quarta-feira, janeiro 22, 2014

Manual de sobrevivência para mulheres solteiras #1/12

Nota prévia: Nas próximas semanas, publicação periódica de uma dúzia de parvoíces (ou nem tanto) com algumas dicas importantes para a sobrevivência de mulheres solteiras. Aceitam-se contributos para enriquecer este manual. :-)

1. É certo e sabido que tudo na vida de uma mulher solteira gira em torno do objectivo de encontrar o homem certo: o mecânico certo; o canalizador certo; o electricista certo; o homem-que-põe-candeeiros-e-cortinados-e-repara-electrodomésticos-e-faz-tudo-de-um-modo-geral, certo.

quinta-feira, dezembro 05, 2013

Da revolução

Recordo a visão de duas linhas paralelas que me deixaram à deriva de mim. A revolução começou aí mas já tinha começado antes, como sempre acontece com tudo o que se manifesta em nós, ou perante nós, em algum momento começou e nem ligámos, estávamos ocupados com outras coisas que julgávamos mais importantes. Levamos a vida enganados e nem sempre sabemos que nada sabemos.

Recordo um dia em Lisboa com uma fila de trânsito tão gigante que ia de uma ponta à outra de todo o meu mundo e me obrigava a parar, a parar, e que teimava em não me deixar chegar onde eu julgava ser o meu destino. O destino afinal estava certo, apenas não naquele dia. Mas em cada pára-arranca havia uma dor a dilacerar-me por dentro, perdida, tão perdida que eu andei, à procura de mim própria e sem me encontrar em lado nenhum, nem no que já não podia voltar a ser, nem no que a revolução me transformara já, mesmo enquanto a recusava e tentava deitá-la no lixo.

Recordo o medo, não há revolução que não o traga consigo, acho eu. Recordo uma jorna que afinal não era para mim e por causa disso, num segundo toda eu era medo da revolução que já era, no segundo a seguir toda eu me tornei medo que a revolução deixasse de me ser. Vejo agora quanto de mim gastei a ter medo, e disso me arrependo para o resto dos meus dias.

Recordo o silêncio que impregnou as folhas das árvores que estão no lugar das conversas difíceis. Gemeram baixinho à medida que a revolução passava por elas e depois se calaram para sempre. Outras vozes se fizeram ouvir, nos lugares das conversas dos afectos, no calor das mãos que se agarraram às minhas, nos passos que me acompanharam pelos caminhos. Foram essas as vozes que não me deixaram perder os pontos cardeais do que sou, nem permitiram que a revolução me fizesse abismo, ou o silêncio me fizesse rancor.

Recordo os olhares tristes dos prenúncios da morte, uma vez, depois outra, depois outra, até à sentença final que já se fazia anunciar e então nada mais restou do que um corredor comprido feito de todos os estágios da dor que se encontram identificados, mais todos os outros que ainda ninguém foi capaz de pôr por escrito, porque para tanto ainda não houve conhecimentos ou coragem. Percorri-o até ao fim sem pretensões de heroísmo, não vejo mérito na inevitabilidade. Cheguei ao outro lado sem ponta de mim própria, esvaída de tudo menos de perguntas, órfãs de destinatário e é claro, de respostas.

Recordo enfim o pensamento de que a revolução cessara e de que tudo fora, afinal, em vão. Não é verdade. A revolução abalou, trespassou, demoliu, não deixou pedra sobre pedra. Mas o ground zero em que me tornei é agora o espaço onde me reconstruo, num processo duro e doloroso, próprio do nascimento, que afinal acontece muitas e muitas vezes ao longo de toda uma vida. A revolução continua no que vier a tornar-me por causa dela.

Da minha filha que não chegou a nascer.

domingo, maio 19, 2013

De madrasta a madrinha

Esta é uma história de amor. E todas as histórias de amor merecem, mais tarde ou mais cedo, que venha o mundo a conhecê-las, não por vaidade de quem as vive, mas apenas porque de desgraça e miséria já todos andamos fartos, e temos por isso obrigação de apontar o dedo às coisas bonitas e boas que sempre sucedem, e que tantas vezes teimamos em não ver.

Há coisa de dois anos atrás, chorava assim a dor de uma separação que parecia inevitável, indo naturalmente a reboque de outra. Só que não foi isso que aconteceu.

Menosprezamos muito as crianças, nós, arrogantes adultos. Devo a este meu amigo para a vida o não se ter conformado com a aparente inevitabilidade de nunca mais me encontrar. Recusou-se, o fedelho, a perder-me o rasto, e com dez anos de idade veio no meu encalço para me dizer que tinha saudades. E eu também as tinha, tantas. Não tinha era a coragem que ele teve. Então, juntaram-se vontades e ultrapassaram-se barreiras para que pudéssemos continuar amigos, pois se isso dava alegria a todos.

É redundante dizer que este é um menino especial, todos o são, aos olhos dos que tenham a sorte de estar por perto a olhá-los. Este para quem eu olho, é mesmo muito determinado, e estava hoje imensamente feliz, porque conquistou algo que para ele tem uma grande importância.

Eu não compreendo que razões levam um pré-adolescente dos dias de hoje a fazer tanta questão de ser baptizado. Nada me diz essa instituição chamada Igreja Católica, onde ele hoje me levou, para participar num ritual onde são ditas coisas que nem consigo ter palavras para classificar. A igreja fala uma linguagem que eu não compreendo. Mas julgo que compreendi desde o início a linguagem dele, no laço que ele quis estabelecer comigo, através deste ritual do baptismo.

Poderá dizer-se que fui bastante hipócrita perante os crentes, aceitando um papel de destaque numa casa que não é minha, ainda para mais carregando tanta objecção de consciência a tudo o que por ali se passa.

Porém, acredito que nesta história de amor tão bonita, em que passei de madrasta a madrinha, fala-se numa linguagem que Deus, se existisse, certamente iria compreender.

quarta-feira, maio 01, 2013

A minha carta para o Tiago Bettencourt

(Vamos passar à frente o facto de estar há meses sem publicar aqui nada? Vamos. Até porque na verdade ninguém está ralado com isso, nem sequer eu).

Meus amigos, concorri ao passatempo da Rádio Comercial para ir ao concerto mais pequeno do mundo com o Tiago Bettencourt, de quem sou grande fã e groupie em espírito (não posso ser mais do que isso, tenho que trabalhar para viver), e o impossível aconteceu: não fui seleccionada.

O passatempo pedia que escrevêssemos uma versão alternativa da "Carta", o que fiz de forma entusiasmada, mas cujo resultado final parece afinal ter sido sobrevalorizado. Por mim, claro está.

Como não tenho mesmo vergonha nenhuma na cara, aqui fica o que remeti para concurso mas que, infelizmente, não me deu direito a ficar ao colo do Tiago Bettencourt durante um concerto e a passar uma noite com ele num hotel. (Hã?... como assim, nunca seria exactamente isso?...)

Bem, aqui está a minha versão da "Carta":

Não falei contigo
Com medo de não me sair nada de jeito
E de cair aos teus pés…

 
Acredito e entendo
Que toda a gente queira mais ou menos
O mesmo que eu
Um lugarzinho no concerto...

 
Vontade é o que vai
Aumentando a toda a hora
De cada vez que te oiço
Na Rádio Comercial

Mas sinto que sabes que se chegar a estar no Acústico,
Também vai ser bom para ti
E mesmo que não seja….
Para mim vai ser de certeza.
 
É que hoje acordei e lembrei-me
Que imaginação é coisa que não me falta
E posso pôr tudo numa folha de papel
Nela viajo para as Caldas
Para as Caaaaldas,
Para ver o Tiago Bettencourt!....

Desconfio que ainda não reparaste
Que estou mesmo disposta a levar isto por diante
E a garantir o meu lugar
No Concerto Mais Pequeno do Mundo.
E que para isso não me importo mesmo nada
De destruir uma canção tão bonita como a Carta,
Mas o que é que queres,
Foi o que mandaram a malta fazer.
 
Anseio o dia em que vou pôr os meus pezinhos
No SANA Silver Coast das Caldas da Rainha
É que o programa é mesmo perfeito.
Já sei as músicas todas de cor, aliás
Vou ter que fazer um esforço para me controlar
Não dar barraca e ser chata para as outras pessoas.

É que hoje acordei e lembrei-me
Que imaginação é coisa que não me falta
Que posso pôr tudo numa folha de papel
Nela viajo para as Caldas
Para as Caaaaldas,
Para ver o Tiago Bettencourt!....
No Concerto Mais Pequeno do Mundo.
 
Desculpa se suspirar muito alto
Quando cantares o "Caminho de Voltar"
Ou o "Chocámos tu e eu"
Mas isso são coisas que eu cá sei
 
Desculpa se a Rádio Comercial
Fizer o disparate de não me seleccionar
Logo a mim, que passo a vida a partilhar
As tuas músicas no facebook...
 
É que hoje acordei e lembrei-me
Que imaginação é coisa que não me falta...
 
Nela viajo para as Caldas
Para as Caaaaldas,
Para ver o Tiago Bettencourt!....
No Concerto Mais Pequeno do Mundo.

Agora que isto está despachado
Tenho que te confessar uma coisa
Agora que isto está despachado...
 
Estou bastante convencida
Que tens covinhas por baixo da barba.
É uma ideia que eu tenho...
É uma ideia que eu tenho...

... E é isto. Então até daqui a cinco meses, sim?...

quarta-feira, novembro 14, 2012

Money makes de world go round

Hoje houve greve outra vez. Houve quem fizesse e quem não fizesse, há quem continue a acreditar na greve como uma boa forma de chegarmos a algum lado e há quem ache que esta é apenas uma maneira de marcar passo sem sair do mesmo sítio. Respeito a decisão de cada um, que isto é apenas a democracia a funcionar, e ainda bem que assim é. Não é disso que me apetece falar.

Concordo que os motivos para protestar são mais que muitos, mas sobre isso também não tenho nada de novo ou interessante para dizer, e nessas circunstâncias, mais vale ficar calada.

A minha perplexidade conduz-me por vezes a outras reflexões. Vivemos tempos muito desorientados. É sabido que pertencemos a uma época histórica onde a incerteza face ao futuro é um dado adquirido, mas a verdade é que isso hoje em dia atinge um extremo tal que compromete a vida do nosso dia-a-dia. Será que posso fazer planos para daqui a três anos? Quais três anos, será que posso fazer planos para o ano que vem? Mas como assim, para o ano que vem? Que novidades terei eu hoje à noite que poderão pôr em causa tudo o que projectei até ao final deste mês?

Provavelmente, estas são angústias em que muitos se revêm. Aliás, o que vejo e oiço nas notícias diariamente leva-me a acreditar esta é uma desorientação generalizada a toda a gente e isso, meus amigos, é que me mete um medo do caracinhas. Quando digo toda a gente falo das pessoas, pessoas de carne e osso que compõem o “povo” e a “classe média”, das pessoas que compõem os “empresários” e os “patrões”, das pessoas que compõem o “governo” e a “oposição”. Até das pessoas que compõem a “troika” e os “mercados” e a “Merkel”, porque afinal, por muito que a gente se esqueça disto (e como é fácil a gente esquecer-se disto), estamos sempre a falar de pessoas – até mesmo a Merkel, até prova em contrário, é uma pessoa. E todas estas pessoas, especialmente aquelas que era suposto saberem o que andam a fazer, parece-me que andam todas desorientadas, sem terem a mínima ideia de para onde é que tudo isto caminha. Ou seja, para onde é que caminhamos todos.

Não tenho conhecimentos suficientes de economia, de política ou de finanças para sustentar uma opinião sobre esta crise, se ela é ou não substancialmente diferente de outras crises vividas no passado. Mas o bom senso diz-me que as soluções a encontrar têm que ser ajustadas ao período histórico em que estamos. E a sociedade, a conjuntura económica, com toda a certeza, não é a mesma da que foi vivida noutros períodos de crise. Se o único casaco que tenho hoje para vestir for aquele que tinha em 1982, quando tinha dez anos, não é preciso ser muito esperta para perceber que vou passar frio, porque o casaco já não me serve.

Julgo que isto também se aplica às formas de protesto social, se não estiverem ajustadas no tempo, para que servem elas? Por isso o meu pensamento a cada nova greve é sempre este: greve? Nos nossos dias? Sim senhor é para protestar, está bem. O (des?)governo lá tomará conhecimento do descontentamento. As pessoas sentirão que ao menos fizeram alguma coisa, que não se conformaram às aparentes inevitabilidades. Mas, e depois a seguir? Nos dias de hoje, fazer greve é para combater e modificar que circunstâncias? Para afectar que entidades? Para influenciar o quê? Para produzir que resultados? Não consigo responder, e sinceramente, ainda ontem ouvi um dirigente sindical a falar na televisão que também não conseguiu.

Ah, mas eu tenho a certeza que tenho poder. Cada um de nós , aliás,tem imenso poder. E sem dúvida que se formos capazes de juntar o poder individual, ganhamos todos um poder de influência que de outra forma não temos, claro que sim. Como diria o outro, é só fazer contas. O poder do voto, pois sim, falemos desse. Mas falemos também de um outro poder, que exercemos todos os dias, quase tão constantemente quanto respiramos: o poder do consumo. O dinheiro que todos os dias entregamos nos mais diversos sítios e que faz o mundo girar, como tão bem cantava a Liza Minnelli. Afinal, se o que move o mundo é o capital e o consumo, aquilo que decidimos consumir ou não consumir é o que faz tocar as bandas todas, não é? O que acontecia ao mundo se por trás de cada acto de consumo estivesse uma consciência cívica? Por exemplo, um gajo que não pague estacionamento numa zona tarifada é multado e está lixado. Então, e se ninguém pagar? Sistemática e generalizadamente, quero eu dizer. O que é que acontece? E nos transportes? E nos combustíveis? E nos diferentes artigos à venda nos supermercados? E nos bancos? Não me entendam mal, eu não estou a falar de anarquia. Pelo contrário, estou a falar de organização.

Sei que não sou de todo a única a ouvir cada vez mais ao longe os sindicatos e os partidos políticos. Falam uma linguagem que pouco ou nada me diz, vivem lá no seu mundo, eu vivo no meu, o que até seria uma boa maneira de vivermos todos se o que eles por aí falam e fazem não acabasse por influenciar a minha própria realidade, quase sempre de forma que não me agrada. Fico a questionar-me, por onde andarão as associações de consumidores? Será que em algum momento tomarão consciência do poder e influência que podem vir a ter?

Poderá toda esta linha de pensamento ser fruto de uma desorientação individual, e nada disto faça sentido. Mas termino concordando com as palavras de Estrela Serrano, quando diz que há "matéria para repensar tudo o que tínhamos por adquirido".

segunda-feira, outubro 22, 2012

Elisa, filha de ninguém #7/7

Com o tempo as filhas casaram e tiveram os seus filhos, o Manuel abraçou e beijou muitos netos. Mas o seu envelhecimento foi precoce, e um certo modo de olhar por cima do ombro tornou-se numa coisa comum. Os seus olhos nunca mais perderam um brilho peculiar, o do terror de quem espera o seu castigo a qualquer momento, que certamente será terrível, inclemente, que se não vier dos homens virá de Deus, ou quem sabe de si próprio. A nós só nos resta reflectir sobre qual dos três juízes é o pior, e qual deles dará a sentença que mais faz sofrer os condenados.

Nesta cabeça que foi atravessada por tantos pensamentos numa só noite, apenas um prevaleceu e tomou conta de todo o seu espírito. Cristalizou-se dentro de si uma certeza, a de que o castigo chegaria, a qualquer momento, na figura de um polícia que o levaria preso. Tudo começou com o enterro da filha de ninguém mas continuou pelos anos fora, pobre Manuel, nesta história pelo menos o pior dos três juízes foi ele próprio, que se condenou para o resto da vida, sem apelo nem perdão. A justiça dos homens talvez tivesse sido mais branda, quanto à de Deus fica-se sempre nesta dúvida, basta lembrar que se nem para a Elisa filha de ninguém há garantias dela ter sido recebida no Paraíso, que dizer do homem que a enterrou por duas vezes.
 
*

Mais de vinte anos depois, um velho muito velho está sentado à soleira da porta para apanhar o sol do fim da tarde. Vencido pela demência, olha aterrorizado para um homem que abre o portão do quintal, seguido de uma mulher e duas crianças que vêm direitas a ele. Reconhece a filha mais nova e pergunta, tal como faz constantemente, que homem é aquele e se é o polícia que o vem buscar. Elisa passa-lhe a mão pela cabeça e pergunta, Meu pai, então não vês que é o meu marido, e vinha a polícia buscar-te porquê. Manuel olha-a bem de frente para responder, Tu bem sabes, tu bem sabes porquê. Elisa beija o pai e entra em casa, deixa o velho entregue a si próprio. Estes episódios tornaram-se banais e já ninguém lhes dá importância. Para quê recordar um tempo infeliz que não fez história? Todos fizeram por esquecer aquela simples forma de vida, que de tão pouco o tempo que existiu, foi como se já tivesse nascido morta. Acreditemos nisto e será assim na memória de todos, uma menina que nasceu morta.

Todos conseguiram fazê-lo menos este homem que aqui está. Sem testemunhas nem denunciantes, prisioneiro de si próprio, condenado à morte pela própria consciência, Manuel sabe bem que não foi assim que tudo se passou. Na sua mente não há trevas. Quanto a nós, que estamos do lado de fora, a luz do sol também nos deixa ver com clareza, há um bebé morto naquele quintal que está vivo, há um homem vivo naquele quintal que está morto.

Fim de publicação

segunda-feira, outubro 15, 2012

Elisa, filha de ninguém # 6/7

Nascida para logo morrer, enterrada para se desenterrar a seguir, o corpo de Elisa demorou a alcançar o tão aclamado eterno descanso. Voltou aos braços do avô que seguiu a passos rápidos, furtivo, de regresso a casa. Olhando para todos os lados, a cada momento esperava encontrar alguém que finalmente apontasse o dedo e trouxesse a luz a toda esta escuridão. Mas a noite continuou tranquila e o povo permaneceu adormecido. As forças já iam faltando a este homem. Foi enfim no fundo do quintal, a meia dúzia de metros da porta de sua casa que se abriu o segundo e definitivo buraco. Ali não havia o perigo de alguém se pôr a escavar. O medo de ser descoberto tomou novamente conta de si e por várias vezes se sobressaltou, imaginando alguém a espreitar por cima do muro, bons dias Manuel, que fazes tu, a abrires buracos na terra a estas horas da madrugada. A sua cabeça continuou a funcionar por conta própria, pensando nas coisas mais absurdas, como se exibisse filmes de outras realidades para seu próprio entretenimento. Lembrou-se de quando era criança e jogava ao berlinde com outras crianças como ele. Lembrou-se da primeira mulher que o teve nos braços, não sabia nada, ela é que me ensinou tudo, por onde andará. O buraco está aberto, desta vez ficou mais fundo. Ocorreu-lhe de repente que um pouco mais para o lado ali enterrou também um cão do qual gostava muito, só que dessa vez fora diferente, o cão morrera de velho. Pensou em pronunciar uma prece para pedir perdão a Deus, se para a absolvição basta o arrependimento este homem já ia arrependido quando cometeu o seu crime, agora é só pedir. Mas o cansaço venceu-o e esqueceu-se logo a seguir de pronunciar a prece que lhe poderia dar a salvação.

Finalmente, tudo acabou. Os primeiros raios de luz vieram a tempo apenas para testemunhar o arrumar da enxada, encostada junto à porta das traseiras, por onde agora vai entrar este velho, que não o era ontem mas que assim se tornou durante a noite. Se ficarmos nós cá fora neste tempo e neste lugar, poderemos ver os homens a passar na direcção das máquinas que já os esperam, passaram mesmo junto ao muro, espreitaram para dentro mas não foi por mal, isto de espreitar por cima dos muros é próprio do ser humano, espreitam mesmo que não haja nada para ver, como é agora o caso, apenas uma enxada encostada a uma parede.

Manuel fechou a porta atrás de si. Três mulheres o aguardavam, mas ninguém falou do que se passara, há muitas maneiras para fazer com que o passado deixe de existir, e esta é uma delas. O dono da casa pediu água para se lavar, a quem primeiro pertencia servi-lo assim fez, as outras duas voltaram a deitar-se, cada uma com os seus pensamentos. Fechado na cozinha, imerso na tina cheia de água bem quente, Manuel procurou então impor o silêncio aos seus pensamentos. Em vão. Três pancadas bem dadas na porta despertaram novamente todos os alarmes, levantou-se de um pulo, a água transbordou pelo chão, é a polícia, vêm-me buscar. Quis mexer-se dali mas as pernas não lhe obedeceram, sentiu a urina quente deslizar e misturar-se com a água. Alguém me viu e denunciou-me, vou preso, não mereço outra coisa. É a polícia, já me vêm buscar, perguntou quando sua mulher entrou na cozinha. O rosto da mulher fechou-se, Não digas disparates, é o Joaquim a saber porque te demoras tanto a sair para o campo, quis saber se estás doente e eu disse-lhe que sim, que hoje não podes ir.

No dia seguinte já pôde ir, assim como nos outros todos. As mulheres seguiram também em frente com as suas vidas, a Maria fez das tripas coração e lá foi trabalhar ao fim de três dias, mais tempo de ausência e já seria de estranhar. Portas adentro, nunca mais aquela casa foi a mesma. Não se falou mais no assunto, cada um remoeu consigo mesmo tudo o que se passou. Ninguém perguntou à mãe, como foste capaz, à irmã, como não acordaste antes, à avó, como não deste por isso, ao avô, o que fizeste aos pensamentos.
 
Próxima (e última) publicação: 22 de Outubro

quinta-feira, outubro 11, 2012

Alienação

Sonho com casas de madeira à beira de lagos.
Com cobertores partilhados, a proteger do frio da tarde
e risos porque são pequenos para nos tapar aos dois.

Sonho com o lugar da tua companhia.
Com as portadas fechadas a proteger-nos do mundo,
e a parar os relógios, as lógicas e as consciências.

Há uma curva no teu braço que é o meu refúgio.
Quando lá chego, tudo o resto é paisagem.

terça-feira, outubro 09, 2012

Elisa, filha de ninguém #5/7

Os pensamentos, os sentimentos, a maior parte dos que o assaltam são terríveis. Pensa em como estão agora fechadas para sempre as portas do Paraíso, pensa que não há no mundo inteiro perdão para um crime tão medonho, e as mãos tremem-lhe enquanto enrola o corpo num lençol, enquanto pega na enxada que será a sua única companhia em tão triste empreitada, pobre homem que assim exerce o seu papel de pai, a absolvição da filha leva-o à própria condenação. A noite permanecia silenciosa e escura, porém já não por muito mais tempo. Quando pôs o pé na rua todos os seus pensamentos se dirigiram para o terreno que ficava atrás da casa, perto o suficiente para chegar lá em dez minutos, longe o suficiente para afastar de vez este horror, este horror, tomara já que acabe para que enfim possa sentar-me e chorar. Assim pensava Manuel quando chegou ao sítio destinado, o suor escorrendo no rosto, se alguém decide madrugar e passar por estas bandas, que vai ser de mim, denunciam-me à polícia, amanhã já me estão a bater à porta, prendem-me para o resto da vida. O tempo urge, já o dissemos, e não é esta a altura mais própria para grandes considerações teóricas sobre o bem e o mal. Se a decisão está tomada há que pô-la em prática, deixemos os remorsos para quando for o tempo deles.

Porém já vimos que não será assim. Ao mesmo tempo que trabalham as mãos, são muitas e nefastas as considerações que aquela cabeça vai congeminando sozinha. Dir-se-ia até que se dividiu em dois, para um lado aquele que toma as decisões práticas, vamos por ali, naquele lugar o terreno é macio, vai ser mais fácil abrir o buraco, já está o corpo lá dentro, agora é só tapar. Para o outro lado, como pode isto ser, que estou eu a fazer, deitei-me esta noite e tudo era igual a todos os dias, ainda o dia não rompeu e estou a enterrar uma neta, que vai ser de nós todos se isto se sabe, pobre criança que não tem culpa de nada, a esta não se negará o Senhor a receber nos seus braços, e daí nunca se sabe, nem baptizada foi, não tem nome, o Padre diz sempre que quem não for baptizado não entra no reino dos Céus, oxalá tenham pena desta, senão até essa culpa terei que carregar daqui para a frente, a de ficar uma recém-nascida abandonada às portas do Céu, ao Deus-dará, e que estranho tudo isto me parece, acho que estou a ficar louco.

Enterrada a Elisa, Manuel respirou fundo e tentou pôr em ordem os seus pensamentos, a dura tarefa estava concluída. E no entanto prevalecia um sinal de alarme, uma inquietação incipiente mas persistente, o que foi, está terminado, deixem-me em paz um momento, isto dizia Manuel aos seus pensamentos, que em verdade se diga, quando eles são muitos ao ponto de nos encherem a cabeça, o barulho pode ser de tal forma ensurdecedor que nem conseguimos pensar nada que preste. Sentado no chão fechou os olhos, respirou fundo. Vou para casa, foi o que pensou, mas quando abriu os olhos o alarme que antes apenas se insinuara disparou como se fossem trombetas nos seus ouvidos, já antes tinha olhado mas só agora via, as máquinas estavam a postos para arar o terreno, foram ontem postas a jeito pelos homens que hoje irão manobrá-las, este terreno é de cultivo, mal o sol nasça vão rasgar a terra, abrir os sulcos e lançar as sementes, desta terra irão nascer coisas vivas, mas antes que para isso haja tempo irão pôr a descoberto o corpo de uma recém-nascida que, enterrado às pressas há apenas umas horas não ficou a mais de três palmos, se ali ficar não faltará muito tempo para que, mesmo morto, aquele corpo diga a quem quiser ouvir, aqui estou.

Esta noite é de pesadelo e parece não ter fim. Se permanecer onde está, a pequena Elisa estará em breve à vista de todos. O sol já não demora muito a nascer e com ele virão os homens. Mais uma vez foram os pensamentos práticos que tomaram conta de tudo, que deram a ordem ao braço, pega na enxada outra vez, e o braço obedeceu, num frenesim o braço e a enxada recomeçaram o seu trabalho para desenterrar o que ainda agora foi enterrado, o suor misturado com as lágrimas, o estômago apertado numa náusea que logo toma conta do corpo todo, e a outra parte, perguntarão os mais curiosos, a parte dos inúmeros pensamentos que giram descontrolados, bom, se estão descontrolados e são inúmeros, já nem vale a pena tentar descortiná-los, a não ser talvez este enorme terror de ser apanhado. Coisa assombrosa o nosso corpo, os braços nunca fraquejaram. Elisa, minha neta, aqui não podes ficar, quis levar-te para mais longe mas afinal é para bem perto que terás que vir.

Próxima publicação: 15 de Outubro

segunda-feira, outubro 01, 2012

Elisa, filha de ninguém #4/7

Não vale a pena pensar no que poderia ser, se não o foi. Os factos impõem-se, a realidade oprime e angustia, o crime está diante de todos. As mulheres afastaram-se todas da criança, que estranho fenómeno este, é caso para perguntar de que se afastam elas, se do horror de estar ali uma recém-nascida morta, se da culpa que cada uma cala dentro de si, uma porque deixou morrer, outra porque sabia mas nada disse, outra porque nunca chegou a saber. E como puderam afinal não saber, nada dizer, deixar morrer, são perguntas que ficam até hoje sem resposta. O silêncio instalou-se nos espíritos de todos, um imenso espaço vazio onde imperou o choque, primeiro, partilhado logo a seguir com outros sentimentos, aí vem o remorso, já não era sem tempo, faça favor de entrar, isto disse o choque ao remorso, bem-vindo a este silêncio enorme, que de tão grande e profundo ainda tem espaço de sobra, então se não se importa, isto disse o remorso, entra já também o desalento, com certeza, instalemo-nos então todos, enquanto não chega o medo, esse quando chegar, já se sabe, toma conta de tudo e temos nós que ir à procura de outros silêncios para preencher.

Quando chegou o medo as mulheres estavam entregues à tarefa de se ajudarem a lavar as próprias feridas, as do corpo e as outras. Afinal, se calhar por ser este silêncio tão grande, sempre sobrou algum espaço para a solidariedade, e se a primeira pedra for lançada que venha de fora, destas paredes para dentro já todos pecaram algum dia. Além disso, é justo dizê-lo, estão ali duas filhas a precisar do amor de uma mãe que já nasceu há muito tempo e que irá sê-lo, por opção, até morrer.

Já para o homem da casa tudo se passou de outra forma. Manuel permaneceu estático mais algum tempo, apenas olhando o corpo. Dir-se-ia que no silêncio que o cercava o choque prolongou a sua presença, demorando mais a sair. Mas foi o medo que acabou por invadi-lo por inteiro, choque, remorso e desalento lá sabiam do que estavam a falar. Ou então foi por culpa da solidariedade e da falta dela, que se deixou ficar a ocupar o silêncio das mulheres, com um homem ali mesmo ao pé entregue apenas a si mesmo, e ao medo, já sabemos.

Chegou-se à porta da rua para se assegurar que nada fora ouvido pelos vizinhos, e que a madrugada mantinha todos em volta mergulhados nas profundezas do sono. Enquanto voltava para junto do corpo ia pensando que se estivesse a filha de ninguém ainda viva, a sua reacção poderia ser a de um pai desonrado. Pedir contas à família do rapaz, casar a filha às pressas, gritar, desesperar. Ainda que apenas imaginados, pareceram-lhe estes momentos de humilhação e desonra como a maior das felicidades. Qualquer coisa seria melhor que esta outra realidade, esta forma silenciosa cuja presença possuía agora o poder de dominar tudo e todos, morta sim, mas por isso mesmo tornando irrelevante todo o tempo que passou até este momento, deitando para o lixo o homem que antes existiu, morto também ele afinal, e se assim é, compete-nos perguntar, que homem é este que agora aqui temos.

Os seus pensamentos sucederam-se a um ritmo frenético. Se num instante pensava numa coisa, logo a seguir surgiam outras ideias, outras recordações, sentimentos, atropelavam-se todos, muitas vozes soando ao mesmo tempo dentro de uma única cabeça. Será normal em face das circunstâncias, com certeza que sim, afinal qualquer um de nós poderá dizer que a si próprio também já lhe sucedeu, uns dirão que por conta de coisas más, outros felizmente, por coisas boas. Mas é também pertinente comentar, e não sem alguma preocupação de espectadores, que esta força de pensarmos e sentirmos muitas coisas ao mesmo tempo nem sempre nos faz bem, aliás, às vezes a violência do pensar e do sentir é tal, que até parece impossível como não cai o nosso corpo fulminado logo ali. Sabemos bem que alguns corpos não resistem e sucumbem, aos pensamentos, aos sentimentos.

Adiante. Como íamos dizendo, a cabeça deste homem é um turbilhão, só assim se explica que ao mesmo tempo que vê na filha uma mulher pérfida capaz de deixar morrer uma criatura inocente, já de repente a olha e não é isso que vê. Agora que voltou a olhá-la vê apenas a sua filha, o gesto criminoso tornou-se numa névoa desfocada, minha querida filha, uma rapariguita sem siso nenhum, o desalento e um vazio sem explicação estampados nos olhos, enquanto a mãe procura, através da água, limpar-lhe do espírito a memória do que aconteceu. Esta Maria não soube, não pôde, não quis ser mãe para a sua cria. Mas para este homem e esta mulher essa questão não se coloca, as crias deles estão ali mesmo à sua frente e reclamam por cuidados. Os homens de fora daquelas paredes poderão condenar a criminosa, o homem que está paredes adentro não o pode fazer. Há já muitos anos que é pai, não pode agora dizer, desisto, meteste-te nela agora aguenta-te sozinha. A sua obrigação manda proteger, se o preço a pagar é ser cúmplice de pecado mortal, que assim seja. Com este último pensamento tomou consciência do papel que lhe cabia agora cumprir. Era o homem da casa. Alguém tinha que abrir a cova, sepultar. Alguém tinha que evitar que o crime chegasse a ser conhecido. No mesmo local onde caiu, um corpo já frio aguardava, paciente, que alguém o tomasse nos braços, mais cedo ou mais tarde alguém teria que o fazer. Para preservar o segredo, proteger a família da condenação da justiça, a Elisa, filha de ninguém, teve que ser enterrada.

Próxima publicação: 8 de Outubro

segunda-feira, setembro 24, 2012

Elisa, filha de ninguém #3/7

De quem és tu filha. A menina nasceu em noite de lua nova, escura como breu. Foram tantas as trevas em volta que é justo dizer-se que nessa noite não se deu à luz. Não se ouviram os gritos desesperados do parto, não houve correria do quarto para a cozinha, ninguém ouviu, ou o que é pior, ninguém quis ouvir. Maria pariu sozinha e em silêncio, de cócoras sobre uma selha, conforme tinha visto fazer a outra a quem tinha sido preciso ir ajudar. Às escuras, a bebé saiu do ventre materno e mergulhou no fundo da selha para onde já tinham vertido as águas e o sangue que durante meses a mantiveram viva e de boa saúde. Ninguém a amparou. Elisa ainda despertou a tempo de ouvir os sons que a alertavam para que algo estava mal, mas tarde demais os compreendeu, a criança afogou-se, disse a Maria para logo se calar. Nasceu e morreu sem nome, sem pai, mãe, parentes. Nesta história, de quem és tu filha é pergunta que eternamente ficará sem resposta.
 
Os donos da casa despertaram enfim, não apenas do sono dormido, mas também daquele que os mantinha longe da realidade. Maria e Elisa eram filhas de um homem chamado Manuel. Um homem do campo, ignorante e sem maneiras, um bom filho de Deus, mas nem por isso menos consciente dos seus deveres de pai. Para que se veja como às vezes se julgam erradamente as pessoas, afinal foi a este homem sem instrução que se ouviram os primeiros gritos de revolta perante o sucedido. Gritou com a filha que em silêncio parira e em silêncio se mantinha, apenas olhando a selha onde permanecia o objecto da sua culpa. De longe em longe lá conseguia distinguir os gritos do pai a perguntar coisas, que de tão óbvias, nem tinham resposta possível. Porque tinha ela feito semelhante coisa. Para quê esconder a gravidez, e pior, deixar morrer assim uma criança. Que espécie de mulher era ela, que isto nem fora coisa de gente, como pudera deixar cair a criança, nem os bichos renegam um gesto tão simples, este de amparar a cria, que coisa horrível, e agora. Os gritos duraram o seu tempo e depois cessaram, é assim com todas as coisas do mundo, sejam elas uma gravidez, uma vida, uma dúvida, uma certeza, duram o que têm que durar, depois cessam e tornam-se noutra coisa qualquer.
 
Reposto o silêncio, foi a vez da Maria o quebrar, afinal alguma explicação tinha que surgir, e não apenas para os outros, para si própria também. Maria falou de vergonha. De falta de coragem. Do dinheiro que a família não tinha, e que tornavam impossível o casamento que as boas regras impunham. Que alternativas existiam? Nenhumas. Não casar seria a pior condenação de todas, mãe solteira, como poderia ela sair à rua, como entraria na igreja, como enfrentaria os olhares inquisidores dos outros, espreitando ao postigo sempre com uma pergunta a reclamar uma resposta, de quem és tu filha, de quem és tu mãe, de quem és tu namorada, de que espécie és tu, aqui detrás do nosso postigo que nos protege de todo o mal vamos encaixar-te numa categoria qualquer, não teres nenhuma é que não pode ser, e então cá vai, boa filha, mulher honrada, mãe solteira, mulher da vida, prostituta, a escolha está feita, que Deus te perdoe e te afaste de nós.
 
É verdade, estas explicações não convencem ninguém até hoje, mas talvez seja porque Maria acabou por falar mais para os outros do que para si. Não consta que tenha dito, e se calhar nunca o pensou, não quero ser mãe ainda, cada coisa a seu tempo e este não é ainda o meu tempo. Maria deixou por dizer coisas chocantes como estas que se seguem, esta que aqui jaz não é minha filha porque por muito tempo nem sabia que a tinha e depois de saber nunca a desejei. Nunca foi minha porque se soubesse como tirá-la do meu corpo tinha-a tirado há já muito tempo. Não é minha filha porque quando as mães não o querem ser, aos filhos só lhes resta serem filhos de ninguém. Por aqui se vêem os mistérios da vida. Um dia, muito para além do tempo em que decorre esta história, um escritor dirá que onde nasce um filho nasce também uma mãe. Belas e verdadeiras palavras serão. Menos belas, porém também verdadeiras, são estas que resultam do que a Maria gostava de ter dito e não disse, que a mãe afinal só nasce se for ela própria a desejá-lo. Já os filhos para nascerem, até onde chega a sabedoria dos homens, nunca se ouviu dizer que a sua vontade conte para alguma coisa.
 
Tudo isto são conjecturas, invenções, falsidades. Regressemos aos factos, agora que terminaram as explicações e impera de novo o silêncio. Aos pés de todos, o cadáver de uma recém-nascida sem nome. Mas já que nos demos ao luxo de pôr explicações na boca da mãe, tenhamos também a ousadia de baptizar a recém-nascida. Seja então Elisa o nome dela, por parte de uma tia que se tivesse acordado mais cedo tudo teria sido diferente. Quem sabe, por esta altura, talvez a noite e os corações não estivessem tão escurecidos, e a criança não estivesse sendo tristemente apelidada de Elisa, filha de ninguém.
 
Próxima publicação: 01 de Outubro

segunda-feira, setembro 17, 2012

Elisa, filha de ninguém #2/7

De quem és tu filha? Eis a pergunta que se impõe e nos coloca de novo frente ao portão que dá acesso ao quintal, uma pergunta que nos devolve à história que já tarda em ser contada, e que afinal, se calhar, é acerca de coisas que mudam e de coisas que ficam sempre na mesma.

Recordemos então as duas irmãs que em tempos a habitaram, e que por ser bem sabido de todos de quem eram elas filhas, nunca foi preciso perguntar. A Maria e a Elisa, no seu tempo de solteiras, dormiam juntas em colchão de palha, num tempo que, pela via das maravilhas da ciência e da técnica, não está a cem, mas antes a mil anos de distância desta realidade que foi a dos nossos avós e bisavós. Igual em todos os tempos será talvez a preocupação de um pai com as suas filhas, a sua vontade de educá-las o melhor possível, corrigi-las quando assim tiver que ser, protegê-las de tudo, do mundo inteiro e até mesmo, quem sabe, delas mesmas. Iguais serão também as crianças e os jovens desde sempre, a sua curiosidade pelo desconhecido, a sofreguidão pela vida, o seu modo ansioso e intempestivo de descobrir o mundo, de descobrir-se no mundo, de amar e ser amado. E se nesta sofreguidão por vezes acontecem erros, enganos, maus actos, também isto é coisa que sempre foi assim e sempre assim será, quem nunca pecou, etecetera, sobre esta história já todos sabemos o que nos quiseram contar.

Neste modo de viver igual ao dos seus semelhantes, a Maria é também uma jovem comum, com pai e mãe, namora com o seu consentimento, e só aguarda que a família viva tempos mais abonados para que se possa casar, na lei dos homens e na lei de Deus, com o homem que escolheu. Aguardar sim, mas não para tudo e não para sempre, a verdade é que esta espera, de tão longa, foi insuportável para os dois jovens que tinham demasiada coisa para descobrir um no outro. Não esperaram, e aqui nos deparamos com outra banalidade igual desde que o mundo é mundo, mesmo no tempo em que era suposto e recomendado que se esperasse, a verdade é que poucos esperavam.

Durante meses, a gravidez da Maria foi coisa desconhecida de todos, menos dela própria e da sua irmã, Elisa. Encostada a ela toda a noite, sentia no próprio corpo a agitação do ventre alheio, e testemunhava em silêncio a existência daquela vida. A luz do dia dava-lhe coragem para a pergunta que se impunha, Estás prenha, e a resposta era sempre a mesma, Não estou, não estou, não estou.

Próxima publicação: 24 de Setembro

segunda-feira, setembro 10, 2012

Elisa, filha de ninguém #1/7

O crime nunca foi denunciado. Não houve investigação policial. Se alguém houve que tenha desconfiado, visto ou ouvido dizer, nunca falou, calou-se para sempre. Esta história ficou retida no silêncio de todos quantos nela se envolveram, apenas sussurrada de algumas mães para algumas filhas, na urgência de contar o segredo da menina que da vida apenas soube o que foi nascer e morrer. Talvez porque chegou cedo demais, não teve direito a pertencer à família que mais tarde, aos que chegaram no tempo certo, soube criar e acarinhar. Foi há muitos anos atrás e os que viveram os acontecimentos já morreram todos.
 
A casa ainda lá está, recuperada por filhos, primeiro, depois por netos. É o melhor dos lugares para o descanso de fim-de-semana, e para isso mesmo lhes serve. A paisagem em volta é magnífica e o clima, apesar de sempre agressivo, seja Verão ou Inverno, traz aos corpos o vigor e a saúde próprios de tudo o que permanece em estado puro. São muito poucos os que sabem do que por lá se passou, e mesmo dos que chegaram a saber, já ninguém está para se lembrar disso. Esta casa de hoje em dia tem água e luz, máquinas para lavar, secar e cozinhar, chão de madeira e pedra, tapetes, camas e sofás. O quintal em torno dela está coberto por uma fresca manta verde onde se espojam primos e primas, brincadeiras alegres das crianças que são já o fruto da sexta geração desta família.
 
É uma aldeia igual às outras todas. Uma terra que se vestiu com ares de modernidade, aderiu ao conforto e nalguns casos mesmo ao luxo, em tudo diferente da época a que remonta a ocorrência, registe-se, primeira década do século vinte, aos anos que isto foi. Grandes diferenças se encontram realmente, saltam à vista, porém aos que têm um olhar mais profundo, seja por hábito ou porque a sua natureza não lhes permite olhar de outra forma, não deixarão de notar o que permanece sempre igual, e não apenas nos lugares, mas sobretudo nas pessoas, que é quem faz os lugares serem o que são.
 
Observemos. Nesta rua principal, que é mais ou menos a única, vemos passar o tractor, o burro, a carroça, em sã convivência com os carros e motas de alta cilindrada, estes últimos exibindo-se aos Sábados e Domingos, eclipsando-se inevitavelmente durante a semana. Contra-argumentemos então, tudo o que foi antes dito não faz sentido, está de facto diferente a aldeia, pertence sem dúvida ao século vinte e um. Porém agita-se o vento ao final da tarde e entra pelas narinas o cheiro dos porcos e das uvas fermentadas. Respiremos fundo para que se nos encha o peito com o cheiro do lume, aceso assim que o sol se põe. É que as noites, por estes lados, até em pleno Verão podem ser de gelar os ossos. Olhemos no fundo dos olhos dos velhos e das velhas vestidos de negro, que se quedam à porta de casa ou das adegas, de mão na vista protegendo do sol para melhor verem quem passa, e inquietos, vejamos enfim um modo de olhar que é o mesmo desde o início dos tempos, sintamos a modernidade à nossa volta a perder o seu brilho e vigor, afinal não passas de pó e ao pó tornarás. De quem és tu filha?, perguntam sem cerimónias. Quem se ofende com a pergunta é porque não é deste mundo.

Próxima publicação: 17 de Setembro

segunda-feira, julho 09, 2012

Estrudes Luísa

As vinhas dão trabalho o ano inteiro. É preciso podar, depois empar, curar, vindimar. Lavar os cestos. Pisar as uvas. Fazer o vinho. Lançam-se as sementes à terra e brotam as batatas, o trigo, as favas. Quem olhar com atenção vê que o trabalho também brota da terra, não é coisa que se coma ou beba, mas pensando bem, sem trabalho não há o que comer, e isto é verdade em todos os tempos do mundo. Quem não tem terras precisa de trabalhar, quem as tem precisa de quem as trabalhe. Mas em Agosto não há trabalho, só há calor.

Já é fim de tarde mas o calor continua opressivo, doentio, o ar irrespirável. A estrada é comprida e é só uma, atravessa a aldeia de ponta a ponta, a casa é das primeiras e já se vê ao longe, mas lá em cima. Demasiado lá em cima para o calor que está. A Estrudes regressa a casa pela rua deserta, portas e janelas fechadas. Todos os que a isso se podem permitir esperam que o estio dê uma trégua para então saírem.

Quanto a ela, não tem esse privilégio. A sua condição de viúva vestiu-a de negro desde os trinta, já lá vão três anos. É a conta que Deus fez. Talvez por isso seja também em número de três os filhos que lhe ficaram, mais a mãe, todos por esta hora à espera dela. O mais velho só tem seis anos. Há também a menina e o filho mais novo, tão pequeno ainda, tão pequenos todos.

O marido morreu a trabalhar, atropelado pelo carro de bois que comandava. Donde se conclui que o trabalho não dá só do que comer, também dá do que morrer. Neste início de século vinte, num sítio em Portugal que mais tarde alguns letrados poderão chamar de profundo, a Estrudes recebeu de indemnização, pela morte do marido, o facto de poder contar apenas consigo própria para sobreviver e cumprir a sua obrigação de criar três filhos e sustentar a mãe.

É claro que ninguém se chama Estrudes, o nome certo é Gertrudes. É o modo de falar das gentes que lhe abrevia a pronúncia. E por misteriosa decisão da progenitora, a Gertrudes tem outro nome, é Gertrudes Luísa. Não deixa de ser coisa estranha dois nomes assim reunidos. Se o primeiro se percebe no meio rural que reconhecemos pela paisagem em volta, de onde teria vindo a Luísa, nome de gente distinta, a destoar em tudo nesta mulher? Luísa pressupõe certa fineza nas mãos, no rosto e nos modos. Não é nome para camponesa. Apetece ir bater ao postigo daquela casinha, tão pequena, como pode viver lá tanta gente, diga lá minha senhora, como é que se lembrou de juntar a Luísa à Estrudes? Provavelmente a resposta seria igual à de tantas mães pelo mundo fora, porque sim, porque gostei, porque olhei para ela e foi o nome que Deus me segredou. Se quisermos especular, fantasiar, podemos inventar uma resposta mais poética: Estrudes Luísa porque se o destino de Estrudes já ela o tinha por garantido, ao menos que no nome houvesse a esperança de um dia ela poder ter outro, um destino de Luísa, quem sabe. E simplificando, reconheçamos apenas que soa bem.

Satisfeita a curiosidade onomástica, voltemos para o calor da rua. Mais forte que ele parece ser a Estrudes, que caminha a passo seguro, direita a casa. Já não é tempo de moças que vão formosas e não seguras. Com uma vida tão dura, trinta e poucos anos já chegaram para que se perdesse a mocidade e a formosura da Estrudes Luísa. Os passos são porém seguros. Quando se fica viúva e com três filhos para criar perde-se o direito à fragilidade. Qualquer Luísa teria que deixar de o ser, esta não foi excepção. Ficou somente a Estrudes para trabalhar no campo, na casa, no que houver, porque o trabalho é que não pode faltar. A Estrudes não chora a morte do marido porque isso não dá de comer a ninguém, não se lamenta por estar condenada à solidão ainda tão jovem, estas questões não são deste tempo. A Estrudes não fraqueja nem permite que o desespero tome conta dela. Não se engana nas contas embora não saiba ler nem escrever, paga sempre tudo o que deve. A Estrudes já anda meia curvada, pela dureza do trabalho e pela dor de tudo o que lhe aconteceu. O seu semblante endureceu, a falta de afecto vai acabar por secá-la por dentro, mas isso não é culpa de ninguém, nem sequer dela própria, e o seu passo é seguro, porque não pode ser outro.

Algumas vezes à noite, quando todos dormem espalhados pelas três divisões da casa, a Luísa que há na Estrudes sente saudades e dá-se ao luxo de chorar, perguntando-se por que razão tem o seu caminho que ser tão difícil. Nesses momentos suspira por uma vida mais fácil e deseja, com todas as suas forças, que ao menos uma única vez, em alguma pequena coisa, a vida se limitasse a exalar o perfume da rosa e deixasse os espinhos para outros que não ela.

Neste Agosto em que não há trabalho o desespero está cada vez mais difícil de controlar. Dia após dia temo-la visto sair de manhã, ainda com a ilusão do ar fresco que depressa se desvanece, indo a cada dia um pouco mais longe, à procura do sustento que não surgiu em lado nenhum. Já perdeu a conta aos dias em que regressou a casa, tal como a estamos a ver agora, todas as expectativas frustradas. E o desespero, na maior parte do tempo tão bem domado no fundo de si própria, a cada regresso tem vindo a ganhar novas forças, tornando-se lentamente numa besta abominável, apenas à espera que a última amarra se solte para irromper e tomar conta de tudo.

Uma proposta de casamento surgiu recentemente e aguarda resposta. Também viúvo, também com dois filhos pequenos, quem é mãe de três pode ser mãe de cinco, este homem é dos que têm terras para dar trabalho aos outros. Curiosamente, agora que as suas preces foram finalmente atendidas e o caminho mais fácil se perfila à sua frente, a resposta da Estrudes tem tardado a ser dada. Não estás cansada de enfrentar o mundo inteiro sozinha, três anos já não te chegam? Por quanto tempo vais tu conseguir criá-los assim, não seria melhor se? Estas palavras são da sua mãe, são de si própria nas noites que já conhecemos, e a resposta parece óbvia. Mas estranhamente, o desespero parece encontrar na figura deste homem novos meios para se agigantar ainda mais dentro dela. Nos últimos tempos, e a cada regresso a casa sem trabalho, a possibilidade do casamento foi ganhando diferentes contornos. A cada dia que passa, parece ser a única forma possível de continuar a dar alimento aos filhos. Mais do que o caminho para uma nova vida, esta proposta é uma questão de sobrevivência.

Este caminho será certamente o mais fácil, mas onde está, que é feito do perfume da rosa, por que motivo não se faz ele sentir? Em tudo isto pensa a Estrudes de noite. No dia seguinte, cada vez mais cedo porque é preciso ir cada vez mais longe, nova tentativa para encontrar trabalho, que o desespero ainda não reina, embora falte pouco.

Foi com todo este peso que saiu de casa hoje de manhã. Nunca a Estrudes fez tanto jus ao seu nome. Curvada perante o inevitável, há vários dias que já entendeu como é inútil esta busca pelo trabalho que não há. Mesmo assim voltou a sair, levou o seu desespero a passear, quanto à esperança, já há mais de uma semana que desistiu de a acompanhar. Cada vez mais próxima de uma decisão que dará alimento aos seus filhos, como que por castigo a lembrança do marido morto tem-se tornado cada vez mais forte e acompanha-a sempre no seu caminho. Calcorreou os lugares, bateu a todas as portas. Já nem se sentia reagir quando a resposta vinha, sempre a mesma, sempre igual. E tal era o seu estado de resignação que nem se deu conta, ao princípio, quando por uma única vez a resposta não foi a mesma de sempre. Hoje, no dia em que a vemos, a Estrudes arranjou trabalho.

Quem a vir agora a subir a estrada, direita a casa, vê uma mulher precocemente velha dobrada pelo peso da trouxa de roupa que trouxe para lavar. Mas quem como nós teve o privilégio de a poder acompanhar, sabe bem que a Estrudes trouxe um fardo de roupa pesado mas deixou ficar para trás outros tantos fardos que lhe pesavam muito mais.

O trabalho que, de forma indiferente, aquela outra mulher lhe pôs nos braços, devolveu à Estrudes o nome que lhe andava a faltar. Esta Estrudes que aqui vai hoje leva a cabeça erguida e mais firmeza no andar, está inteira, é a Estrudes Luísa. Não é Luísa por ser fina ou rica, isso nunca poderá vir a ser. É Luísa porque é dona de si própria, leva consigo a dignidade de quem se sustenta a trabalhar. Esta Estrudes Luísa desprezou o caminho mais fácil. Encarou o mais difícil e teve a coragem de perceber que só este lhe convinha. Que só por aquele caminho poderia continuar a trazer os seus dois nomes consigo. E que lhe assentam na perfeição, façamos a justa vénia a quem a baptizou.

Ali vai ela direita a casa, com o trabalho que foi possível encontrar hoje, melhores dias virão, piores dias virão. Hoje e até que morra, não haverá outra forma de levar a vida. A sua decisão só pode ser uma, e por incrível que pareça no meio de tanto calor, parece levantar-se uma brisa com um ligeiro perfume de rosas.

O pedido de casamento foi recusado naquele mesmo dia, para todo o sempre.

domingo, junho 03, 2012

Considerações de uma mulher de meia-idade que foi ao Rock in Rio

- Afinal ir ao Rock in Rio é mais ou menos como ir à praia: a malta faz umas sandes, compra sumos de pacote e mete o protector solar na mochila.

- Afinal estar no Rock in Rio é mais ou menos como estar no parque de campismo: há fila para comer; fila para fazer xixi; fila para tomar café.

- Afinal estar no Rock in Rio é tomar consciência da moda deste ano adoptada pelas adolescentes no que toca a vestuário. Alguém já se apercebeu? Eu só dei conta naquele dia, parecia que andavam todas fardadas. Calções (muito) curtos, de cintura subida. Vestidos por cima de collants (!), vulgo meias de vidro, indiferentes à temperatura acima dos 30 graus. É claro que usados de forma generalizada (pois se é moda), tanto pelas que saem favorecidas, como por aquelas que ficam um total desastre com aquilo vestido. Sendo que, depois de umas horas espojadas pelo meio do chão, não há collants que resistam e é ver malhas pelas pernas abaixo, deixando-as a todas com um aspecto mais ou menos igual, com um certo ar de prostituta gasta por muitos anos de profissão, o que de certa forma é a democratização do mau aspecto. É a justiça feita às gordas que nunca deviam ter optado pelos calçõezinhos logo de início e justiça feita a mim, que na idade delas também teria andado com uns vestidos, sem que o meu corpinho mo permitisse.

- Afinal o que é que se passa com as tampas das garrafas de água, pá? Deixem estar que para a próxima já não me apanham com esta. A vantagem de não vestir calções curtos é a quantidade de sítios onde imagino ser possível esconder tampas de garrafas de água, seus palermas...

- Afinal o que realmente vale a pena no Rock in Rio são mesmo os concertos. Não fosse pela experiência avassaladora de ver e ouvir os artistas do nosso coração, se calhar nalguns casos em oportunidades únicas, aquilo não seria mais do que uma concentração excessiva de pessoas e de hormonas de reprodução num espaço limitado, ainda por cima cheio de pó e de mershandising.

Mas assim, com a alma cheia de música, mal posso esperar pelo cartaz de daqui a dois anos, para decidir em que dia vou outra vez.

sexta-feira, maio 25, 2012

Eva Nascente. Um conto com banda sonora. #11



Homem, depoimento
Depois de tudo o que aconteceu tive que me habituar a conviver com a dor de a ter deixado partir. Não é suposto desvanecerem-se as memórias com o passar do tempo? Pois comigo dá-se o contrário. Recordo cada vez melhor, de forma mais nítida, cada conversa, cada riso, cada beijo. Consigo reconstituir de cor dias inteiros que passámos juntos, como se assistisse a um filme. Depois as saudades são tão intensas que o meu único desejo é que ela se vá embora de vez, que abandone também as minhas memórias. Sinto-me enlouquecer. Dizem-me para esquecer, que ela não é real, nem nunca o foi. Ou então dizem-me que ela morreu, o que é claramente um contra senso, se nunca existiu não pode ter morrido.

A explicação oficial considerou-me a primeira vítima do “efeito corrosivo de uma psicopata com capacidade para hipnotizar multidões, uma criminosa que sucumbiu pelas próprias mãos encerrando da forma mais terrível todo um ciclo de violência e morte”. E depois todos se empenharam no esquecimento, porque aquilo que não é lembrado não existe. Nenhum corpo foi alguma vez encontrado, mas sobre isso, nem uma palavra. Nem uma referência aos milhares de pessoas que encontraram naqueles concertos a felicidade, o prazer, a alegria, o amor, a amizade. Também não me parece justo, ela fez bem a muita gente… Mas também isso foi esquecido. E no entanto, como é que alguém, ou algo, que não existe, deixa uma dor tão real como aquela que sinto? Uma dor que parece ser imortal. Ninguém compreende que para mim isto não pode ficar assim. Eva Nascente existiu, existe ainda, tem que existir, porque se não for assim, então estive sempre sozinho.

Quanto mais olho à minha volta menos me identifico com este mundo que sempre foi o meu. A minha essência já não parece ser a mesma. Não é do mundo da lógica, das certezas, da realidade empírica e das experiências científicas esta sensação de que ela não chegou a ir-se embora, de que a sua presença ainda se faz sentir. A mecânica quântica não explica mas não é menos verdadeira por isso, esta ligação entre dois mundos, que teimosamente persiste e resiste a todas as adversidades, até ao próprio tempo. Já não falo destas coisas a ninguém, sempre que o faço vejo crescer nos olhos dos outros a convicção de que estou louco. Louco ou não, vou-me redimindo dos meus erros escrevendo as letras para as canções que poderíamos compor juntos se a história tivesse sido outra. Nestas novas canções já não falo de traição ou de mágoa. Apenas digo, Eva, sei que existes, só existindo podes cantar como cantas. É verdade, quase me esquecia de mencionar este pormenor, meio delirante. É que a oiço cantar com cada vez mais frequência e não duvido, nem por um instante, que é ela a cantar só para mim. Sinto que mudei, já não sou o mesmo. Pressinto que alguma coisa boa está ainda por suceder. E desta vez não vou ter medo de me deixar encantar.

Fim de publicação

terça-feira, maio 22, 2012

Eva Nascente. Um conto com banda sonora. #10



Eva Nascente, depoimento
Os humanos falam às vezes da Fénix, a ave mitológica que nasce das próprias cinzas e que, é claro, não existe. Será assim tão difícil aos homens entenderem que todos eles, em cada dia, a cada momento, nascem de novo, que não há apenas uma vida ou uma morte na vida mas várias, que sobre as cinzas de um fim se está constantemente nascendo de novo? Que a Fénix existe em cada um de nós? Foi isso que se passou comigo, afinal. Vi os meus planos caírem por terra e o meu amor ser desprezado. Vi desabar o mundo que criei. Vi esgotarem-se a curiosidade, a euforia, o deslumbramento, a paixão, a esperança, a teimosia, a ilusão. Fui até onde podia ir, até que fiquei sem forças. E nessa altura precisei de recuperar a minha essência, aquela de que julguei não precisar mais. Abandonar o mundo dos homens foi a melhor coisa, a única coisa a fazer. A esse gesto os homens chamaram de morte, eu insisto em chamar-lhe renascimento. Precisei de regressar ao que sempre fui e serei, para novamente me afirmar Eva Nascente. Não sou de facto a mesma que se juntou a um grupo de músicos, por amor à aventura, por amor. Sou outra, porque noutra me tornei em resultado de todas as vivências e sentimentos. Outra, recomeçada sobre as cinzas de mim, porém a mesma, porém outra. As diferenças são fáceis de encontrar. Olho mas o meu modo de olhar é diferente, acredito, mas já não acredito no mesmo, ignoro muita coisa, mas já não posso ignorar de novo aquilo que passei a saber. No fundo, acho que é a isto que os homens chamam de “pecado original”.

E no entanto, algumas coisas parecem teimar em prevalecer. Como o meu amor por ele, que decidi não ignorar. Esse erro pertence-lhe a ele, não a mim. E é por isso que de vez em quando vou visitá-lo, sem que no entanto me deixe ver. Já não quero renegar o mundo a que pertenço em nome do amor que sinto. Mas permito-me ainda imaginar que o nosso reencontro poderá acontecer de novo, um dia. Quando for a vez dele renascer das cinzas, e puder acreditar que eu existo. Talvez aconteça em breve, vejo que também ele está a mudar. É com toda a ternura que às vezes me chego bem perto e lhe sussurro, meu amor, se me quiseres de volta, se me procurares, assim me terás. Estou perdida apenas para me deixar encontrar.

Próxima (e última) publicação: 25 de Maio

quinta-feira, maio 17, 2012

Eva Nascente. Um conto com banda sonora. #9



Homem, depoimento
O desaparecimento dela foi ainda mais insólito que o aparecimento. Não sei explicar para além do que vi acontecer, foi precisamente no último concerto da digressão. Da parte dela não houve um sinal, um olhar, um sorriso. Não houve nada, aliás, a partir de certa altura a Eva pareceu desistir de mim, e a mim pareceu-me que isso me agradava. Naquela noite como em tantas outras estava apenas concentrado no espectáculo, contente porque depois daquele concerto podia dissolver a banda e esquecer tudo. Cumprindo o alinhamento, fiz soar os acordes de um dos nossos maiores êxitos. Aquela canção já tinha alguma má fama, porque era tão potente, tão brutal, que quase sempre os maiores excessos do público aconteciam nesta fase da actuação. E assim foi novamente. Os seguranças entre o palco e as grades pareciam frágeis para a enorme massa humana que se agitava em frente a nós. Noutros concertos, por várias vezes tinha sentido medo enquanto tocávamos aquele tema, mas naquela noite o medo dissipou-se. Eva parecia maior do que era na realidade, parecia elevar-se sobre o público enquanto cantava, o seu domínio era total. Perto do final da música juro que os seus pés se ergueram do chão, os braços abertos como se abraçasse todo o público. Todos sentimos que alguma coisa estava para acontecer. Parámos de tocar mas ela continuou a cantar. E sem qualquer hesitação, Eva lançou-se em voo sobre a assistência, a minha Eva Nascente, como gostava de se denominar, mergulhou naquela confusão de pernas, braços e rostos, naquela enorme massa humana, disforme por conta das emoções, dos encantamentos, da música. Deixou-se cair bem no fundo de todos eles, para longe de mim, para não voltar mais. No meio do caos que se seguiu, enquanto polícias e membros da equipa lutavam desesperados para afastar o público do local onde ela tinha mergulhado, deixei-me ficar sozinho em cima do palco, ouvindo apenas o silêncio que naquela hora se abateu no fundo de mim. Calaram-se a cólera, a revolta, o orgulho, a incompreensão. Soube desde logo, com toda a segurança, que podiam passar o recinto a pente fino, jamais a encontrariam. Estava perdida para sempre, e eu estava sozinho.

Próxima publicação: 22 de Maio

terça-feira, maio 15, 2012

Eva Nascente. Um conto com banda sonora. #8



Eva Nascente, depoimento
A minha maior ilusão foi acreditar na existência de um lugar, um tempo, em que pudéssemos estar juntos. Por isso me mantive ao seu lado, esperando que todo aquele ressentimento e preconceito cedessem, mais tarde ou mais cedo, ao amor que ainda existia. Quem disse que não há magia no mundo dos humanos? Querem maior encantamento do que a esperança? Deixei-me dominar por esse encantamento, e ingenuamente comecei a tentar convencê-lo a partir comigo. Afinal, se eu me tornara um pouco mais humana, porque não poderia ele ser um pouco mais… mágico? Como desejei então ter todo o poder que os homens atribuem às fadas! Conseguir mudar, por força da magia e para o bem dos dois, o seu modo de pensar, agir, sentir. Mas depressa me desiludi. A todas as minhas propostas de começarmos do zero algures onde nós próprios fôssemos mais importantes do que as nossas diferenças, ele respondia-me com palavras amargas, cheias de escuridão. Ou então fazia pior, não me olhava de frente, oferecia-me o mais frio dos desprezos, gelava-me por dentro. Entendi que mais uma vez procurava sucesso numa missão impossível. Afinal, se ao longo de todo este caminho eu nunca pude modificar a minha própria essência, como poderia ser capaz de modificar a dele? Ele optou por duvidar da minha existência. A mim só me restou duvidar do seu amor. E dando esse amor por inexistente, já nada mais havia para mim no mundo dos homens. Tudo o que restou fui eu própria, ainda que perdida no meio de muitas ilusões. O cansaço tomou conta de mim e apenas uma ideia começou a orientar-me: regressar a casa.

Próxima publicação: 17 de Maio