frase da maior relevância no que ao dever de prestar toda a informação pré-debate diz respeito:

"Francisco Louçã optou pela cor azul oxford".

Isto para mim, é uma de duas coisas: falta de preparação, uma. Ou então, é mesmo um bocado panisgas.

(Reinaldo Serrano volta que estás perdoado)

segunda-feira, agosto 17, 2009

Espiral

A balança não terá essa capacidade de medição, mas eu sei bem que estou mais pesada. Carrego às costas as culpas que são minhas e as que não são, carrego angústias, medos, ansiedades, revoltas. Se tivesse a força das convicções talvez a carga fosse menos pesada, ou talvez não. Não tenho certezas disso tal como não tenho certezas de quase nada por estes dias.

Dou comigo que nem peixe no aquário, dotado de apenas um neurónio. De cada vez que completo uma volta vejo sempre a mesma porta e no entanto, surpreendo-me como se a visse pela primeira vez. E então dói como se fosse a primeira vez, e tenho que me explicar tudo de novo, desde o início, para que eu própria volte a entender porque é que tivemos que chegar a este ponto deles irem para ali. Entretanto inicia-se mais uma volta e pela altura em que chego ao fim e me vejo de frente para a porta, torna a doer. Então explico tudo de novo a mim própria, enquanto recomeço mais outra volta.

Aquilo tem uns corredores muito compridos onde ela persegue uma esperança qualquer de não deixar de andar tão cedo. Quando lá vou vê-los vou como num sonho, ando mas queria correr para lá chegar mais depressa, chego mas só queria sair e levá-los comigo para não voltar mais.

Aquilo tem um pomar muito lindo onde se espera que ele ocupe o corpo e o espírito. Receio que sejam demasiado altas as expectativas em torno daquela meia dúzia de árvores de fruto: espera-se que delas nasçam peras, figos e uma qualquer ilusão de liberdade, de bem-estar. Sim, é pelo melhor que ele lá está, embora por ele nem fosse preciso. Sim, é por vontade própria que ele lá está, por amor, por dever, por grandeza de espírito, maior que a minha, sem dúvida. Sim, sim, já me lembro disso tudo, tem tudo imensa lógica. Deixa-me cá dar mais uma volta no aquário.

E ao mesmo tempo há tanta coisa para fazer. Há uma imensidão de coisas para fazer tão grande, que me esmagam ao ponto de me faltar o ar. Coisas que eu não quero fazer, que não vejo onde arranjar forças para fazer, que não poderei deixar de fazer.

Não sei que presente é este e muito menos que futuro está por vir. Assim de repente, vejo ali uma porta que eu já devia reconhecer, mas que ainda preciso de voltar a explicar-me o que é que significa. E que espécie de pessoa serei eu, que a vou transpor.

Esgoto-me, para me distrair concentro-me em pormenores onomásticos: porque será que lhes chamam lares? Se calhar é pelo conforto que a palavra transmite, mas não deixa de ser um bocadinho hipócrita...

segunda-feira, agosto 10, 2009

Três Cantos


22 de Outubro, no Campo Pequeno. Bilhetes à venda a partir de 13 de Agosto. Para mim, é um lugar na 1.ª fila, por favor. :-)
Mais informação, aqui.

sábado, agosto 08, 2009

segunda-feira, agosto 03, 2009

Me liga, vai

"A TUA MENSAGEM FOI ENVIADA CORRECTAMENTE, SORTE NA PROCURA DE PARCEIRO!"

Começou assim ontem à tarde, mensagem enigmática vinda de um 49990 para um telefone que não me pertence, e do qual sou mera utilizadora. Mau, pensei eu, queres ver que a gente vai-se chatear? Logo a seguir, nova mensagem, ainda por cima tratando-me por um gajo em vez de uma gaja:

"OLÁ (...) MUITO PRAZER O MEU NOME É LAURA E SOU DE AVERI (Aveiro?... Who cares?...), TENHO 24 ANOS, POSSO SABER QUE IDADE TENS TU E DONDE ÉS?"

Parti do princípio que a conversa não era comigo, sendo que a minha idade e de onde era eu seria de pouco interesse para a Laura. Mais tarde mudou o tom, deixámos a mera curiosidade amigável para algo que apelava mais ao sentimento:

"E ENTÃO MEU FOFINHO ESTÁS MESMO A DEIXAR-ME COM SAUDADES DE TI, MAS O QUE SE PASSA CONTIGO"

O que se passava, claramente, era um abuso dos meus direitos de consumidora e dos meus dados pessoais, mas pareceu-me que mais uma vez não era de mandar resposta, já que fofinho não sou e o que se passa comigo não dizia respeito ao 49990.

Mas o que foi giro nisto foi a subida gradual de tom. Ora uma vez que a amizade de esplanada de café não tinha resultado, e a conversa lamechas também não, eis senão quando nos deixámos de rodeios e o 49990 foi direito ao que verdadeiramente interessa:

"OLÁ MEU AMOR, ESTAVA A PENSAR CÁ COMIGO E GOSTAVA DE SABER COMO GOSTAS UMA CONA , COM PELOS, OU MESMO RASPADINHA?"

Ora bem. Tirando as opções que tomo em relação à minha própria, devo dizer que isto é assunto sobre o qual, na generalidade, não tenho opinião formada. De moldes que fui averiguar afinal o que é que se passava. Na Linha de Apoio TMN deram-me um número de telefone para me desligar de um serviço ao qual não aderi. Foi o que fiz, ao mesmo tempo que mandei barrar a entrada deste lixo telefónico.

Percebi entretanto que não sou a única vítima. E que os senhores de uma dita empresa chamada "NVia" não têm culpa nenhuma disto, na medida em que só fazem... fazem o quê, deixa cá ver ao link do outro desgraçado... Ah, é isso fazem uma "conexão técnica". A culpa está algures nas malhas da internet e ninguém sabe de quem é, nem quem são os criminosos que induzem pessoas a esta porcaria, nem de que forma (e isso é que é ainda mais grave) têm acesso aos números de telefone que metem no sistema sem o consentimento dos próprios.

Felizmente fui prudente não respondendo, e pelo menos não incorri em custos inúteis para a entidade que paga aquele telefone. Diz que só cobram (2,00 €!) a quem mandar mensagens e entrar neste disparate.

Pois caros senhores da "NVia", como tenho a certeza que vão continuar impunes e ainda vão burlar muita gente pelos anos fora sem que ninguém vos deite a mão, vai daqui a minha mensagem que tem duas vantagens, não vos dá dinheiro a ganhar e deixa-me a mim com a bília mais aliviada: que vão todos levar na conexão técnica, tenha ela pêlos ou não, de forma persistente e violenta, causando-vos muita dor. É o que vos desejo.

domingo, julho 26, 2009

É que não há limites para a competição feminina

Ele (casual, descontraído): Eh pá, que noite tão agitada. Tive dois sonhos eróticos!...

Ela (curiosa, fingindo-se indiferente): Sim?... Com quem?...

Ele (sincero, totalmente inconsciente do perigo): Um deles, contigo. O outro, com uma garota que já não devo ver há uns 20 anos. Que raio de coisa...

Ela (ligeiramente ressabiada): Então e qual dos dois é que foi melhor? O que tiveste comigo ou o que tiveste com a outra?!...

sábado, julho 25, 2009

Assim, sem mais nem menos...

... vem a pergunta do banco de trás do carro, saída do pirralho com 9 anos:
- Já cometeste erros?

A resposta, politicamente correcta porém sincera, sai em tom pedagógico e afectuoso:
- Ehr... Já, claro, sabes que é normal errar, toda a gente comete erros...

Breve pausa e nova pergunta:
- Que erros cometeste?...

Resposta irreflectida, deitando abaixo toda a pedagogia da anterior:
- Queres que te fale do maior de todos, ou ficamo-nos por um ou outro mais corriqueiro?!...

(esta miudagem pequena não imagina o que são 37 anos de bagagem emocional!...)

quarta-feira, julho 22, 2009

Rotinas de Verão

São boas. Mesmo com um tempo meio estranho, agradam-me estes dias a um ritmo menos acelerado.

Sair de casa mais tarde porque já sei que não há trânsito e há mais lugares disponíveis para estacionar. Ler o jornal enquanto se toma o pequeno-almoço sentada, com calma.

Invariavelmente pergunto-me qual a razão objectiva de não me dar a estes luxos também no resto do ano. Aparentemente, nenhuma. Mas a verdade é que... não dá. Porque é preciso chegar cedo para adiantar qualquer coisa, porque o telefone começa a tocar antes das nove da manhã e se calhar depois das nove da noite ainda não parou, porque por mais livros de auto-ajuda que a malta leia, não me venham com tretas, o ritmo não somos nós que o queremos assim, mas não querendo ficar para trás, resta-nos correr atrás dele.

Ah e tal, mas só é assim porque queres, ou permites, ou qualquer coisa do género. É verdade. A opção por um ritmo menos exigente é sempre possível. Lá chegaremos, o Alentejo não se vai acabar tão depressa.

Por agora, é aproveitar bem o prazer das rotinas de Verão. Ou como diria alguém, aproveitar as descidas, que as subidas custam muito...

terça-feira, julho 07, 2009

Requiem

A questão é que penso demasiado na morte, ultimamente. E não é por nenhuma tendência suicida, por mania ou outro qualquer problema do foro mental. É só porque há alturas em que a consciência da morte se impõe mais do que outras, e esta é seguramente uma delas.

Toda a gente sabe que a morte existe e não poupa ninguém. Toda a gente se depara por vezes com esse olhar sobre si próprio, sobre aqueles que ama, e nessa altura pensamos, existe esta coisa da morte que faz com que tudo termine. A grande vantagem é logo de seguida a nossa cabeça se ter que ocupar com outras coisas da vida, e rapidamente o nosso cérebro produz aquele pensamento reconfortante, está bem, isso vai ser assim, mas por enquanto ainda não, segue em frente.

Acontece que por estes dias a morte materializa-se e não me permite esse conforto. Curiosamente, já há uns meses me deu um sinal muito claro, quando me acidentei na Auto-Estrada, e só por mera casualidade (essa entidade de longe muito mais misteriosa que a própria morte), aqueles segundos não foram os meus últimos e/ou os últimos de quem ia comigo. Qual dos dois cenários o pior.

Mas a maior consciência da morte vem hoje em dia dos meus pais, especialmente da minha mãe, à medida que a vejo mais debilitada dia após dia. A pergunta que se impõe é o que fazer, não contra a morte em si, porque essa já sabemos que nada podemos contra ela, mas o que fazer face ao tempo que antecede a morte, face ao sofrimento físico, mental e emocional inerente aos dias que passam sem que possamos ser aquilo que sempre fomos. E que pode ser de dias, meses, anos.

O que fazer? O que é que cada um de nós (filhas, netos, marido) podemos e estamos dispostos a fazer, que sacrifícios poderemos nós fazer em nome de algo que diminua esses sofrimentos? E se o que fizermos apenas contribuir para os aumentar? E se aquilo que imaginamos ser apoio e bem-estar para os dois for apenas infelicidade, isolamento, abandono? E se com isto estivermos a abrir as portas à demência para quem está são?...

Hoje, no dia em que os levo a ambos ao funeral de um parente próximo, todos mais ou menos da mesma idade, temos bem presente a consciência de que qualquer um deles poderá ser o próximo, tal como diz a anedota. Não imagino, não consigo imaginar quanto me fará sofrer a morte dos meus pais. Mas tenho já uma noção muito clara do quanto me atormenta a ideia de que, pelas minhas acções bem intencionadas, possa estar a contribuir para que qualquer um deles morra mais depressa, ou lhes traga mais sofrimento à sua vida.

Estou certa de que nada pode continuar como está, e por isso alguma coisa tem que se fazer. Mas levar os meus pais para uma instiuição está a ser das decisões mais dolorosas que já tive que tomar em toda a minha vida.

domingo, junho 28, 2009

How terribly strange to be seventy

Numa fase especialmente ambígua a nível de sentimentos e emoções, tentei hoje expressá-los aqui, mas não consegui. Entretanto lembrei-me desta música, que sempre me fez chorar quando a ouvia. Dá conta de uma dura realidade que infelizmente me bate à porta.



Para certas coisas na vida, nunca se está preparado. Como diria Gabriel Garcia Márquez, "Deus nos livre daquilo que conseguimos aguentar".

sexta-feira, junho 12, 2009

Abriu a época balnear


Praia sem vento. Primeiros raios de sol. Protector solar factor 30. Carapaus grelhados com o sabor maravilhoso que vem do carvão, da vista de mar e das amizades mais profundas, mais fortes que há no mundo. Fortes como o aço. Parabéns, irmã!... ;-)

sábado, junho 06, 2009

Educar pela arte

Por vezes, encontramos quem consiga expressar exactamente aquilo que pensamos sobre um determinado assunto, com a clareza que infelizmente não possuimos. Nestas alturas, humildemente calamo-nos e deixamos o outro falar:




terça-feira, maio 26, 2009

The woman who can't be moved *

Não gosta da canção. Acha a ridícula, irrita-a. A ideia de alguém que cristaliza a própria vida enquanto o outro segue em frente, eternamente à espera do especial favor de ser amado, a si não lhe parece romantismo. Parece-lhe, isso sim, algo muito, muito estúpido.

Quando passa na rádio, muda de estação. É que não suporta ouvir aqueles versos, declamados por quem afirma não ter escolha e nada mais lhe restar a não ser esperar. "How can I move on when I'm still enlove with you". Desprezível. Seguir em frente não é uma opção, é uma inevitabilidade, que palermice vem a ser esta. E aliás, ninguém merece não viver a sua vida.

No correr dos seus dias não podia estar mais longe desta utopia romântica que a canção apregoa. Buraco no seu mundo uma ova, prefere sem dúvida os buracos nos sapatos. Ninguém ama assim, um amor assim não existe, ponto final. Se existisse seria ainda mais ridículo do que todas as cartas de amor ridículas do Fernando Pessoa, mais trágico do que a mais trágica das tragédias de Shakespeare, e toda a gente sabe que isso não é possível. Este não-sei-quantos que inventou esta cançãozeca (que daqui a dois dias já ninguém se lembra quem é), não se vai com certeza comparar a verdadeiros entendidos destas coisas do amor e do romantismo, como são Fernando Pessoa ou Shakespeare, e isto só para dar dois nomes, haja ordem nisto, quer dizer.

A esquina onde o encontrou pela primeira vez, já não se lembra onde é, nem lhe interessa. Não pretende acampar lá nem sonha com o dia em que a ele lhe dê jeito voltar ao mesmo local de sempre. Não lhe oferece de bandeja essa satisfação. Segue em frente, todos os dias um lugar diferente, há os amigos, há coisas para fazer no trabalho e há as coisas para fazer nos tempos livres, há namorados novos, e quando não os há, há ela própria bastando-se a si mesma com tudo o que faz e que construiu, depois que ele a deixou parada numa esquina igual àquela em que, o tal homenzinho idiota, está parado à espera.

Um amor assim não existe. É por isso que odeia a tal canção, e é isto que grita à parte de si que está emparedada no fundo da masmorra, no buraco mais fundo e obscuro de si própria. Que um amor assim não existe.

Esse eu que está encarcerado, de tanto ouvir falar no ridículo do amor, acabará por morrer à fome e um dia será apenas mais um cadáver arrumado num armário. O eu encarcerado é aquele que está disposto a esperar. Mesmo sabendo que todos os outros eus caminham, espera, mesmo percebendo que não há esperança, espera, porque não encontra outro sentido em si mesmo que não seja esperar. Por enquanto, não se lhe pode dar a ouvir "the man who can't be moved".

De portas trancadas pela firmeza das suas convicções, ela não tem dúvidas que a canção é ridícula e fala de coisas que não existem. Porém, nas noites mais longas, a maldita música ecoa dentro de si mesma mais do que gostaria e muitas vezes fá-la rebolar na cama, sem que consiga dormir.

À superfície, surgem então as lágrimas que não se conseguem conter.

No fundo da masmorra, monta-se a tenda para mais uma noite passada ao relento.

* Inspirado em "The man who can't be moved", dos The Script,
e nos amores ridículos do dia-a-dia.

quarta-feira, maio 13, 2009

Cortesia vs Sinceridade

Veio isto hoje a propósito de coisa nenhuma. Mas provavelmente já toda a gente conhece bem aquelas situações em que nos oferecem algo, especialmente comida, por mero gesto de cortesia. "É servido?", perguntam-nos, esperando apenas que o outro responda "não, obrigado". Para os mais refinados até há quem prolongue a coisa, e acrescente um "veja lá, não faça cerimónia", só para ouvir o outro dizer, "obrigadíssimo, mas não quero, deixe estar".

Não sei se foi o meu pai que inventou, eu por mim nunca ouvi a mais ninguém. Se calhar é aquilo que vai na cabeça de muitos quando, educadamente, fazem a perguntinha polida, à espera da resposta politicamente correcta. É, digamos, uma forma mais sincera de colocar a pergunta:

É servido, deste pouco que mal me chega, oferecido de má vontade, quem aceita não tem vergonha nenhuma?...

sexta-feira, abril 17, 2009

Do amor e outros demónios*

* Título vilmente roubado a um livro muito bonito de Gabriel Garcia Márquez cuja qualidade nada tem a ver com os disparates que irão agora seguir-se. Fica o aviso.

O meu querido companheiro tem duas características relativas ao sono das quais me apetece falar.

Uma das características, que tem a sua graça, é que ele por vezes fala durante o sono. E não deixa de ser peculiar acordar durante a noite a ouvir uma voz muito séria e compenetrada a dizer "com este já são dois presidentes da república". Ou simplesmente a dizer "jfrtsd lpvzx çptrqs".

A outra que não tem assim tanta graça chama-se ressonar. Algo que lhe causa a ele próprio bastante embaraço e tristeza por me sujeitar a tal coisa, mas que obviamente, não pode controlar. Enquanto estou acordada e durante o dia é coisa que encaro com calma, compreensão, e não o amo menos por causa disto. Mas em certas noites mais problemáticas, e estando eu desesperada a tentar dormir fico capaz de lhe desentupir as vias respiratórias com os fios dos candeeiros das mesas de cabeceira e desejar que todas, mas todas as noites da minha vida a partir daquela sejam passadas a dormir sozinha.

É especialmente bizarro quando há sexo. Porque a malta vai para a cama, aconchega-se, conversa sobre o dia que correu, os que estão para vir, faz planos e tal (o chamado convívio), a dado momento atira-se para a trungalhundice (o chamado sexo), a seguir há mais aconchego, mais carícias, muito carinho e quando finalmente se instala o cansaço, é hora de dormir. Beijinho, beijinho, até amanhã, até amanhã, e finalmente o silêncio total. Ora quando eu já estou naquele limbo entre o sono e o acordado, quase a passar-me para o lado de lá, eis que surge deitada ao meu lado uma besta que eu desconheço, com quem jamais trocaria quaisquer fluidos, mas que afinal está ali, disposta a roncar até que a minha noite se torne num verdadeiro inferno.

Já sei que, com sorte, se o conseguir fazer voltar-se sobre o seu lado direito o ronco pára. Mas como é que se faz com que um peso morto de 75 kg se volte na cama para um lado que ele não quer ir? Não é com força, porque isso é impossível. Falar também não adianta, porque quando há diálogo ele é sempre igual e é assim:

(Abanão. Abanão com mais força.)
- Amigo, vira-te para o lado, estás a ressonar...

(Resmungo, seguido de resposta em tom muito ofendido comigo e note-se, enquanto continua a dormir profundamente)
- Como é que eu posso estar a ressonar se eu estou acordado?...

(Sempre que lhe digo que ele está a ressonar, isso é sempre impossível porque ele está sempre acordado. Sempre, sempre. No dia seguinte nunca se lembra de nada. Tão querido.)

De maneiras que na maior parte das vezes o que me valem são as cócegas. Ai gostas de dormir de barriguinha para cima com os braços atirados por cima da cabeça? Então espera aí que já te lixas. Deixa cá fazer-te uma cócegazinha no sovaco que é um instante enquanto tu dás um salto para o outro lado, até parece que tens uma mola. O problema é que por vezes resulta, por vezes não...

Aqui há uns dias atrás, depois de uma noite mal dormida em que o ronco ganhou às cócegas e eu fui parar ao sofá da sala, comentava este problemazito com outra colega de infortúnio. Que depois de me ouvir lamentar-me dos roncos do meu companheiro, sensibilizada e totalmente solidária (been there, done that) pronunciou estas palavras da mais profunda sabedoria:

"Eu sinceramente não sei para que é que as mulheres levam tanto tempo a escolher um homem. A sério, se são todos iguais, para quê tanto trabalho a escolher? Podia ser um qualquer!..."

sexta-feira, abril 10, 2009

Boa Páscoa

"No cortejo dos penitentes
Vão culpados pecadores da gula
Vão culpados da sensualidade
Castigados até à medula
Vão os tíbios e frouxos no amor
Imaculados como o Criador
Vão culpados por abstinência
Vão culpados das suas carências
No cortejo dos penitentes
Os homens cortam suas próprias carnes
São ofertas que fazem aos céus
Ao mais alto de todos os céus
No cortejo dos penitentes
Os sacerdotes da austera vida
Vão contentes e muito enfeitados
Sobre as cinzas dos sacrificados
E cantam louvores
Ao Deus

Abranda Senhor
A pena dos mortos
P’ra que te louvem
Com sono quieto

No cortejo
Os penitentes
Bebem tragos da bebida amarga
Da urina que depois vomitam
Pela noite mal aventurada
No cortejo
Os penitentes
Comem postas de sangue coalhado
Da sangria dos outros romeiros
Suavemente mutilados
E cantam louvores
Ao Deus

Abranda Senhor
A pena dos mortos
P’ra que te louvem
Com sono quieto"

Fausto Bordalo Dias, "O Cortejo dos Penitentes"

Este blog

Ressente-se da minha vida actual. E receio que vá continuar a ser assim, não é apenas uma questão de falta de tempo (que é um facto), mas também de falta de outras coisas. O cansaço tolhe-me a inspiração para ficções. E quanto às realidades, tenho perfeita noção de que, para meu próprio bem e de muitos à minha volta, quanto menos expostas estiverem, melhor.

Penso cada vez mais nos meus textos, guardados na gaveta a ganhar pó, e que poderiam ser dados a conhecer por ese meio, pelo menos a alguns de vós, que à distância aprendi a estimar como se de amigos se tratassem. Porém, receio pela exibição on-line de textos inéditos, como protegê-los da apropriação de terceiros? A preguiça ainda não me deixou ir registá-los, é verdade. Mas se o fizer, será suficiente? Não é que lhes ache especial qualidade literária, mas ainda assim pertencem-me, e bons ou maus, não os quero associados a outro nome que não o meu.

Entretanto, e porque a época da Páscoa me põe sempre a pensar nas contradições da religião católica, alguém me indica ó fáxavor onde encontro a letra de uma canção do Fausto, "O Cortejo dos Penitentes"? De forma algo distorcida, é certo, julgo ser uma canção apropriada para a época, mas não a consegui encontrar.

Obrigadinha, e votos de uma grande overdose de amêndoas para todos.

quarta-feira, março 18, 2009

Era uma vez um homem velho que não queria morrer

Era um homem como outro qualquer, com virtudes e defeitos, estes mais salientes pelo azedume próprio da idade, aquelas porém fazendo-se notar apesar deles e dando conta do seu verdadeiro modo de ser. Um homem banal, que havia já cumprido a sua vida, e gozava agora o passar de dias menos agitados, próprios para a sua idade. Mas este homem, silencioso nas suas reflexões e receios, sabia para onde o levavam aqueles agradáveis dias por preencher, e embora o seu corpo pedisse já pelo merecido descanso, a cabeça segredava-lhe lá de dentro que se parasse, morria. A cabeça daquele homem velho ainda não sabia o que fazer à morte. Por isso, o homem velho lia.

Sentava-se à janela e lia muitos livros, gostava dos clássicos (afinal era um homem velho), dizia que Júlio Verne era o melhor autor de sempre. Quando não tinha nada novo para ler, relia os livros do Júlio Verne. E para se alimentar de novas leituras, pedia à filha que lhe trouxesse livros, daqueles que ela não tinha tempo para ler porque vivia ainda num tempo em que os dias eram muito agitados e à sua cabeça nem lhe ocorriam cogitações que tivessem a morte como possibilidade.

A filha gostava de ver o homem velho a ler à janela. Olhava para as suas prateleiras e escolhia livros para lhe levar, tinha muitos, mas com o passar do tempo já todos haviam sido lidos. No entanto, era preciso continuar a alimentar a cabeça do homem velho com livros, porque aquela leitura para passar o tempo era a chave que fazia com que o tempo não passasse tão depressa. Então um dia a filha, que muito estimava o seu pai e queria que ele vivesse para sempre, começou a comprar novos livros que lhe agradariam a si própria ler, mas que não lia, por causa da agitação dos seus dias. E foi assim que, por muitos e muitos anos, o homem velho foi descobrindo antes dela a magia daqueles livros que serviam para prolongar a vida, ocupando depois o seu lugar nas prateleiras. Aqueles livros tornaram-se também num excelente tema de conversa e de partilha, deste não gostei, aquele é interessante, este já podes levar, li-o em dois dias, não conseguia parar.

Quando enfim a lógica da vida se impôs, que é como quem diz, a morte chegou e levou o homem velho, a filha estava grata aos livros por cada minuto a mais de vida plena que o seu pai tinha alcançado com a ajuda deles. É claro que os livros não conseguiram, nem a isso estavam obrigados, preencher o imenso vazio que se instalou com a morte do homem velho, e que todos os que o amaram vieram a descobrir dentro de si próprios. A mesma lógica de vida fez novamente o seu papel, e apesar do vazio, ou melhor, levando-o o consigo para sempre, todos seguiram com os seus assuntos. Ficaram os livros, à espera.

Chegou enfim o tempo em que a filha se tornou ela própria numa mulher velha, de dias pouco agitados. Como quem regressa à companhia de velhos amigos, voltou a percorrer com os dedos as suas prateleiras, pejadas de livros dos quais apenas tinha ouvido falar. A sua cabeça dizia-lhe baixinho que se parasse, morria. Os livros ali estavam, para que se alimentasse deles.

Segura de que a vida ainda tinha muita coisa nova para lhe dar a descobrir, e que a morte tinha ainda que esperar que terminasse a leitura de muitos milhares de páginas, sentou-se à janela, colocou os óculos e começou a ler.

quinta-feira, março 12, 2009

Interessante


Sendo os U2 uma banda que nunca buliu um átomo que seja com o meu gosto musical (ok, podem começar a chover as pedradas e decretos de excomunhão), não deixa de ser curioso que me tenha calhado uma das poucas músicas de que gosto.

Private Joke: E realmente acho que não se percebe nada do que o Bono diz enquanto canta.

sábado, fevereiro 28, 2009

Verdades e mentiras

Aqui estão elas:

1. Já participei num espectáculo de teatro em que fazia strip-tease.
Verdade. No contexto de um espectáculo de sensibilização ambiental, em 1995, eu era uma das musas do rio Tejo e despia voluptuosamente uma capa que simbolizava a poluição que ia pelo rio. Sí tirei a capa. Mas como em qualquer espectáculo de strip, o que faz o efeito todo não é o que se mostra por baixo da roupa, mas sim a maneira como se tira a roupa. São anos da minha vida cheios de recordações maravilhosas e guardo-os sempre com muito carinho, mesmo sabendo que, em alguns momentos, fiz opções que nos anos seguintes se fizeram pagar bem caro.

2. Guardo religiosamente um autógrafo de Phil Collins, conquistado em Julho de 2004 no Avalade XXI.
Mentira. Gosto muito das músicas do Phil Collins, "Against All Odds" é um guilty pleasure sem dúvida, e lamento bastante nunca o ter visto ao vivo, mas realmente nunca aconteceu tal coisa. Além disso, também não sou muito de andar a sacar autógrafos, de maneiras que se o tivesse ido ver, um autógrafo é coisa que certamente não iria pedir.

3. Nunca fumei um único cigarro na vida, nem sequer uma passa, nem de tabaco nem de outra coisa qualquer.
Verdade. Nunca senti essa vontade, ou curiosidade, ou o que quer que seja que leve as pessoas a fumar. Não percebo as motivações que estão por trás de mexer numa coisa que cheira mal, que é cara e que toda a gente sabe que provoca problemas de saúde. Dizem que sabe bem. Pois. Wathever.

4. De todas as vezes que tive acidentes de viação, estava parada ou circulava a menos de 10 kms/hora.
Verdade. Felizmente também não se contam muitos, mas num deles fazia uma curva depois de ter parado num stop e surgiu do nada uma mota que embateu quando eu já quase tinha completado a curva. Numa noite de carnaval em que todos os cinco ocupantes do meu carro estavam mascarados, foi bizarro. Numa segunda vez estava mesmo estacionada na berma. Um carro bateu noutro, que por sua vez veio bater no meu, desgovernado.

5. Adoro filmes de espionagem ou de mafiosos.
Mentira. Estes e filmes de terror são géneros que eu não aprecio de todo. Talvez porque sou muito susceptível e com tendência a viver intensamente a acção de qualquer filme. Estamos a falar de uma pessoa que chora a ver o Dumbo. De todas as vezes que vê o Dumbo.

6. Acredito piamente que os computadores absorvem a ansiedade das pessoas e por isso avariam nos momentos mais críticos.
Verdade. E posso prová-lo empiricamente. Diga-me lá o leitor se de todas as vezes em que o computador se passou não foi sempre em vésperas de entregar aquele trabalho do qual dependia a sua vida? E quando perdeu documentos, não foram sempre aqueles relatórios de 50 páginas que lhe levaram semanas a fazer e dos quais, obviamente, não fez backups? Vai-me dizer que a máquina avariou alguma vez quando só tinha começado a escrever meia-dúzia de linhas? Não, pois não? Lá está.

7. Sou especialmente boa a memorizar fisionomias e nomes de pessoas.
Mentira. É dos meus maiores andicaps. E as agruras que isto me traz. Num segundo dizem-me o nome de uma pessoa, no segundo seguinte eu já não me lembro de como é que se chama. Uma cara que eu veja uma única vez durante pouco tempo, posso passar por ela pouco tempo depois que já não sei de quem se trata. Agora então com o trabalho que eu tenho, isto é uma coisa que me traz verdadeiro sofrimento. Ter que estabelecer onde é que se sentam pessoas que eu não conheço de lado nenhum e memorizar-lhes os nomes e as caras para saber para onde as encaminho, fico com suores frios só de pensar nisso.

8. Tenho uma certa tensão sexual em relação ao Eng.º Sócrates.
Verdade. O macho que se apresente com tiques de arrogância, frieza e determinação tem muito boas condições de me conseguir dar a volta. É um certo estilo "special one" que eu acho extremamente atraente. Uma tendência que me tem trazido muitos amargos de boca ao longo da vida, mas que não envolveram em momento algum o Eng.º Sócrates. Até à data, pelo menos, que o futuro a Deus pertence.

9. A última coisa que faço todas as noites antes de ir para a cama é pentear o cabelo.
Verdade. Porque no dia seguinte fica mais fácil de pentear. Tão simples quanto isso.

sábado, fevereiro 21, 2009

Que eu nem gosto de correntes

... a não ser daquelas às quais acho piada.

Formulada esta frase de grande coerência, e depois de fazer uma pequena fita blogosférica porque uma certa pessoa não me incluiu numa corrente à qual achei piada, salvou a honra do convento o Filipe, que me colocou no rol dos que deverão fazer o seguinte: apresentar uma lista de 9 coisas sobre mim em que 3 delas sejam mentira.

E de maneiras que a coisa reza assim:

1- Já participei num espectáculo de teatro em que fazia strip-tease.
2 - Guardo religiosamente um autógrafo de Phil Collins, conquistado em Julho de 2004 no Avalade XXI.
3 - Nunca fumei um único cigarro na vida, nem sequer uma passa, nem de tabaco nem de outra coisa qualquer.
4 - De todas as vezes que tive acidentes de viação, estava parada ou circulava a menos de 10 kms/hora.
5 - Adoro filmes de espionagem ou de mafiosos.
6 - Acredito piamente que os computadores absorvem a ansiedade das pessoas e por isso avariam nos momentos mais críticos.
7 - Sou especialmente boa a memorizar fisionomias e nomes de pessoas.
8 - Tenho uma certa tensão sexual em relação ao Eng.º Sócrates.
9 - A última coisa que faço todas as noites antes de ir para a cama é pentear o cabelo.

E agora, aqui vai o desafio para a Xana, o doutor JC, Quim, Redjan, a Olinda, Susana, Ana Raquel, Rui, e Patologista. Enjoy!

(e se não acharem piada ignorem, que é o que eu faço na maior parte das vezes)

PS: É suposto a malta agora pôr-se a adivinhar sobre quais são mentira, por isso estejam à vontade, tirando a Xana, que já sabe todas! :-)

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Metafísica, e da boa

Ouvindo doutos representantes da Igreja Católica nos últimos tempos, deu-me vontade de pedir a essa sagrada instituição que esclareça a minha pobre cabeça loira sobre esta dúvida que me anda a atormentar:

De entre os seguintes atentados às leis da natureza e aos mais básicos princípios da ordem moral e dos bons costumes, qual deles é o pior?

Hipótese A: Homossexual casar com homossexual;

Hipótese B: Mulher heterossexual casar com homem heterossexual, porém este último sendo muçulmano;

Hipótese C: Homem e mulher heterossexuais, a borrifarem-se para a igreja e para o que dizem os padres, andarem na trungalhunguice, partilhando vivências, contas bancárias e diversos tipos de fluidos corporais sem estarem casados.

Pensando bem, deixem lá estar a resposta. Assim como assim, cada um sabe de si, e a haver Deus, deve chegar para olhar por todos.

Até dos padres que dizem, tipo, coisas.

Ou de outra forma, não seria Deus.

domingo, fevereiro 08, 2009

Auto-estima, ou a ausência dela

Quem me dera não viver tão permanentemente com esta sensação de culpa. Porque não fui suficientemente boa, suficientemente rápida, suficientemente esperta, suficientemente justa, suficientemente disponível, suficientemente atenta, a culpa é sempre, mas sempre, toda minha.

E quando me pergunto se podia ter feito mais, se podia ter ido mais além, a resposta que dou a mim própria é implacável e diz-me sempre que podia sim senhor, ter feito mais. Então vem este desânimo de pensar que mesmo dando tanto de mim, parece que nunca é o suficiente.

Racionalmente sei considerar que não será bem assim, até porque há tanta coisa que nem eu nem ninguém pode controlar. Mas o que me mata devagarinho é esta angústia permanente que me condena a sentir-me sempre, se não culpada de tudo, de certeza que de alguma coisa.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Perdidos, literalmente (ou isto há coisas que só comigo)

Meses a programar esta compra. Mas era certo que ia ser feita. Que eu quando gosto de algo sempre tive esta característica, exploro a coisa até à exaustão, uma coisa assim meio obssessiva. E de maneiras que quando é assim quero ter os originais, não é cá piratarias, quero ter tudo e saber tudo e conhecer todas as curiosidades, leio sobre os autores, os actores, o que foi e o que está para ser. É por causa desta mania que só me faltam 3 volumes para ter a obra completa do Saramago, que do Gabriel Garcia Márquez também tenho uma data deles, do Robert A. Heinlein julgo ter hoje em dia todos os que foram publicados em Português (os muito bons e os que não valem a ponta de um caracol), tenho a série "Norte e Sul" toda gravadinha em vhs e devidamente arrumada a ganhar pó, e faltava-me imperdoavelmente a segunda temporada de "Perdidos" para fazer companhia à primeira, terceira e quarta que já cá moram.


Ora aproveitando um vale de desconto de 10 €, ontem passei pelo Jumbo e não foi tarde nem foi cedo, toca de comprar a segunda temporada, já vista e bem minha conhecida, mas que deveria ocupar o seu legítimo lugar na prateleira. De interesse só mesmo os extras e ao chegar a casa, a curiosidade mandou rasgar o papel celofane, vai de abrir a caixa com o dvd dos extras para ver o que tinha, caixa essa que veio a verificar-se, estava... vazia. Tal como a caixa com o cd número seis, cinco, quatro, três, dois e um. Todos vazios!


Lá vai ela recambiada para o Jumbo outra vez, felizmente tudo gente que me achou com cara de quem não ia roubar os dvd's das caixas para depois ir lá reclamar, então mas a embalagem estava com o celofane, estava sim senhor, mas os dvd's não estavam lá, não estavam realmente, como é que isto pode ser, não sei mas quero outra ó fáxavor, que eu não dei agora mesmo quase 40 € por uma caixa de cartão e sete caixas de plástico, o design é giro sim senhor, e sem dúvida que toda e qualquer visão do Sayid me deixa num estado de animação em pontos dentro de mim que só eu é que sei, mas há limites, minha senhora do atendimento ao cliente, há limites.


Deram-me outra. Abri e lá estavam eles, os dvd's todos dentro das respectivas caixas. Finalmente, a tão projectada aquisição consumou-se e a segunda temporada juntou-se às outras.


Vim pelo caminho a pensar. Tá bem que a série se chama "Perdidos", mas isto assim já é um bocadinho ridículo, não?... ;-)

sábado, janeiro 03, 2009

Maçãs verdes

Encontrei-a por acaso na frutaria. Já estava na caixa para ir embora mas ainda lhe faltavam umas maçãs verdes que queria comprar, perguntava à menina da caixa onde estavam.

Eu à espera com os meus limões para registar, juntei-me ao esforço de perceber o que pretendia a velhota, sem maior capacidade de se exprimir do que isto, dizendo que queria maçãs verdes. Das que fazem bem aos intestinos.

Seriam as reinetas, perguntei, disse ela que se calhar sim, a desorientação a ver-se-lhe bem nos olhos, apontámos e quando as viu disse que não, que não era nada daquilo. Eram umas maçãs verdes, que faziam bem aos intestinos, mas que se calhar afinal eram peras, e que deixássemos estar, iam da próxima vez. Rematou dizendo mais para ela que para nós, "estou mesmo maluca...", com a voz cheia de frustração e embaraço por não se conseguir fazer entender.

Consegui adivinhar que as maçãs verdes afinal eram kiwis, veio a alegria de se encontrar o fio à meada que andava perdido no meio do vazio. O mundo retomou a sua marcha normal.

Saí com os meus limões e com muita vontade de chorar. Ninguém devia passar por esta infelicidade de se ser traído pelo próprio corpo, deixando-nos incapazes para sermos autónomos, encarcerados dentro da própria cabeça, sem podermos comunicar, gradualmente a esquecermo-nos de quem somos. E ninguém devia estar sujeito a ver os que ama passarem por esta infelicidade.

Tocou-me muito fundo aquela velhota hoje. A minha mãe está na mesma, se não estiver pior. O futuro não prenuncia nada de bom.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Natal: a saga #1

Prendas a comprar: 11 (mas aposto um braço em como me estou a esquecer de alguém)

Ideias concretas sobre prendas a comprar: 2

Horas passadas hoje às compras: 6

Prendas compradas: 1 (e 1/2)

Quilómetos percorridos de carro: 87 (boa parte deles a tentar estacionar)

Quilómetros percorridos a pé: 5.973

Tentativas frustradas de encontrar estacionamento perto de uma superfície comercial: 1 (Há muito mais jovens preocupados com o seu futuro do que eu imaginava, ou então não)

Fatias de bolo-rei comidas vorazmente para dar conta da frustração: 2 (podia ter sido pior)

Amanhã é outro dia, e coiso e tal...

segunda-feira, novembro 24, 2008

Salsicha não te desgraces

Este é dos blogues mais engraçados, bem escritos e imaginativos que tenho encontrado, no género "blogue de gaja".

A maior pena que tenha é não ser eu a escrevê-lo! :-)

segunda-feira, novembro 17, 2008

A aula de ginástica mais cara da minha vida

Deve ter sido hoje.

Indo eu atrasada, a grande velocidade a caminho do ginásio, não parei numa passadeira na qual tentavam atravessar dois cidadãos, que se viram obrigados a parar para eu passar.

Eram dois polícias de segurança pública.

Ainda tive tempo de ver pelo espelho retrovisor um deles a puxar de um bloco de notas e de uma caneta, daí que tenha ficado com esta ideia, não sei...

Episódio vagamente semelhante a um sketch de gato fedorento

(No balcão do bar do ginásio, depois da aula)

- Vem buscar a sopinha?
- Sim, se faz favor.

(embrulhando a sopa)

- Então, correu bem o treininho?
- Sim... Depois não se esqueça de registar também a água que levei há pouco...
- Uma aguinha de meio-litro, certo?
- Certo (inho).

quinta-feira, novembro 13, 2008

A viagem do Elefante

"(...) Comandante, a religião hinduísta é muito complicada, só um indiano está capacitado para compreendê-la, e nem todos o consequem, Creio recordar que me disseste que és cristão, E eu recordo-me de ter respondido, mais ou menos, meu comandante, mais ou menos, Que quer isso dizer na realidade, és ou não és cristão, Baptizaram-me na índia quando eu era pequeno, E depois, Depois, nada, respondeu o cornaca com um encolher de ombros, Nunca praticaste, Não fui chamado, senhor, devem ter-se esquecido de mim, Não perdeste nada com isso, disse a voz desconhecida que não foi possível localizar, mas que, embora isto não seja crível, pareceu ter brotado das brasas da fogueira. Fez-se um grande silêncio só interrompido pelos estalidos da lenha a arder. Segundo a tua religião, quem foi que criou o universo, perguntou o comandante, Brama, meu senhor, Então, esse é deus, Sim, mas não o único, Explica-te, É que não basta ter criado o universo, é preciso também quem o conserve, e essa é a tarefa de de outro deus, um que se chama vixnu, Há mais deuses para além desses, cornaca, Temos milhares, mas o terceiro em importância é siva, o destruidor. Queres dizer que aquilo que vixnu conserva, siva o destrói, Não, meu comandante, com siva, a morte é entendida como princípio gerador da vida, Se bem percebo, os três fazem parte de uma trindade, são uma trindade, como no cristianismo, No cristianismo são quatro, meu comandante, com perdão do atrevimento, Quatro, exclamou o comandante, estupefacto, quem é esse quarto, A virgem, meu senhor, A virgem está fora disto, o que temos é o pai, o filho e o espírito santo, E a virgem, Se não te explicas, corto-te a cabeça, como fizeram ao elefante, Nunca ouvi pedir nada a deus, nem a jesus, nem ao espírito santo, mas a virgem não tem mãos a medir com tantos rogos, preces e solicitações que lhe chegam a casa a todas as horas do dia e da noite (...)"
José Saramago, A Viagem do Elefante

quinta-feira, novembro 06, 2008

Ódios de estimação

A senhora doutora antes de o ser, já o era. Soube sempre o que queria e chegou lá depressa. Nada se atravessou no seu caminho.

Programou a sua vida ao minuto e ao segundo, escolheu a dedo amigos e namorados, estes sim, que são respeitáveis e estão feitos à minha imagem e semelhança, estes não, que são inconstantes e embebedam-se, não vão à igreja, são promíscuos. Agora estudo, agora namoro, agora saio com amigos e sou muito divertida, agora caso-me e sou uma mãe de família exemplar e só me dou com gente ao meu nível. Hoje em dia é uma mulher de suceso.

Outra senhora doutora usa o título mas não o deixa entranhar-se.

Demorou muito tempo a crescer e a perceber o que queria, avançou por tentativa e erro, seguiu por caminhos pouco utilizados e isso trouxe-lhe do melhor e do pior. Portou-se mal, teve amantes, não acredita nos deuses das igrejas, nunca casou. Hoje em dia é uma mulher de sucesso.

Encontraram-se hoje por acaso, velhas conhecidas do tempo em que uma e outra não eram mais do que um projecto de mulheres adultas. Caminhos opostos percorridos, a animosidade desses tempos foi a mesma nestes tempos. Os sorrisos foram amarelos, os cumprimentos hipócritas. Ambas preferiam não se terem encontrado, não se respeitam mais hoje do que há 15 anos atrás. Apenas um pouco mais de base, baton e talvez, mais uns centímetros nos saltos dos sapatos.

Acontece que hoje, uma delas estava mais bem vestida, eh eh....

terça-feira, outubro 28, 2008

Mamas para que vos quero

De vez em quando, a mim como a toda a gente, acontecem coisas que não lembram a ninguém. E digo a mim como a toda a gente, porque embora seja habitual o recurso à expressão "isto só comigo!", mal seria que realmente o fosse, que era no mínimo uma grande injustiça para com a minha humilde pessoa, que certas coisas só se passassem comigo, logo eu que não faço mal a ninguém, para além de que ficava eu com o exclusivo de coisas para contar no blogue do género "isto só comigo", e as outras pessoas não tinham nada para contar, o que era chato.

Mas realmente, isto há coisas que só comigo. E assim introduzo a problemática da mama, ora aí está, dirão alguns, até que enfim vem aí algum assunto com interesse, por esta altura já finalmente captei a atenção de todos os que não desistiram logo ao primeiro parágrafo, para além de que a partir daqui vai ser vê-los a cair que nem tordos à procura de mamas, mais outra, isto nas próximas semanas o contador de visitas vai andar sem saber para que lado se há-de virar.

Falemos pois de mamas, mas aviso já, caro leitor e/ou pesquisador incauto, que não se vai tratar bem disso de que anda à procura. Mas como não quero deixar nenhum cliente insatisfeito, tenha a bondade de clicar aqui, e faça o favor de ir à sua vida. Obrigadinha.

Levei as minhas mamas a fazer uma ecografia mamária. Coisa banal, julgava eu, mas como disse, há coisas que só comigo. Que o meu ginecologista acha que eu, com 36 anos, sem nunca ter fumado um único cigarro na vida (é verdade, nem sequer para experimentar), nem queixas de coisa nenhuma, não tem necessidade de fazer mamografia antes dos 40. E eu, tudo bem. Lá fui eu, as mamas, a requisição do médico, bater de frente com uma outra médica que diz não senhor, a partir dos 35 ou faz as duas coisas ou não faz nenhuma. Se vem para fazer "eco" tabém tem que fazer "mamo", o seu médico é uma besta que só a manda fazer uma coisa quando devia mandar fazer as duas e ponha-se mas é a andar que já me está a maçar.

O meu doutor ginecologista (porque será que esta especialidade médica me dá sempre tanta história para contar na minha vida, valha-me a santa) manteve o que disse. Não vê necessidade nenhuma de uma mamografia. Solução? "Vá a outro lado"!...

E uma pessoa fica assim a perguntar-se quem terá razão. Já não é a primeira vez que penso nisto, dantes havia certos profissionais no mundo nos quais era suposto ter-se uma total confiança. Hoje em dia já não é mesmo nada assim. Sinto muitas vezes que antes pelo contrário, temos é que arranjar maneira de nos apetrecharmos para podermos defender os nossos interesses apesar da existência deles!

É realmente bizarro que para se lidar com os médicos o melhor seja também sabermos alguma coisa de medicina, que para se entender os advogados seja melhor irmos nós estudar as leis, para se falar com os informáticos tenhamos que... não, espera. Aí não adianta de nada estudar informática. No caso dos informáticos nada que a gente leia nos ajuda, estamos nas mãos deles. E nas dos mecânicos de automóveis também.

Médicos e advogados tudo bem, a gente pesquisa umas coisas na net, lê umas merdas e ficamos mais ou menos capazes de apresentar argumentos ou perceber quando alguma coisa não está a bater certo. Agora, informáticos e mecânicos não vale a pena, estamos nas mãos deles.

E assim termino o meu dia, um par de mamas perfeitamente ecografáveis, e ninguém que as queira ecografar. Nem mamografar, pelos jeitos.

sábado, outubro 11, 2008

Método indutivo

A verdade é que a minha casa anda no chamado desleixo, visto que há umas boas três semanas que não a limpo como deve ser (excepto no que toca a casas de banho e lençóis lavados na cama, que isto por enquanto ainda há mínimos de higiene que se impõem).

Por outro lado, nas mesmas três semanas, pouco tem sido o tempo que tenho passado em casa, o que por vezes me leva a questionar se verdadeiramente cá moro.

Logo impõe-se esta questão: também que obrigação tenho eu de manter limpa uma casa onde não vivo? Hein?...

(deixa-me cá mas é limpar o monitor, parece impossível, de onde vêm estas manchas e dedadas, que raio...)

domingo, outubro 05, 2008

Deolinda



Olha a banda filarmónica,
A tocar na minha rua.
Vai na banda o meu amor
A soprar a sua tuba.
Ele já tocou trombone,
Clarinete e ferrinhos
Só lhe falta o meu nome
Suspirado aos meus ouvidos.

Toda a gente fon-fon-fon-fon
Só desdizem o que eu digo:
"Que a tuba fon-fon-fon-fon
Tem tão pouco romantismo"
Mas ele toca fon-fon-fon-fon
E o meu coração rendido
Só responde fon-fon-fon-fon
Com ternura e carinho.

Os meus pais já me disseram
"ó filha não sejas louca!
Que as variações de Goldberg
P'lo Glenn Gould é que são boas!"
Mas a música erudita
Não faz grande efeito em mim:
Do CCB gosto da vista,
Da Gulbenkian, o jardim.

Toda a gente fon-fon-fon-fon
Só desdizem o que eu digo:
"Que a tuba fon-fon-fon-fon
Tem tão pouco romantismo"
Mas ele toca fon-fon-fon-fon
E cá dentro soam sinos!
No meu peito fon-fon-fon-fon
A tuba é que me dá ritmo.

Gozam as minhas amigas
Com o meu gosto musical
Que a cena é "electroacustica"
E a moda a "experimental"...
E nem me falem do rock
Dos samplers e dicotecas,
Não entendo o hip-hop,
E o que é top é uma seca!

Toda a gente fon-fon-fon-fon
Só desdizem o que eu digo:
"Que a tuba fon-fon-fon-fon
Tem tão pouco romantismo"
Mas ele toca fon-fon-fon-fon
E, às vezes, não me domino.
Mando todos fon-fon-fon-fon
Que ele vai é ficar comigo!

Mas ele só toca a tuba
E quando a tuba não toca,
Dizem que ele continua
Quem em vez de beijar ele sopra

Toda a gente fon-fon-fon-fon
Só desdizem o que eu digo:
"Que a tuba fon-fon-fon-fon
Tem tão pouco romantismo"
Mas ele toca fon-fon-fon-fon
E é a fanfarra que eu sigo.
Se o amor é fon-fon-fon-fon
Que se lixe o romantismo!

Espectáculo!... Alguém me manda isto em mp3?...

quarta-feira, setembro 24, 2008

domingo, setembro 21, 2008

Males que vêm por bem

Até aos 30 anos de idade fui uma absoluta nulidade em termos de actividade física. As aulas de Educação Física foram o pesadelo de toda a minha vida escolar, e cresci com a firme convicção de que não gostava de praticar qualquer desporto.

Até ao dia em que ganhei de presente uma hérnia discal. Dores de pescoço frequentes (vulgo torcicolos), mãos dormentes, dois ou três exames que tornaram a coisa oficial, um neurocirurgião a dizer que a solução era operar e que depois da operação podia ficar tudo na mesma ou pior. Estas coisas todas puseram-me a pensar que um pouco de exercício era capaz de me fazer bem à hérnia e ao resto. Foi assim que, aos 30 anos, fui nadar.

Com grande pena minha, este período negro da minha vida ditou o abandono da natação. Mesmo depois de tudo ultrapassado, alguma espécie de receio irracional de que tudo volte ao mesmo impede-me, ainda hoje, de lá voltar (mesmo sem ter garantias nenhumas de que a causa do problema tenha sido a piscina). Em contrapartida, descobri o step e a ginástica localizada, e é por lá que tenho andado nos últimos anos.

Nunca mais deixei de fazer exercício. Tornou-se numa coisa que necessito de praticar com regularidade para manter o meu bem-estar, inclusivamente o mental (a coisa mais aproximada de "não pensar em nada" que eu consigo atingir são aqueles 45 minutos de concentração absoluta em "três joelhos, sobe-e-desce, salta, corre, rápido, deita bem o ar fora, três joelhos"). E dou comigo a espantar-me com as coisas que o meu corpo se dispõe a fazer, com as suas capacidades.

Sinto-me a maior da minha rua, hoje que fiz quase 27 kms de bicicleta com toda a satisfação e boa disposição, coisa que, estou firmemente convencida, há seis anos atrás não seria possível.

Afinal, eu sempre gostei de fazer exercício. Demorei foi 30 anos a descobrir qual o exercício físico que me dá prazer fazer. E deste ponto de vista, esta hérnia discal que me acompanha foi das melhores coisas que me podiam ter acontecido.

Isso e umas calças com enchumaços no rabo, que se vendem nas lojas de desporto.

domingo, setembro 14, 2008

Alguém que me ajude pelamordedeus

Que raio aconteceu ao "sitemeter" de ontem para hoje?

Para onde foram parar os meus registos de visitantes desde Julho de 2005?

Codename? Password? Devem estar a gozar...

domingo, setembro 07, 2008

"Não gosto das suas perguntas..."

Foi o primeiro jogo do Mourinho lá naquele clube de Itália para onde ele agora foi, onde já estava o Luís Figo.

O conteúdo desta notícia, toda ela em futebolês incompreensível na maior parte do tempo, não me interessaria para nada, não fosse a resposta ao jornalista brasileiro.

Inimitável na frieza, no desprezo, na arrogância. Já vi isto umas poucas de vezes e dá-me sempre vontade de rir, põe-me bem disposta.

Não se arranja um toque de telemóvel com este "não gosto das suas perguntas"? Hein?...

Admirável. Este homem é o maior.

Oh pá, é.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Mr. U

Que saudades do Cabaret da Coxa...

Boca pouco doce

Hoje fiz um pudim instantâneo "boca doce" de morango.

Não me saiu bem.

Assim se percebe um pouco melhor até onde pode chegar a minha disfuncionalidade no que respeita à culinária.

Tenho que me dedicar antes às marcas que não precisem de juntar açúcar, porque isto desta maneira torna-se demasiado complicado...

P.S.: É claro que eu agora poderia aqui discorrer sobre a lei das compensações e de como, em contrapartida, sou extraordinariamente boa de cama, mas isso era vulgar e acima de tudo demasiado óbvio, de maneiras que vou ficar-me por aqui, ok?

P.S.2: E muito menos vou fazer trocadilhos brejeiros que relacionem o "extraordinariamente boa de cama" com a marca do pudim, que isso então, era de um mau gosto tal, que eu fico chocada só de pensar que eu pudesse eventualmente pensar numa coisa dessas.

P.S.3: Francamente, pá.

terça-feira, agosto 26, 2008

Arrependimento, consciência e responsabilidade

Esta coisa do arrependimento, julgo, é algo de inevitável na vida de qualquer um. Todos nós, num momento ou noutro, já tomámos opções das quais nos arrependemos. Ou melhor, à luz da experiência entretanto adquirida, muitas vezes até após vivenciar as consequências das opções tomadas, verificamos que afinal não tomámos a melhor decisão, dando-se aí o tal do arrependimento.

Mas sinceramente eu considero que, em situações dessas, há pouco lugar para o dito. Porque olhando para trás, para os muitos erros que fui cometendo, a verdade é que no momento em que tomei as decisões, elas eram para mim a melhor coisa a fazer, e optei com a alma e a razão, convicta de que era aquele o caminho a seguir. A compreensão do porquê de um determinado passo, que parecia tão seguro, ser afinal um passo em falso, isso veio depois, e não tinha como chegar antes. Então aí, de que serve o arrependimento? "Se soubesse o que sei hoje" é uma frase muito gira mas consola pouco e não justifica nada. A verdade é que na maior parte das ocasiões não sabia o que sei hoje, e isso é afinal a tal constante da vida.

Do meu ponto de vista, o que há a fazer é aquilo que, a cada momento, identifico dentro mim como a minha maior verdade, aquilo em que eu acredito mais profundamente e no fim, esperar pelo melhor. "Põe quanto és no mínimo que fazes", é realmente a melhor forma de andar para a frente. Não sem cometer erros, porque eles são fatais como o destino e precisamos deles para aprendermos a ser melhores do que aquilo que somos. Mas para dormir todos os dias descansada, que estou a fazer tudo, mas tudo o que me é possível, com aquilo que sou em cada momento.

Para mim, o arrependimento mora noutros momentos. Naqueles em que tomei opções que não vieram cá de dentro, em que me deixei levar em coisas nas quais não acreditava totalmente, em que disse "sim" quando queria verdadeiramente ter dito "não" ou vice-versa, e pior, quando olho envergonhada para trás e verifico que já sabia então exactamente aquilo que sei hoje, e ainda assim, incorri no erro. É aí que mora o meu arrependimento. Porque para esses erros eu não (me) dou desculpas ou panos quentes. Eu tinha tudo o que era preciso para saber melhor.

Continuo no entanto a achar que o arrependimento é uma coisa inútil. Não ensina nada, não minimiza nada, prende-nos ao passado e não nos deixa avançar. Está lá, e é tudo. Quanto aos erros, não é bem assim. Há sempre algo para fazer com eles. Por mim, encaram-se de frente e carregam-se juntamente com a restante bagagem, pois se fazem parte de nós e nos fizeram chegar aqui, não se podem largar no meio do caminho sem mais nem menos, se o que se pretende é seguir viagem.

Porque o erro de não assumir um erro pesa sempre mais do que o primeiro e para a frente é que é caminho, entre o arrependimento, a consciência e a responsabilidade, que venham elas, e ele se deixe estar por aí num canto qualquer a lamentar-se.

terça-feira, agosto 19, 2008

Anúncio do "Expresso", a 02 de Agosto

DIRECTORES DE ARTE (m/f) ( 02-08-2008 )

Perfil do candidato: O Departamento Criativo precisa de gente com bom feitio, interessante, divertida, descontraída, imaginativa, culta, bonita, com bom gosto e que cheire bem. O Departamento Comercial diz que o que faz falta é pessoas responsáveis e cumpridoras. E, uma vez mais, a Produção afirma que - dados os prazos - nada disto é possível.

Contacto: Contudo, acreditamos que por aí haverá quem queira participar neste nosso projecto. Se for assim, contactem-nos o mais depressa possível, para que não tenham de ser sempre os mesmos a trabalhar.

Observações: Seniores e Juniores

segunda-feira, agosto 11, 2008

Murphy, esse gajo incontornável

Roubei aqui. Uma delícia:

Ley de Murphy para os homens


1 - Os homens simpáticos são feios.

2- Os homens bonitos não são simpáticos.

3 - Os homens bonitos e simpáticos são gays.

4 - Os homens bonitos e simpáticos e heterossexuais estão casados.

5 - Os homens que não são lá muito bonitos, mas são simpáticos, heterossexuais e que não estão casados, não tem dinheiro.


6 - Os homens que não são lá muito bonitos, mas são simpáticos, heterossexuais, não estão casados, mas têm dinheiro, pensam que andamos atrás deles pelo dinheiro.

7 - Os homens bonitos, simpáticos, heterossexuais mas sem dinheiro andam atrás do nosso dinheiro.

8 - Os homens bonitos que não são lá muito simpáticos mas são heterossexuais e não ligam ao dinheiro, acham que não somos suficientemente bonitas.

9 - Os homens bonitos, simpáticos, heterossexuais, não casados, com dinheiro e que acham que somos lindas, são cobardes.

10 - Os homens ligeiramente bonitos, algo simpáticos, não casados, com algum dinheiro e, graças a Deus heterossexuais, que nos acham lindas, são tímidos e Nunca Dão o Primeiro Passo.

11 - Os homens que nunca dão o primeiro passo, perdem logo o interesse quando as mulheres tomam a iniciativa.

Eu acrescento: Os homens bonitos, simpáticos, não casados e heterossexuais que seriam perfeitamente capazes de dar o primeiro passo e de nos acharem lindas se nos chegassem a conhecer, têm o problema de desaparecerem ao fim de 45 minutos, quando entra o genérico final do Lost:

domingo, agosto 10, 2008

Beijing

No meio de conversas sobre este mundo e o outro, em que o denominador comum é o aniversário de uma amiga, assiste-se à repetição do espectáculo de abertura dos Jogos Olímpicos.

Espectacular, esmagador, impossível ficar indiferente.

Perante tantos milhares de jovens chineses a participar no espectáculo, há alguém que rompe o êxtase:

"Tantas bolas da Nike que podiam estar a ser feitas, pá. Sinceramente."

Fartámo-nos de rir, claro. E o vinho também era excelente. :-)

Post vagamente semelhante a uma letra da Rosa Lobato Faria

Maçãs, bananas, peras e laranjas, sim senhor, nada contra.

Mas então o que dizer das cerejas, dos pêssegos, das ameixas, dos melões, das meloas, das uvas e dos alperces?...

Do ponto de vista das frutas não há dúvidas, o Verão é de longe a melhor altura do ano!... :-)

Desabafos de volta

Está de volta o primeiro blogue que comecei a ler com regularidade. Os desabafos de um médico que tem sabido contar as histórias clínicas do ponto de vista do médico, mas também do ser humano que é. E muito, muito bem escritas. É de ler, meus amigos, é de ler.

sábado, agosto 09, 2008

"É abatê-los!..."

Ontem, SIC Notícias, aquele programa em que as pessoas telefonam para lá a dizer coisas. Inevitável o assunto do assalto na agência do BES.

E dizia um espectador, inflamado (se não me engano, polícia de profissão):
"Eu não sou violento e sou aliás contra qualquer tipo de violência. Mas nestes casos, é abatê-los, é abatê-los!..."

Mais outro que ainda acredita em sol na eira e chuva no nabal... A mim, a contradição dos termos e a convicção expressa na voz só me deu vontade de rir.

PS: E como deve estar a ser difícil ser-se brasileiro no nosso País por estes dias...

sexta-feira, julho 25, 2008

Não, não é...

"Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!..."
Álvaro de Campos

segunda-feira, julho 07, 2008

Envelhecer é...

Quando aquele tipo que conhecemos e apreciámos devidamente, quer pelo facto de ser mesmo atraente e bonito, e ainda por cima divertido, e ainda por cima inteligente, e ainda por cima simpático e educado, e alto, pá, umas mãos lindas, um sorriso de enfraquecer os joelhos a uma pessoa, uma voz daquelas mesmo masculinas, não sei se estão a ver, quente, bem timbrada. Canta bem como o raio, aliás...

Onde é que eu ia?... Ah, dizia eu, quando uma pessoa conhece um tipo como este, qual poderá ser a pior coisa que pode suceder? Não, não é ele já ter namorada, porque isso não chega a ser uma coisa má, quer dizer, é uma inevitabilidade da natureza, é um dado consumado do destino que um homem daqueles não estará disponível nunca, no momento em que repararmos nele. Nada disso. A pior coisa que nos pode acontecer na presença de tal musa inspiradora é ele tratar-nos por... você.

"Olá, está boa? Já foi àquele site ver as fotos do outro dia?...". Por você, trata-me ele. E nisto uma pessoa estatela-se no meio do chão, caída das nuvens aos trambolhões, porque ó desgraça das desgraças, onde eu ganho em experiência e maturidade, ele ganha em anos a menos. Onde ele está pleno de energia para percorrer os 100 metros, eu já vou com a endurance dos corredores de fundo. E vamos aqui reconhecer, constatar isto é coisa para desgostar uma pessoa.

Mas ainda assim, sendo tudo isto verdade, sinto-me algo injustiçada. Aquele você coloca-me mais anos em cima do que aqueles que tenho, bolas.

Vai daí, fico com vontade de lhe dizer um dia destes, amigo, não me trates por você, não me reduzas a essa condição de tia a quem se deve respeitinho. Afinal, não tenho sequer idade para ser tua mãe. Trata-me antes por tu, que é um tratamento mais compatível com as coisas que eu penso e imagino quando estou à tua frente, e que se resumem a uma certa vontade de verificar empiricamente que, na tua idade, já não precisas que eu te ensine nada.

Vontade essa que inclui, muitas vezes, vãos de escada ou lugares ermos.

quarta-feira, julho 02, 2008

A louca

Impõe-se na assistência. Fala claro, dá nomes, datas, factos. Toda a gente a escuta, impotentes todos, porque nada mais se pode fazer do que ouvi-la. Alguns arriscam sorrir ou gracejar com o vizinho do lado, outros mexem-se nas cadeiras, incomodados. A louca fala e todos a escutam, desejando não estar ali, e que ela não estivesse ali.

Por fim, cala-se. E aos nomes, datas, factos que não existem senão nela própria, são-lhe contrapostos nomes, datas, factos que existem para todos os outros, excepto para ela.

Sai invariavelmente gritando injúrias, revoltada com todos quantos, por maldade, a querem fazer passar por louca, e não vêem aquilo que é tão óbvio aos seus olhos. Na sua cabeça, já se vão formando novas realidades cujas razões e contornos não somos capazes de compreender, nem sequer de imaginar.

Na próxima oportunidade que tiver, dar-nos-á conta delas, com toda a força das suas convicções. Do lado de cá da muralha, escutaremos, derrotados.

segunda-feira, junho 16, 2008

...

Cenário:
Bomba de gasolina, de volta da maquineta que dá ar aos pneus.

Personagens:
Um gajo (ele) e uma gaja (eu), mais dois gajos, mais uma outra gaja com o filhote. E respectivas bicicletas, todas a precisarem do mesmo, ou seja, dar ar aos pneus.

Acção:
Os dois gajos já lá estavam quando chegámos. O meu gajo entabulou conversa com os outros, muito mais experientes nesta coisa de andar de bicicleta ao fim-de-semana do que nós, e ao fim de pouco tempo estava em curso conversa animada entre gajos sobre bars e outra coisa que já nem me lembro como se chama, valores inscritos nos pneus, valores a inserir na máquina, e uma coisa absolutamente misteriosa chamada "calibragem automática".

A senhora e o filhote chegaram entretanto com o mesmo objectivo e ela colocou-se a ouvir a conversa na expectativa de perceber alguma coisa. Veja-se a pequena diferença entre estar com gajo e estar sem gajo. A minha postura era totalmente diferente. Estava numa de, está aqui a bicicleta, vocês conversem lá isso, eu quero é os pneus rijinhos para quando for andar. Estivesse eu sem gajo e estaria tão à rasca quanto estava a outra senhora, a tentar ler letras e números escritos em pneus que nunca reparámos que lá estão, nem para que servem, nem o que é que dizem.

Às tantas diz a senhora, meio a desabafar, meio num tom tipo estou-mesmo-a-ver-que-não-me-desenrasco: "mas não se pode marcar um valor qualquer na máquina e está a andar?...". Como a compreendi naquele momento. Os gajos lá lhe explicaram que era melhor não, e que tinha que ser um valor igual ao que estava indicado no pneu, e assim. E a senhora ficou a contas com a máquina, aposto que se desenrascou a pôr um valor qualquer e está a andar, que era exactamente o que eu teria feito se estivesse no lugar dela.

Passeando de bicicleta, diz o meu gajo: "então mas não é óbvio para qualquer pessoa que os pneus não possam levar todos a mesma quantidade de ar?". E continua, "é que isto não é o mesmo que lavar a cabeça, em que serve um champô qualquer..."

Reflexão:
Lá está, pensei eu. Assim de repente, num Sábado de manhã que nada mais fazia prever do que um passeio de bicicleta, eis que surge, cristalino, um profundo exemplo de relevância filosófica sobre esta coisa premente que é a diferença de género. Eles até podem ser muito bons a colocar o ar adequado nos pneus. Mas são totalmente incapazes de reconhecer o champô adequado ao seu tipo de cabelo.

Conclusão:
(...) Taditos.

terça-feira, junho 10, 2008

Get Carried away

Fui ver o "Sexo e a Cidade". E se já me estava a borrifar para os críticos neo-velhos do restelo antes de ver o filme, depois de o ver então... "I curse the day you were born!", é o que tenho para vos dizer, meus caros, e ilustro o meu comentário por um gesto típico da Samantha Jones (piada apenas compreensível para quem tiver visto o filme).

Dizem que o filme é outro episódio mais longo, e pergunto eu, que mal tem isso? Para mim foi um prolongamento do prazer, foi um mudar de posição em vez de "despachar a coisa duma vez". A quem preferir a segunda possibilidade à primeira, o melhor é ir de urgência fazer depilação e repensar as suas prioridades! (outra piada apenas compreensível, e tal e tal).

É um tremendo dum desfile de moda. Cheio de coisas que sim senhor, e de outras tantas que valha-me-deus-o-que-é-aquilo. E com montanhas de sapatos, pois é. Mas convenhamos, um príncipe dos nos nossos tempos, de certezinha que nos mandava fazer um armário daquele tamanho. Encantador, simplesmente encantador. O armário. E o Mr. Big, sempre, raios o partam.

De resto, o filme declara a rotina como o inimigo n.º 1 das relações. Diz-nos que em nome destas, nunca poderemos deixar de ser quem somos, nem tão pouco esperar que os outros se tornem naquilo que não são. Fala-nos de amizade e de amor. De risos e lágrimas por conta de uma qualquer parvoíce. É mais do mesmo? Que seja. Pois se não é de tudo isto que se fazem os sonhos? E não é disto tudo que se fazem os filmes?...

"Life doesn't allways turn out to be your fantasy. That's why you need friendships that are real, to get you through it all."

PS1: E a banda sonora? Fabulosa!...

PS2: Mais em www.sexandthecitymovie.com

terça-feira, junho 03, 2008

Aquilo

"A defesa da moral pública ou dos ditos bons costumes foi, durante muitos anos, pretexto para a repressão dos cidadãos no seu quotidiano. No início dos anos 50, o beijo na boca quase só era permitido no altar, entre recém-casados (...).

A postura municipal da Câmara de Lisboa, n.º 69 035, de 2 de Janeiro de 1953, regulando o policiamento de logradouros públicos e zonas florestais, constatava que, apesar do frio, se verificava «o aumento de actos atentatórios à moral e aos bons costumes, que dia a dia se vêm verificando nos logradouros públicos e jardins (...)».

Determinava, por isso, «à Polícia e Guardas Florestais uma permanente vigilância sobre as pessoas que procurem frondosas vegetações para a prática de actos que atentem contra a moral e os bons costumes» e estabelecia uma curiosa tabela de multas.

A saber:
1. Mão na mão ............ 2$50
2. Mão naquilo ............ 15$00
3. Aquilo na mão ............ 30$00
4. Aquilo naquilo ............ 50$00
5. Aquilo atrás daquilo ............ 100$00
§ único - Com a língua naquilo: 150$00 de multa, preso e fotografado."

António Costa Santos, "Os Anos de Salazar", Vol. 10

Fico a perguntar-me (entre as muitas dúvidas que esta tabela de multas me suscita): era fotografado enquanto ainda tinha a língua naquilo, ou já depois de a ter tirado?...

segunda-feira, junho 02, 2008

Ser e Tempo

Nos meus tempos de faculdade, dediquei-me especialmente ao estudo de Heidegger. Encontrei nos seus escritos várias coisas que para mim fizeram muito sentido, em contraponto a outros autores cujos escritos nunca me fizeram sentido nenhum (limitações minhas, não deles, certamente).

Faz sentido para mim, por exemplo, que o que determina o nosso percurso pela vida seja a nossa consciência de que vamos morrer. Não fôssemos nós mortais e o nosso projecto seria, de certeza, completamente diferente daquilo que é. O tempo determina a nossa existência (e a nossa essência?), sem Tempo não há Ser.

Carpe Diem, dizem-nos os poetas, e a gente vai tentando. Aproveitamos o dia ao máximo, ou pelo menos adormecemos convencidos de que foi isso que fizémos, e olhamos confiantes para a linha do tempo que se estende à nossa frente, para o projecto de vida que queremos concretizar, um dia de cada vez, nesta coisa maravilhosa de deixarmos de ser aquilo que já fomos, para nos transformarmos naquilo que havemos de ser, e no entanto, sendo iguais a nós próprios a cada passo do caminho. Mesmo sendo a morte o único facto verdadeiramente incontornável da nossa existência, nada nos prepara para que essa linha do tempo não cumpra, vá lá, os mínimos obrigatórios.

A verdade é que às vezes não cumpre. Olhamos para o lado e vemos linhas do tempo partidas em momentos ridículos, cretinos, bons projectos de vida que se dão por terminados, sem contemplações ou margem de negociação.

E então pensamos, há que aproveitar bem o dia, realmente. Não, é claro que não é tudo maravilhoso apenas pela graça de estamos vivos. O trânsito é uma merda, o trabalho esgota-nos mais do que devia, os combustíveis estão caríssimos, só comemos porcarias e não dá nada de jeito na televisão. Mas para nós ainda há tempo. A nossa linha é tão frágil como outra qualquer, mas por enquanto, por enquanto, temos o nosso projecto nas mãos. Ainda há Tempo para Mais Ser. É aí que reside a diferença.

Para muito boa gente, esse tempo foi curto demais para tudo o que podiam e queriam ser. Acredite agora quem quiser no sentido oculto das coisas, ou em alternativa, que as coisas não têm sentido oculto nenhum.

quarta-feira, maio 21, 2008

É assim, que eu quero ser, como a Barbiiiiiee!...

O gajo que dorme comigo tem uma teoria. Que os estilistas só fazem roupa para mulheres escanzeladas porque eles são todos maricas e odeiam as mulheres, mais as formas que lhes são características. Daí que se dediquem a fazer roupa mais apropriada para vestir tábuas de engomar.

Ando há meses a tentar comprar um fato. Um fato, um simples fato de casaco e calça. Não consigo. E porquê? Porque não tenho o tal corpo de tábua de engomar.

As calças são concebidas para mulheres sem ancas. A tirania do "corte direito", já para não falar da maldita da cintura descaída, faz com que, para me caberem decentemente nas pernas, fique com meio metro de tecido a sobrar na cintura.

Os casacos, com um botão. Deixem-me que vos diga o que acontece aos casacos com um só botão, vestidos em mulheres que têm mamas. Enfolam, é o que acontece. As mulheres com mamas precisam de casacos com dois botões, dois.

Descarrega-se assim a frustação de uma mulher com ancas, cintura e mamas, após nova tentativa frustrada de encontrar um fato, num mundo dominado pelas tábuas de engomar e por quem as acha o melhor da vida...

Se alguém souber de uma loja, uma marca, que vista decentemente uma mulher de características portuguesas, a gerência agradece do fundo do coração!

terça-feira, maio 20, 2008

Moderadamente, protesta-se


É tão tipicamente português, este protesto contra o preço dos combustíveis. Vamos então fazer boicote na Galp, BP e Repsol, porque lá a gasolina e o gasóleo estão muito caros.

Então e nos outros, estão baratos, queres ver?

Mas o que será que nos impede de fazer boicote nos tais três dias, em TODOS os postos de combustível? Nos que vendem mais caro, e nos que vendem menos caro, mas ainda assim, a preços obscenos. O brando costume não chegará para tanto? Ou será que os combustíveis ainda não estão caros o suficiente, hein?...

terça-feira, maio 13, 2008

Olha! Cem mil!

A ocasião justifica. Mesmo em crise existencial, muito e muito e mesmo muito obrigada. :-)

domingo, maio 11, 2008

Ah, e tal

Até que já tinha valido a pena vir aqui escrever umas coisas. Se eu não chegasse ao fim do dia tão cansada que só o pensar nisso já me dava sono.

Também me podia justificar com a falta de tempo, e não estaria a mentir, mas a verdade é mais profunda, e é esta: auto-censuro-me. Estou para este espaço como para quem utiliza uma casa de banho pública com a porta aberta, nunca se sabe quem vai entrar e descobrir-nos com as calças para baixo.

Já não me sinto à vontade a escrever aqui, antes de escrever uma linha pergunto-me que consequências terá, e outras opções começam a perfilar-se. Orgulho-me tanto destas quase 100.000 visitas que estou prestes a celebrar... Mas este blogue está assumidamente em crise existencial. E logo se vê.

sexta-feira, abril 25, 2008

A Democracia

"A DEMOCRACIA (aforismos)

A democracia é o pior
de todos os sistemas
com excepção de todos os outros

Inda há quem se acanhe
com a pronuncia que tem
mas com cinco letras apenas
se escreve a palavra mãe
que é de todas a mais bela
mais bela que o céu azul
e aqui tem mais letras que no sul

Abel foi morto por Caim
irmão nunca vi mais ruim
trespassou Abel
que ao tombar gritou: Mãe!

A mãe, por sinal, já defunta
Levantou-se mesmo assim
Disse pra Caim
Já não és meu filho
Meu filho da mãe

A democracia é também
uma mãe mais doce que o mel
só que às vezes Abel mata Caim
Caim mata Abel

Por aqui se prova, afinal
que mãe, afinal não há só uma
só em Portugal
são mais que as mães.
Em suma:
A democracia é o pior
de todos os sistemas
com excepção de todos os outros

Há muitos países que julgam
que têm democracia
inclusive às vezes o nosso
mas encha-se de justiça o fosso
e erga-se a liberdade ao meio
que só de intenções está o inferno cheio

Não há justiça sem liberdade
e o vice-versa é também verdade
essa é a luta, no fundo
p’los direitos humanos no mundo."

Sérgio Godinho

Que pena que tenho de não encontrar isto em video. Ainda assim, Viva o 25 de Abril. Sempre, sempre.

domingo, abril 20, 2008

quinta-feira, abril 10, 2008

Pescadinha de rabo na boca

Fui às Finanças pedir uma declaração, para entregar na Segurança Social, para pedir uma declaração, para entregar nas Finanças. :-S

terça-feira, abril 08, 2008

Correntes?

Meu caro, o desafio é interessante e puxa pela imaginação, para além de imbecil, demasiado pessoal e parvo, de facto. E por isso tudo, apeteceu mesmo responder-te.

Mas depois lembrei-me de frase sábia, tão antiga que já não lhe conheço a origem.

Quem muito fala, pouco fode.

E por aqui me fico. :-)

quinta-feira, abril 03, 2008

Vivem em nós inúmeros

"Vivem em nós inúmeros, se penso ou sinto, ignoro quem é que pensa ou sente, sou somente o lugar onde se pensa e sente, e, não acabando aqui, é como se acabasse, uma vez que para além de pensar e sentir não há mais nada. Se somente isto sou, pensa Ricardo Reis depois de ler, quem estará pensando agora o que eu penso, ou penso que estou pensando no lugar que sou de pensar, quem estará sentindo o que sinto, ou sinto que estou sentindo no lugar que sou de sentir, quem se serve de mim para sentir e pensar, e, de quantos inúmeros que em mim vivem, eu sou qual, quem, quais, que pensamentos e sensações serão os que não partilho por só me pertencerem, quem sou eu que outros não sejam ou tenham sido ou venham a ser."
O Ano da Morte de Ricardo Reis
José Saramago

Foi disto que me lembrei, quando vi isto. Via Pedro Aniceto.

quarta-feira, abril 02, 2008

Mais links

É verdade, como me dizem ultimamente, que isto dos blogues nos leva por vezes a que estejamos demasiado expostos, sujeitos a amores e ódios, gratuitos todos, e por isso mesmo vazios de sentido.

No entanto, acho que também na comunidade blogueira se passa o fenómeno de nos aproximarmos tendencialmente daqueles com quem mais nos identificamos. Como acontece em qualquer situação em que se juntem grupos de pessoas, há aqueles que já conhecíamos, há os que gostamos desde o primeiro dia, há os outros que vão aparecendo e dos quais aprendemos a gostar.

Nos limites do irreal que é a blogosfera, e não confundindo afinidades com amizades (embora a alguns dos links correspondam de facto amigos e amores da vida real), mantenho a convicção de que por algum motivo são estes os que cá estão, e não outros.

E é assim que todo um conjunto de gente interessante (do meu ponto de vista, é claro), blogueira ou não, se vai agrupando aqui nesta coluna à direita. Sempre que actualizo isto penso sempre como seria interessante um dia juntar esta gente toda numa almoçarada qualquer.

Mas depois acordo, sei perfeitamente que não sou o Júlio Machado Vaz.

sábado, março 29, 2008

A donzela, o bandido e os heróis

Mais ou menos, quer dizer. Os heróis também não foram assim uma coisa completamente espectacular, até porque o bandido, coitado, era mais uma pessoa perturbada mentalmente que outra coisa, e quanto à donzela, enfim, aos anos que isso já lá vai, quem é que pensas que ainda enganas. Mas que ficou um título giro, lá isso...

Falando a sério só por um bocadinho, apanhei um susto dos grandes. Um tipo que começa por rondar o prédio e o parqueamento, apanha a porta do prédio aberta e entra, e a seguir se dirige a passos largos para tentar entrar-me em casa! Tive que dar dois passos atrás a toda a velocidade e fechar a porta à bruta, parecia filme de terror.

Nisto, chamei a polícia. Já na companhia de alguns vizinhos solidários, lá fomos controlando o louco nas suas deambulações pela vizinhança, e esperando pela salvação que tardou a chegar. Fosse o louco algo mais agressivo e mal intencionado, tempo não lhe teria faltado para o que lhe desse na vontade. Não era o caso. E já alguém até lhe reconhecia as origens, onde morava, enfim, não era de fiar, mas também não seria ele o causador de todos os males do nosso bairro.

Já o bandido andava perdido uns tantos quarteirões mais abaixo, chegou a carrinha com os heróis. Oito. Sim senhor, pensei eu, o gajo está mesmo tramado. O exagero do contingente policial era evidente e fazia sorrir os presentes, mas as mulheres riam-se mais que os homens, porque já que não nos tínhamos livrado do susto, ao menos aquilo foi uma coisa digna de se ver, ele eram polícias e mais polícias a saírem de dentro da carrinha, cada um mais, digamos, bem preparado para enfrentar qualquer ilegalidade, que o anterior.

O resto foi a chatice do costume, o que é que se passou, foi isto assim assim, muito bem, vamos abordar a pessoa, e tal, ao fim dum bocado apareceram-me em casa outra vez (já só eram dois), bilhete de identidade, papelinho, muito obrigada, ora essa, é para isso que cá estamos.

Mas sinceramente. Com um grupo tão bem preparado de agentes policiais, foi até uma pena que o delito fosse tão insignificante. Na minha imaginação, consigo ainda neste momento "visionamentalizar" os oito heróis a sairem da carrinha, e conceber perfeitamente outras formas de apoio que poderia ter sido prestado à minha frágil e delicada pessoa. Só que se calhar, nessa altura o título do post não podia ser este. Tinha que ser qualquer coisa como... Algo que eu nem sequer consigo imaginar, claro, ou pensam que eu sou o quê, alguma ordinária, queres ver?...

segunda-feira, março 24, 2008

1988

No ano bissexto de há vinte anos atrás, foi dos anos mais felizes da minha vida. Paixões platónicas? Borbulhas na cara? Amores eternos por cantores pop que afinal eram (e são!) homossexuais? Claro que sim. Mas também a descoberta de uma biblioteca com "O Memorial do Convento", de José Saramago, com poemas de Casimiro de Brito, e aulas onde haviam professores de filosofia, que falavam de coisas deslumbrantes para uma cabecinha muito oca, e por isso mesmo, muito disponível para absorver tudo o que lhe quizessem ensinar. Esqueci muitos dos meus professores de Ensino Secundário, e Superior. Mas nesse ano, houve professores que eu jamais irei esquecer.

Então não é que de repente, um destes professores aparece-me pelo google, regressado das minhas memórias de há 20 anos atrás, e fica-se-me ali, ao simples alcance de um e-mail? Cliquei no enviar sem grandes hesitações, porque o meu entusiasmo nem deu margens à timidez. E o hoje em dia catedrático professor doutor respondeu-me prontamente, mas é o mesmo, o mesmo que dava aulas ao Ensino Secundário e se sentava no bar da escola a comer bifanas! E que me dizia assim, "tiveste 17". E eu respondia, "não estava nada à espera", e dizia ele, "pois, nem eu!". Então não deixa de ser irónico, numa semana em que tanto se fala, e eu própria já falei, da miséria em que andam as nossas escolas, que um desses bons professores que felizmente também existem, surja de novo no meu caminho.

Já não sei onde li em tempos que o professor só aparece quando o aluno está preparado para aprender.

A minha descoberta resultou de pesquisas por mais estudos, que se eu pudesse era estudante sempre. Este meu professor diz que tem coisas novas para me ensinar, e que conta comigo. Eu, em estando preparada, vou.

Mas para já, para já, estou apenas a saborear este presente (mais um) que a vida me deu! :-) :-)

Nota: Coincidências? Bah!... Isso é para meninos!...

domingo, março 23, 2008

Don't you get me wrong



I only want to say
If there is a way
Take this cup away from me
For I don't want to taste its poison
Feel it burn me,I have changed I'm not as sure
As when we started
Then I was inspired
Now I'm sad and tired
Listen surely I've exceeded
Expectations
Tried for three years
Seems like thirty
Could you ask as much
From any other man?

But if I die
See the saga through
And do the things you ask of me
Let them hate me, hit me, hurt me
Nail me to their tree
I'd want to know, I'd want to know my God
I'd want to know, I'd want to know my God
I'd want to see, I'd want to see my God
I'd want to see, I'd want to see my God
Why I should die
Would I be more noticed
Than I ever was before?
Would the things I've said and done
Matter any more?
I'd have to know, I'd have to know my Lord
I'd have to know, I'd have to know my Lord
I'd have to see, I'd have to see my Lord
I'd have to see, I'd have to see my Lord

If I die what will be my reward?
If I die what will be my reward?
I'd have to know, I'd have to know my Lord
I'd have to know, I'd have to know my Lord~

Why, why should I die?
Oh, why should I die?
Can you show me now
That I would not be killed in vain?
Show me just a little
Of your omnipresent brain
Show me there's a reason
For your wanting me to die
You're far too keen on where and how
But not so hot on why
Alright I'll die!
Just watch me die!
See how, see how I die!
Oh, just watch me die!

Then I was inspired
Now I'm sad and tired
After all I've tried for three years
Seems like ninety
Why then am I scared
To finish what I started
What you started
I didn't start it
God thy will is hard
But you hold every card
I will drink your cup of poison
Nail me to your cross and break me
Bleed me, beat me
Kill me, take me now
Before I change my mind



Voice of Judas
Every time I look at you
I don't understand
Why you let the things you did
Get so out of hand
You'd have managed better
If you'd had it planned
Now why'd you choose such a backward time
And such a strange land?

If you'd come today
You could have reached the whole nation
Israel in 4 BC had no mass communication

Don't you get me wrong
Only want to know

Jesus Christ Jesus Christ
Who are you? What have you sacrificed?
Jesus Christ Jesus Christ
Who are you? What have you sacrificed?
Jesus Christ Superstar
Do you think you're what they say you are?
Jesus Christ Superstar
Do you think you're what they say you are?

Tell me what you think
About your friends at the top
Now who d'you think besides yourself
Was the pick of the crop?
Buddah was he where it's at?
Is he where you are?
Could Muhammmed move a mountain
Or was that just PR?
Did you mean to die like that?
Was that a mistake or
Did you know your messy death
Would be a record breaker?

Don't you get me wrong
Only want to know

Jesus Christ Jesus Christ
Who are you? What have you sacrificed?
Jesus Christ Jesus Christ
Who are you? What have you sacrificed?
Jesus Christ Superstar
Do you think you're what they say you are?
Jesus Christ Superstar
Do you think you're what they say you are?

Andrew Lloyd Webber Tim Rice

quinta-feira, março 20, 2008

Assustador



A vários níveis, diria. Primeiro, pela degradação a que chegam aquelas duas pessoas. Depois, pelos risos e ambiente de festa generalizada que se vive perante uma violência daquelas, contrariado apenas por, talvez, dois alunos que lá vão sentindo vagamente que aquilo não está certo e que alguma coisa tem que ser feita.

Depois ainda, pela(s) inconsciência(s) da gravidade da situação, que se vêem em expressões como "espectáculo!" e "a velha vai cair". Como se fosse tudo uma grande paródia.

Entretanto, oiço na SIC uma pedopsiquiatra a dizer que hoje em dia, para os jovens, o telemóvel é como que uma "extensão do próprio corpo", mais ou menos a justificar a reacção da aluna. Pode ser que tenha razão. Mas esta mania que Freud tem de explicar tudo às vezes irrita-me um bocadinho. Por vezes parece-me que se está a nivelar por baixo, a exigir pouco ou quase nada, e ainda assim, cada vez menos. Que quantidade brutal de erros ao nível da educação, dos afectos, é que levam um jovem àquele ponto? E mais assustador do que descobrir isso, será talvez descobrir que não há assim tantos erros, e que ainda assim foi ali que ela chegou...

Em jeito de escape, deixei-me invadir por um pensamento feito do mais puro egoísmo: aquela miudagem é a que vai andar a trabalhar para me pagar a reforma. Perante isto, é inevitável pensar cada vez mais seriamente em fazer um PPR. Seriously...