segunda-feira, julho 18, 2011
O encantador de serpentes
Este menino que eu conheço já soma muitos azares trazidos pelas perversidades da vida, mas ainda não cresceu o suficiente para os compreender plenamente, e por isso não tem mágoas, nem ressentimentos, nem sabe ainda o que isso é.
Li-lhe muitas histórias à noite (enquanto ele não as soube ler sozinho) e também ajudei a inventar outras, para os trabalhos da escola. "O pai é bom na matemática mas na língua portuguesa tu és melhor!". Ri até às lágrimas de cada vez que lhe perguntávamos que cores de comportamento tinha ele na escola, invariavelmente verde pelas suas palavras, mas que gritava "nããããooooo!...." angustiado, quando dizíamos que íamos à escola ver o quadro onde estavam as cores!... :-)
Num aniversário ofereci-lhe um passeio de teleférico na Expo e ele disse-me que tinha sido o melhor presente de sempre. Outra vez levei-o a andar de comboio no lugar do maquinista, porque houve um tempo em que não havia nada mais belo no mundo do que os comboios. Foi assim que ele me levou a andar de teleférico e a andar de comboio, no lugar do maquinista.
Este menino que eu conheço falava mais baixinho quando me pedia para eu lhe dar um irmão.
No meio dos desencantos, penso nele. Para além das saudades, conforta-me o pensamento de que sempre honrei a amizade inocente que ele me entregou, sem hesitações. Tenho o meu quinhão de erros cometidos ao longo da vida. Mas com ele, sei que não falhei. Tenho a certeza.
Foi graças ao pequeno encantador de serpentes que algumas vezes consegui ser uma pessoa melhor.
sexta-feira, julho 15, 2011
De volta à estaca zero
Limpar as feridas, sacudir a saia, ajeitar o cabelo. Só chorar à noite. Seguir em frente.
("carrega no batom, abusa do verniz, nem Deus tem o dom de escolher quem vai ser feliz")
terça-feira, junho 28, 2011
Com 75 e 79 anos de idade...
sábado, junho 18, 2011
Sobre a morte de um amigo ou Nunca deixamos de ser crianças com medo do escuro
Tenho tido menos sorte no que toca a relacionamentos, por exemplo. A esse nível, como diz a canção do Rui Veloso, má fortuna, erros meus, de tudo um bocadinho se calhar, tem levado a uma existência menos feliz, mais sofrida.
Outra coisa na qual tenho tido uma sorte tremenda: cheguei quase aos 40 anos de idade sem saber o que era morrer-me alguém de quem eu gostasse mesmo muito. Sim, claro, morreram pessoas que eu conhecia, umas melhor que outras, que lamentei, que me causaram pesar e tal, mas morrer alguém que me fizesse mesmo mossa no coração, que me abrisse um buraco cá dentro, nunca me tinha acontecido até muito recentemente, e vejo agora quanta sorte tem sido a minha, e que agora se acabou, com a morte de um amigo que me fez perceber um bocado melhor o que é isso de nos morrer alguém e o que é isso de ter saudades de alguém que deixou de existir.
A amizade é uma coisa muito gira, porque toca-se no amor em muitos aspectos, não é? Em relação a muitas coisas, é igual. É talvez consumada de maneira diferente, mas o bem que desejamos a alguns amigos, o bem que nos faz estarmos com eles, não é assim tão desvalorizável em relação ao amor. Acho eu. Depois, aquela sensação mágica que temos em relação a certas pessoas, que podemos ter conhecido nem há cinco minutos e que percebemos no mesmo instante que a amizade sempre esteve lá, apenas não nos conhecíamos, e que os laços são tão fortes que são mesmo para a vida toda, até que a morte nos separe.
Tenho muita sorte porque consigo aqui puxar pela cabeça e lembrar-me de várias pessoas na minha vida a quem estou ligada por estes laços assim. Que já eram meus amigos e amigas desde sempre, muito antes do momento em que se sentaram à minha frente numa secretária para trabalharmos juntas, muito antes de nos juntarmos às 3.ªs e às 6.ªs Feiras para fazer um espectáculo de teatro, muito antes de sermos apresentados na rádio local, muito antes de eu ter nascido. Muito antes de muitos acontecimentos que apenas foram as circunstâncias que nos permitiram descobrir e vivenciar uma amizade que sempre existiu.
Não sei se é sorte ou falta dela, mas esta semana estou a descobrir coisas, sentimentos que não conhecia, dos quais apenas tinha ouvido falar. Desconhecia que podia ser assim. Não sabia que a nossa cabeça continua durante muito tempo sem conseguir compreender uma determinada realidade mesmo que ela apareça crua na frente dos nossos olhos, mesmo que falemos dela conscientemente todos os dias. Já tinha ouvido falar do vazio da perda, mas não sabia que isso era na verdade um enorme silêncio que nada consegue preencher, já tinha ouvido falar em saudades, mas desconhecia que isso fosse afinal uma tão grande escuridão interior.
É bonito dizer que o nosso amigo estará sempre vivo nas nossas recordações, nos nossos corações. Mais difícil é falar da parte de nós que morreu com ele. Contudo, parece-me ser tão verdadeira uma como a outra. Tive tanta, tanta sorte em tê-lo conhecido, que chega a ser igualmente uma sorte e um privilégio ter agora morrido um bocadinho com ele.
sábado, maio 28, 2011
Todo um national geographic a acontecer à volta da minha casa
sexta-feira, maio 20, 2011
Sempre fui, sempre serei uma betinha marrona
segunda-feira, maio 09, 2011
Peso à portuguesa, com certeza
Isto da globalização cultural tem coisas muito boas mas a bem da verdade também pode ser uma chatice. Porque como temos cada vez mais acesso à versão original de certos produtos televisivos, quando estes chegam a Portugal é mais ou menos como aquela carne supostamente fresca que nos querem impingir no supermercado, mas que como veio importada de Timbuktu e demorou uma semana a cá chegar, de fresca já só tem o nome e a luz fluorescente avermelhada que lhe põem por cima, para ela ficar mais corderosinha, no balcão onde a gente encosta a barriga.
Ora barriga foi mesmo a deixa que veio a calhar para falar do "Peso Pesado", que começa logo mal pelo título que lhe deram, porque pese embora (isto é um tema que se presta mesmo a umas bocas bem metidas, e olha já aqui mais outra) se compreenda que "The Biggest Loser" seria algo impossível de traduzir de forma adequada para o nosso Português, não percebo porque raio não chamaram ao programa "Peso Certo". Porquê? Por ser o título de um espectáculo de revista do Fernando Mendes? É que "Peso Certo" seria muito mais apropriado ao espírito do programa, julgo eu. "Peso Pesado"?... Enfim, não percebo.
(Mas isto das decepções com as versões portuguesas de alguns programas não é a primeira vez que me acontece. Quem como eu seguiu avidamente na TV espanhola a primeiríssima edição da "Operación Triunfo" (e que pena que eu tenho de não arranjar aquilo em dvd, que comprava, palavra de honra), percebe bem as diferenças. Embora por cá as primeiras edições também tenham valido a pena, enfim, sempre achei uma pena que o Jorge Gabriel não tivesse apresentado a OT por cá. Ou mais recentemente a versão do "Project Runway", um programa tão giro, como é que foi possível fazer em Portugal... bem, aquilo que se viu, ou que eu só vi o primeiro programa, porque a seguir desisti logo).
Adiante. Tal como já receava, grande fã que sou do "Biggest Loser", esta versãozinha à portuguesa está-me a sair uma coisa desnxaibida e sem ritmo, de brandos costumes, repleta de concorrentes "mais ou menos", de esforços moderadamente difíceis e com uns desafios razoaveizinhos, mas nada de muito extremado, que isto é só para parecer que nos estamos aqui a esforçar muito e o verdadeiramente importante neste programa é, já se sabe, chorar. Chorar muito. Tudo bem, já perdi a virgindade há uns anos, também não tenho a ilusão de que os americanos se esfalfem até ao limite do absurdo, mas pelo menos disfarçam melhor, caraças! Embora, diga-se em abono da verdade, na versão original eles também choram que se fartam, coisa que aliás é a única que me chateia em todo o programa. É a choradeira que para ali vai do princípio ao fim.
(o que me leva a uma reflexão que já tinha antes de iniciar a versão portuguesa: então mas será que não se arranja um raio de um obeso que diga assim, estou gordo porque como até me fartar e aquilo sabe-me bem! Não tive nenhum trauma de infância, a minha família não morreu toda, não estou chateado com a vida, sou sexualmente activo - sim, é que dá a sensação que os obesos não têm vida sexual, e desconfio que isso não seja verdade - simplesmente o meu metabolismo, os meus hábitos de alimentação, a minha vida sedentária, levaram-me a uma obesidade que está descontrolada e aqui estou, alegre e contente, de cabeça resolvida, pronto para mudar de vida! Qualquer coisa assim, um concorrente especial que nunca chorasse, era do meu ponto de vista um bom contributo para este programa. Fica a sugestão, para o vazio das pessoas pertinentes para tomarem esta decisão e que nunca irão ler este texto.)
Então e os treinadores? Os treinadores, pelamordedeus. A forma como a treinadora (ainda não sei como se chama) dizia há bocado para um concorrente da equipa castanha qualquer coisa como "vá, dá o teu máximo, esforça-te", parecia qualquer coisa como, "vá, um bracinho a seguir ao outro meu querido, agora a perninha para a direita, a outra perninha para a esquerda". O texto foi decorado e é dito ainda com menos expressividade que a do Mourinho nos anúncios do BCP. E isto eu nunca pensei que fosse possível ver em televisão.
(Embora o Mourinho se tenha uma vez mais superado. Levou os anúncios a bancos protagonizados por gente do futebol para todo um outro nível, muito para além do Ronaldo que tem o dinheiro no Bejarender. Mas continua brutalmente atrante. O Mourinho, nada de confusões. O outro nem calado marchava.)
Onde é que eu ia? Ah! A treinadora. A senhora a incentivar os concorrentes durante o treino parece aquelas meninas do call-center que falam connosco sempre com a mesma entoação que aprenderam no workshop e que se desmancham à primeira pergunta que a gente lhe faça e que não esteja no guião. Do treinador ainda não vi o suficiente. Mantiveram o padrão, o homem é o bonzinho, ela é a cabra. Não consegui ainda perceber se ele vai fazer bem de bonzinho. Mas ela enquanto cabra, meu deus, tragam cá a Jillian e ela que dê um treino de gritaria e de asneirada a esta treinadora que arranjaram, a ver se melhora o interesse e os concorrentes transpiram mais um bocadinho.
E depois, é claro, a apresentadora. O que dizer sobre a apresentadora? Porquê, pergunto eu, porque é que hoje, Domingo à noite, refastelada no meu sofá a empaturrar-me com amêndoas de chocolate que sobraram da Páscoa enquanto vejo um programa sobre perca de peso e aquisição de hábitos de vida saudável, porque é que de repente tive a sensação de que estava a ver um qualquer programa das tardes ou das manhãs de um qualquer canal generalista? "Então, concorrente "xpto", estou a vê-la com uma carinha tão triste, o que é que se passa?...". E depois os concorrentes, como são portugueses, dizem coisas extremamente assertivas, como "não se passa nada de especial", ou, "estou assim mais ou menos". Exacto. Pois. Disseram à Júlia Pinheiro para moderar o tom de voz. Mas quase que preferia vê-la aos gritos como o costume. Seria mais autêntico.
Mais outra coisinha: o programa de hoje foi demasiado longo. É muito encher de chouriço num programa que se destina a perder peso, a sério. Não teve ritmo nenhum, o realizador também devia ir aprender umas coisas lá com os americanos. E aquela conversinha a puxar a lamúria como se fossem as "Tardes da Júlia", com uns concorrentes totalmente embaraçados, mal preparados, que poucas palavras conseguem pronunciar, dão uma comichão nos dedos para mexer no comando da televisão e ver o que está a dar na FoxLive que eu nem vos digo. Bem sei que ao Domingo são só séries repetidas. Mas estão tão bem feitas que são como a comidinha caseira, mesmo requentada, raramente decepciona.
quarta-feira, maio 04, 2011
Às vezes a vida não é tão difícil assim
Professor: Sim?...
Aluna: Deve ser muito recente, porque procurei por ele aqui na biblioteca da Faculdade, e não estava lá...
Professor: ...
Aluna: Pode dizer-me onde consigo encontrá-lo, ou talvez emprestar-me o seu?...
Professor: Não deve ser necessário... Eu comprei o meu no Pingo Doce...
sexta-feira, abril 22, 2011
Culinária, essa arte abominável
Seriously. Dêem-me casas de banho para limpar e é verem-me a esfregar sanitas e bidés com alegria, se estiver para aí virada, com a música em altos berros, dando piruetas e cantando em plenos pulmões enquanto loiças, espelhos e azulejos resplandecem à passagem das minhas mãos, frementes por higiene radical.
Agora na cozinha, é o horror. Para começar, convenhamos que mexer em carne e em peixe crú é um grandessíssimo nojo. Basicamente, a carne e o peixe, quando estão crús, cheiram mal. E escorregam das mãos, e têm gorduras, e escamas, e outras porcarias agarradas, o que me deixa logo com uma enorme vontade de ir fazer qualquer outra coisa, menos mexer naquilo.
Depois, é todo aquele mundo das receitas, quantas vezes ainda mais incompreensíveis e impossíveis de decifrar do que o estado das finanças do País. A ver se vos consigo explicar mais ou menos como sou eu a ler uma receita:
Ingrediente A: "não tenho"
Ingrediente B: "não tenho"
Ingrediente C: "não tenho e não sei onde se compra"
Ingrediente D: "não sei o que é"
Quando eventualmente consigo ultrapassar esta parte dos ingredientes, passo à parte da descrição da receita propriamente dita:
"Misture o ingrediente A com o ingrediente D e reserve. De seguida faça um não sei quê com os ingredientes B e C e depois de esperar 10 min...", não costumo ler muito mais que isto. ´É mais ou menos nesta altura que ponho de lado e desisto, exaurida só de pensar no trabalho que aquilo me vai dar.
E por outro lado, julgo que da mesma forma que um qualquer animal pressente as pessoas que não gostam dele, e reage a isso mesmo, acho que as cozinhas e os alimentos de um modo geral também pressentem esta minha aversão a eles. Só assim se explica que quando me dedico a cozinhar algo, os ovos explodam, o óleo espirre, o caldo entorne, as colheres e as tampas caiam para o chão com grande estrondo, para além de outras coisas imprevisíveis que sempre me acontecem.
Aqui há uns tempos atrás, resolvi fazer puré de batata. Sobrevivi. Mas estraguei dois passe-vites e depois de almoço andei a limpar puré de batata dos móveis da cozinha, em sítios que ainda hoje me parece que desafiaram as mais elementares leis da física...
Depois, há todo um drama a acontecer em torno dos filetes de pescada, não sei se alguém já reparou. Vivi num paraíso durante anos, porque havia isto, que era só meter no forno e eram mesmo bons. Ultimamente passo noites sem dormir, sem qualquer explicação que venha acalmar a minha angústia, porque deixei de os encontrar à venda. Não há filetes de pescada destes em lado nenhum! :-( Senhores da Pescanova: por favor, por favor, não os retirem do mercado. Agora só encontro pázadas disto e não me venham com conversas, porque não é a mesma coisa. Consequência: fazer filetes em casa à boa maneira tradicional (pois, pois...). Com óleo gordurento e de comportamento irrascível, a salpicar-me e a causar dores alucinantes, já para não falar da farinha espalhada por todo o lado, o polme que encaroça com a farinha, e no fim, já se sabe, toda uma cozinha imersa na maior imundície. Parecia que tinha acontecido um tornado de gorduranga por aquela bancada fora. Depois desta última experiência horripilante, concluo que só me restam duas alternativas, se quiser continuar a comer filetes de pescada. Ou descubro um ninho de filetes da Pescanova (mas terá que ser noutro lugar para além deste, julgo eu), ou compro um fato de astronauta para usar da próxima vez que os for fazer. Não me livra da cozinha destruída, mas pelo menos protege-me das queimaduras do óleo e da necessidade de tomar um banho de imersão e de por a roupa toda para lavar.
Mas a verdade é que é Páscoa. E por motivos emocionais que agora não vêm ao caso, germina em mim um imperativo categórico para que não passe mais esta ocasião festiva sem que se faça arroz doce cá em casa. Assim será. Mas palavra de honra, receio pela minha integridade física e pela daqueles que me estão próximos...
Estar velha é...
terça-feira, abril 19, 2011
Coisas que me fascinam #1
sexta-feira, abril 15, 2011
Pragmatismo e desencanto
Se como julgo, só me queres para um encontro ocasional e depois estás-te a borrifar para o que eu sinto, para o que eu penso, para quem eu sou e se fico bem ou mal, ao menos diz-me isso mesmo, que sempre fico a saber com o que posso contar. Confia em mim, a sério. Sou crescidinha, tenho muito juizinho, tenhas tu coragem para dizer as coisas como elas são, eu terei as forças para (me) aguentar.
Agora, não me digas que estás cá para mim para depois me ignorares no momento a seguir, quando eu mais precisar. Se não tens nada para me dizer, não me digas que depois falamos. Se os teus interesses são outros, não faças de conta que te interesso para alguma coisa, que eu dispenso essa tua condescendência. Dares-me um pouco da tua atenção não é um favor que me faças, percebes? É para essas merdas todas que já não há pachorra.
Não me queiras iludir, que eu já não tenho idade para isso e isso sim, é que me ofende. Ofende-me na minha inteligência e na minha dignidade. Sei que acima de tudo, dependo de mim própria. Não estou à espera que me venhas salvar a vida. Por isso, fala claro comigo.
É tudo o que te peço, querido futuro governante do meu País.
quarta-feira, abril 06, 2011
Alegrias da sociedade de consumo
quinta-feira, março 31, 2011
É incrível
Vejo e no fundo não é que me surpreenda, mas ainda assim não consigo deixar de pensar, é incrível.
terça-feira, março 29, 2011
Don't stand so close to me
domingo, março 06, 2011
A luta é alegria!!!
Kirikirikirikiriki! Os homens da luta ganharam o festival da canção e foi o povo que lhes deu a vitória. O que quererá dizer esta vitória, pergunto eu? Quer dizer que estamos perante mais outro exemplo do poder das redes sociais e de quem delas souber fazer bom uso face aos seus objectivos? Pergunto-me: quantas pessoas que votaram nos homens da luta através da internet para o apuramento inicial, e esta noite pelo telefone, quantas delas foram às urnas no passado dia 23 de Janeiro para eleger o Presidente da República?
Quererá dizer apenas que o povo agarrou finalmente a oportunidade de gozar com aquele festivalzinho de merda, pouco diferente desde 1964 só que agora com piores canções e piores cantores (excepção e honra feita ao Nuno Norte e à Wanda Stuart)? Pergunto-me: esta gente ainda acha que ganha concursos a gritar em plenos pulmões?
Quererá dizer que o povo quis levar este gozo para além do festivalzinho de merda que tem cá, e finalmente dizer aos senhores da Eurovisão que enfiem o Festival onde melhor lhes aprouver?
Ou quererá dizer que "Os Homens da Luta" têm a energia e a criatividade suficientes para agitar, incomodar a portugalidade balofa que se vê nas canções do Festival da Canção e no nosso dia-a-dia?
É tão irónico que seja justamente à Alemanha que a Luta agora vá chegar. E foi muito giro de ver hoje, depois dos resultados apurados, a tensão no Teatro Camões, o nervosismo da apresentadora, os olhares incomodados, os apupos. São uns palhaços, as canções não prestam. A crise não se resolve de megafone na mão, a dizer disparates e a cantar cantigas.
Dizem que no tempo do Zeca Afonso também era assim.
segunda-feira, fevereiro 28, 2011
terça-feira, fevereiro 22, 2011
Mr. Darcy
Nota: O acesso a esta cena deixou de se poder incorporar, para ver no youtube, vão por aqui: http://www.youtube.com/watch?v=_vhtqVQIBZA
Estou apaixonada por Mr. Darcy. Desde sempre, aliás, já nasci apaixonada por ele. Por este conceito de homem seguro de si próprio até aos limites da arrogância, mas capaz da maior das sensibilidades, ainda que quase sempre dissimulada. Há muitos exemplos de Mr. Darcy por este mundo fora, mas este aqui de cima é para mim o melhor de todos. Melhor ainda que este Mr. Darcy:
Ou este outro Mr. Darcy:
Passo a explicar porque é que me parece que aquele Mr. Darcy do filme "Orgulho e Preconceito", representado por Matthew Macfadyen, é o melhor de todos, e porque é que acho esta cena em particular um verdadeiro espectáculo de representação.
Primeiro que tudo, a voz. Com uma voz daquelas, o tipo podia segredar-me ao ouvido "o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos", ou até uma letra de uma qualquer canção dos GNR, que eu ia para a cama com ele na mesma. É mesmo assim, não há nada mais a dizer.
Mas de regresso a esta cena em particular, independentemente dos atributos físicos (a voz e... e... bem, tudo o resto) o tipo tem aqui um trabalho de actor muito, muito bom. Ok, ela por acaso também não vai mal, mas o ressentimento e outros sentimentos muito negativos levam-me a colocar isso de lado. Ignoremos pois a cabra que teve a oportunidade de uma vida de representar uma cena destas e voltemos ao que interessa. Reparai como ele (Mr. Darcy, o personagem) começa o discurso que tinha previamente decorado ("Miss Elisabeth..."), seguro de que ia despejar tudo de seguida e que iria manter o seu ar altivo de quem comanda tudo. E depois cai o boneco ao segundo 00:43 quando finalmente se confessa: "I love you...". Reparem como de seguida, o "most ardently" é trespassado de emoção, completamente diferente do discurso inicial. E depois, entre o minuto 3:40 e 3:57, quase sem palavras, vejam: tristeza, desilusão; amor; desejo; e finalmente, de novo o orgulho e a altivez. Espectacular. Lindo. Homens, aprendam: é disto que se fazem os sonhos!.. (suspiro).
Pesquisando um pouco mais sobre o amor da minha vida, constato que este Mr. Darcy, pasmem-se as almas, é casado. E fico a perguntar-me: haverá ainda neste mundo algum Mr. Darcy que não o seja?... ;-)
sexta-feira, fevereiro 11, 2011
Meio comida por lobos da alsácia
A vista já me cansa muito, não consigo estar muito tempo ao computador, onde há muitos anos atrás comunicava para o mundo inteiro que me quisesse ouvir, e que eu ouvia sempre que queria escutar. Estou sempre a enganar-me a digitar as letras e isso irrita-me, eu que dantes conseguia que os dedos corressem velozes e certeiros pelo teclado, à mesma velocidade do pensamento. A internet é demasiado rápida e já me cansa tanta informação.
Mas continuo amiga das tecnologias. Conforme fui envelhecendo tratei de pôr as facturas todas a descontar directamente na conta bancária. A pensão vai para lá todos os meses, também. A casa ficou paga no ano em que comemorei 74 anos de idade, grande conquista, nesse ano fiz uma viagem à Escócia. Sozinha.
Agora já não viajo. Estou em casa. Resisti até ao limite à ida para aquele sítio a que chamam de "lar", um dia destes irei, tenho dito sempre, mas nunca fui. Não conheço os meus vizinhos. Eles também não me conhecem a mim.
Daqui a uns anos, daqui a uns dias, horas, minutos, algo irá acontecer-me e serei mais uma versão patética dos piores receios da Bridget Jones, que temia ser encontrada morta no chão do apartamento, meio comida por lobos da alsácia. Presunçosa rapariga! Até na morte se achava uma grande coisa, porque haveriam de ser lobos da alsácia, e não vulgares cães de rua?
A mim, quando me acontecer isso, nem cães para me virem comer. Não tenho bichos. Melhor assim. A mim, quando me acontecer, continuarei a pagar as minhas dívidas a tempo e horas, muito tempo poderá passar até que alguém, se é que alguém, dê pela minha falta. Até que finalmente alguém diga, olha, está morta, e então sim, passar realmente e estar. Porque até que alguém o diga não é claro que verdadeiramente o esteja.
Estarei morta? Se calhar já estou morta. E então? Não estaremos todos?
sábado, janeiro 29, 2011
Rapunzel revisitada
Mas a verdade é que, sendo eu despistada, tenho um homem muito mais despistado do que eu. Assim despistado ao nível de estratosférico. Porque se é verdade que eu própria já saí de minha casa e o deixei a ele a dormir trancado do lado de fora, porque quando saí me esqueci completamente que ele lá tinha ficado dentro, quando chegou a vez dele me fazer o mesmo levou isto para toda uma nova dimensão.
Passo a explicar. Em casa dele, ele saiu e eu fiquei. Acordei já atrasada, vesti-me preparei-me para sair, puxo pela porta e ela não mexe. Trancada. Bonito. Puxo do telemóvel a pensar, vais ouvir das boas e agora voltas para trás que te lixas. Telefone começa a tocar e eu oiço: ti-ni-ni-ni-ni. Ti-ni-ni-ni-ni. Estou trancada em casa dele. E aquela besta deixou cá o telemóvel! Não sei a que horas volta. Não tenho como falar com ele.
Senti-me como uma Rapunzel dos tempos modernos, só que a realidade é menos romântica e bem mais ridícula. Solução? Ligar a uma irmã que depois de controlar o riso que a levou às lágrimas (é sempre bom pôr alguém bem disposto às 08h30 da manhã), ligou à mãe que por sorte estava em casa e por sorte tinha a chave suplente que lá costuma estar, não vá ele esquecer-se da dele em algum lado... Coisa que, como facilmente se imagina, nunca acontece!...
A pobre senhora lá veio a pé, empenhada no meu salvamento e depois de me libertar do meu cativeiro ia dizendo, conforme descia as escadas, e depois diz-me o meu filho que eu estou a ficar senil e que me esqueço de tudo...
Fui-me embora a pensar que está na hora desta minha relação dar um passo em frente. Quero uma chave da casa dele. Não é para entrar quando quiser. É para sair quando precisar! :-)
quarta-feira, janeiro 05, 2011
segunda-feira, janeiro 03, 2011
Realidades distorcidas e ligeiramente doentias :-)
É, portanto, a relação mais duradoura e mais funcional que alguma vez estabeleci em toda a minha vida adulta!...
(eu comecei por dizer que era ligeiramente doentio, certo?...) :-)
terça-feira, dezembro 28, 2010
Case Study?...
O empenho que a Ensitel está a ter, na sua página do Facebook, em apagar(!) os comentários de desagrado que por lá vão ficando é apenas coerente com as acções que encetou para que a autora deste blog apague(!!!) os relatos da sua má experiência com a empresa.
Está-lhes o tiro a sair pela culatra e este post é mais um tiro na culatra deles...
domingo, dezembro 26, 2010
Versão estafada do Natal
Eu: Olá, estás boa? Há quanto tempo não te via, vieste passar o Natal com a tua mãe? Está tudo bem?
Ela: Tudo bem, obrigada. Tiveram um bom Natal?
Eu: Sim, tudo bem. E o vosso Natal, também correu bem?
Ela: Sim... E está quase a acabar, graças a Deus!...
sexta-feira, dezembro 24, 2010
Votos de Boas Festas em tempo de crise
domingo, dezembro 19, 2010
...
E isto não tem nada a ver com Deus, atenção. Neste contexto, acreditar ou não em Deus é perfeitamente acessório. Mas numa lógica, num tal sentido oculto para as coisas, acreditava sim senhor. Desgraçadamente, estou cada vez mais com o Fernando Pessoa. O único sentido oculto das coisas é elas não terem sentido oculto nenhum. É perfeitamente aleatório. É conforme calha. Tal e qual como os raios quando caem no meio de uma trovoada. E isto é uma coisa que irrita.
Irrita porque levamos a nossa vida inteira a tentar dar-lhe um sentido qualquer, a tentar construir algo, uma identidade, a marcar um percurso, a sermos coerentes. E depois não interessa nada se um tipo é um homem íntegro, bom filho, talentoso, inteligente e bonito, não interessa se só tem 30 anos de idade, toma lá um cancro porque calhou assim, olha, paciência, agora pões aqui a tua vida e a da tua família toda entre parêntesis, a ver quem te mata mais depressa, se o cancro, se a quimioterapia, e vocês todos à volta deste garoto, suspendam a respiração e observem, pode ser que se safe, pode ser que não, agarrem-se a essa ideia absurda de que a lógica da vida certamente não permitirá que o pior aconteça, agarrem-se a isso, se é do que precisam para prosseguirem com as vossas vidas ridículas.
Não interessa nada se um outro homem aos 60 anos de idade tem ainda muito para dar a filhos, a netos, a amigos, não interessa que o seu percurso e as suas opções de vida tenham ajudado a formar o carácter de muitos jovens, ajudado a descobrir talentos, a encontrar vocações. Vem uma qualquer contingência do acaso, baixa-se uma névoa na cabeça deste homem e já não reconhece ninguém, não sabe onde está, nem de onde veio, e tudo o que foi e construiu, para ele já não existe. E a gente pensa, é injusto, e há uma mulher que diz, é injusto, uma mulher com pouco mais de 40 anos que um dia chega a casa e se deita na cama para já não acordar no dia seguinte, a ela calhou-lhe assim, à irmã calhou-lhe meter a chave à porta que estava de reserva "para qualquer eventualidade", porque tinham combinado coisas muito lógicas e coerentes e ela estava atrasada. E foi isto que os acasos da vida deram àquela família.
E eu hoje estou assim muito irritada e revoltada com isto tudo, com as coisas muito importantes às quais me dedico todos os dias, nas quais esgoto as minhas energias enquanto uma parte de mim está 24 horas por dia a dizer-me que o meu pai já tem 79, e a minha mãe já tem 75, e que um dia destes um qualquer acaso vai bater à minha porta, e não necessariamente por causa deles, afinal, também eu posso acordar morta já amanhã.
E fico a pensar que o melhor mesmo era largar esta merda toda, dizer que se foda a tudo na minha vida, arranjar um trabalho a esfregar o mesmo chão todos os dias, alguma coisa que não me desse muito que pensar, que não vale a pena fazer coisas muito relevantes na nossa vida, se tudo se desfaz no minuto a seguir. Penso nisto mas sei que não o farei, porque isso não teria lógica nenhuma, e apesar de tudo, a lógica e a coerência é o que nos faz levantar todos os dias de manhã. Mesmo sabendo que não há coerência, que não há lógica, e que nada faz sentido.
Vivemos de paradoxos. E depois morremos.
sábado, dezembro 11, 2010
Coisas realmente importantes para se dizer ao fim de mais de um mês de ausência
quarta-feira, novembro 03, 2010
O dinheiro não traz felicidade mas uma copa B tamanho 36, traz sim senhor
O que eu acho estranho, e abona pouco em favor do rigor da dita reportagem, é que nunca, em momento algum, falaram de uma actividade que potencia a libertação de serotonina em grande escala, e que contribui sempre, mas sempre, para aumentar a felicidade: não, não é isso. Quer dizer, isso também liberta serotonina. Mas no caso em concreto refiro-me a outra coisa: comprar lingerie nova. Nunca falha, o que liberta de serotonina e deixa uma pessoa bem disposta, pá! E não apareceu na reportagem, vá-se lá saber porquê.
E note-se que até tem um efeito que se perpetua no tempo: liberta-se a serotonina quando se compra, quando se veste, e com um bocado de sorte, liberta-se mais serotonina, inclusivamente em mais do que uma pessoa, quando se despe, e por aí fora, é um libertar de serotonina que é tudo uma grande alegria.
Quais anti-depressivos quais quê. Lingerie nova, ouçam o que vos digo. Aliás, bem vistas as coisas, não percebo porque é que, se a Paroxetina é comparticipada, porque raio não há também comparticipação na compra destes produtos aqui ou aqui? Hein?... Pois se também libertam a tal da serotonina?...
Tomai nota, que isto é que tem rigor científico: felicidade. Serotonina. Cuecas e soutiens novos. Tudo a mesma coisa.
sexta-feira, outubro 29, 2010
Sem sentido
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada para compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: -
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas."
sábado, setembro 25, 2010
A geografia das emoções
E foi nesta altura que o meu cérebro, literalmente, me deu um murro no estômago. Quando me deu a noção exacta de que o meu primeiro ano de Faculdade foi há vinte anos atrás. Porra.
É claro que outras partes do meu cérebro começaram logo a tagarelar (o nosso cérebro em auto-defesa também é uma coisa muito gira). Então e isso que tem, nem é tanto tempo assim, quantos não passaram por cá também e nunca voltaram, teres esta força de vontade é sinal de vitalidade e até de alguma juventude, e todo um enorme blá, blá, blá, que entretanto, infelizmente, deixei de me conseguir ouvir porque já ia a pé a caminho da escola e passava por mim um cortejo de meninos do infantário, encabeçados por uns miúdos da primária vestidos de negro, que faziam todos muito barulho.
De maneiras que passei esta primeira semana muito contente, sem dúvida, mas também a sentir-me, julgo que pela primeira vez na minha vida, verdadeiramente, incomensuravelmente, velha, velha, velha.
A questão essencial desta semana resume-se afinal a isto: vinte anos. Porra.
sexta-feira, setembro 10, 2010
Episódios dispersos das férias #4
Esvaem-se em fumo, esses princípios, misturam-se na areia e são levados pelo mar, e tudo o que resta é aquela música hipnotizante, que percorre a praia e nos faz correr contra a nossa vontade:
Boliiiinhaaaaas! Boliiiiiiiiiinhaaaaaaaaas! Olha a bolinha de berliiiiiiiimmmmmm!!!
Patifes.
quarta-feira, setembro 08, 2010
Episódios dispersos das férias #3
Explico: há exactamente 5 anos atrás percorri a Costa Alentejana com o meu companheiro. A bordo de um vulgaríssimo Fiat Punto, percorremos caminhos e caminhos, de uma ponta a outra ponta, circulámos por sítios que hesito até em chamar de caminhos. Muitas vezes pensando, ponto 1, vamos ter um pneu furado aqui no meio do nada, ponto 2, vamos ficar atascados porque aquilo é só areia e depois estou para ver quem é que empurra o carro daqui para fora, ponto 3, ao virar daquela curva não há mais nada, é um abismo e vamos direitinhos por ali abaixo, ver a Costa Alentejana mesmo, mesmo, de perto. O que é que nos aconteceu? Rigorosamente nada.
Eu, super-orientada graças ao meu gps (o meu sentido de orientação, melhor dizendo, a ausência do mesmo, a seu tempo terá direito a post próprio), entro numa estradinha de terra batida perfeitamente normal, para aceder a uma das praias mais frequentadas, acontece o quê? Uma coisa espetada no pneu, pois claro. Mas assim, logo da primeira vez que saí do asfalto, não houve cá contemplações!
O meu santo foi forte, porém. A coisa espetou e impediu o ar de sair. Só dei por ela quando ia a 100kms/hora (já no asfalto, nada de maluqueiras) e ouvia persistentemente um flap, flap, flap bastante incomodativo. Mais tarde o condutor do Fiat Punto que este ano ficou em casa fez-me um ultimato pelo telefone no sentido de eu ir a uma oficina resolver aquilo. Que não sei quê de pneus a rebentar e mais uma série de incongruências que se resumiam a, tens que ir à procura de um gajo que te trate disso.
Mulheres deste mundo que tal como eu decidiram que jamais na vossa vida irão trocar um pneu a um carro: alguém já viu o horror que é um pneu furado? O gajo tirou o prego, ou lá o que era aquilo, e o pneu começou a, a, esvair-se, coitadinho. Como é que se resolve? Aumenta-se o buraco à bruta, enfia-se um bocado de borracha lá para dentro com um instrumento parecido com uma agulha de esmirna (a sério, o método é tal e qual como o de fazer os tapetes), depois ficam as pontas do lado de fora, cortam-se, rectifica-se a pressão e pronto, vá à sua vida.
Posso ficar descansada, perguntei eu, mesmo sabendo da inutilidade da pergunta, que o gajo jamais iria responder, não tenho bem a certeza, se fosse a si ia antes a outro lado para confirmar se isto está bem feito... Olhou-me de lado, e respondeu, paternalista, pode ficar descansada. Mas eu dei-lhe luta. Perguntei logo de chofre, armada em engraçadinha e a ver se o apanhava em falso, para o resto da vida?... Olhar passou de paternalismo para desprezo. Para o resto da vida do pneu, respondeu ele.
A sério, este pragmatismo masculino seria coisa para exasperar uma mulher.
Não fosse o caso de eu ter acabado de o ver reparar um pneu furado COM UMA AGULHA DE ESMIRNA!
Pfffffffff!...
terça-feira, setembro 07, 2010
Episódios dispersos das férias #2
Hein? Pensavam que fosse o quê?...
segunda-feira, setembro 06, 2010
Episódios dispersos das férias #1
Na noite seguinte, à chegada à hospedaria já depois do jantar, de novo os miaus se faziam ouvir, tristes, lamentosos. Ora eu no que toca a gatos, sou uma sentimental. Quando o dono do estabelecimento me disse que o miau vinha do topo de uma árvore frondosa, comecei a lacrimejar. Então o pobre bichano estava encurralado no topo da árvore desde a noite passada? Um gatinho pequenino sem capacidade para se defender, coitadinho, provavelmente sentindo falta da mãe e dos restantes irmãozinhos, prestes a sucumbir ao pavor, à fome e à sede? Ajoelhei aos pés do estalajadeiro e supliquei clemência para o bichaninho que, no topo da árvore, continuava a cortar a noite com os seus miaus cada vez mais angustiados, sobretudo porque a luz da lanterna devia estar a incomodar-lhe os frágeis olhinhos.
Ok, talvez esteja a dramatizar um bocadinho. Não me ajoelhei nem supliquei, mas devo ter feito uns olhos semelhantes ao do gato das botas no Shrek e o dono da hospedaria foi gentilmente buscar uma escada para tirar o gato da árvore. Ou isso ou levou em consideração que eu não parava de miar ao gato para ele responder, pelo que começava a perspectivar-se uma noite negra em que, já não bastaria ter um gato a miar, quanto mais um gato e uma mulher maluca, os dois a miarem ao desafio. Enfim, fosse por pena do animal, fosse apenas para evitar que os outros clientes, na manhã seguinte, começassem a procurar alojamento noutro sítio, o senhor lá subiu ao escadote para salvar o gatinho da morte certa.
Mal lhe tocou com a ponta dos dedos, o bichano literalmente voou da árvore abaixo, desatando a correr pelo relvado e fugindo pelo portão para a rua, o que me deixou sinceramente aliviada pelo gato finalmente liberto, mas também um pouco na dúvida sobre a sua real incapacidade para sair da árvore quando bem lhe apetecessse. Já o dono da hospedaria parecia não ter dúvidas nenhumas. Fiquei desconfiada disso por conta de um certo enfado na voz quando me disse, Vou arrumar o escadote, boa noite e até amanhã.
Enfim, eu estava contente e mais descansada. Fui para o meu quarto feliz com o desfecho do episódio. Quando me deu o sono deitei-me e dormi, desta vez apenas embalada pelo som dos grilos.
Seria talvez uma hora da manhã quando acordei de novo. Os grilos tinham-se calado.
- Miau.
domingo, setembro 05, 2010
Férias a solo
Por um conjunto de circunstâncias várias, a opção este ano ficou-se entre passar mais um Verão em que o período de férias maior seria passado em casa, do sofá da sala para o computador e vice-versa (o que até não é mau por um período de alguns dias, mas convenhamos, depois começa a chatear) ou, em alternativa, fazer férias sozinha. Segui pela primeira vez a última possibilidade, fiz as malas e lá fui eu uma semana para a Costa Alentejana.A grande vantagem de estarmos muito tempo sozinhos é que podemos por a conversa em dia connosco próprios. É uma coisa que me parece continuar subvalorizada, desde os tempos de Sócrates (não, não é esse, é o outro), basta ver que o homem levou a vida a dizer "conhece-te a ti mesmo" e ver depois o que lhe aconteceu. Adiante, a mim fez-me muito bem a estadia e a conversa, partindo é claro do princípio que não me vai acontecer o mesmo que aconteceu ao Sócrates (sim, continuo a falar do mesmo).
Para além de um volume significativo de roupa para lavar, vim de lá com novas energias e um conhecimento factual do que foi bom e menos bom nisto de estar de férias sozinha. Com a generosidade que me é característica, mas sobretudo porque estou a fazer tempo para ir tomar banho, passo a descrever as vantagens e as desvantagens.
Ir de férias sozinha é bom porque:
- Fica-se na praia o tempo todo que nos apetecer. Mesmo todo, tipo, até ser de noite e começar a fazer um ventinho frio que nos põe a bater o dente. Sem ninguém que, 2 horas antes de nos apetecer vir embora já está a ladainhar Quando é que vamos embora? Já estamos aqui há horas. Vamos embora... Ainda vais tomar banho? Eu já não vou tomar banho. Se já não vamos tomar banho o que é que estamos aqui a fazer?... Vamos embora.... And soion and soion.
- Não se perde tempo às voltas com o carro à procura de um lugar para estacionar mesmo à porta do restaurante/praia/loja/seja onde for quando duas ruas mais abaixo há resmas de lugares disponíveis, sendo apenas necessário andar a pé 20 metros, se tanto.
- No seguimento do item anterior, percorrem-se calmamente a pé ruas, ruinhas e ruelas só para ver onde é que vão dar, mesmo que seja para concluir que não vão dar a lado nenhum em especial, apreciando as casas só pelo prazer de as ver e imaginando como seria ter uma delas, ali mesmo à beira da praia.
- Enfia-se o nariz em tudo o que são lojas de artesanato, roupas, lembranças, curiosidades e quinquilharias de um modo geral, em alguns casos mais do que uma vez, eventualmente até tomando a decisão de comprar alguma coisa, sem aquela pressão de olharmos para o lado e vermos o nosso companheiro de mãos nos bolsos a olhar o vazio e com uma cara de desespero que nos diz Estou a sofrerrrrrrrrrrrr!.................
- Lê-se muito. As saudades que eu tinha de ler um livro do princípio ao fim! Recomendado aqui, li isto com muita, muita satisfação e acabou por ser a melhor companhia possível nas manhãs e tardes que passei estendida ao sol.
Porém, ir de férias sozinha é mau porque:
- Chega-se a hora de sair para almoçar e jantar, e há qualquer coisa de melancólico em entrar num restaurante e dizer que é só uma pessoa e uma mala grande para sentar, se faz favor. Eu vivo sozinha, comer sozinha é o pão nosso de cada dia (olha que coisa tão apropriada, está giro), mas estar de férias e ter a cadeira à nossa frente vazia, sem ninguém com quem conversar, devo dizer, é uma bela merda.
- Numa zona tão pródiga em praias escondidas, cada uma com as suas belezas peculiares, esqueçam. Praias isoladas perdem todo o seu encanto quando se está sozinha. Eu fui lá, atenção. Mas chegando lá, começaram a surgir pensamentos do tipo, então e se agora me aparece aqui alguém mal intencionado? Então e se eu entrar no mar e me engasgar ou torcer um pé, quem é que me vale e quem é que sabe que estou aqui? A vaca que está lá em cima a pastar e me viu estacionar o carro não me pareceu ser muito dada a intrigas. Comecei a lembrar-me da Bridget Jones e do seu receio em que a encontrassem um mês depois de morta, meio comida por lobos da alsácia, agarrei nos trapinhos e voltei para as praias vigiadas, repletas de gente barriguda e crianças barulhentas. Estava-se melhor.
- Não há sexo. Quer dizer, isto é claro decorre de uma opção individual, se eu quisesse sexo tinha-o arranjado, já para não falar do próprio onanismo, que está no fundo dentro do espírito socrático e, como tal, na minha opinião devia ter mais reconhecimento pelo valor que tem. Mas partindo do princípio que ir para outro lado não significa ser outra pessoa, o facto é que não há sexo. E não haver sexo, especialmente quando se está de férias, fisica e psicologicamente disponível é, também, uma grande merda.
- Não há ninguém que nos chame à razão e trave as idas demasiado frequentes à gelataria, não há ninguém que nos espalhe creme nas costas, não há ninguém que chame a atenção para as coisas em que não reparámos mas que teríamos gostado de ver, se as víssemos.
- Não há partilha. E quando damos por isso, instalou-se uma saudadezinha irritante das coisas que diariamente nos irritam e nos dão vontade de estarmos sozinhos. Ou seja, estar sozinha de férias fez-me ter saudades de andar irritada. Sinceramente, essa parte foi uma coisa que me irritou um bocado.
Seguir-se-ão nos próximos dias alguns posts mais breves (ficai descansados) sobre pequenos episódios que me foram acontecendo. Mas no essencial é isto.
Em circunstâncias semelhantes, voltarei de certeza a ir de férias sozinha.
Irei já com o conhecimento de causa, de que a experiência é bastante melhor do que se espera, não sendo tão boa quanto se imagina.
quarta-feira, agosto 25, 2010
Dúvidas da sociedade de consumo #4
Um sistema que detecte movimentos ao redor da sanita e que accione o autoclismo automaticamente uns minutinhos depois, não deve ser uma coisa assim tão complexa de inventar pelos gajos que inventam estas coisas. A sério, espero sinceramente que isto já exista, porque uma coisa destas numa casa faz de certeza maravilhas pela relação homem / mulher.
Então isto não será uma coisa muito mais útil do que esguichinhos da treta para disfarçar o cheiro a casa-de-banho-de-centro-comercial-ao-fim-de-semana que invade a nossa querida casa de banho criteriosamente acabada de limpar e desinfectar, depois do nosso querido cada uma sabe muito bem que nome tem lá ter ido? E que, confrontado com a calamidade pela qual é responsável, tudo o que dá de resposta é um encolher de ombros e um descontraído esqueci-me...
Gente que inventa coisas. Pensem nisto. Ou melhor, mulheres que inventam coisas. Pensem nisto. Autoclismos com detectores de movimento. Accionados automaticamente.
Ah, a casa de banho do futuro liberta-nos de perseguir o impossível...
quarta-feira, agosto 18, 2010
Filosofia para massas (mas não menos relevante)
terça-feira, agosto 17, 2010
segunda-feira, agosto 09, 2010
Objectividade, no fundo
As balanças nas farmácias dizem que eu tenho mais 1,5 kgs do que a balança do meu endocrinologista.
O meu endocrinologista diz coisas sobre o meu peso que fazem dele um homem extremamente atraente.
As balanças das farmácias estão calibradas de forma a deprimir-nos e a levar-nos a adquirir comprimidos de dieta. São umas mentirosas e não têm qualquer credibilidade.
quinta-feira, agosto 05, 2010
Dúvidas da sociedade de consumo #3

O que é feito das canetas Pentel? Percorro Jumbos, percorro Modelos, Pingos Doces, Staples e nada de canetas Pentel. Onde andam elas? A marca faliu, mandou gente para o desemprego, o que é que foi que se passou? Sou obcecada por canetas de ponta fina e aquelas eram mesmo boas.
Dou alvíssaras na forma de canetas de variadas formas e feitios de ponta grossa que não me servem para nada, a quem me indicar superfície comercial na Grande Lisboa que tenha canetas Pentel.
Agradecida, do fundo do coração.
domingo, agosto 01, 2010
Dúvidas da sociedade de consumo #2
Julgo que os supra-sumo disto são os gajos da MediaMarkt, marca na qual me recuso solenemente a gastar um tostão que seja por causa das campanhas publicitárias para atrasados mentais que sistematicamente são produzidas. E é claro, por causa dos gritos.
Actualmente são as raspadinhas mais os saldos do Freeport que, a passarem constantemente, por vezes um spot a seguir ao outro, dão cabo da paciência a um santo. A sério, será que a malta que trabalha nisto acha que a falta de criatividade se compensa com gritaria? Ou que por não haver imagem só mesmo aos gritos é que se capta a atenção do ouvinte?
Tenho uma novidade para vocês: detesto gritos e não devo ser a única. Não raras vezes desligo o rádio no momento em que passam os spots por já não suportar mais tanta agressão auditiva. E depois esqueço-me de o voltar a ligar.
terça-feira, julho 27, 2010
Dúvidas da sociedade de consumo #1
Ele é um plástico duríssimo, ele é cola que para se tirar arranca os rótulos, quase destrói as embalagens... Eh pá, não querem vender aquilo àquele preço não vendam!...
Hoje para finalmente separar duas embalagens de champô Pantene, teve que ser com uma faca de cozinha das grandes, depois de concluir que à dentada não dava e com golpes de artes marciais também não... :-)
segunda-feira, julho 12, 2010
Que não se lixe o romantismo!
Muitos países deste mundo suspiram porque gostariam de estar no lugar da Espanha. Muitas mulheres deste mundo suspiram porque gostariam de estar no lugar da Sara Carbonero.
Que linda forma de terminar o Mundial de Futebol!! :-)
domingo, julho 11, 2010
Má onda
Ao contário deste episódio, em que as bizarrias só deram mais charme ao local e aí sim, comemos principescamente, hoje fomos parar a uma espelunca em que tudo falhou. Trouxeram bebidas quando pedimos que só viessem com a comida e, quando veio a comida, a bebida não aparecia. Estivemos perto de uma hora à espera de quatro sardinhas e três carapaus, que ainda assim vieram mal grelhados, alguns ainda em sangue, impossíveis de comer. Quando perguntei por batatas cozidas (o peixe veio só com salada) fizeram um ar de pânico como se nunca tivessem ouvido falar, nos dias da vida, em batatas cozidas a acompanhar peixe grelhado. Quando vieram vinham quase cruas. Tenho o hábito de temperar com azeite e limão (vinagre em cru é coisa de que não gosto), pedi meio limão que, está claro, nunca chegou a aparecer. Levantámo-nos e fomos buscar pão a outra mesa, a bebida acabámos por ir buscar ao balcão, porque tudo o que pedíamos levava eternidades a chegar!...
Na mesa ao lado, outro desgraçado reclamava ainda com mais angústias que nós face à demora, já que tinha crianças a quem alimentar...
A sério. Que saudades da Praia da Mata, onde hoje não consegui estacionar. No restaurante de lá, a decoração é tosca, não há música ambiente, nem sofázinhos nem panos a esvoaçar à entrada. Mas a comida é boa e vem bem servida.
Fica o aviso à navegação. Restaurante da Praia da Princesa, na Costa da Caparica, é um sítio a evitar. Por mim, a visita valeu por três: foi a primeira, a única e a última...
quarta-feira, julho 07, 2010
Esta insatisfação
Os dias intranquilos são quando o passado nos faz recordar, com saudade, de um presente que nunca chegou a ser.
O futuro é aquilo que ainda não foi, não se pode contar com ele. Mas impõe-se na intranquilidade dos dias e pergunta por vezes, que futuro serei eu, se este presente deixar de te bastar.
sábado, junho 26, 2010
sexta-feira, junho 18, 2010
1922-2010

Julgo já ter dito em momento anterior que no ano de 1988, para o bem e para o mal, me transformei eu na pessoa que sou hoje, e a isso não foram alheios os professores que me calharam naquele ano escolar, nem tão pouco os livros que na altura me pus a ler. Foi numa das muitas incursões que nessa altura fiz à biblioteca da minha escola que, aos 16 anos de idade, li pela primeira vez O Memorial do Convento.
Como quem roda a chave numa fechadura, aquele livro abriu portas dentro da minha cabeça que eu não sabia que existiam. Hoje, sentada aqui no meu escritório de casa, olho para a prateleira onde tenho perfiladas as obras do José Saramago que pela minha vida fora têm continuado a abrir-me portas e janelas na cabeça: Terra do Pecado (Romance); Os Poemas Possíveis (Poesia); Provavelmente Alegria (Poesia); Deste Mundo e do Outro (Crónicas); A Bagagem do Viajante (Crónicas); O Ano de 1993 (Conto); Manual de Pintura e Caligrafia (Romance); Objecto Quase (Contos); A Noite (Teatro); Levantado do Chão (Romance); Que Farei com Este livro? (Teatro); Viagem a Portugal (Crónicas); Memorial do Convento (Romance); O Ano da Morte de Ricardo Reis (Romance); A Jangada de Pedra (Romance); A Segunda Vida de Francisco de Assis (Teatro); História do Cerco de Lisboa (Romance); O Evangelho Segundo Jesus Cristo (Romance); In Nomine Dei (Teatro); Cadernos de Lanzarote I a V (diário); Ensaio Sobre a Cegueira (Romance); Todos os Nomes (Romance); Discursos de Estocolmo; O Conto da Ilha Desconhecida (Conto); Folhas Políticas 1976-1998 (Crónicas); A Caverna (Romance); A Maior Flor do Mundo (Conto); O Homem Duplicado (Romance); Ensaio sobre a Lucidez (Romance); Don Giovanni ou O dissoluto absolvido (Teatro); As Intermitências da Morte (Romance); As Pequenas Memórias (Memórias); A Viagem do Elefante (Romance); O Caderno (Blog); Caim (Romance). Olho para todas estas obras e pergunto-me se, por esta altura, já terão decidido ou não decretar o luto nacional. Arrisco-me a pensar que o próprio José Saramago daria pouco ou nenhum valor a tal decisão, vá ela num sentido ou noutro. Imagino-o a dizer aos senhores ministros que não se incomodem em reunir-se só por causa da simples morte de um escritor, ainda para mais quando, por este dias, têm tantas coisas importantes em que pensar.
Volto aos livros. Ao primeiro que li, O Memorial do Convento. Que reli vezes e vezes sem conta e que tantas vezes me fez rir e chorar. Recordo como me emocionei há uns anos atrás quando, no Palácio de Mafra, assisti a esta história contada em Teatro, essa mesma história que vi há poucos dias, numa Escola Secundária, representada por jovens alunos que ainda apenas puderam dizer as palavras, sem maturidade para compreender tudo o que elas significam. Mas lá chegarão, estou certa, assim não lhes falte a vontade que põe passarolas a voar.
Volto ao Levantado do Chão, que me ensinou coisas de um tempo que os meus olhos já não viram. Coisas de quando estivemos atirados ao chão e tivemos que nos levantar. Sim, é claro, é panfletário, o homem eram comunista. Pois era. Mas "se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" (Ensaio sobre a Cegueira). A pensar pela minha cabeça, ouvi a história que o Saramago me contou.
Volto ao Evangelho Segundo Jesus Cristo, tal como os anteriores, colado na lombada com fita cola, páginas amarelas e gastas do uso. Ao Ensaio Sobre a Cegueira, assinado pelo próprio a 26 de Outubro de 1995, guardo-o com carinho, mesmo não sendo muito dada a autógrafos.
Já se sabe que mais tarde ou mais cedo todos morremos, e hoje morreu ele. Então eu acho que a maior homenagem que se lhe pode prestar é lê-lo, sem complexos de ordem política ou religiosa, sem puritanismos de linguística e de amor aos pontos e às vírgulas e aos travessões e aos parágrafos. Porque o que vai naquelas páginas é muito superior a tudo isso.
"Enquanto não alcançares a verdade, não poderás corrigi-la. Porém, se a não corrigires, não a alcançarás. Entretanto, não te resignes." (História do Cerco de Lisboa). Julgo que não se resignou ele, isso não se lhe poderá apontar. A sua herança, para todos quantos apreciem a sua obra, será talvez esta condição de não-resignação, mesmo que por vezes a resignação fosse o mais dócil dos caminhos.
Não falemos por isso da imortalidade da sua obra, do valioso património cultural que deixa a este País, da referência literária mundial que representa, ou outras eventuais palavras de peso, com todas as vírgulas nos seus devidos lugares (nada de maluqueiras à Saramago), que amplamente serão ditas pelos próximos dias afora.
Quanto a mim, prefiro recordar-me de mim própria com os tais 16 anos, sentada cá fora nos intervalos das aulas a ler o Memorial do Convento, deslumbrada com os mundos que tinha por descobrir. Prefiro falar das vontades.
"Dentro de nós existem vontade e alma, a alma retira-se com a morte, vai lá para onde as almas esperam o julgamento, ninguém sabe, mas a vontade, ou se separou do homem estando ele vivo, ou a separa dele a morte, é ela o éter, é portanto a vontade dos homens que segura as estrelas, é a vontade dos homens que Deus respira (...)" (Memorial do Convento).
Para o José Saramago
domingo, junho 13, 2010
Demasiado tempo entre mãos
sábado, junho 12, 2010
O vício, meu deus
Não sei se isto está ao nível de cromo para a caderneta do Nuno Markl. Só sei que voltou um enorme vício da minha adolescência, o Supaplex! Eternamente grata a quem mo instalou de volta, já são muitas as horas dedicadas a este jogo que corre em MS DOS, do mais básico que há (para alguns), mas que a mim me fascina, enerva, vicia até não poder mais. Já nem a internet me diz nada, meus amigos. Melhor que isto, só mesmo se voltasse um jogo de pinball que era com um dragão, e que também recordo com saudade.PlayStation o quê? Vão-se lixar. Supaplex. Grande domínio.
domingo, junho 06, 2010
sexta-feira, junho 04, 2010
Do Alentejo profundo
Primeiro momento não sei quê:
Nós: para beber, queremos litro e meio de água...
Ele (com ar circunspecto): A questão é que só há garrafas de litro e meio de plástico...
Nós: Então, mas... por nós tudo bem...
Ele (explicando-se finalmente): Sim, mas por lei não podemos ter garrafas de plástico (novo ênfase no plástico, com ar ligeiramente enojado), só podemos ter de vidro, e de vidro a maior é de um litro...
Segundo momento não sei quê, já depois de adjudicada a garrafa de vidro de um litro de água:
Nós: Queremos o lombo de porco...
Ele (escandalizado): Lombo de porco? Mas nós não temos lombo de porco!...
Nós: Não tem? Mas ainda agora disse que havia, até está escrito na ementa e tudo...
Ele: Não, não, temos lombinhos de porco, não é a mesma coisa...
(e de facto, não é)
Terceiro momento não sei quê, com água em garrafa de vidro e dose generosa e de lombinhos de porco na mesa:
Nós: Podia trazer metade de um limão, se faz favor...
Ele (abana consternado a cabeça em negativa, como se tivesse acabado de lhe morrer um parente próximo)
Nós (já com medo do que é que ali vem, questionando-nos que alarvidade gastronómica teremos acabado de cometer, ao querer juntar limão aos lombinhos de porco depois de termos começado por os insultar tratando-os por lombos)
Ele (esclarecendo, de novo com um certo delay, a razão do seu desapontamento): Peço muita desculpa mas não temos limão, acabou-se...
Suspirámos de alívio e continuámos a comer, que a comida era maravilhosa. E o atendimento também, temos é que dar tempo ao tempo. Amanhã vamos lá outra vez!... :-)
quinta-feira, junho 03, 2010
quarta-feira, maio 12, 2010
Eu não ACREDITO...
Estou com verdadeiro e profundo ódio aos autores de Lost. Se é para matar toda a gente não vale a pena ver isto até ao fim, xiça!!!
domingo, abril 25, 2010
Todo o mundo é composto de mudança
Depois, é claro, veio a vida. A adulta, bem entendido, que antes dessa também de vida se tratava. E daí, talvez não fosse.
Será que se pode chamar vida àquele planar inconsciente pelos dias, pelas estações do ano, em que quase nada era exigido, todos nos protegiam dos males do mundo e por isso o pior que nos podia acontecer era sermos enfarinhadas pelo Carnaval. Será que se pode chamar vida a uma existência em que tudo o que interessava era que ao fim-de-semana havia desenhos animados e tortas com creme (e nunca mais, nenhuma terá o sabor que aquelas tinham), e o bife com batatas fritas já vinha cortado e sabia ao amor com que nos era posto no prato. Vida seria, mas numa estranha forma, porque a simplicidade do mundo era o desconhecimento do mundo, e por isso é que, necessariamente, quando se alcança uma coisa perde-se a outra, afinal não é preciso ler a bíblia para ficar a conhecer a história de Adão e Eva, olhe-se para uma criança e lá estará.
Onde isto nos levou, onde nos levará. Falava-se de duas amigas de infância, as melhores do mundo, que à medida que o foram descobrindo, se foram afastando. Esta é afinal a mais banal de todas as histórias, repetidamente acontecida na vida de qualquer um de nós.
Reencontraram-se estas amigas algures no tempo, e no olhar de ambas uma alegria genuína pelo reencontro, mas também uma certa amargura por tudo o que já não existe. Veio à memória o tempo em que tudo era simples, porque quase nada se sabia, apenas as letras das canções das doce, cantadas nos intervalos para toda a escola ouvir. As duas amigas inseparáveis permanecem nesse tempo, nessa vida, não nesta.
Nesta vida, a adulta por assim dizer, resta apenas a conversa de circunstância. Pergunta uma, no que é que trabalhas, e a outra responde, não trabalho, tenho filhos. E pergunta a outra por sua vez, já tens filhos, e a resposta é que não, tenho um trabalho. Nesta vida de gente crescida, estas duas mulheres já não têm nada em comum.
Mas não façamos da vida adulta a grande culpada de todos os males. Existe, ainda assim, a vontade. O livre-arbítrio. Foram este e a falta daquela os verdadeiros responsáveis pelo fim da amizade que, a dado momento, se deixou de cultivar. Não se colhe aquilo que não se semeia.
Quando nos pomos a pensar nisso, vivem-se muitas vidas pela vida fora. E encontram-se muitas pessoas diferentes, por vezes várias dentro da mesma pessoa. Começando em cada um de nós, todo o mundo é composto de mudança.
domingo, abril 18, 2010
A verdadeira revolução tecnológica
A sério. Com tanta tecnologia a germinar por aí e ainda ninguém foi capaz de se concentrar neste problema? Hein?...
Havia outra maneira de contornar a questão, era os exames realizarem-se realmente nas horas para que estão marcados, mas isso julgo que já é esperar demasiado do mundo em que vivemos. Venha de lá a tecnologia super avançada que não obrigue a gente a ir para lá aflitinhas.
E a ter que ir a correr para a casa de banho dois minutos antes de finalmente nos chamarem.
E a ter que voltar a emborcar água como se não houvesse amanhã para nova espera interminável que por pouco não resultava num remake do cenário anterior...
A vontade das mulheres em não terem que passar esta provação é tal que chega a gerar mitos urbanos: uma colega contou-me que ouviu falar de uma pessoa que conhece uma médica numa clínica que consegue fazer ecografias a mulheres não grávidas, sem que elas precisem de encher a bexiga.
Pois, pois. Por onde andará essa messias dos exames ginecológicos?...
domingo, abril 04, 2010
Superstar
"Everything's Alright" é mais um exemplo. Um Jesus apaixonado e sem ilusões. Um Judas comunista. E uma mulher a fazer o que as mulheres sempre fizeram pelo tempo fora: tentar que o mundo permaneça em equilíbrio. Para que tudo fique bem, quando enfim, na realidade, não está nem vai estar. Porque a vontade das mulheres também não chega.
Try not to get worried. E Boa Páscoa.
quarta-feira, março 31, 2010
Choque de gerações

... Deve ser isto. Quem são estes, ou estas, ou assim-assim? Hein? Uma palavra: porquê?
Mas no fundo compreendo, a sério.
Tempos houve em que achava que todos os homens lindos eram heterossexuais, incluindo estes:
E que queriam ambos casar e ter filhos comigo.
Só muito mais tarde vim a saber a terrível verdade e por isso tenho pena das pobres criaturas acampadas no Pavilhão Atlântico (e também tenho pena dos pais delas, mas isso seria outro post), ainda ofuscadas pelo volume e pelo gel fixante.
Mas ainda hoje acho o artista um excelente artista, atenção.
E sei as letras todas de cor.
quarta-feira, março 17, 2010
Trocas-te
A speaker prepara-se para anunciar um qualquer evento. Descobre naquele preciso momento que não sabe onde está, ignora que iniciativa é aquela, desconhece o nome das pessoas a quem irá passar a palavra e quando o tenta fazer, falando de improviso, fá-lo tão mal que ao tomar da palavra, a individualidade abdica do seu próprio discurso e do assunto que a trazia ali, para pedir desculpas publicamente pelo mau desempenho da speaker, assumindo a responsabilidade pela má imagem transmitida, em nome da instituição que representa. Acordei com suores frios, na noite em que sonhei isto. E suei frio ontem à noite quando vi este episódio, porque desgraçadamente, alguém passou na vida real por aquilo que - acredito -, seja o pesadelo de qualquer pessoa que faça apresentação de eventos.
Façam os juízos de valor que quiserem, quem os quiser fazer. Isto é mais ou menos como os acidentes de carro, só não os tem quem não conduz ou não anda de automóvel. Quem faz este trabalho não está livre, e não é assim tão improvável de acontecer.
Não sei se foi isto que sucedeu. Mas estou mesmo a imaginar as brincadeiras na fase de testes de som, os nomes que se dizem quando ainda não está ninguém na sala, eventualmente até algum excesso de confiança porque já se fez a mesma coisa tantas e tantas vezes, o diabo do piloto automático, no fundo...
Não conheço a pessoa de lado nenhum. Estou completamente a especular mas não acredito, de todo, na teoria da conspiração de que aquilo foi de propósito. A não ser que o speaker conjugue um ódio profundo ao Eng.º José Sócrates (Sócrates, Sócrates, Sócrates...) e, simultaneamente, um prémio no euromilhões na passada 6.ª Feira. De outra forma, quem por vontade própria faz aquilo no desempenho da sua própria profissão?
Agora, este episódio é paradigmático e semelhante ao que se costuma dizer dos jornalistas, de que quando estes últimos são eles próprios a notícia, algo vai mal. Também neste caso estamos perante um trabalho em que a perfeição está na invisibilidade. Se ficou bem feito, não existe. Se algo corre mal, aparece no Jornal da Noite.
Vão daqui umas palavrinhas de solidariedade a quem teve este grande azar. Eu por mim, não me consigo rir disto, porque só posso imaginar a aflição que deve ter sido. De resto, peço aos santinhos todos para que não me aconteça a mim...
quinta-feira, março 11, 2010
Duzentas mil!!!...
Já reflecti muito sobre o que fazer com este espaço, hoje em dia não tenho, de forma alguma, o mesmo tempo e a capacidade mental para me dedicar a ele que já tive e que gostaria de continuar a ter... Já pensei em fechar a porta aqui e abrir outra chafarica noutro lado qualquer, chamada "mulherdomedico.blogspot.com", ou assim (a sério, lembrei-me disto agora, se existe algum blog chamado assim, não sou eu), já pensei em desistir por completo, mas a verdade é esta. Adoro a blogosfera.
Sim, sim, o Facebook e não sei quê, também ando por lá, é giro e tal, do Twitter não percebo nada (embora a nível profissional tenha a certeza que não pode ser ignorado), mas este site mais simples do que pode haver, de layout despretencioso que eu nunca me dei sequer ao trabalho de mudar, esta possibilidade de estar aqui no conforto da minha casa a escrever aquilo que me apeteça, sabendo que nas próximas horas, nos próximos dias, gente do Brasil, dos Estados Unidos, por uma qualquer razão ou por razão nenhuma virão aqui parar e tomar contacto com o que eu tenho a dizer, e ainda por cima, poderem dizer de sua justiça, é algo que me agrada muito, muito. É extraordinário.
Tinha pensado, se tivesse tempo (que não tenho), recompensar os meus 200.000 leitores com algo de diferente, uns contos um pouco mais longos do que aqueles que aqui coloco sob o item "verdades ficcionadas". Quando dei por mim já isto ia em 200 mil e 300, e um desses contos que vai sendo preparado continua rabiscado e muito, muito pela rama. Ou seja, perdeu-se a oportunidade.
Dir-me-ão, então e não tens outros já feitos, a verdade é que sim, que os tenho. Mas também por outro lado, receio pelos plágios e de maneiras que a coisa vai andando mais ou menos assim. Pode ser que um dia destes esta chafarica traga algo de verdadeiramente interessante do ponto de vista literário. Ou não.
Para já, para já, era isto. Muito obrigada, do fundo do coração, e continuem à procura, olhem que há por aí uns blogues que são mesmo, mesmo bons, aliás, alguns deles estão já aqui indicados na barra da direita.
PS: Já agora, esta história do acordo ortográfico é uma bela merda.
domingo, fevereiro 28, 2010
38
"Bem sei que as meias solas que deitei
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.
Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro."
José Saramago, Os Poemas Possíveis
quarta-feira, fevereiro 10, 2010
Sinto-me perdida

Especialmente porque ainda não vi a Temporada 5. E portantos, estou perdida no sentido literal.
E perdida também por estes olhos negros, esta tez morena, o ar desalinhado, a barba por fazer e tudo e tudo de um modo geral neste indivíduo.
De maneiras que se matam o Sayid não sei o que faço a esta gente. Tou já a avisar. Não se metam com uma mulher quando todas as hormonas do seu corpo gritam "procria, procria, que os indianos é que têm bons genes!"
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
Mas é que eu acredito mesmo nisto #2
Semanas de oito dias, já.
Como é que se faz uma petição no facebook para isto?
Mas é que eu acredito mesmo nisto #1
A Madeira assim governava-se com a própria receita e livrava-se dos erros catastróficos do País de origem. O Continente livrava-se da despesa. Não era bom para todos?
Como é que se começa uma petição no facebook para isto?
sábado, janeiro 30, 2010
Falar é fácil!...
Se calhar já não é novidade para muitos, mas eu só vi isto ontem à noite e fez-me rir à gargalhada. Um conceito muito bem pensado. :-)
quarta-feira, janeiro 20, 2010
Piloto Automático
Entro no carro, ligo o carro e desligo a mente. Só torno a ligá-la quando estaciono ao pé de casa. Tento pensar no trajecto e não me recordo de nada, é como se estivesse naquele filme em que o tipo tinha um comando e fazia "fast foward".
Durante aquele percurso, a cabeça vagueia pelo que foi, pelo que está para ser, pelos dias que faltam para o fim-de-semana, pelas histórias que vejo na televisão e pelas que quero eu inventar, em suma, pelos mundos que não cabem dentro do automóvel. No entretanto, só uma parte muito restrita do cérebro reage às luzes de stop e aos semáforos, mete mudanças, trava. E quando chego, olho para trás e não sei dizer nada daquele pedaço de tempo que passou por mim, sem que eu passasse por ele.
É certo que o caminho é curto (apenas 9 kms) e já se percorre diariamente há muitos anos. E é também verdade que vou muitas vezes muito cansada. Mas ainda assim, preocupa-me este modo de piloto automático em que caio quase sempre, e preocupa-me também o esforço de concentração brutal que tenho que fazer, para o combater.
Um dia destes ainda sou obrigada a acordar à bruta, é o que é. Uma coisa é certa: o carro não sabe o caminho sozinho.
quarta-feira, janeiro 06, 2010
Era o vinho, senhor, era o vinho
A garrafa esperou pacificamente o meu regresso ao local de trabalho, onde me aguardava. Comigo saiu a caminho de casa, viajou na bagageira do carro, esperou mais um pouco pelo meu regresso da aula de ginástica, qual será hoje o meu destino, poderia pensar, se houvesse a possibilidade das garrafas de vinho pensarem. Mesmo as de litro e meio não chegam a tanto.
Lá veio comigo pela mão até à entrada do prédio, a caixa com a garrafa, a mochila da ginástica ao ombro, a mala de mão (gira!) também oferecida pelo Natal, a caixa da sopa para comer a seguir à ginástica (numa vã ilusão de alimentação saudável) também na mão, outra malinha de mão com coisas necessárias quando se passa a noite fora de casa...
Ora deixa cá ver. Duas mãos. Quatro coisas nas mãos e outra no ombro. Caixa do correio. Necessário chegar às chaves de casa para abrir a caixa do correio. Mudança de coisas de umas mãos para as outras porque está a chover e tudo o que se põe no chão fica enlameado. Capacidade de raciocínio: igual à da garrafa de vinho, ou seja nenhuma.
Resultado previsível: caixa de vinho caída no chão. Mar de vinho tinto surge repentinamente à porta do prédio. E um cheiro a taberna que não se aguenta. Donde se conclui que o vinho, quando cai ao chão, não vale a pena ser bom, que cheira a taberna na mesma.
Litro e meio de vinho. Se era para cair, uma de 75 cl tinha dado menos trabalho a limpar... Mas do mal o menos. Dizem que é sinal de boa sorte a nível económico! Pelo sim pelo não, registei o euromilhões logo nesse dia, que isto não foi um entornãozito pequenino, isto foi um entornanço de vinho que tem obrigação de render muito dinheiro!...
sexta-feira, janeiro 01, 2010
Do ano novo
Não fujo à regra. Sobretudo quando a primeira coisa boa que encontro em 2010 é que finalmente acabou com 2009. Ponho os olhos neste renascimento da fénix com data marcada no calendário e desejo, com todas as minhas forças, que o ano novo traga vivências mais felizes. Mesmo sabendo que os acontecimentos importantes da vida não se compadecem de datas marcadas no calendário. Os acontecimentos que realmente mudam alguma coisa, às vezes para melhor, às vezes para pior, não estão à espera de dias feriados, meses específicos ou fins-de-semana em que dê mais jeito. Acontecem e pronto, e não temos outro remédio que aguentarmo-nos à bronca, porque nessas alturas já ninguém está de copo de champanhe numa mão e 12 passas na outra.
Que seja melhor, deseja-se sem dúvida. Mas sem muita pressão sobre o infante ano. Há elevadas possibilidades de ser pior que o anterior. E não se lhe poderá atirar muitas culpas para cima.
Apenas uma certeza: é em cada momento determinante, em que o ano novo deixa de o ser, que se vê de que matéria é feito. O ano. Nós próprios.
quarta-feira, dezembro 23, 2009
Os pastéis de belém estão sobrevalorizados
Arrumam os pastéis de Belém a um canto. A sério.
domingo, dezembro 06, 2009
Importa-se de repetir?...
sábado, novembro 21, 2009
Cinco estágios para a dor
Diz-se por aí que perante a morte, todos nós passamos por pelo menos dois, independentemente da ordem, independentemente da intensidade. Perante qualquer sofrimento, diria eu, se quisermos entender a morte como o fim de algo em definitivo.
Nunca se está preparado para determinados graus de sofrimento.
Para o momento em que metemos os nossos pais num carro para nunca mais voltarem à sua casa, dizendo para nós próprios repetidamente que essa é a coisa certa a fazer.
Para o momento em que as opiniões se chocam e se dizem coisas, e se fazem coisas que conseguem pôr em causa relações que se diriam impossíveis de abalar. Deixando cicatrizes para o resto da vida.
Para o momento em que a morte se apresenta de tal forma real que se diria ser possível estender a mão e tocar-lhe, e de repente tudo o que nos resta é a escuridão de se estar à porta de um hospital pela madrugada fora, a rezar a um Deus que não se sabe bem se existe, mas ainda assim rezando porque já nada mais resta, a não ser suplicar por misericórdia.
Para o momento em que novamente temos que dar tudo de nós, esgravatar no fundo do poço os restos de ânimo e de disposição, para tentar corrigir o que já sabemos que não tem conserto, mais uma viagem pelo túnel sem que se veja a luz ao fundo.
Para os poucos de vós que se perguntem as razões de tanto tempo de silêncio, saibam que tenho andado algures entre a negação, a ira, a negociação, a depressão e a aceitação. Vou saltando de uns para outros, como diz nos livros que acontece às pessoas, e tem sido assim o passar dos meus dias.
É que ao longo deste ano que passou, não me tenho conseguido livrar das coisas que sou capaz de aguentar. Vai melhorar, eu sei. Um dia destes. Mas por enquanto, ainda não.
quinta-feira, novembro 05, 2009
aldeia global?...
E tudo isto é dado adquirido, coisa vulgar, do dia-a-dia.
De repente, o impossível acontece: um outro formando começa a falar connosco e descobrimos que vivemos no mesmo concelho. Aliás, na mesma cidade. Aliás, no mesmo bairro. Aliás, frequentamos o mesmo cafezinho ao pé de casa.
Que eu tenha visitantes aqui no tasco vindos de Caraguatatuba (São Paulo, Brazil) ou de Naters (Valais, Suíça), ainda vá que não vá.
Agora, ir daqui para uma formação sobre a grandiosidade das redes de comunicação, e de repente aparecer-nos o vizinho do lado, é coisa para meter medo a uma pessoa.
sábado, outubro 31, 2009
terça-feira, setembro 08, 2009
Debates à parte #2
(Se o gajo da SIC pode, eu também posso.)
quinta-feira, setembro 03, 2009
Debates à parte #1
O jornalista de exteriores da SIC à porta dos estúdios de Paço d'Arcos que tudo o que soube perguntar ao Jerónimo de Sousa antes do início do debate foi esta pergunta fundamental:
"Porque é que escolheu essa gravata entre o vermelho e o bordeaux?"
... À qual se seguiu uma conversa de profundo teor, com o senhor dirigente político, algo embaraçado (pudera!), a ver-se obrigado a dizer que é a esposa quem o ajuda nessas coisas.
Ao que o jornalista ainda insistiu, passando da gravata à cor do fato.
E terminando ainda com esta frase da maior relevância no que ao dever de prestar toda a informação pré-debate diz respeito:
"Francisco Louçã optou pela cor azul oxford".
Isto para mim, é uma de duas coisas: falta de preparação, uma. Ou então, é mesmo um bocado panisgas.
(Reinaldo Serrano volta que estás perdoado)
quarta-feira, agosto 19, 2009
segunda-feira, agosto 17, 2009
Espiral
Dou comigo que nem peixe no aquário, dotado de apenas um neurónio. De cada vez que completo uma volta vejo sempre a mesma porta e no entanto, surpreendo-me como se a visse pela primeira vez. E então dói como se fosse a primeira vez, e tenho que me explicar tudo de novo, desde o início, para que eu própria volte a entender porque é que tivemos que chegar a este ponto deles irem para ali. Entretanto inicia-se mais uma volta e pela altura em que chego ao fim e me vejo de frente para a porta, torna a doer. Então explico tudo de novo a mim própria, enquanto recomeço mais outra volta.
Aquilo tem uns corredores muito compridos onde ela persegue uma esperança qualquer de não deixar de andar tão cedo. Quando lá vou vê-los vou como num sonho, ando mas queria correr para lá chegar mais depressa, chego mas só queria sair e levá-los comigo para não voltar mais.
Aquilo tem um pomar muito lindo onde se espera que ele ocupe o corpo e o espírito. Receio que sejam demasiado altas as expectativas em torno daquela meia dúzia de árvores de fruto: espera-se que delas nasçam peras, figos e uma qualquer ilusão de liberdade, de bem-estar. Sim, é pelo melhor que ele lá está, embora por ele nem fosse preciso. Sim, é por vontade própria que ele lá está, por amor, por dever, por grandeza de espírito, maior que a minha, sem dúvida. Sim, sim, já me lembro disso tudo, tem tudo imensa lógica. Deixa-me cá dar mais uma volta no aquário.
E ao mesmo tempo há tanta coisa para fazer. Há uma imensidão de coisas para fazer tão grande, que me esmagam ao ponto de me faltar o ar. Coisas que eu não quero fazer, que não vejo onde arranjar forças para fazer, que não poderei deixar de fazer.
Não sei que presente é este e muito menos que futuro está por vir. Assim de repente, vejo ali uma porta que eu já devia reconhecer, mas que ainda preciso de voltar a explicar-me o que é que significa. E que espécie de pessoa serei eu, que a vou transpor.
Esgoto-me, para me distrair concentro-me em pormenores onomásticos: porque será que lhes chamam lares? Se calhar é pelo conforto que a palavra transmite, mas não deixa de ser um bocadinho hipócrita...
segunda-feira, agosto 10, 2009
Três Cantos






