sexta-feira, junho 18, 2010

1922-2010


Julgo já ter dito em momento anterior que no ano de 1988, para o bem e para o mal, me transformei eu na pessoa que sou hoje, e a isso não foram alheios os professores que me calharam naquele ano escolar, nem tão pouco os livros que na altura me pus a ler. Foi numa das muitas incursões que nessa altura fiz à biblioteca da minha escola que, aos 16 anos de idade, li pela primeira vez O Memorial do Convento.

Como quem roda a chave numa fechadura, aquele livro abriu portas dentro da minha cabeça que eu não sabia que existiam. Hoje, sentada aqui no meu escritório de casa, olho para a prateleira onde tenho perfiladas as obras do José Saramago que pela minha vida fora têm continuado a abrir-me portas e janelas na cabeça: Terra do Pecado (Romance); Os Poemas Possíveis (Poesia); Provavelmente Alegria (Poesia); Deste Mundo e do Outro (Crónicas); A Bagagem do Viajante (Crónicas); O Ano de 1993 (Conto); Manual de Pintura e Caligrafia (Romance); Objecto Quase (Contos); A Noite (Teatro); Levantado do Chão (Romance); Que Farei com Este livro? (Teatro); Viagem a Portugal (Crónicas); Memorial do Convento (Romance); O Ano da Morte de Ricardo Reis (Romance); A Jangada de Pedra (Romance); A Segunda Vida de Francisco de Assis (Teatro); História do Cerco de Lisboa (Romance); O Evangelho Segundo Jesus Cristo (Romance); In Nomine Dei (Teatro); Cadernos de Lanzarote I a V (diário); Ensaio Sobre a Cegueira (Romance); Todos os Nomes (Romance); Discursos de Estocolmo; O Conto da Ilha Desconhecida (Conto); Folhas Políticas 1976-1998 (Crónicas); A Caverna (Romance); A Maior Flor do Mundo (Conto); O Homem Duplicado (Romance); Ensaio sobre a Lucidez (Romance); Don Giovanni ou O dissoluto absolvido (Teatro); As Intermitências da Morte (Romance); As Pequenas Memórias (Memórias); A Viagem do Elefante (Romance); O Caderno (Blog); Caim (Romance). Olho para todas estas obras e pergunto-me se, por esta altura, já terão decidido ou não decretar o luto nacional. Arrisco-me a pensar que o próprio José Saramago daria pouco ou nenhum valor a tal decisão, vá ela num sentido ou noutro. Imagino-o a dizer aos senhores ministros que não se incomodem em reunir-se só por causa da simples morte de um escritor, ainda para mais quando, por este dias, têm tantas coisas importantes em que pensar.

Volto aos livros. Ao primeiro que li, O Memorial do Convento. Que reli vezes e vezes sem conta e que tantas vezes me fez rir e chorar. Recordo como me emocionei há uns anos atrás quando, no Palácio de Mafra, assisti a esta história contada em Teatro, essa mesma história que vi há poucos dias, numa Escola Secundária, representada por jovens alunos que ainda apenas puderam dizer as palavras, sem maturidade para compreender tudo o que elas significam. Mas lá chegarão, estou certa, assim não lhes falte a vontade que põe passarolas a voar.

Volto ao Levantado do Chão, que me ensinou coisas de um tempo que os meus olhos já não viram. Coisas de quando estivemos atirados ao chão e tivemos que nos levantar. Sim, é claro, é panfletário, o homem eram comunista. Pois era. Mas "se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" (Ensaio sobre a Cegueira). A pensar pela minha cabeça, ouvi a história que o Saramago me contou.

Volto ao Evangelho Segundo Jesus Cristo, tal como os anteriores, colado na lombada com fita cola, páginas amarelas e gastas do uso. Ao Ensaio Sobre a Cegueira, assinado pelo próprio a 26 de Outubro de 1995, guardo-o com carinho, mesmo não sendo muito dada a autógrafos.

Já se sabe que mais tarde ou mais cedo todos morremos, e hoje morreu ele. Então eu acho que a maior homenagem que se lhe pode prestar é lê-lo, sem complexos de ordem política ou religiosa, sem puritanismos de linguística e de amor aos pontos e às vírgulas e aos travessões e aos parágrafos. Porque o que vai naquelas páginas é muito superior a tudo isso.

"Enquanto não alcançares a verdade, não poderás corrigi-la. Porém, se a não corrigires, não a alcançarás. Entretanto, não te resignes." (História do Cerco de Lisboa). Julgo que não se resignou ele, isso não se lhe poderá apontar. A sua herança, para todos quantos apreciem a sua obra, será talvez esta condição de não-resignação, mesmo que por vezes a resignação fosse o mais dócil dos caminhos.

Não falemos por isso da imortalidade da sua obra, do valioso património cultural que deixa a este País, da referência literária mundial que representa, ou outras eventuais palavras de peso, com todas as vírgulas nos seus devidos lugares (nada de maluqueiras à Saramago), que amplamente serão ditas pelos próximos dias afora.

Quanto a mim, prefiro recordar-me de mim própria com os tais 16 anos, sentada cá fora nos intervalos das aulas a ler o Memorial do Convento, deslumbrada com os mundos que tinha por descobrir. Prefiro falar das vontades.

"Dentro de nós existem vontade e alma, a alma retira-se com a morte, vai lá para onde as almas esperam o julgamento, ninguém sabe, mas a vontade, ou se separou do homem estando ele vivo, ou a separa dele a morte, é ela o éter, é portanto a vontade dos homens que segura as estrelas, é a vontade dos homens que Deus respira (...)" (Memorial do Convento).

Para o José Saramago

domingo, junho 13, 2010

Demasiado tempo entre mãos

(mudei o layout desta porra. Queria personalizar isto um bocado mas quanto mais mexo pior fica. E já não consigo voltar para o modelo antigo que tinha. Agora isto parece que não é o meu blog. Mas que se lixe, agora fica como está. Vou-me deitar. Ou jogar mais supaplex.)

sábado, junho 12, 2010

O vício, meu deus

Não sei se isto está ao nível de cromo para a caderneta do Nuno Markl. Só sei que voltou um enorme vício da minha adolescência, o Supaplex! Eternamente grata a quem mo instalou de volta, já são muitas as horas dedicadas a este jogo que corre em MS DOS, do mais básico que há (para alguns), mas que a mim me fascina, enerva, vicia até não poder mais. Já nem a internet me diz nada, meus amigos. Melhor que isto, só mesmo se voltasse um jogo de pinball que era com um dragão, e que também recordo com saudade.

PlayStation o quê? Vão-se lixar. Supaplex. Grande domínio.

domingo, junho 06, 2010

Up your ass

São os meus sinceros votos para o responsável, na sua génese, pela ideia das vuvuzelas.

sexta-feira, junho 04, 2010

Do Alentejo profundo

Fim de semana em Moura, restaurante de qualidade, conversa com empregado de mesa digna de suquete do Gato Fedorento.

Primeiro momento não sei quê:
Nós: para beber, queremos litro e meio de água...
Ele (com ar circunspecto): A questão é que só há garrafas de litro e meio de plástico...
Nós: Então, mas... por nós tudo bem...
Ele (explicando-se finalmente): Sim, mas por lei não podemos ter garrafas de plástico (novo ênfase no plástico, com ar ligeiramente enojado), só podemos ter de vidro, e de vidro a maior é de um litro...

Segundo momento não sei quê, já depois de adjudicada a garrafa de vidro de um litro de água:
Nós: Queremos o lombo de porco...
Ele (escandalizado): Lombo de porco? Mas nós não temos lombo de porco!...
Nós: Não tem? Mas ainda agora disse que havia, até está escrito na ementa e tudo...
Ele: Não, não, temos lombinhos de porco, não é a mesma coisa...
(e de facto, não é)

Terceiro momento não sei quê, com água em garrafa de vidro e dose generosa e de lombinhos de porco na mesa:
Nós: Podia trazer metade de um limão, se faz favor...
Ele (abana consternado a cabeça em negativa, como se tivesse acabado de lhe morrer um parente próximo)
Nós (já com medo do que é que ali vem, questionando-nos que alarvidade gastronómica teremos acabado de cometer, ao querer juntar limão aos lombinhos de porco depois de termos começado por os insultar tratando-os por lombos)
Ele (esclarecendo, de novo com um certo delay, a razão do seu desapontamento): Peço muita desculpa mas não temos limão, acabou-se...

Suspirámos de alívio e continuámos a comer, que a comida era maravilhosa. E o atendimento também, temos é que dar tempo ao tempo. Amanhã vamos lá outra vez!... :-)

quinta-feira, junho 03, 2010

quarta-feira, maio 12, 2010

Eu não ACREDITO...

... Que mataram o Sayid! Não, não, é demais para mim, eu não aguento... De uma maneira tão estúpida, tão estúpida...

Estou com verdadeiro e profundo ódio aos autores de Lost. Se é para matar toda a gente não vale a pena ver isto até ao fim, xiça!!!

domingo, abril 25, 2010

Todo o mundo é composto de mudança

Eram unha com carne. No caminho para a escola, sentadas lado a lado nas aulas durante anos, no recreio, nas horas livres, as melhores amigas desde sempre.

Depois, é claro, veio a vida. A adulta, bem entendido, que antes dessa também de vida se tratava. E daí, talvez não fosse.

Será que se pode chamar vida àquele planar inconsciente pelos dias, pelas estações do ano, em que quase nada era exigido, todos nos protegiam dos males do mundo e por isso o pior que nos podia acontecer era sermos enfarinhadas pelo Carnaval. Será que se pode chamar vida a uma existência em que tudo o que interessava era que ao fim-de-semana havia desenhos animados e tortas com creme (e nunca mais, nenhuma terá o sabor que aquelas tinham), e o bife com batatas fritas já vinha cortado e sabia ao amor com que nos era posto no prato. Vida seria, mas numa estranha forma, porque a simplicidade do mundo era o desconhecimento do mundo, e por isso é que, necessariamente, quando se alcança uma coisa perde-se a outra, afinal não é preciso ler a bíblia para ficar a conhecer a história de Adão e Eva, olhe-se para uma criança e lá estará.

Onde isto nos levou, onde nos levará. Falava-se de duas amigas de infância, as melhores do mundo, que à medida que o foram descobrindo, se foram afastando. Esta é afinal a mais banal de todas as histórias, repetidamente acontecida na vida de qualquer um de nós.

Reencontraram-se estas amigas algures no tempo, e no olhar de ambas uma alegria genuína pelo reencontro, mas também uma certa amargura por tudo o que já não existe. Veio à memória o tempo em que tudo era simples, porque quase nada se sabia, apenas as letras das canções das doce, cantadas nos intervalos para toda a escola ouvir. As duas amigas inseparáveis permanecem nesse tempo, nessa vida, não nesta.

Nesta vida, a adulta por assim dizer, resta apenas a conversa de circunstância. Pergunta uma, no que é que trabalhas, e a outra responde, não trabalho, tenho filhos. E pergunta a outra por sua vez, já tens filhos, e a resposta é que não, tenho um trabalho. Nesta vida de gente crescida, estas duas mulheres já não têm nada em comum.

Mas não façamos da vida adulta a grande culpada de todos os males. Existe, ainda assim, a vontade. O livre-arbítrio. Foram este e a falta daquela os verdadeiros responsáveis pelo fim da amizade que, a dado momento, se deixou de cultivar. Não se colhe aquilo que não se semeia.

Quando nos pomos a pensar nisso, vivem-se muitas vidas pela vida fora. E encontram-se muitas pessoas diferentes, por vezes várias dentro da mesma pessoa. Começando em cada um de nós, todo o mundo é composto de mudança.

domingo, abril 18, 2010

A verdadeira revolução tecnológica

... E ao mesmo tempo um importante passo nos caminhos da igualdade: uma engenhoca de fazer ecografias pélvicas que não obrigue as mulheres não grávidas a irem para lá a torcer as pernas e com a bexiga prestes a rebentar.

A sério. Com tanta tecnologia a germinar por aí e ainda ninguém foi capaz de se concentrar neste problema? Hein?...

Havia outra maneira de contornar a questão, era os exames realizarem-se realmente nas horas para que estão marcados, mas isso julgo que já é esperar demasiado do mundo em que vivemos. Venha de lá a tecnologia super avançada que não obrigue a gente a ir para lá aflitinhas.

E a ter que ir a correr para a casa de banho dois minutos antes de finalmente nos chamarem.

E a ter que voltar a emborcar água como se não houvesse amanhã para nova espera interminável que por pouco não resultava num remake do cenário anterior...

A vontade das mulheres em não terem que passar esta provação é tal que chega a gerar mitos urbanos: uma colega contou-me que ouviu falar de uma pessoa que conhece uma médica numa clínica que consegue fazer ecografias a mulheres não grávidas, sem que elas precisem de encher a bexiga.

Pois, pois. Por onde andará essa messias dos exames ginecológicos?...

domingo, abril 04, 2010

Superstar

Sempre que chega a Páscoa lembro-me desta obra de génio. Qual Dan Brown qual carapuça, quem atentar nas letras deste musical encontra muitas das questões em aberto, para quem não se contenta com a versão que a Igreja quer (em muitos momentos da História à força) que seja a única em que acreditemos.

"Everything's Alright" é mais um exemplo. Um Jesus apaixonado e sem ilusões. Um Judas comunista. E uma mulher a fazer o que as mulheres sempre fizeram pelo tempo fora: tentar que o mundo permaneça em equilíbrio. Para que tudo fique bem, quando enfim, na realidade, não está nem vai estar. Porque a vontade das mulheres também não chega.

Try not to get worried. E Boa Páscoa.

quarta-feira, março 31, 2010

Choque de gerações



... Deve ser isto. Quem são estes, ou estas, ou assim-assim? Hein? Uma palavra: porquê?

Mas no fundo compreendo, a sério.

Tempos houve em que achava que todos os homens lindos eram heterossexuais, incluindo estes:

E que queriam ambos casar e ter filhos comigo.

Só muito mais tarde vim a saber a terrível verdade e por isso tenho pena das pobres criaturas acampadas no Pavilhão Atlântico (e também tenho pena dos pais delas, mas isso seria outro post), ainda ofuscadas pelo volume e pelo gel fixante.

Mas ainda hoje acho o artista um excelente artista, atenção.

E sei as letras todas de cor.

quarta-feira, março 17, 2010

Trocas-te



A speaker prepara-se para anunciar um qualquer evento. Descobre naquele preciso momento que não sabe onde está, ignora que iniciativa é aquela, desconhece o nome das pessoas a quem irá passar a palavra e quando o tenta fazer, falando de improviso, fá-lo tão mal que ao tomar da palavra, a individualidade abdica do seu próprio discurso e do assunto que a trazia ali, para pedir desculpas publicamente pelo mau desempenho da speaker, assumindo a responsabilidade pela má imagem transmitida, em nome da instituição que representa. Acordei com suores frios, na noite em que sonhei isto. E suei frio ontem à noite quando vi este episódio, porque desgraçadamente, alguém passou na vida real por aquilo que - acredito -, seja o pesadelo de qualquer pessoa que faça apresentação de eventos.

Façam os juízos de valor que quiserem, quem os quiser fazer. Isto é mais ou menos como os acidentes de carro, só não os tem quem não conduz ou não anda de automóvel. Quem faz este trabalho não está livre, e não é assim tão improvável de acontecer.

Não sei se foi isto que sucedeu. Mas estou mesmo a imaginar as brincadeiras na fase de testes de som, os nomes que se dizem quando ainda não está ninguém na sala, eventualmente até algum excesso de confiança porque já se fez a mesma coisa tantas e tantas vezes, o diabo do piloto automático, no fundo...

Não conheço a pessoa de lado nenhum. Estou completamente a especular mas não acredito, de todo, na teoria da conspiração de que aquilo foi de propósito. A não ser que o speaker conjugue um ódio profundo ao Eng.º José Sócrates (Sócrates, Sócrates, Sócrates...) e, simultaneamente, um prémio no euromilhões na passada 6.ª Feira. De outra forma, quem por vontade própria faz aquilo no desempenho da sua própria profissão?

Agora, este episódio é paradigmático e semelhante ao que se costuma dizer dos jornalistas, de que quando estes últimos são eles próprios a notícia, algo vai mal. Também neste caso estamos perante um trabalho em que a perfeição está na invisibilidade. Se ficou bem feito, não existe. Se algo corre mal, aparece no Jornal da Noite.

Vão daqui umas palavrinhas de solidariedade a quem teve este grande azar. Eu por mim, não me consigo rir disto, porque só posso imaginar a aflição que deve ter sido. De resto, peço aos santinhos todos para que não me aconteça a mim...

quinta-feira, março 11, 2010

Duzentas mil!!!...

... e trezentas e não sei quantas! Visitas! Já houve tempos em que eram mais, já houve tempos em que eram menos, e apesar do intervalo entre posts ser cada vez maior, especialmente nos últimos dois anos, é incrível como é que, todos os dias, cá vêm parar cerca de 150 pessoas.

Já reflecti muito sobre o que fazer com este espaço, hoje em dia não tenho, de forma alguma, o mesmo tempo e a capacidade mental para me dedicar a ele que já tive e que gostaria de continuar a ter... Já pensei em fechar a porta aqui e abrir outra chafarica noutro lado qualquer, chamada "mulherdomedico.blogspot.com", ou assim (a sério, lembrei-me disto agora, se existe algum blog chamado assim, não sou eu), já pensei em desistir por completo, mas a verdade é esta. Adoro a blogosfera.

Sim, sim, o Facebook e não sei quê, também ando por lá, é giro e tal, do Twitter não percebo nada (embora a nível profissional tenha a certeza que não pode ser ignorado), mas este site mais simples do que pode haver, de layout despretencioso que eu nunca me dei sequer ao trabalho de mudar, esta possibilidade de estar aqui no conforto da minha casa a escrever aquilo que me apeteça, sabendo que nas próximas horas, nos próximos dias, gente do Brasil, dos Estados Unidos, por uma qualquer razão ou por razão nenhuma virão aqui parar e tomar contacto com o que eu tenho a dizer, e ainda por cima, poderem dizer de sua justiça, é algo que me agrada muito, muito. É extraordinário.

Tinha pensado, se tivesse tempo (que não tenho), recompensar os meus 200.000 leitores com algo de diferente, uns contos um pouco mais longos do que aqueles que aqui coloco sob o item "verdades ficcionadas". Quando dei por mim já isto ia em 200 mil e 300, e um desses contos que vai sendo preparado continua rabiscado e muito, muito pela rama. Ou seja, perdeu-se a oportunidade.

Dir-me-ão, então e não tens outros já feitos, a verdade é que sim, que os tenho. Mas também por outro lado, receio pelos plágios e de maneiras que a coisa vai andando mais ou menos assim. Pode ser que um dia destes esta chafarica traga algo de verdadeiramente interessante do ponto de vista literário. Ou não.

Para já, para já, era isto. Muito obrigada, do fundo do coração, e continuem à procura, olhem que há por aí uns blogues que são mesmo, mesmo bons, aliás, alguns deles estão já aqui indicados na barra da direita.

PS: Já agora, esta história do acordo ortográfico é uma bela merda.

domingo, fevereiro 28, 2010

38


"Bem sei que as meias solas que deitei
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.

Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro."

José Saramago, Os Poemas Possíveis

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Sinto-me perdida


Especialmente porque ainda não vi a Temporada 5. E portantos, estou perdida no sentido literal.

E perdida também por estes olhos negros, esta tez morena, o ar desalinhado, a barba por fazer e tudo e tudo de um modo geral neste indivíduo.

De maneiras que se matam o Sayid não sei o que faço a esta gente. Tou já a avisar. Não se metam com uma mulher quando todas as hormonas do seu corpo gritam "procria, procria, que os indianos é que têm bons genes!"

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Mas é que eu acredito mesmo nisto #2

Os fins-de-semana deviam ter três dias sempre. A sério. Não me importo de trabalhar cinco dias, mas o fim-de-semana, devia ter três dias.

Semanas de oito dias, já.

Como é que se faz uma petição no facebook para isto?

Mas é que eu acredito mesmo nisto #1

Independência para a Madeira, já. A sério. Porque é que não se tornam num estado independente?

A Madeira assim governava-se com a própria receita e livrava-se dos erros catastróficos do País de origem. O Continente livrava-se da despesa. Não era bom para todos?

Como é que se começa uma petição no facebook para isto?

sábado, janeiro 30, 2010

Falar é fácil!...



Se calhar já não é novidade para muitos, mas eu só vi isto ontem à noite e fez-me rir à gargalhada. Um conceito muito bem pensado. :-)

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Piloto Automático

E digo isto perfeitamente consciente do perigo. Mas o facto é que na maior parte dos dias, no regresso a casa, sinto que venho no mais completo "piloto automático".

Entro no carro, ligo o carro e desligo a mente. Só torno a ligá-la quando estaciono ao pé de casa. Tento pensar no trajecto e não me recordo de nada, é como se estivesse naquele filme em que o tipo tinha um comando e fazia "fast foward".

Durante aquele percurso, a cabeça vagueia pelo que foi, pelo que está para ser, pelos dias que faltam para o fim-de-semana, pelas histórias que vejo na televisão e pelas que quero eu inventar, em suma, pelos mundos que não cabem dentro do automóvel. No entretanto, só uma parte muito restrita do cérebro reage às luzes de stop e aos semáforos, mete mudanças, trava. E quando chego, olho para trás e não sei dizer nada daquele pedaço de tempo que passou por mim, sem que eu passasse por ele.

É certo que o caminho é curto (apenas 9 kms) e já se percorre diariamente há muitos anos. E é também verdade que vou muitas vezes muito cansada. Mas ainda assim, preocupa-me este modo de piloto automático em que caio quase sempre, e preocupa-me também o esforço de concentração brutal que tenho que fazer, para o combater.

Um dia destes ainda sou obrigada a acordar à bruta, é o que é. Uma coisa é certa: o carro não sabe o caminho sozinho.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Era o vinho, senhor, era o vinho

E era bom, por acaso. Um litro e meio dele, oferta de Natal.

A garrafa esperou pacificamente o meu regresso ao local de trabalho, onde me aguardava. Comigo saiu a caminho de casa, viajou na bagageira do carro, esperou mais um pouco pelo meu regresso da aula de ginástica, qual será hoje o meu destino, poderia pensar, se houvesse a possibilidade das garrafas de vinho pensarem. Mesmo as de litro e meio não chegam a tanto.

Lá veio comigo pela mão até à entrada do prédio, a caixa com a garrafa, a mochila da ginástica ao ombro, a mala de mão (gira!) também oferecida pelo Natal, a caixa da sopa para comer a seguir à ginástica (numa vã ilusão de alimentação saudável) também na mão, outra malinha de mão com coisas necessárias quando se passa a noite fora de casa...

Ora deixa cá ver. Duas mãos. Quatro coisas nas mãos e outra no ombro. Caixa do correio. Necessário chegar às chaves de casa para abrir a caixa do correio. Mudança de coisas de umas mãos para as outras porque está a chover e tudo o que se põe no chão fica enlameado. Capacidade de raciocínio: igual à da garrafa de vinho, ou seja nenhuma.

Resultado previsível: caixa de vinho caída no chão. Mar de vinho tinto surge repentinamente à porta do prédio. E um cheiro a taberna que não se aguenta. Donde se conclui que o vinho, quando cai ao chão, não vale a pena ser bom, que cheira a taberna na mesma.

Litro e meio de vinho. Se era para cair, uma de 75 cl tinha dado menos trabalho a limpar... Mas do mal o menos. Dizem que é sinal de boa sorte a nível económico! Pelo sim pelo não, registei o euromilhões logo nesse dia, que isto não foi um entornãozito pequenino, isto foi um entornanço de vinho que tem obrigação de render muito dinheiro!...

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Do ano novo

É de notar como os anos novos são sempre muito sobrecarregados pelas pessoas. Ainda se está na contagem decrescente, ainda nem se registaram os primeiros segundos, titubeantes como é de esperar de qualquer coisa que acabou de nascer, e já para ele projectamos todas as nossas expectativas, esperanças, confianças, não esperamos do novo ano nada de mau, apenas tudo de bom, maravilhoso, perfeito. É muita pressão para qualquer recém-nascido. Desilude-nos sempre, é inevitável, mas a culpa não é do ano novo, a culpa é nossa, que colocamos a fasquia demasiado elevada.

Não fujo à regra. Sobretudo quando a primeira coisa boa que encontro em 2010 é que finalmente acabou com 2009. Ponho os olhos neste renascimento da fénix com data marcada no calendário e desejo, com todas as minhas forças, que o ano novo traga vivências mais felizes. Mesmo sabendo que os acontecimentos importantes da vida não se compadecem de datas marcadas no calendário. Os acontecimentos que realmente mudam alguma coisa, às vezes para melhor, às vezes para pior, não estão à espera de dias feriados, meses específicos ou fins-de-semana em que dê mais jeito. Acontecem e pronto, e não temos outro remédio que aguentarmo-nos à bronca, porque nessas alturas já ninguém está de copo de champanhe numa mão e 12 passas na outra.

Que seja melhor, deseja-se sem dúvida. Mas sem muita pressão sobre o infante ano. Há elevadas possibilidades de ser pior que o anterior. E não se lhe poderá atirar muitas culpas para cima.

Apenas uma certeza: é em cada momento determinante, em que o ano novo deixa de o ser, que se vê de que matéria é feito. O ano. Nós próprios.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Os pastéis de belém estão sobrevalorizados

Nesta época natalícia, os lisboetas que me desculpem. Experimentem os pastéis de nata da pastelaria "Tijuca", em Alhandra, e depois venham-me cá falar de pastéis e coisas doces em geral.

Arrumam os pastéis de Belém a um canto. A sério.

domingo, dezembro 06, 2009

Importa-se de repetir?...

"Vocês não tenham problemas, se forem por esta rua abaixo encontram já ali à frente uma bomba self sirva-se..."

sábado, novembro 21, 2009

Cinco estágios para a dor

Negação. Ira. Negociação. Depressão. Aceitação.

Diz-se por aí que perante a morte, todos nós passamos por pelo menos dois, independentemente da ordem, independentemente da intensidade. Perante qualquer sofrimento, diria eu, se quisermos entender a morte como o fim de algo em definitivo.

Nunca se está preparado para determinados graus de sofrimento.

Para o momento em que metemos os nossos pais num carro para nunca mais voltarem à sua casa, dizendo para nós próprios repetidamente que essa é a coisa certa a fazer.

Para o momento em que as opiniões se chocam e se dizem coisas, e se fazem coisas que conseguem pôr em causa relações que se diriam impossíveis de abalar. Deixando cicatrizes para o resto da vida.

Para o momento em que a morte se apresenta de tal forma real que se diria ser possível estender a mão e tocar-lhe, e de repente tudo o que nos resta é a escuridão de se estar à porta de um hospital pela madrugada fora, a rezar a um Deus que não se sabe bem se existe, mas ainda assim rezando porque já nada mais resta, a não ser suplicar por misericórdia.

Para o momento em que novamente temos que dar tudo de nós, esgravatar no fundo do poço os restos de ânimo e de disposição, para tentar corrigir o que já sabemos que não tem conserto, mais uma viagem pelo túnel sem que se veja a luz ao fundo.

Para os poucos de vós que se perguntem as razões de tanto tempo de silêncio, saibam que tenho andado algures entre a negação, a ira, a negociação, a depressão e a aceitação. Vou saltando de uns para outros, como diz nos livros que acontece às pessoas, e tem sido assim o passar dos meus dias.

É que ao longo deste ano que passou, não me tenho conseguido livrar das coisas que sou capaz de aguentar. Vai melhorar, eu sei. Um dia destes. Mas por enquanto, ainda não.

quinta-feira, novembro 05, 2009

aldeia global?...

O assunto da acção de formação é a world wide web, as potencialidades das redes sociais, esta imensa aldeia global em que qualquer um de nós, simples formigas, fechados no nosso quarto, comunicamos com todó mundo.

E tudo isto é dado adquirido, coisa vulgar, do dia-a-dia.

De repente, o impossível acontece: um outro formando começa a falar connosco e descobrimos que vivemos no mesmo concelho. Aliás, na mesma cidade. Aliás, no mesmo bairro. Aliás, frequentamos o mesmo cafezinho ao pé de casa.

Que eu tenha visitantes aqui no tasco vindos de Caraguatatuba (São Paulo, Brazil) ou de Naters (Valais, Suíça), ainda vá que não vá.

Agora, ir daqui para uma formação sobre a grandiosidade das redes de comunicação, e de repente aparecer-nos o vizinho do lado, é coisa para meter medo a uma pessoa.

terça-feira, setembro 08, 2009

quinta-feira, setembro 03, 2009

Debates à parte #1

E o prémio "O que eu gostava mesmo era de ser apresentador do Fama Show" vai para...

O jornalista de exteriores da SIC à porta dos estúdios de Paço d'Arcos que tudo o que soube perguntar ao Jerónimo de Sousa antes do início do debate foi esta pergunta fundamental:

"Porque é que escolheu essa gravata entre o vermelho e o bordeaux?"

... À qual se seguiu uma conversa de profundo teor, com o senhor dirigente político, algo embaraçado (pudera!), a ver-se obrigado a dizer que é a esposa quem o ajuda nessas coisas.

Ao que o jornalista ainda insistiu, passando da gravata à cor do fato.

E terminando ainda com esta frase da maior relevância no que ao dever de prestar toda a informação pré-debate diz respeito:

"Francisco Louçã optou pela cor azul oxford".

Isto para mim, é uma de duas coisas: falta de preparação, uma. Ou então, é mesmo um bocado panisgas.

(Reinaldo Serrano volta que estás perdoado)

segunda-feira, agosto 17, 2009

Espiral

A balança não terá essa capacidade de medição, mas eu sei bem que estou mais pesada. Carrego às costas as culpas que são minhas e as que não são, carrego angústias, medos, ansiedades, revoltas. Se tivesse a força das convicções talvez a carga fosse menos pesada, ou talvez não. Não tenho certezas disso tal como não tenho certezas de quase nada por estes dias.

Dou comigo que nem peixe no aquário, dotado de apenas um neurónio. De cada vez que completo uma volta vejo sempre a mesma porta e no entanto, surpreendo-me como se a visse pela primeira vez. E então dói como se fosse a primeira vez, e tenho que me explicar tudo de novo, desde o início, para que eu própria volte a entender porque é que tivemos que chegar a este ponto deles irem para ali. Entretanto inicia-se mais uma volta e pela altura em que chego ao fim e me vejo de frente para a porta, torna a doer. Então explico tudo de novo a mim própria, enquanto recomeço mais outra volta.

Aquilo tem uns corredores muito compridos onde ela persegue uma esperança qualquer de não deixar de andar tão cedo. Quando lá vou vê-los vou como num sonho, ando mas queria correr para lá chegar mais depressa, chego mas só queria sair e levá-los comigo para não voltar mais.

Aquilo tem um pomar muito lindo onde se espera que ele ocupe o corpo e o espírito. Receio que sejam demasiado altas as expectativas em torno daquela meia dúzia de árvores de fruto: espera-se que delas nasçam peras, figos e uma qualquer ilusão de liberdade, de bem-estar. Sim, é pelo melhor que ele lá está, embora por ele nem fosse preciso. Sim, é por vontade própria que ele lá está, por amor, por dever, por grandeza de espírito, maior que a minha, sem dúvida. Sim, sim, já me lembro disso tudo, tem tudo imensa lógica. Deixa-me cá dar mais uma volta no aquário.

E ao mesmo tempo há tanta coisa para fazer. Há uma imensidão de coisas para fazer tão grande, que me esmagam ao ponto de me faltar o ar. Coisas que eu não quero fazer, que não vejo onde arranjar forças para fazer, que não poderei deixar de fazer.

Não sei que presente é este e muito menos que futuro está por vir. Assim de repente, vejo ali uma porta que eu já devia reconhecer, mas que ainda preciso de voltar a explicar-me o que é que significa. E que espécie de pessoa serei eu, que a vou transpor.

Esgoto-me, para me distrair concentro-me em pormenores onomásticos: porque será que lhes chamam lares? Se calhar é pelo conforto que a palavra transmite, mas não deixa de ser um bocadinho hipócrita...

segunda-feira, agosto 10, 2009

Três Cantos


22 de Outubro, no Campo Pequeno. Bilhetes à venda a partir de 13 de Agosto. Para mim, é um lugar na 1.ª fila, por favor. :-)
Mais informação, aqui.

sábado, agosto 08, 2009

segunda-feira, agosto 03, 2009

Me liga, vai

"A TUA MENSAGEM FOI ENVIADA CORRECTAMENTE, SORTE NA PROCURA DE PARCEIRO!"

Começou assim ontem à tarde, mensagem enigmática vinda de um 49990 para um telefone que não me pertence, e do qual sou mera utilizadora. Mau, pensei eu, queres ver que a gente vai-se chatear? Logo a seguir, nova mensagem, ainda por cima tratando-me por um gajo em vez de uma gaja:

"OLÁ (...) MUITO PRAZER O MEU NOME É LAURA E SOU DE AVERI (Aveiro?... Who cares?...), TENHO 24 ANOS, POSSO SABER QUE IDADE TENS TU E DONDE ÉS?"

Parti do princípio que a conversa não era comigo, sendo que a minha idade e de onde era eu seria de pouco interesse para a Laura. Mais tarde mudou o tom, deixámos a mera curiosidade amigável para algo que apelava mais ao sentimento:

"E ENTÃO MEU FOFINHO ESTÁS MESMO A DEIXAR-ME COM SAUDADES DE TI, MAS O QUE SE PASSA CONTIGO"

O que se passava, claramente, era um abuso dos meus direitos de consumidora e dos meus dados pessoais, mas pareceu-me que mais uma vez não era de mandar resposta, já que fofinho não sou e o que se passa comigo não dizia respeito ao 49990.

Mas o que foi giro nisto foi a subida gradual de tom. Ora uma vez que a amizade de esplanada de café não tinha resultado, e a conversa lamechas também não, eis senão quando nos deixámos de rodeios e o 49990 foi direito ao que verdadeiramente interessa:

"OLÁ MEU AMOR, ESTAVA A PENSAR CÁ COMIGO E GOSTAVA DE SABER COMO GOSTAS UMA CONA , COM PELOS, OU MESMO RASPADINHA?"

Ora bem. Tirando as opções que tomo em relação à minha própria, devo dizer que isto é assunto sobre o qual, na generalidade, não tenho opinião formada. De moldes que fui averiguar afinal o que é que se passava. Na Linha de Apoio TMN deram-me um número de telefone para me desligar de um serviço ao qual não aderi. Foi o que fiz, ao mesmo tempo que mandei barrar a entrada deste lixo telefónico.

Percebi entretanto que não sou a única vítima. E que os senhores de uma dita empresa chamada "NVia" não têm culpa nenhuma disto, na medida em que só fazem... fazem o quê, deixa cá ver ao link do outro desgraçado... Ah, é isso fazem uma "conexão técnica". A culpa está algures nas malhas da internet e ninguém sabe de quem é, nem quem são os criminosos que induzem pessoas a esta porcaria, nem de que forma (e isso é que é ainda mais grave) têm acesso aos números de telefone que metem no sistema sem o consentimento dos próprios.

Felizmente fui prudente não respondendo, e pelo menos não incorri em custos inúteis para a entidade que paga aquele telefone. Diz que só cobram (2,00 €!) a quem mandar mensagens e entrar neste disparate.

Pois caros senhores da "NVia", como tenho a certeza que vão continuar impunes e ainda vão burlar muita gente pelos anos fora sem que ninguém vos deite a mão, vai daqui a minha mensagem que tem duas vantagens, não vos dá dinheiro a ganhar e deixa-me a mim com a bília mais aliviada: que vão todos levar na conexão técnica, tenha ela pêlos ou não, de forma persistente e violenta, causando-vos muita dor. É o que vos desejo.

domingo, julho 26, 2009

É que não há limites para a competição feminina

Ele (casual, descontraído): Eh pá, que noite tão agitada. Tive dois sonhos eróticos!...

Ela (curiosa, fingindo-se indiferente): Sim?... Com quem?...

Ele (sincero, totalmente inconsciente do perigo): Um deles, contigo. O outro, com uma garota que já não devo ver há uns 20 anos. Que raio de coisa...

Ela (ligeiramente ressabiada): Então e qual dos dois é que foi melhor? O que tiveste comigo ou o que tiveste com a outra?!...

sábado, julho 25, 2009

Assim, sem mais nem menos...

... vem a pergunta do banco de trás do carro, saída do pirralho com 9 anos:
- Já cometeste erros?

A resposta, politicamente correcta porém sincera, sai em tom pedagógico e afectuoso:
- Ehr... Já, claro, sabes que é normal errar, toda a gente comete erros...

Breve pausa e nova pergunta:
- Que erros cometeste?...

Resposta irreflectida, deitando abaixo toda a pedagogia da anterior:
- Queres que te fale do maior de todos, ou ficamo-nos por um ou outro mais corriqueiro?!...

(esta miudagem pequena não imagina o que são 37 anos de bagagem emocional!...)

quarta-feira, julho 22, 2009

Rotinas de Verão

São boas. Mesmo com um tempo meio estranho, agradam-me estes dias a um ritmo menos acelerado.

Sair de casa mais tarde porque já sei que não há trânsito e há mais lugares disponíveis para estacionar. Ler o jornal enquanto se toma o pequeno-almoço sentada, com calma.

Invariavelmente pergunto-me qual a razão objectiva de não me dar a estes luxos também no resto do ano. Aparentemente, nenhuma. Mas a verdade é que... não dá. Porque é preciso chegar cedo para adiantar qualquer coisa, porque o telefone começa a tocar antes das nove da manhã e se calhar depois das nove da noite ainda não parou, porque por mais livros de auto-ajuda que a malta leia, não me venham com tretas, o ritmo não somos nós que o queremos assim, mas não querendo ficar para trás, resta-nos correr atrás dele.

Ah e tal, mas só é assim porque queres, ou permites, ou qualquer coisa do género. É verdade. A opção por um ritmo menos exigente é sempre possível. Lá chegaremos, o Alentejo não se vai acabar tão depressa.

Por agora, é aproveitar bem o prazer das rotinas de Verão. Ou como diria alguém, aproveitar as descidas, que as subidas custam muito...

terça-feira, julho 07, 2009

Requiem

A questão é que penso demasiado na morte, ultimamente. E não é por nenhuma tendência suicida, por mania ou outro qualquer problema do foro mental. É só porque há alturas em que a consciência da morte se impõe mais do que outras, e esta é seguramente uma delas.

Toda a gente sabe que a morte existe e não poupa ninguém. Toda a gente se depara por vezes com esse olhar sobre si próprio, sobre aqueles que ama, e nessa altura pensamos, existe esta coisa da morte que faz com que tudo termine. A grande vantagem é logo de seguida a nossa cabeça se ter que ocupar com outras coisas da vida, e rapidamente o nosso cérebro produz aquele pensamento reconfortante, está bem, isso vai ser assim, mas por enquanto ainda não, segue em frente.

Acontece que por estes dias a morte materializa-se e não me permite esse conforto. Curiosamente, já há uns meses me deu um sinal muito claro, quando me acidentei na Auto-Estrada, e só por mera casualidade (essa entidade de longe muito mais misteriosa que a própria morte), aqueles segundos não foram os meus últimos e/ou os últimos de quem ia comigo. Qual dos dois cenários o pior.

Mas a maior consciência da morte vem hoje em dia dos meus pais, especialmente da minha mãe, à medida que a vejo mais debilitada dia após dia. A pergunta que se impõe é o que fazer, não contra a morte em si, porque essa já sabemos que nada podemos contra ela, mas o que fazer face ao tempo que antecede a morte, face ao sofrimento físico, mental e emocional inerente aos dias que passam sem que possamos ser aquilo que sempre fomos. E que pode ser de dias, meses, anos.

O que fazer? O que é que cada um de nós (filhas, netos, marido) podemos e estamos dispostos a fazer, que sacrifícios poderemos nós fazer em nome de algo que diminua esses sofrimentos? E se o que fizermos apenas contribuir para os aumentar? E se aquilo que imaginamos ser apoio e bem-estar para os dois for apenas infelicidade, isolamento, abandono? E se com isto estivermos a abrir as portas à demência para quem está são?...

Hoje, no dia em que os levo a ambos ao funeral de um parente próximo, todos mais ou menos da mesma idade, temos bem presente a consciência de que qualquer um deles poderá ser o próximo, tal como diz a anedota. Não imagino, não consigo imaginar quanto me fará sofrer a morte dos meus pais. Mas tenho já uma noção muito clara do quanto me atormenta a ideia de que, pelas minhas acções bem intencionadas, possa estar a contribuir para que qualquer um deles morra mais depressa, ou lhes traga mais sofrimento à sua vida.

Estou certa de que nada pode continuar como está, e por isso alguma coisa tem que se fazer. Mas levar os meus pais para uma instiuição está a ser das decisões mais dolorosas que já tive que tomar em toda a minha vida.

domingo, junho 28, 2009

How terribly strange to be seventy

Numa fase especialmente ambígua a nível de sentimentos e emoções, tentei hoje expressá-los aqui, mas não consegui. Entretanto lembrei-me desta música, que sempre me fez chorar quando a ouvia. Dá conta de uma dura realidade que infelizmente me bate à porta.



Para certas coisas na vida, nunca se está preparado. Como diria Gabriel Garcia Márquez, "Deus nos livre daquilo que conseguimos aguentar".

sexta-feira, junho 12, 2009

Abriu a época balnear


Praia sem vento. Primeiros raios de sol. Protector solar factor 30. Carapaus grelhados com o sabor maravilhoso que vem do carvão, da vista de mar e das amizades mais profundas, mais fortes que há no mundo. Fortes como o aço. Parabéns, irmã!... ;-)

sábado, junho 06, 2009

Educar pela arte

Por vezes, encontramos quem consiga expressar exactamente aquilo que pensamos sobre um determinado assunto, com a clareza que infelizmente não possuimos. Nestas alturas, humildemente calamo-nos e deixamos o outro falar:




terça-feira, maio 26, 2009

The woman who can't be moved *

Não gosta da canção. Acha a ridícula, irrita-a. A ideia de alguém que cristaliza a própria vida enquanto o outro segue em frente, eternamente à espera do especial favor de ser amado, a si não lhe parece romantismo. Parece-lhe, isso sim, algo muito, muito estúpido.

Quando passa na rádio, muda de estação. É que não suporta ouvir aqueles versos, declamados por quem afirma não ter escolha e nada mais lhe restar a não ser esperar. "How can I move on when I'm still enlove with you". Desprezível. Seguir em frente não é uma opção, é uma inevitabilidade, que palermice vem a ser esta. E aliás, ninguém merece não viver a sua vida.

No correr dos seus dias não podia estar mais longe desta utopia romântica que a canção apregoa. Buraco no seu mundo uma ova, prefere sem dúvida os buracos nos sapatos. Ninguém ama assim, um amor assim não existe, ponto final. Se existisse seria ainda mais ridículo do que todas as cartas de amor ridículas do Fernando Pessoa, mais trágico do que a mais trágica das tragédias de Shakespeare, e toda a gente sabe que isso não é possível. Este não-sei-quantos que inventou esta cançãozeca (que daqui a dois dias já ninguém se lembra quem é), não se vai com certeza comparar a verdadeiros entendidos destas coisas do amor e do romantismo, como são Fernando Pessoa ou Shakespeare, e isto só para dar dois nomes, haja ordem nisto, quer dizer.

A esquina onde o encontrou pela primeira vez, já não se lembra onde é, nem lhe interessa. Não pretende acampar lá nem sonha com o dia em que a ele lhe dê jeito voltar ao mesmo local de sempre. Não lhe oferece de bandeja essa satisfação. Segue em frente, todos os dias um lugar diferente, há os amigos, há coisas para fazer no trabalho e há as coisas para fazer nos tempos livres, há namorados novos, e quando não os há, há ela própria bastando-se a si mesma com tudo o que faz e que construiu, depois que ele a deixou parada numa esquina igual àquela em que, o tal homenzinho idiota, está parado à espera.

Um amor assim não existe. É por isso que odeia a tal canção, e é isto que grita à parte de si que está emparedada no fundo da masmorra, no buraco mais fundo e obscuro de si própria. Que um amor assim não existe.

Esse eu que está encarcerado, de tanto ouvir falar no ridículo do amor, acabará por morrer à fome e um dia será apenas mais um cadáver arrumado num armário. O eu encarcerado é aquele que está disposto a esperar. Mesmo sabendo que todos os outros eus caminham, espera, mesmo percebendo que não há esperança, espera, porque não encontra outro sentido em si mesmo que não seja esperar. Por enquanto, não se lhe pode dar a ouvir "the man who can't be moved".

De portas trancadas pela firmeza das suas convicções, ela não tem dúvidas que a canção é ridícula e fala de coisas que não existem. Porém, nas noites mais longas, a maldita música ecoa dentro de si mesma mais do que gostaria e muitas vezes fá-la rebolar na cama, sem que consiga dormir.

À superfície, surgem então as lágrimas que não se conseguem conter.

No fundo da masmorra, monta-se a tenda para mais uma noite passada ao relento.

* Inspirado em "The man who can't be moved", dos The Script,
e nos amores ridículos do dia-a-dia.

quarta-feira, maio 13, 2009

Cortesia vs Sinceridade

Veio isto hoje a propósito de coisa nenhuma. Mas provavelmente já toda a gente conhece bem aquelas situações em que nos oferecem algo, especialmente comida, por mero gesto de cortesia. "É servido?", perguntam-nos, esperando apenas que o outro responda "não, obrigado". Para os mais refinados até há quem prolongue a coisa, e acrescente um "veja lá, não faça cerimónia", só para ouvir o outro dizer, "obrigadíssimo, mas não quero, deixe estar".

Não sei se foi o meu pai que inventou, eu por mim nunca ouvi a mais ninguém. Se calhar é aquilo que vai na cabeça de muitos quando, educadamente, fazem a perguntinha polida, à espera da resposta politicamente correcta. É, digamos, uma forma mais sincera de colocar a pergunta:

É servido, deste pouco que mal me chega, oferecido de má vontade, quem aceita não tem vergonha nenhuma?...

sexta-feira, abril 17, 2009

Do amor e outros demónios*

* Título vilmente roubado a um livro muito bonito de Gabriel Garcia Márquez cuja qualidade nada tem a ver com os disparates que irão agora seguir-se. Fica o aviso.

O meu querido companheiro tem duas características relativas ao sono das quais me apetece falar.

Uma das características, que tem a sua graça, é que ele por vezes fala durante o sono. E não deixa de ser peculiar acordar durante a noite a ouvir uma voz muito séria e compenetrada a dizer "com este já são dois presidentes da república". Ou simplesmente a dizer "jfrtsd lpvzx çptrqs".

A outra que não tem assim tanta graça chama-se ressonar. Algo que lhe causa a ele próprio bastante embaraço e tristeza por me sujeitar a tal coisa, mas que obviamente, não pode controlar. Enquanto estou acordada e durante o dia é coisa que encaro com calma, compreensão, e não o amo menos por causa disto. Mas em certas noites mais problemáticas, e estando eu desesperada a tentar dormir fico capaz de lhe desentupir as vias respiratórias com os fios dos candeeiros das mesas de cabeceira e desejar que todas, mas todas as noites da minha vida a partir daquela sejam passadas a dormir sozinha.

É especialmente bizarro quando há sexo. Porque a malta vai para a cama, aconchega-se, conversa sobre o dia que correu, os que estão para vir, faz planos e tal (o chamado convívio), a dado momento atira-se para a trungalhundice (o chamado sexo), a seguir há mais aconchego, mais carícias, muito carinho e quando finalmente se instala o cansaço, é hora de dormir. Beijinho, beijinho, até amanhã, até amanhã, e finalmente o silêncio total. Ora quando eu já estou naquele limbo entre o sono e o acordado, quase a passar-me para o lado de lá, eis que surge deitada ao meu lado uma besta que eu desconheço, com quem jamais trocaria quaisquer fluidos, mas que afinal está ali, disposta a roncar até que a minha noite se torne num verdadeiro inferno.

Já sei que, com sorte, se o conseguir fazer voltar-se sobre o seu lado direito o ronco pára. Mas como é que se faz com que um peso morto de 75 kg se volte na cama para um lado que ele não quer ir? Não é com força, porque isso é impossível. Falar também não adianta, porque quando há diálogo ele é sempre igual e é assim:

(Abanão. Abanão com mais força.)
- Amigo, vira-te para o lado, estás a ressonar...

(Resmungo, seguido de resposta em tom muito ofendido comigo e note-se, enquanto continua a dormir profundamente)
- Como é que eu posso estar a ressonar se eu estou acordado?...

(Sempre que lhe digo que ele está a ressonar, isso é sempre impossível porque ele está sempre acordado. Sempre, sempre. No dia seguinte nunca se lembra de nada. Tão querido.)

De maneiras que na maior parte das vezes o que me valem são as cócegas. Ai gostas de dormir de barriguinha para cima com os braços atirados por cima da cabeça? Então espera aí que já te lixas. Deixa cá fazer-te uma cócegazinha no sovaco que é um instante enquanto tu dás um salto para o outro lado, até parece que tens uma mola. O problema é que por vezes resulta, por vezes não...

Aqui há uns dias atrás, depois de uma noite mal dormida em que o ronco ganhou às cócegas e eu fui parar ao sofá da sala, comentava este problemazito com outra colega de infortúnio. Que depois de me ouvir lamentar-me dos roncos do meu companheiro, sensibilizada e totalmente solidária (been there, done that) pronunciou estas palavras da mais profunda sabedoria:

"Eu sinceramente não sei para que é que as mulheres levam tanto tempo a escolher um homem. A sério, se são todos iguais, para quê tanto trabalho a escolher? Podia ser um qualquer!..."

sexta-feira, abril 10, 2009

Boa Páscoa

"No cortejo dos penitentes
Vão culpados pecadores da gula
Vão culpados da sensualidade
Castigados até à medula
Vão os tíbios e frouxos no amor
Imaculados como o Criador
Vão culpados por abstinência
Vão culpados das suas carências
No cortejo dos penitentes
Os homens cortam suas próprias carnes
São ofertas que fazem aos céus
Ao mais alto de todos os céus
No cortejo dos penitentes
Os sacerdotes da austera vida
Vão contentes e muito enfeitados
Sobre as cinzas dos sacrificados
E cantam louvores
Ao Deus

Abranda Senhor
A pena dos mortos
P’ra que te louvem
Com sono quieto

No cortejo
Os penitentes
Bebem tragos da bebida amarga
Da urina que depois vomitam
Pela noite mal aventurada
No cortejo
Os penitentes
Comem postas de sangue coalhado
Da sangria dos outros romeiros
Suavemente mutilados
E cantam louvores
Ao Deus

Abranda Senhor
A pena dos mortos
P’ra que te louvem
Com sono quieto"

Fausto Bordalo Dias, "O Cortejo dos Penitentes"

Este blog

Ressente-se da minha vida actual. E receio que vá continuar a ser assim, não é apenas uma questão de falta de tempo (que é um facto), mas também de falta de outras coisas. O cansaço tolhe-me a inspiração para ficções. E quanto às realidades, tenho perfeita noção de que, para meu próprio bem e de muitos à minha volta, quanto menos expostas estiverem, melhor.

Penso cada vez mais nos meus textos, guardados na gaveta a ganhar pó, e que poderiam ser dados a conhecer por ese meio, pelo menos a alguns de vós, que à distância aprendi a estimar como se de amigos se tratassem. Porém, receio pela exibição on-line de textos inéditos, como protegê-los da apropriação de terceiros? A preguiça ainda não me deixou ir registá-los, é verdade. Mas se o fizer, será suficiente? Não é que lhes ache especial qualidade literária, mas ainda assim pertencem-me, e bons ou maus, não os quero associados a outro nome que não o meu.

Entretanto, e porque a época da Páscoa me põe sempre a pensar nas contradições da religião católica, alguém me indica ó fáxavor onde encontro a letra de uma canção do Fausto, "O Cortejo dos Penitentes"? De forma algo distorcida, é certo, julgo ser uma canção apropriada para a época, mas não a consegui encontrar.

Obrigadinha, e votos de uma grande overdose de amêndoas para todos.

quarta-feira, março 18, 2009

Era uma vez um homem velho que não queria morrer

Era um homem como outro qualquer, com virtudes e defeitos, estes mais salientes pelo azedume próprio da idade, aquelas porém fazendo-se notar apesar deles e dando conta do seu verdadeiro modo de ser. Um homem banal, que havia já cumprido a sua vida, e gozava agora o passar de dias menos agitados, próprios para a sua idade. Mas este homem, silencioso nas suas reflexões e receios, sabia para onde o levavam aqueles agradáveis dias por preencher, e embora o seu corpo pedisse já pelo merecido descanso, a cabeça segredava-lhe lá de dentro que se parasse, morria. A cabeça daquele homem velho ainda não sabia o que fazer à morte. Por isso, o homem velho lia.

Sentava-se à janela e lia muitos livros, gostava dos clássicos (afinal era um homem velho), dizia que Júlio Verne era o melhor autor de sempre. Quando não tinha nada novo para ler, relia os livros do Júlio Verne. E para se alimentar de novas leituras, pedia à filha que lhe trouxesse livros, daqueles que ela não tinha tempo para ler porque vivia ainda num tempo em que os dias eram muito agitados e à sua cabeça nem lhe ocorriam cogitações que tivessem a morte como possibilidade.

A filha gostava de ver o homem velho a ler à janela. Olhava para as suas prateleiras e escolhia livros para lhe levar, tinha muitos, mas com o passar do tempo já todos haviam sido lidos. No entanto, era preciso continuar a alimentar a cabeça do homem velho com livros, porque aquela leitura para passar o tempo era a chave que fazia com que o tempo não passasse tão depressa. Então um dia a filha, que muito estimava o seu pai e queria que ele vivesse para sempre, começou a comprar novos livros que lhe agradariam a si própria ler, mas que não lia, por causa da agitação dos seus dias. E foi assim que, por muitos e muitos anos, o homem velho foi descobrindo antes dela a magia daqueles livros que serviam para prolongar a vida, ocupando depois o seu lugar nas prateleiras. Aqueles livros tornaram-se também num excelente tema de conversa e de partilha, deste não gostei, aquele é interessante, este já podes levar, li-o em dois dias, não conseguia parar.

Quando enfim a lógica da vida se impôs, que é como quem diz, a morte chegou e levou o homem velho, a filha estava grata aos livros por cada minuto a mais de vida plena que o seu pai tinha alcançado com a ajuda deles. É claro que os livros não conseguiram, nem a isso estavam obrigados, preencher o imenso vazio que se instalou com a morte do homem velho, e que todos os que o amaram vieram a descobrir dentro de si próprios. A mesma lógica de vida fez novamente o seu papel, e apesar do vazio, ou melhor, levando-o o consigo para sempre, todos seguiram com os seus assuntos. Ficaram os livros, à espera.

Chegou enfim o tempo em que a filha se tornou ela própria numa mulher velha, de dias pouco agitados. Como quem regressa à companhia de velhos amigos, voltou a percorrer com os dedos as suas prateleiras, pejadas de livros dos quais apenas tinha ouvido falar. A sua cabeça dizia-lhe baixinho que se parasse, morria. Os livros ali estavam, para que se alimentasse deles.

Segura de que a vida ainda tinha muita coisa nova para lhe dar a descobrir, e que a morte tinha ainda que esperar que terminasse a leitura de muitos milhares de páginas, sentou-se à janela, colocou os óculos e começou a ler.

quinta-feira, março 12, 2009

Interessante


Sendo os U2 uma banda que nunca buliu um átomo que seja com o meu gosto musical (ok, podem começar a chover as pedradas e decretos de excomunhão), não deixa de ser curioso que me tenha calhado uma das poucas músicas de que gosto.

Private Joke: E realmente acho que não se percebe nada do que o Bono diz enquanto canta.

sábado, fevereiro 28, 2009

Verdades e mentiras

Aqui estão elas:

1. Já participei num espectáculo de teatro em que fazia strip-tease.
Verdade. No contexto de um espectáculo de sensibilização ambiental, em 1995, eu era uma das musas do rio Tejo e despia voluptuosamente uma capa que simbolizava a poluição que ia pelo rio. Sí tirei a capa. Mas como em qualquer espectáculo de strip, o que faz o efeito todo não é o que se mostra por baixo da roupa, mas sim a maneira como se tira a roupa. São anos da minha vida cheios de recordações maravilhosas e guardo-os sempre com muito carinho, mesmo sabendo que, em alguns momentos, fiz opções que nos anos seguintes se fizeram pagar bem caro.

2. Guardo religiosamente um autógrafo de Phil Collins, conquistado em Julho de 2004 no Avalade XXI.
Mentira. Gosto muito das músicas do Phil Collins, "Against All Odds" é um guilty pleasure sem dúvida, e lamento bastante nunca o ter visto ao vivo, mas realmente nunca aconteceu tal coisa. Além disso, também não sou muito de andar a sacar autógrafos, de maneiras que se o tivesse ido ver, um autógrafo é coisa que certamente não iria pedir.

3. Nunca fumei um único cigarro na vida, nem sequer uma passa, nem de tabaco nem de outra coisa qualquer.
Verdade. Nunca senti essa vontade, ou curiosidade, ou o que quer que seja que leve as pessoas a fumar. Não percebo as motivações que estão por trás de mexer numa coisa que cheira mal, que é cara e que toda a gente sabe que provoca problemas de saúde. Dizem que sabe bem. Pois. Wathever.

4. De todas as vezes que tive acidentes de viação, estava parada ou circulava a menos de 10 kms/hora.
Verdade. Felizmente também não se contam muitos, mas num deles fazia uma curva depois de ter parado num stop e surgiu do nada uma mota que embateu quando eu já quase tinha completado a curva. Numa noite de carnaval em que todos os cinco ocupantes do meu carro estavam mascarados, foi bizarro. Numa segunda vez estava mesmo estacionada na berma. Um carro bateu noutro, que por sua vez veio bater no meu, desgovernado.

5. Adoro filmes de espionagem ou de mafiosos.
Mentira. Estes e filmes de terror são géneros que eu não aprecio de todo. Talvez porque sou muito susceptível e com tendência a viver intensamente a acção de qualquer filme. Estamos a falar de uma pessoa que chora a ver o Dumbo. De todas as vezes que vê o Dumbo.

6. Acredito piamente que os computadores absorvem a ansiedade das pessoas e por isso avariam nos momentos mais críticos.
Verdade. E posso prová-lo empiricamente. Diga-me lá o leitor se de todas as vezes em que o computador se passou não foi sempre em vésperas de entregar aquele trabalho do qual dependia a sua vida? E quando perdeu documentos, não foram sempre aqueles relatórios de 50 páginas que lhe levaram semanas a fazer e dos quais, obviamente, não fez backups? Vai-me dizer que a máquina avariou alguma vez quando só tinha começado a escrever meia-dúzia de linhas? Não, pois não? Lá está.

7. Sou especialmente boa a memorizar fisionomias e nomes de pessoas.
Mentira. É dos meus maiores andicaps. E as agruras que isto me traz. Num segundo dizem-me o nome de uma pessoa, no segundo seguinte eu já não me lembro de como é que se chama. Uma cara que eu veja uma única vez durante pouco tempo, posso passar por ela pouco tempo depois que já não sei de quem se trata. Agora então com o trabalho que eu tenho, isto é uma coisa que me traz verdadeiro sofrimento. Ter que estabelecer onde é que se sentam pessoas que eu não conheço de lado nenhum e memorizar-lhes os nomes e as caras para saber para onde as encaminho, fico com suores frios só de pensar nisso.

8. Tenho uma certa tensão sexual em relação ao Eng.º Sócrates.
Verdade. O macho que se apresente com tiques de arrogância, frieza e determinação tem muito boas condições de me conseguir dar a volta. É um certo estilo "special one" que eu acho extremamente atraente. Uma tendência que me tem trazido muitos amargos de boca ao longo da vida, mas que não envolveram em momento algum o Eng.º Sócrates. Até à data, pelo menos, que o futuro a Deus pertence.

9. A última coisa que faço todas as noites antes de ir para a cama é pentear o cabelo.
Verdade. Porque no dia seguinte fica mais fácil de pentear. Tão simples quanto isso.

sábado, fevereiro 21, 2009

Que eu nem gosto de correntes

... a não ser daquelas às quais acho piada.

Formulada esta frase de grande coerência, e depois de fazer uma pequena fita blogosférica porque uma certa pessoa não me incluiu numa corrente à qual achei piada, salvou a honra do convento o Filipe, que me colocou no rol dos que deverão fazer o seguinte: apresentar uma lista de 9 coisas sobre mim em que 3 delas sejam mentira.

E de maneiras que a coisa reza assim:

1- Já participei num espectáculo de teatro em que fazia strip-tease.
2 - Guardo religiosamente um autógrafo de Phil Collins, conquistado em Julho de 2004 no Avalade XXI.
3 - Nunca fumei um único cigarro na vida, nem sequer uma passa, nem de tabaco nem de outra coisa qualquer.
4 - De todas as vezes que tive acidentes de viação, estava parada ou circulava a menos de 10 kms/hora.
5 - Adoro filmes de espionagem ou de mafiosos.
6 - Acredito piamente que os computadores absorvem a ansiedade das pessoas e por isso avariam nos momentos mais críticos.
7 - Sou especialmente boa a memorizar fisionomias e nomes de pessoas.
8 - Tenho uma certa tensão sexual em relação ao Eng.º Sócrates.
9 - A última coisa que faço todas as noites antes de ir para a cama é pentear o cabelo.

E agora, aqui vai o desafio para a Xana, o doutor JC, Quim, Redjan, a Olinda, Susana, Ana Raquel, Rui, e Patologista. Enjoy!

(e se não acharem piada ignorem, que é o que eu faço na maior parte das vezes)

PS: É suposto a malta agora pôr-se a adivinhar sobre quais são mentira, por isso estejam à vontade, tirando a Xana, que já sabe todas! :-)

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Metafísica, e da boa

Ouvindo doutos representantes da Igreja Católica nos últimos tempos, deu-me vontade de pedir a essa sagrada instituição que esclareça a minha pobre cabeça loira sobre esta dúvida que me anda a atormentar:

De entre os seguintes atentados às leis da natureza e aos mais básicos princípios da ordem moral e dos bons costumes, qual deles é o pior?

Hipótese A: Homossexual casar com homossexual;

Hipótese B: Mulher heterossexual casar com homem heterossexual, porém este último sendo muçulmano;

Hipótese C: Homem e mulher heterossexuais, a borrifarem-se para a igreja e para o que dizem os padres, andarem na trungalhunguice, partilhando vivências, contas bancárias e diversos tipos de fluidos corporais sem estarem casados.

Pensando bem, deixem lá estar a resposta. Assim como assim, cada um sabe de si, e a haver Deus, deve chegar para olhar por todos.

Até dos padres que dizem, tipo, coisas.

Ou de outra forma, não seria Deus.

domingo, fevereiro 08, 2009

Auto-estima, ou a ausência dela

Quem me dera não viver tão permanentemente com esta sensação de culpa. Porque não fui suficientemente boa, suficientemente rápida, suficientemente esperta, suficientemente justa, suficientemente disponível, suficientemente atenta, a culpa é sempre, mas sempre, toda minha.

E quando me pergunto se podia ter feito mais, se podia ter ido mais além, a resposta que dou a mim própria é implacável e diz-me sempre que podia sim senhor, ter feito mais. Então vem este desânimo de pensar que mesmo dando tanto de mim, parece que nunca é o suficiente.

Racionalmente sei considerar que não será bem assim, até porque há tanta coisa que nem eu nem ninguém pode controlar. Mas o que me mata devagarinho é esta angústia permanente que me condena a sentir-me sempre, se não culpada de tudo, de certeza que de alguma coisa.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Perdidos, literalmente (ou isto há coisas que só comigo)

Meses a programar esta compra. Mas era certo que ia ser feita. Que eu quando gosto de algo sempre tive esta característica, exploro a coisa até à exaustão, uma coisa assim meio obssessiva. E de maneiras que quando é assim quero ter os originais, não é cá piratarias, quero ter tudo e saber tudo e conhecer todas as curiosidades, leio sobre os autores, os actores, o que foi e o que está para ser. É por causa desta mania que só me faltam 3 volumes para ter a obra completa do Saramago, que do Gabriel Garcia Márquez também tenho uma data deles, do Robert A. Heinlein julgo ter hoje em dia todos os que foram publicados em Português (os muito bons e os que não valem a ponta de um caracol), tenho a série "Norte e Sul" toda gravadinha em vhs e devidamente arrumada a ganhar pó, e faltava-me imperdoavelmente a segunda temporada de "Perdidos" para fazer companhia à primeira, terceira e quarta que já cá moram.


Ora aproveitando um vale de desconto de 10 €, ontem passei pelo Jumbo e não foi tarde nem foi cedo, toca de comprar a segunda temporada, já vista e bem minha conhecida, mas que deveria ocupar o seu legítimo lugar na prateleira. De interesse só mesmo os extras e ao chegar a casa, a curiosidade mandou rasgar o papel celofane, vai de abrir a caixa com o dvd dos extras para ver o que tinha, caixa essa que veio a verificar-se, estava... vazia. Tal como a caixa com o cd número seis, cinco, quatro, três, dois e um. Todos vazios!


Lá vai ela recambiada para o Jumbo outra vez, felizmente tudo gente que me achou com cara de quem não ia roubar os dvd's das caixas para depois ir lá reclamar, então mas a embalagem estava com o celofane, estava sim senhor, mas os dvd's não estavam lá, não estavam realmente, como é que isto pode ser, não sei mas quero outra ó fáxavor, que eu não dei agora mesmo quase 40 € por uma caixa de cartão e sete caixas de plástico, o design é giro sim senhor, e sem dúvida que toda e qualquer visão do Sayid me deixa num estado de animação em pontos dentro de mim que só eu é que sei, mas há limites, minha senhora do atendimento ao cliente, há limites.


Deram-me outra. Abri e lá estavam eles, os dvd's todos dentro das respectivas caixas. Finalmente, a tão projectada aquisição consumou-se e a segunda temporada juntou-se às outras.


Vim pelo caminho a pensar. Tá bem que a série se chama "Perdidos", mas isto assim já é um bocadinho ridículo, não?... ;-)

sábado, janeiro 03, 2009

Maçãs verdes

Encontrei-a por acaso na frutaria. Já estava na caixa para ir embora mas ainda lhe faltavam umas maçãs verdes que queria comprar, perguntava à menina da caixa onde estavam.

Eu à espera com os meus limões para registar, juntei-me ao esforço de perceber o que pretendia a velhota, sem maior capacidade de se exprimir do que isto, dizendo que queria maçãs verdes. Das que fazem bem aos intestinos.

Seriam as reinetas, perguntei, disse ela que se calhar sim, a desorientação a ver-se-lhe bem nos olhos, apontámos e quando as viu disse que não, que não era nada daquilo. Eram umas maçãs verdes, que faziam bem aos intestinos, mas que se calhar afinal eram peras, e que deixássemos estar, iam da próxima vez. Rematou dizendo mais para ela que para nós, "estou mesmo maluca...", com a voz cheia de frustração e embaraço por não se conseguir fazer entender.

Consegui adivinhar que as maçãs verdes afinal eram kiwis, veio a alegria de se encontrar o fio à meada que andava perdido no meio do vazio. O mundo retomou a sua marcha normal.

Saí com os meus limões e com muita vontade de chorar. Ninguém devia passar por esta infelicidade de se ser traído pelo próprio corpo, deixando-nos incapazes para sermos autónomos, encarcerados dentro da própria cabeça, sem podermos comunicar, gradualmente a esquecermo-nos de quem somos. E ninguém devia estar sujeito a ver os que ama passarem por esta infelicidade.

Tocou-me muito fundo aquela velhota hoje. A minha mãe está na mesma, se não estiver pior. O futuro não prenuncia nada de bom.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Natal: a saga #1

Prendas a comprar: 11 (mas aposto um braço em como me estou a esquecer de alguém)

Ideias concretas sobre prendas a comprar: 2

Horas passadas hoje às compras: 6

Prendas compradas: 1 (e 1/2)

Quilómetos percorridos de carro: 87 (boa parte deles a tentar estacionar)

Quilómetros percorridos a pé: 5.973

Tentativas frustradas de encontrar estacionamento perto de uma superfície comercial: 1 (Há muito mais jovens preocupados com o seu futuro do que eu imaginava, ou então não)

Fatias de bolo-rei comidas vorazmente para dar conta da frustração: 2 (podia ter sido pior)

Amanhã é outro dia, e coiso e tal...

segunda-feira, novembro 24, 2008

Salsicha não te desgraces

Este é dos blogues mais engraçados, bem escritos e imaginativos que tenho encontrado, no género "blogue de gaja".

A maior pena que tenha é não ser eu a escrevê-lo! :-)

segunda-feira, novembro 17, 2008

A aula de ginástica mais cara da minha vida

Deve ter sido hoje.

Indo eu atrasada, a grande velocidade a caminho do ginásio, não parei numa passadeira na qual tentavam atravessar dois cidadãos, que se viram obrigados a parar para eu passar.

Eram dois polícias de segurança pública.

Ainda tive tempo de ver pelo espelho retrovisor um deles a puxar de um bloco de notas e de uma caneta, daí que tenha ficado com esta ideia, não sei...

Episódio vagamente semelhante a um sketch de gato fedorento

(No balcão do bar do ginásio, depois da aula)

- Vem buscar a sopinha?
- Sim, se faz favor.

(embrulhando a sopa)

- Então, correu bem o treininho?
- Sim... Depois não se esqueça de registar também a água que levei há pouco...
- Uma aguinha de meio-litro, certo?
- Certo (inho).

quinta-feira, novembro 13, 2008

A viagem do Elefante

"(...) Comandante, a religião hinduísta é muito complicada, só um indiano está capacitado para compreendê-la, e nem todos o consequem, Creio recordar que me disseste que és cristão, E eu recordo-me de ter respondido, mais ou menos, meu comandante, mais ou menos, Que quer isso dizer na realidade, és ou não és cristão, Baptizaram-me na índia quando eu era pequeno, E depois, Depois, nada, respondeu o cornaca com um encolher de ombros, Nunca praticaste, Não fui chamado, senhor, devem ter-se esquecido de mim, Não perdeste nada com isso, disse a voz desconhecida que não foi possível localizar, mas que, embora isto não seja crível, pareceu ter brotado das brasas da fogueira. Fez-se um grande silêncio só interrompido pelos estalidos da lenha a arder. Segundo a tua religião, quem foi que criou o universo, perguntou o comandante, Brama, meu senhor, Então, esse é deus, Sim, mas não o único, Explica-te, É que não basta ter criado o universo, é preciso também quem o conserve, e essa é a tarefa de de outro deus, um que se chama vixnu, Há mais deuses para além desses, cornaca, Temos milhares, mas o terceiro em importância é siva, o destruidor. Queres dizer que aquilo que vixnu conserva, siva o destrói, Não, meu comandante, com siva, a morte é entendida como princípio gerador da vida, Se bem percebo, os três fazem parte de uma trindade, são uma trindade, como no cristianismo, No cristianismo são quatro, meu comandante, com perdão do atrevimento, Quatro, exclamou o comandante, estupefacto, quem é esse quarto, A virgem, meu senhor, A virgem está fora disto, o que temos é o pai, o filho e o espírito santo, E a virgem, Se não te explicas, corto-te a cabeça, como fizeram ao elefante, Nunca ouvi pedir nada a deus, nem a jesus, nem ao espírito santo, mas a virgem não tem mãos a medir com tantos rogos, preces e solicitações que lhe chegam a casa a todas as horas do dia e da noite (...)"
José Saramago, A Viagem do Elefante

quinta-feira, novembro 06, 2008

Ódios de estimação

A senhora doutora antes de o ser, já o era. Soube sempre o que queria e chegou lá depressa. Nada se atravessou no seu caminho.

Programou a sua vida ao minuto e ao segundo, escolheu a dedo amigos e namorados, estes sim, que são respeitáveis e estão feitos à minha imagem e semelhança, estes não, que são inconstantes e embebedam-se, não vão à igreja, são promíscuos. Agora estudo, agora namoro, agora saio com amigos e sou muito divertida, agora caso-me e sou uma mãe de família exemplar e só me dou com gente ao meu nível. Hoje em dia é uma mulher de suceso.

Outra senhora doutora usa o título mas não o deixa entranhar-se.

Demorou muito tempo a crescer e a perceber o que queria, avançou por tentativa e erro, seguiu por caminhos pouco utilizados e isso trouxe-lhe do melhor e do pior. Portou-se mal, teve amantes, não acredita nos deuses das igrejas, nunca casou. Hoje em dia é uma mulher de sucesso.

Encontraram-se hoje por acaso, velhas conhecidas do tempo em que uma e outra não eram mais do que um projecto de mulheres adultas. Caminhos opostos percorridos, a animosidade desses tempos foi a mesma nestes tempos. Os sorrisos foram amarelos, os cumprimentos hipócritas. Ambas preferiam não se terem encontrado, não se respeitam mais hoje do que há 15 anos atrás. Apenas um pouco mais de base, baton e talvez, mais uns centímetros nos saltos dos sapatos.

Acontece que hoje, uma delas estava mais bem vestida, eh eh....

terça-feira, outubro 28, 2008

Mamas para que vos quero

De vez em quando, a mim como a toda a gente, acontecem coisas que não lembram a ninguém. E digo a mim como a toda a gente, porque embora seja habitual o recurso à expressão "isto só comigo!", mal seria que realmente o fosse, que era no mínimo uma grande injustiça para com a minha humilde pessoa, que certas coisas só se passassem comigo, logo eu que não faço mal a ninguém, para além de que ficava eu com o exclusivo de coisas para contar no blogue do género "isto só comigo", e as outras pessoas não tinham nada para contar, o que era chato.

Mas realmente, isto há coisas que só comigo. E assim introduzo a problemática da mama, ora aí está, dirão alguns, até que enfim vem aí algum assunto com interesse, por esta altura já finalmente captei a atenção de todos os que não desistiram logo ao primeiro parágrafo, para além de que a partir daqui vai ser vê-los a cair que nem tordos à procura de mamas, mais outra, isto nas próximas semanas o contador de visitas vai andar sem saber para que lado se há-de virar.

Falemos pois de mamas, mas aviso já, caro leitor e/ou pesquisador incauto, que não se vai tratar bem disso de que anda à procura. Mas como não quero deixar nenhum cliente insatisfeito, tenha a bondade de clicar aqui, e faça o favor de ir à sua vida. Obrigadinha.

Levei as minhas mamas a fazer uma ecografia mamária. Coisa banal, julgava eu, mas como disse, há coisas que só comigo. Que o meu ginecologista acha que eu, com 36 anos, sem nunca ter fumado um único cigarro na vida (é verdade, nem sequer para experimentar), nem queixas de coisa nenhuma, não tem necessidade de fazer mamografia antes dos 40. E eu, tudo bem. Lá fui eu, as mamas, a requisição do médico, bater de frente com uma outra médica que diz não senhor, a partir dos 35 ou faz as duas coisas ou não faz nenhuma. Se vem para fazer "eco" tabém tem que fazer "mamo", o seu médico é uma besta que só a manda fazer uma coisa quando devia mandar fazer as duas e ponha-se mas é a andar que já me está a maçar.

O meu doutor ginecologista (porque será que esta especialidade médica me dá sempre tanta história para contar na minha vida, valha-me a santa) manteve o que disse. Não vê necessidade nenhuma de uma mamografia. Solução? "Vá a outro lado"!...

E uma pessoa fica assim a perguntar-se quem terá razão. Já não é a primeira vez que penso nisto, dantes havia certos profissionais no mundo nos quais era suposto ter-se uma total confiança. Hoje em dia já não é mesmo nada assim. Sinto muitas vezes que antes pelo contrário, temos é que arranjar maneira de nos apetrecharmos para podermos defender os nossos interesses apesar da existência deles!

É realmente bizarro que para se lidar com os médicos o melhor seja também sabermos alguma coisa de medicina, que para se entender os advogados seja melhor irmos nós estudar as leis, para se falar com os informáticos tenhamos que... não, espera. Aí não adianta de nada estudar informática. No caso dos informáticos nada que a gente leia nos ajuda, estamos nas mãos deles. E nas dos mecânicos de automóveis também.

Médicos e advogados tudo bem, a gente pesquisa umas coisas na net, lê umas merdas e ficamos mais ou menos capazes de apresentar argumentos ou perceber quando alguma coisa não está a bater certo. Agora, informáticos e mecânicos não vale a pena, estamos nas mãos deles.

E assim termino o meu dia, um par de mamas perfeitamente ecografáveis, e ninguém que as queira ecografar. Nem mamografar, pelos jeitos.

sábado, outubro 11, 2008

Método indutivo

A verdade é que a minha casa anda no chamado desleixo, visto que há umas boas três semanas que não a limpo como deve ser (excepto no que toca a casas de banho e lençóis lavados na cama, que isto por enquanto ainda há mínimos de higiene que se impõem).

Por outro lado, nas mesmas três semanas, pouco tem sido o tempo que tenho passado em casa, o que por vezes me leva a questionar se verdadeiramente cá moro.

Logo impõe-se esta questão: também que obrigação tenho eu de manter limpa uma casa onde não vivo? Hein?...

(deixa-me cá mas é limpar o monitor, parece impossível, de onde vêm estas manchas e dedadas, que raio...)

domingo, outubro 05, 2008

Deolinda



Olha a banda filarmónica,
A tocar na minha rua.
Vai na banda o meu amor
A soprar a sua tuba.
Ele já tocou trombone,
Clarinete e ferrinhos
Só lhe falta o meu nome
Suspirado aos meus ouvidos.

Toda a gente fon-fon-fon-fon
Só desdizem o que eu digo:
"Que a tuba fon-fon-fon-fon
Tem tão pouco romantismo"
Mas ele toca fon-fon-fon-fon
E o meu coração rendido
Só responde fon-fon-fon-fon
Com ternura e carinho.

Os meus pais já me disseram
"ó filha não sejas louca!
Que as variações de Goldberg
P'lo Glenn Gould é que são boas!"
Mas a música erudita
Não faz grande efeito em mim:
Do CCB gosto da vista,
Da Gulbenkian, o jardim.

Toda a gente fon-fon-fon-fon
Só desdizem o que eu digo:
"Que a tuba fon-fon-fon-fon
Tem tão pouco romantismo"
Mas ele toca fon-fon-fon-fon
E cá dentro soam sinos!
No meu peito fon-fon-fon-fon
A tuba é que me dá ritmo.

Gozam as minhas amigas
Com o meu gosto musical
Que a cena é "electroacustica"
E a moda a "experimental"...
E nem me falem do rock
Dos samplers e dicotecas,
Não entendo o hip-hop,
E o que é top é uma seca!

Toda a gente fon-fon-fon-fon
Só desdizem o que eu digo:
"Que a tuba fon-fon-fon-fon
Tem tão pouco romantismo"
Mas ele toca fon-fon-fon-fon
E, às vezes, não me domino.
Mando todos fon-fon-fon-fon
Que ele vai é ficar comigo!

Mas ele só toca a tuba
E quando a tuba não toca,
Dizem que ele continua
Quem em vez de beijar ele sopra

Toda a gente fon-fon-fon-fon
Só desdizem o que eu digo:
"Que a tuba fon-fon-fon-fon
Tem tão pouco romantismo"
Mas ele toca fon-fon-fon-fon
E é a fanfarra que eu sigo.
Se o amor é fon-fon-fon-fon
Que se lixe o romantismo!

Espectáculo!... Alguém me manda isto em mp3?...

quarta-feira, setembro 24, 2008

domingo, setembro 21, 2008

Males que vêm por bem

Até aos 30 anos de idade fui uma absoluta nulidade em termos de actividade física. As aulas de Educação Física foram o pesadelo de toda a minha vida escolar, e cresci com a firme convicção de que não gostava de praticar qualquer desporto.

Até ao dia em que ganhei de presente uma hérnia discal. Dores de pescoço frequentes (vulgo torcicolos), mãos dormentes, dois ou três exames que tornaram a coisa oficial, um neurocirurgião a dizer que a solução era operar e que depois da operação podia ficar tudo na mesma ou pior. Estas coisas todas puseram-me a pensar que um pouco de exercício era capaz de me fazer bem à hérnia e ao resto. Foi assim que, aos 30 anos, fui nadar.

Com grande pena minha, este período negro da minha vida ditou o abandono da natação. Mesmo depois de tudo ultrapassado, alguma espécie de receio irracional de que tudo volte ao mesmo impede-me, ainda hoje, de lá voltar (mesmo sem ter garantias nenhumas de que a causa do problema tenha sido a piscina). Em contrapartida, descobri o step e a ginástica localizada, e é por lá que tenho andado nos últimos anos.

Nunca mais deixei de fazer exercício. Tornou-se numa coisa que necessito de praticar com regularidade para manter o meu bem-estar, inclusivamente o mental (a coisa mais aproximada de "não pensar em nada" que eu consigo atingir são aqueles 45 minutos de concentração absoluta em "três joelhos, sobe-e-desce, salta, corre, rápido, deita bem o ar fora, três joelhos"). E dou comigo a espantar-me com as coisas que o meu corpo se dispõe a fazer, com as suas capacidades.

Sinto-me a maior da minha rua, hoje que fiz quase 27 kms de bicicleta com toda a satisfação e boa disposição, coisa que, estou firmemente convencida, há seis anos atrás não seria possível.

Afinal, eu sempre gostei de fazer exercício. Demorei foi 30 anos a descobrir qual o exercício físico que me dá prazer fazer. E deste ponto de vista, esta hérnia discal que me acompanha foi das melhores coisas que me podiam ter acontecido.

Isso e umas calças com enchumaços no rabo, que se vendem nas lojas de desporto.

domingo, setembro 14, 2008

Alguém que me ajude pelamordedeus

Que raio aconteceu ao "sitemeter" de ontem para hoje?

Para onde foram parar os meus registos de visitantes desde Julho de 2005?

Codename? Password? Devem estar a gozar...

domingo, setembro 07, 2008

"Não gosto das suas perguntas..."

Foi o primeiro jogo do Mourinho lá naquele clube de Itália para onde ele agora foi, onde já estava o Luís Figo.

O conteúdo desta notícia, toda ela em futebolês incompreensível na maior parte do tempo, não me interessaria para nada, não fosse a resposta ao jornalista brasileiro.

Inimitável na frieza, no desprezo, na arrogância. Já vi isto umas poucas de vezes e dá-me sempre vontade de rir, põe-me bem disposta.

Não se arranja um toque de telemóvel com este "não gosto das suas perguntas"? Hein?...

Admirável. Este homem é o maior.

Oh pá, é.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Mr. U

Que saudades do Cabaret da Coxa...

Boca pouco doce

Hoje fiz um pudim instantâneo "boca doce" de morango.

Não me saiu bem.

Assim se percebe um pouco melhor até onde pode chegar a minha disfuncionalidade no que respeita à culinária.

Tenho que me dedicar antes às marcas que não precisem de juntar açúcar, porque isto desta maneira torna-se demasiado complicado...

P.S.: É claro que eu agora poderia aqui discorrer sobre a lei das compensações e de como, em contrapartida, sou extraordinariamente boa de cama, mas isso era vulgar e acima de tudo demasiado óbvio, de maneiras que vou ficar-me por aqui, ok?

P.S.2: E muito menos vou fazer trocadilhos brejeiros que relacionem o "extraordinariamente boa de cama" com a marca do pudim, que isso então, era de um mau gosto tal, que eu fico chocada só de pensar que eu pudesse eventualmente pensar numa coisa dessas.

P.S.3: Francamente, pá.

terça-feira, agosto 26, 2008

Arrependimento, consciência e responsabilidade

Esta coisa do arrependimento, julgo, é algo de inevitável na vida de qualquer um. Todos nós, num momento ou noutro, já tomámos opções das quais nos arrependemos. Ou melhor, à luz da experiência entretanto adquirida, muitas vezes até após vivenciar as consequências das opções tomadas, verificamos que afinal não tomámos a melhor decisão, dando-se aí o tal do arrependimento.

Mas sinceramente eu considero que, em situações dessas, há pouco lugar para o dito. Porque olhando para trás, para os muitos erros que fui cometendo, a verdade é que no momento em que tomei as decisões, elas eram para mim a melhor coisa a fazer, e optei com a alma e a razão, convicta de que era aquele o caminho a seguir. A compreensão do porquê de um determinado passo, que parecia tão seguro, ser afinal um passo em falso, isso veio depois, e não tinha como chegar antes. Então aí, de que serve o arrependimento? "Se soubesse o que sei hoje" é uma frase muito gira mas consola pouco e não justifica nada. A verdade é que na maior parte das ocasiões não sabia o que sei hoje, e isso é afinal a tal constante da vida.

Do meu ponto de vista, o que há a fazer é aquilo que, a cada momento, identifico dentro mim como a minha maior verdade, aquilo em que eu acredito mais profundamente e no fim, esperar pelo melhor. "Põe quanto és no mínimo que fazes", é realmente a melhor forma de andar para a frente. Não sem cometer erros, porque eles são fatais como o destino e precisamos deles para aprendermos a ser melhores do que aquilo que somos. Mas para dormir todos os dias descansada, que estou a fazer tudo, mas tudo o que me é possível, com aquilo que sou em cada momento.

Para mim, o arrependimento mora noutros momentos. Naqueles em que tomei opções que não vieram cá de dentro, em que me deixei levar em coisas nas quais não acreditava totalmente, em que disse "sim" quando queria verdadeiramente ter dito "não" ou vice-versa, e pior, quando olho envergonhada para trás e verifico que já sabia então exactamente aquilo que sei hoje, e ainda assim, incorri no erro. É aí que mora o meu arrependimento. Porque para esses erros eu não (me) dou desculpas ou panos quentes. Eu tinha tudo o que era preciso para saber melhor.

Continuo no entanto a achar que o arrependimento é uma coisa inútil. Não ensina nada, não minimiza nada, prende-nos ao passado e não nos deixa avançar. Está lá, e é tudo. Quanto aos erros, não é bem assim. Há sempre algo para fazer com eles. Por mim, encaram-se de frente e carregam-se juntamente com a restante bagagem, pois se fazem parte de nós e nos fizeram chegar aqui, não se podem largar no meio do caminho sem mais nem menos, se o que se pretende é seguir viagem.

Porque o erro de não assumir um erro pesa sempre mais do que o primeiro e para a frente é que é caminho, entre o arrependimento, a consciência e a responsabilidade, que venham elas, e ele se deixe estar por aí num canto qualquer a lamentar-se.

terça-feira, agosto 19, 2008

Anúncio do "Expresso", a 02 de Agosto

DIRECTORES DE ARTE (m/f) ( 02-08-2008 )

Perfil do candidato: O Departamento Criativo precisa de gente com bom feitio, interessante, divertida, descontraída, imaginativa, culta, bonita, com bom gosto e que cheire bem. O Departamento Comercial diz que o que faz falta é pessoas responsáveis e cumpridoras. E, uma vez mais, a Produção afirma que - dados os prazos - nada disto é possível.

Contacto: Contudo, acreditamos que por aí haverá quem queira participar neste nosso projecto. Se for assim, contactem-nos o mais depressa possível, para que não tenham de ser sempre os mesmos a trabalhar.

Observações: Seniores e Juniores

segunda-feira, agosto 11, 2008

Murphy, esse gajo incontornável

Roubei aqui. Uma delícia:

Ley de Murphy para os homens


1 - Os homens simpáticos são feios.

2- Os homens bonitos não são simpáticos.

3 - Os homens bonitos e simpáticos são gays.

4 - Os homens bonitos e simpáticos e heterossexuais estão casados.

5 - Os homens que não são lá muito bonitos, mas são simpáticos, heterossexuais e que não estão casados, não tem dinheiro.


6 - Os homens que não são lá muito bonitos, mas são simpáticos, heterossexuais, não estão casados, mas têm dinheiro, pensam que andamos atrás deles pelo dinheiro.

7 - Os homens bonitos, simpáticos, heterossexuais mas sem dinheiro andam atrás do nosso dinheiro.

8 - Os homens bonitos que não são lá muito simpáticos mas são heterossexuais e não ligam ao dinheiro, acham que não somos suficientemente bonitas.

9 - Os homens bonitos, simpáticos, heterossexuais, não casados, com dinheiro e que acham que somos lindas, são cobardes.

10 - Os homens ligeiramente bonitos, algo simpáticos, não casados, com algum dinheiro e, graças a Deus heterossexuais, que nos acham lindas, são tímidos e Nunca Dão o Primeiro Passo.

11 - Os homens que nunca dão o primeiro passo, perdem logo o interesse quando as mulheres tomam a iniciativa.

Eu acrescento: Os homens bonitos, simpáticos, não casados e heterossexuais que seriam perfeitamente capazes de dar o primeiro passo e de nos acharem lindas se nos chegassem a conhecer, têm o problema de desaparecerem ao fim de 45 minutos, quando entra o genérico final do Lost:

domingo, agosto 10, 2008

Beijing

No meio de conversas sobre este mundo e o outro, em que o denominador comum é o aniversário de uma amiga, assiste-se à repetição do espectáculo de abertura dos Jogos Olímpicos.

Espectacular, esmagador, impossível ficar indiferente.

Perante tantos milhares de jovens chineses a participar no espectáculo, há alguém que rompe o êxtase:

"Tantas bolas da Nike que podiam estar a ser feitas, pá. Sinceramente."

Fartámo-nos de rir, claro. E o vinho também era excelente. :-)

Post vagamente semelhante a uma letra da Rosa Lobato Faria

Maçãs, bananas, peras e laranjas, sim senhor, nada contra.

Mas então o que dizer das cerejas, dos pêssegos, das ameixas, dos melões, das meloas, das uvas e dos alperces?...

Do ponto de vista das frutas não há dúvidas, o Verão é de longe a melhor altura do ano!... :-)

Desabafos de volta

Está de volta o primeiro blogue que comecei a ler com regularidade. Os desabafos de um médico que tem sabido contar as histórias clínicas do ponto de vista do médico, mas também do ser humano que é. E muito, muito bem escritas. É de ler, meus amigos, é de ler.

sábado, agosto 09, 2008

"É abatê-los!..."

Ontem, SIC Notícias, aquele programa em que as pessoas telefonam para lá a dizer coisas. Inevitável o assunto do assalto na agência do BES.

E dizia um espectador, inflamado (se não me engano, polícia de profissão):
"Eu não sou violento e sou aliás contra qualquer tipo de violência. Mas nestes casos, é abatê-los, é abatê-los!..."

Mais outro que ainda acredita em sol na eira e chuva no nabal... A mim, a contradição dos termos e a convicção expressa na voz só me deu vontade de rir.

PS: E como deve estar a ser difícil ser-se brasileiro no nosso País por estes dias...

sexta-feira, julho 25, 2008

Não, não é...

"Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!..."
Álvaro de Campos

segunda-feira, julho 07, 2008

Envelhecer é...

Quando aquele tipo que conhecemos e apreciámos devidamente, quer pelo facto de ser mesmo atraente e bonito, e ainda por cima divertido, e ainda por cima inteligente, e ainda por cima simpático e educado, e alto, pá, umas mãos lindas, um sorriso de enfraquecer os joelhos a uma pessoa, uma voz daquelas mesmo masculinas, não sei se estão a ver, quente, bem timbrada. Canta bem como o raio, aliás...

Onde é que eu ia?... Ah, dizia eu, quando uma pessoa conhece um tipo como este, qual poderá ser a pior coisa que pode suceder? Não, não é ele já ter namorada, porque isso não chega a ser uma coisa má, quer dizer, é uma inevitabilidade da natureza, é um dado consumado do destino que um homem daqueles não estará disponível nunca, no momento em que repararmos nele. Nada disso. A pior coisa que nos pode acontecer na presença de tal musa inspiradora é ele tratar-nos por... você.

"Olá, está boa? Já foi àquele site ver as fotos do outro dia?...". Por você, trata-me ele. E nisto uma pessoa estatela-se no meio do chão, caída das nuvens aos trambolhões, porque ó desgraça das desgraças, onde eu ganho em experiência e maturidade, ele ganha em anos a menos. Onde ele está pleno de energia para percorrer os 100 metros, eu já vou com a endurance dos corredores de fundo. E vamos aqui reconhecer, constatar isto é coisa para desgostar uma pessoa.

Mas ainda assim, sendo tudo isto verdade, sinto-me algo injustiçada. Aquele você coloca-me mais anos em cima do que aqueles que tenho, bolas.

Vai daí, fico com vontade de lhe dizer um dia destes, amigo, não me trates por você, não me reduzas a essa condição de tia a quem se deve respeitinho. Afinal, não tenho sequer idade para ser tua mãe. Trata-me antes por tu, que é um tratamento mais compatível com as coisas que eu penso e imagino quando estou à tua frente, e que se resumem a uma certa vontade de verificar empiricamente que, na tua idade, já não precisas que eu te ensine nada.

Vontade essa que inclui, muitas vezes, vãos de escada ou lugares ermos.