quinta-feira, abril 26, 2012

Eva Nascente. Um conto com banda sonora. #4



Eva Nascente, depoimento
A verdade é uma coisa que não se sabe em que mundo habita, sabe-se apenas que ninguém é dono dela. Também eu não a possuo. A música que criámos foi o resultado de nós dois e feita com todo o amor que tínhamos um pelo outro. Na essência dessas músicas podemos encontrá-lo a ele com o seu imenso talento, e encontro-me eu com a minha magia. A essência de qualquer um de nós manifesta-se sempre, não há como evitá-lo, eu não sou excepção. Mas a nossa história é de excepção, e assim se tornou também a música que criámos. Como poderíamos saber, ele ou eu, o que viria depois? Quando começámos a compor juntos surgiu a música que nunca antes se tinha feito. É sempre assim com aquilo que decidimos fazer ou ser em cada momento, é impossível prever que mundo novo vai surgir. Criámos uma nova realidade que trouxe as suas consequências. O que aconteceu nos concertos é na verdade muito simples de explicar. A música soltou a magia que está na minha essência, que voou sobre as cabeças, inundou os espíritos. Era um encantamento, sim, mas não o será toda a música, independentemente de quem a faça nascer? E não podemos esquecer o amor que nos unia. Estávamos de tal modo encantados um pelo outro que cada actuação em palco era o equivalente ao sexo que marcava os nossos momentos de intimidade. A nossa música reflectiu também aquilo em que nos tornámos quando nos perdermos de amor um pelo outro. Dir-se-ia então que um encantamento como este só poderia despertar o bem, nunca o mal, e no entanto vimos pessoas a reagirem de formas muito más… Pois bem, assim como se diz que cada cabeça a sua sentença, eu passei a acreditar que também é assim com a magia. O mesmo encantamento não resulta igual em duas pessoas. Depende do que encontra quando lá chega, o encantamento, à pessoa. Não há bons ou maus encantamentos, magia branca ou magia negra. A magia que chegou a cada um fez o efeito conforme a essência dos corações. Para uns despertou a alegria, para outros a amizade, o amor, a libido, e para outros ainda, o ódio, a violência, a inveja, a tristeza. O que faz a diferença não é a magia, é a essência de cada um. Não fosse eu a Eva que sou, não fosse ele o homem que é, esta história não teria existido, mas outra.

Próxima publicação: 3 de Maio

quinta-feira, abril 19, 2012

Eva Nascente. Um conto com banda sonora. #3



Homem, depoimento
A banda ganhava cada vez mais sucesso. Embora as músicas fossem as mesmas de sempre, a voz da Eva dava-lhes uma nova alma. Bem sei que qualquer um que suba a um palco passa por uma transformação. Deixamos de ser nós próprios, vestimos um personagem, brilhamos como deuses vindos de outro mundo. Um brilho que na verdade não é mais do que o olhar dos comuns mortais que nos cercam, e assim nos consideram seres de outro mundo. À nossa dimensão também já tínhamos essa experiência. Mas mesmo assim, desde logo percebemos que com a Eva passava-se algo de diferente. O que era estranho e fascinante ao mesmo tempo, é que também nós, em cima do palco, acabávamos reduzidos ao mesmo olhar de admiração do nosso público. Parece um lugar comum dizer que os olhos dela brilhavam, que o cabelo dela esvoaçava, que às vezes parecia levitar. São comentários possíveis de fazer sobre qualquer cantor em qualquer concerto. Mas ela era… simplesmente deslumbrante. Rapidamente se tornou num fenómeno de popularidade. Os concertos tinham cada vez mais gente, uma legião de fãs fascinados, dirão uns, apaixonados, dirão outros, hipnotizados, embruxados…

Mas as coisas verdadeiramente estranhas, só começaram a acontecer depois de eu e ela compormos em conjunto. Por essa altura a banda já estava com muito sucesso. Regravámos o primeiro disco com a voz dela e duplicámos as vendas em relação à primeira edição. Logo de seguida gravámos outro álbum com novos temas, e no mesmo ritmo frenético saímos em digressão para o promover. Logo nos primeiros concertos, ao som destas novas músicas, vimos coisas que nunca imaginaríamos. Acontecia de tudo. Algumas pessoas ficavam imensamente felizes, vinham agradecer-nos no final dos concertos como se fôssemos todos velhos amigos, de tempos imemoriais. Espectadores abraçavam-se entre si, e sei que em muitos casos se lançaram as sementes para grandes e sólidas amizades, até mesmo amores para a vida toda. Outros ainda lançavam-se em práticas sexuais desenfreadas, aliás, os primeiros problemas com a polícia foram justamente por causa das orgias que aconteciam nos recintos dos espectáculos. Mas aconteceram outras coisas que poucos conhecem. Uma delas é que ainda hoje continuo a receber correspondência de pessoas que juram, pela própria vida, ter visto Deus a assistir aos concertos. E a ser verdade o que afirmam, também Jesus Cristo, o Buda, a Virgem Maria, o profeta Maomé, e mesmo Jim Morrison terão vindo de propósito para nos ver e ouvir...

Havia depois a outra face desta moeda, havia os outros. Que incendiavam os cabelos do vizinho da frente. Que se lançavam à pancada sem qualquer motivo. Que choravam e desesperavam, que tentavam o suicídio. O assassínio. Meia hora de concerto era o suficiente para ver surgir entre a assistência, de forma descontrolada, o espectáculo de todas as emoções humanas, das melhores às piores. Era o caos. Os relatos das primeiras mortes foram para mim o fim do estado de graça. Foi nessa altura que comecei a ver para além da paixão, que tinha tomado conta de mim a ponto de pensar que não precisava de mais nada na vida. O que se passava de tão diferente nos nossos concertos? Era apenas música, porque é que sucediam tantas coisas estranhas? A estas perguntas seguiu-se outra, sorrateira, uma pergunta que já se impunha desde o primeiro dia: quem era Eva, de onde tinha vindo?

Próxima publicação: 26 de Abril

quinta-feira, abril 12, 2012

Eva Nascente. Um conto com banda sonora. #2



Homem, depoimento
O que se passou a seguir é muito fácil de descrever: não houve tempos mais felizes. Quando evoco essa época sinto um torpor de contentamento que ainda hoje me sustenta. A Eva entrou nas nossas vidas, na nossa banda, na minha cama, no meu coração. Cantava tão bem, foi apenas natural colocá-la como vocalista. As nossas canções ganharam outra alma, o público adorava-a. Todos a adorávamos. Era como se qualquer pessoa que a conhecesse ficasse irremediavelmente apaixonada por ela.

Eva Nascente, depoimento
Jamais imaginei que fosse assim. Vivi aqueles primeiros tempos com a sofreguidão de um recém-nascido. E no fundo foi isso mesmo que me aconteceu, eu que nunca nasci e jamais morrerei, pude com a minha decisão de me juntar aos homens ter essa experiência, a do nascimento. Foi por isso que atribuí a mim própria um novo nome: se antes era Eva sem ter nascido, depois de nascer tornei-me Eva Nascente. Eva Nascida? É claro que não. Eu, assim como todos os homens, depois de nascer uma vez nunca mais deixei de o fazer. Nascente, como a nascente dos rios, porque uma das coisas que descobri é que, a cada nova experiência vivida, nascemos daquilo que somos para ser aquilo em que nos tornamos.

Nesta minha condição pude experimentar sentimentos até então desconhecidos. A paixão. A alegria. O desejo. O amor. A angústia. A decepção. A lucidez. Quis e acreditei que eu também podia pertencer à espécie humana. Andava tão encantada nesta minha nova vida, que me parecia ser nada o que antes eu era. Olhava para o meu passado e parecia-me ter antes vivido num mundo de sonho, um sonho do qual tinha agora despertado, regressando finalmente à vida real. Olhava para o meu amor e via nele a razão de ser de tudo, o grande responsável por trazer à luz do dia tudo o que em mim se encontrava adormecido. Foi por isso coisa natural querer ajudá-lo no que pudesse fazê-lo feliz. Os homens não vêem bem certas coisas, nem mesmo usando óculos, mas eu entendi muito bem que quando ele sobe ao palco, a sua essência surge em todo o seu esplendor. Tocar e cantar, receber a admiração, os aplausos e a alegria de quem o ouve, em conjunto com os seus companheiros, eis como se consuma a sua existência. Quis ajudá-los neste processo de tornar essência em existência, contribuir para aquilo que o torna tão feliz. E convenci-me de que também eu tinha encontrado a felicidade eterna, acreditei sinceramente que era humana. Só que, no meu desejo de concretizar a essência dele, esqueci-me da minha, e humana não sou. Foi esse o meu erro. Não me arrependo de nada, mas reconheço que de todos os sentimentos humanos que pude experimentar, nem todos consegui suportar. Só mesmo um ser humano para ser esmagado pela dor, sofrimento, ódio, e mesmo assim, continuar vivo.

Próxima publicação: 19 de Abril

quinta-feira, abril 05, 2012

Eva Nascente. Um conto com banda sonora. #1




Homem, depoimento
Entrámos por aquela estrada porque pensámos em cortar caminho e ganhar tempo. Não esperávamos que mais à frente ela quase desaparecesse, ficando pouco mais do que um carreiro no meio da vegetação. Muito rapidamente ficámos perdidos, e uma floresta que nunca antes tínhamos notado, praticamente decidiu engolir-nos. Como um azar nunca vem só, a gasolina faltou e nesse dia não conseguimos chegar a tempo de fazer o concerto. Enquanto um de nós, já não me lembro qual, foi à procura de um posto de combustível, ficaram os outros a tomar conta dos instrumentos. Nessa altura ainda era pouca coisa mas era tudo nosso. Agora que penso nisso não era bem assim, a bateria ainda não estava toda paga. Na verdade, tínhamos mais inspiração do que dinheiro. Mesmo assim já tínhamos gravado um disco, tocávamos todos os fins-de-semana, e embora muitos olhares objectivos nos dissessem o quanto este projecto era inviável, tínhamos empenhado o nosso dinheiro, o nosso tempo, toda a nossa alma para viver apenas da música que criássemos. Sentíamo-nos autênticas estrelas. Não interessa se éramos os únicos a achar isso, andávamos felizes assim.

Mas nada disto nos poupou a ficar horas e horas à espera da gasolina. Para passar o tempo resolvi tocar guitarra. E foi logo de seguida que a Eva apareceu. Ela própria afirmou que tinha vindo atraída pela música, quanto a nós, acho que ficámos desde logo atraídos por ela. Eu especialmente. Sentou-se ao pé de mim e começou a cantar. Todos sabem hoje em dia a voz maravilhosa que ela tem, ou pelo menos deveriam fazer um esforço por se recordarem. Mas aqueles primeiros instantes foram especiais, porque ela cantou só para nós. Parecia que até o ar se tinha aquietado para que ela se pudesse ouvir melhor, foi um momento… mágico. Quando o nosso companheiro voltou com a gasolina e pudemos seguir viagem, ela acompanhou-nos com a mesma naturalidade com que tinha surgido dos arbustos. É um pouco bizarro contado assim, mas de facto nunca ocorreu, a nenhum de nós, perguntar-lhe de onde vinha, o que fazia, o que pretendia. Embruxados? Enfeitiçados? A isso não sei responder. A quem interessar saber como começou, aqui está a realidade, tal qual aconteceu.


Eva Nascente, depoimento
A explicação é muito simples, quis saber como era do outro lado. A vontade de conhecer outros mundos não pertence só aos homens. Este mundo que é o meu já não tinha segredos para mim, o mundo dos homens tinha tudo por desvendar. Acusam-me de os ter atraído para mim mas isso não é verdade. Foi ele, com a música que tocava, que me retirou desde logo todas as forças para resistir. A primeira a ser enfeitiçada fui eu. Sempre me ensinaram que a minha espécie e a dos homens não pode co-existir, que vivemos em dois mundos opostos, mas ao som da música parece-me claro que existe pelo menos esse ponto em comum. Foi por isso que comecei a cantar. Depois… Eles eram uma espécie de ponte que me podia levar sem suspeitas para um mundo cheio de coisas para explorar. Tinha sede de aprender, ainda tenho. E no fundo foi só permitir que algum encantamento lhes entorpecesse o espírito, os deixasse predispostos a levar-me com eles. Mas também eu já os acompanhava meio entorpecida, também eu parti sob encantamento.

O mundo dos homens tornou-se ainda mais fascinante por causa daquele homem em particular, é um facto que não pretendo negar. Por causa disso mesmo, e apesar das adversidades, fui duplamente abençoada. Naquele dia abriram-se-me as portas de dois mundos: uma para o mundo dos homens que tanto queria conhecer; outra para uma forma de emoção que até então jamais sentira. Nunca foi minha intenção provocar qualquer mal. E em minha defesa o afirmo, foi sobre mim que se abateu o maior dos sofrimentos.

Próxima publicação: 12 de Abril

segunda-feira, abril 02, 2012

Eva Nascente. Um conto com banda sonora #Prólogo

Primeiro aviso à navegação: Resolvidas que estão as questões da propriedade intelectual deste sítio, irei nos próximos tempos publicar alguns contos, na gaveta desde 2005-2006, período em que praticamente todos foram escritos ou finalizados. Chamo-lhes contos porque em termos formais é com isso que se parecem. Já a pensar em publicá-los aqui, obriguei-me recentemente a relê-los e a conclusão a que chego não é muito diferente daquela a que cheguei em outros momentos. São o que são, nem especialmente brilhantes nem especialmente maus, mas são meus. E já que nunca foram impressos em papel, pois que chegue enfim a sua hora de serem apresentados aqui, para leitura daqueles que para isso tiverem disponibilidade, interesse e paciência.

Segundo aviso à navegação: Não percebo nada de música. Nada mesmo. A música de que gosto é sempre porque sim, estou completamente à margem de gostos mais requintados e elitistas em matéria musical. A música clássica aborrece-me (excepto as quatro estações do Vivaldi e o requiem do Mozart. Porquê? Não sei. Porque sim). O jazz para mim é pior ainda, acciona um botão que deve existir algures num dos meus lobos temporais e que me desliga o cérebro, deixando-me a navegar em pensamentos que variam entre a roupa que está para passar a ferro, a necessidade de aproveitar a hora de almoço do dia seguinte para ir à depilação e, quando muito, uma concentração obssessiva pelos riscos que estão no soalho/parede/tecto ou outro sítio qualquer para onde esteja a lançar o meu olhar bovino. Dito isto, a verdade é que gosto de ouvir música e que me estou a borrifar se a dita é comercial ou não é. E portanto, não percebendo nada de música mas gostando de a ouvir e de a cantar, sou uma ouvinte inconstante e incoerente, que tanto gosta de pop como de rock, ou de música portuguesa (desde que não seja o André Sardet, pelamordedeus) e por aí fora. Gosto no fundo de qualquer coisa que calhe a tocar-me no coração, sem grandes preocupações de erudição e quem sabe, ande por aí a música jazz que consiga entrar sem desligar o botão. Ouviremos.

Adiante. Pode não parecer mas do que eu quero mesmo falar é de literatura. No meio disto tudo, a dado momento dei comigo a gostar muito de ouvir o álbum "Fallen", dos Evanescence e a descortinar no meio daquelas canções - e também dos videoclips, com uma imagem muito própria - uma história para se contar. O conto que construí a partir daquelas músicas é o que irei começar a publicar aqui durante esta semana e que será postado em 11 partes, tantas quantas as canções que integram o "Fallen". A cada parte corresponderá uma música do dito álbum. (E sim, eu sei que o José Luís Peixoto já fez uma coisa semelhante ou igual com os Moonspell. Não é o mesmo, nem pretende ser).

Último aviso à navegação: Depois de ter escrito este conto nunca mais ouvi os Evanescence, desconheço o que é que tocam hoje em dia e nem sabia que ainda existiam como banda, até esta notícia de que vinham ao Rock in Rio em Maio (já tinha avisado, eu no que toca à música, não tenho espinha dorsal).

De maneiras que é isto. Depois desta conversa toda era só para dizer que "Eva Nascente. Um conto com banda sonora" vai começar a ser postado na próxima 5.ª Feira, 5 de Abril, e terminá a 25 de Maio, data em que os Evanescence sobem ao palco do Rock in Rio.

segunda-feira, março 12, 2012

Cais 14

Cais 14 é o nome do cais da vila de Alhandra. Foi também o título de um espectáculo que aconteceu este fim-de-semana naquela localidade, um projecto de teatro comunitário construído de raiz por quem nele participou. 111 pessoas, dos muito jovens aos muito idosos, numa onda positiva de vontades que todas juntas reavivaram memórias e identidades, histórias e personagens do imaginário de todos quantos ali têm levado as suas vidas, virados para o rio Tejo.

Os textos, tal como tudo o resto, foram construídos colectivamente. "Cada um de nós é um rio. Cada um de nós é um cais.", foi um pedaço que integrou um dos momentos do espectáculo, uma ideia que desenvolvi a partir da célebre citação de Brecht: "Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem."

Embora todo o texto seja talvez mais compreensível para quem esteve envolvido no projecto e conheça a terra, ainda assim deixo-o aqui na sua versão integral, mais que não seja porque, na sua conclusão final, podemos enquadrar a vida de qualquer um de nós:

CAIS 14

"Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem."

O Cais 14, em Alhandra, é a margem que comprime o Tejo e o empurra para o seu destino. Vivem assim enlaçados, o rio e o Cais, como se de um namoro se tratasse.
Este namoro entre o rio que tudo arrasta e o Cais que o comprime construiu a vida de muitas pessoas ao longo dos tempos.

À beira deste Cais construíram-se as vidas de agricultores e pescadores, atletas e escritores, músicos, operários, homens que nunca foram meninos, mulheres que sempre tiveram força.

Todos aqui vieram em algum momento. Entraram nos barcos e lançaram as redes ao rio. Nadaram para vencer o medo, para vencer o frio, para vencer o rio. Vieram ao nascer do sol para lavar a roupa, chegaram ao fim do dia para chorar a dureza da vida. Vieram durante a noite para conversar, conspirar, rir, cantar e dançar, dormir. Amar.

A partir do Cais 14, os homens e as mulheres buscaram no rio o seu sustento, mas também a sua inspiração. Para isso invocavam as Tágides, que dizem ser as ninfas do Tejo. O alento dos mortais sempre pareceu mais fácil com a ajuda da divindade. E por isso elas existem, e são belas, e também elas gostam de se sentar no Cais 14 a contemplar o rio.

Mas de onde vem, afinal, a inspiração? De onde vem o talento? De onde vem o alento para levantar todos os dias e trabalhar, construir a própria vida? Será que vem do rio, será que vem das ninfas? 
Na verdade, tudo o que se constrói nasce da vontade dos homens e das mulheres. São essas vontades que ditam o que chega ao Cais e o que abandona o Cais. Foram essas vontades que construíram, junto ao rio, a casa da Música, do Teatro, do Desporto, da História.

E o que existe mais, para além das vontades? Existe o riso. A esperança. A perseverança. A solidariedade. A dança. O olhar. O beijo. De tudo isto se fazem as vidas que chegam e partem do Cais 14.
Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as vidas que em torno dele se constroem.

Cada um de nós é um rio.

Cada um de nós é um Cais.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

sábado, fevereiro 18, 2012

Coisas que me acontecem

Peço muita desculpa pelo atraso, disse ela chegando um pouco ofegante, tive que ir ali comprar um relógio e perdi a noção do tempo...

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Que é feito, meu deus, do amar-te assim perdidamente?...

Ora bem. Deixai-me dizer antes de mais nada que vou escrever este post com o coração a sangrar. Quase o mesmo como se viesse para aqui escrever, ah e tal, o Saramago afinal não presta. Que eu adoro estes senhores, meus senhores. Amo os Trovante, amo o que esta gente fez pela música portuguesa, enfim, apreciei mais ou menos algumas opções musicais das suas carreiras a solo, alguns trabalhos de cada um deles nem sempre me agradaram por aí além, mas sempre com respeitinho, porque a gente pode não se identificar com as coisas, mas ainda assim reconhecer que elas são boas na mesma.



Agora, isto? Que raio de canção é esta? "Gosto de ti | quando és razoável | gosto de ti | volátil e maleável | E só assim | é viável | fazer um sisudo amável".

Repito, é com o coração a sangrar que afirmo que isto é das canções mais cretinas que tenho ouvido nos últimos tempos. A sério, para mim está quase ao nível das canções do André Sardet, criatura cuja... ehr... hum... enfim... música, consegue ter em mim o efeito de me transformar numa potencial assasina em série, porque tudo o que me apetece quando oiço aquilo é encontrar uma G3 e desatar a fuzilar pessoas.

Isto é suposto ser uma canção de amor? Só se for de um amor molancho e desenxaibido, sem tesão, desinteressado e desinteressante. "Gosto de ti quando és razoável"?! Razoável?!!!... Ah e tal, e eu gosto é que sejas volátil e maleável, não fazeres muitas ondas e não me maçares muito, assim sossegadinha é que me agradas, nada de maluqueiras, deixa-me lá ler o jornal descansado e está quieta com as mãos.

Se fores bem comportadinha, será viável na nossa relação amorosa que eu tenha a complacência de sair do meu estado de sisudez e tornar-me num sisudo amável... Só para ti, minha querida. A sério. Isto mais parece uma carta comercial. Só falta acrescentar, com os melhores cumprimentos, o chefe do conselho de administração da empresa... Que desgosto, meu deus.

Tudo bem, a gente cresce. Os amores não são sempre um estado inflamado de paixão e o estado inflamado de paixão pode nem vir a ser o melhor dos amores. Também já não me estou a ver a andar de carro por caminhos de terra batida no meio da noite escura, ou pior ainda, em plena luz do dia, e a ser muito pouco razoável ou volátil, embora em muitos momentos tivesse que ser maleável, sobretudo porque os bancos não rabatiam por completo o que era uma chatice... Onde é que eu ia? Ah! Exacto, no fundo, o que eu queria dizer é que as coisas têm o seu tempo (o que foi não volta a ser, e tal...), que o amor tem muitas dimensões e que pode ser autêntico e intenso em muitas diferentes vivências. Claro que sim, está tudo compreendido e vivido, aliás.

Mas porra, há limites. Amável? Viável? Ra-zo-á-vel? E uma gaja dar-se a este trabalho todo para quê? Para ter como único retorno um sisudo amável? Oh meus amigos, tenham paciência. Vão ser sisudos e amáveis para o raio que vos parta. Apaixonem-se a sério ou apanhem um desgosto amoroso de caixão à cova a ver se sai alguma canção mais interessante. Eu acredito em vocês, cá estarei para vos aplaudir.

No entretanto, vou ali ver mais um video do Tiago Bettencourt ao youtube e ter algumas fantasias eróticas muito pouco razoáveis, que o homem até a cantar canções do Tony de Matos me consegue tirar do sério.

Life is a cabaret, old champ

Dizia ontem a encenadora, no decorrer do ensaio: não se preocupem em experimentar, é para isso que cá estamos, isto é como na vida, temos que ir tentando até acertar. Por isso é que mulher NENHUMA deve ficar com o primeiro homem que lhe aparece, deve namorar, diversificar, conhecer...

Nunca tinha pensado nisto assim, mas realmente, quase a tornar-me numa mulher de meia-idade, constato o óbvio pelas sábias palavras daquela pessoa.

Não é que eu seja uma solteirona.

Sou é uma pessoa rigorosa e como tal, ando numa fase prolongada de investigação e de pesquisa!... ;-)

domingo, janeiro 08, 2012

Ando com vontade de fazer um bolo

Não é fácil dar a perceber as dimensões épicas disto, mas vou tentar. Vivo na minha própria casa há 11 anos e tenho uma forma para bolos que foi usada uma única vez. Get the picture? Ok, continuemos então.

Primeiro, quando comecei a sentir esta vontade de fazer o bolo, fiz o mesmo que faço sempre que isto me acontece. Fiquei quieta à espera que passasse. Que é a coisa mais sensata a fazer, tendo em conta o meu historial catastrófico na cozinha, tal como já tive oportunidade de explicar.

Não passando, comecei a comprar os ingredientes. Hoje queria mesmo fazer o bolo. Ficou a faltar-me um ingrediente simples, cerejas cristalizadas, onde é que já se viu isto, não arranjei em lado nenhum.

Se calhar a culpa é do Natal e dos bolos-rei, instalou-se a crise no fornecimento de cerejas cristalizadas.

Ou então, num instinto de sobrevivência, todo o universo conspira para me manter afastada da cozinha.

sábado, janeiro 07, 2012

A verdade que ninguém ousa dizer sobre as árvores de natal

... É que são umas vira-casacas. E os enfeites de natal mais as luzes, também. Ah, pois é.

Senão, reparai: no momento de fazer a árvore de natal, os enfeites surgem brilhantes, encantadores, de dentro dos sacos onde estavam guardados. Cada coisa que se coloca na árvore é uma descoberta, uma dose extra de cor e magia a enfeitar-nos a sala, uma beleza.

Vejam depois o que acontece quando chega a hora de a desmanchar. Todos estes objectos se transformam em coisas agressivas e desagradáveis. Picam-nos os dedos, dão comichão, largam pó e coisinhas pelo chão que não se conseguem aspirar. As fitas estão emaranhadas em volta da árvore como se se recusassem terminantemente a largá-la. As luzes embrulham-se umas nas outras de forma absurda, a árvore não se consegue desmontar e depois de desmontada, já não cabe na caixa onde vinha.

Já está tudo devidamente encafuado, perdão, arrumado, até ao próximo natal. Os objectos estão agora encasulados até Dezembro, data em que voltarão a sugir enganosamente sedutores e fascinantes, escondendo este seu lado sombrio, de objectos inconformados com o facto de só terem um mês por ano para darem nas vistas.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Lasik ou não, eis a questão

Definitivamente, tenho para mim que todos os técnicos de saúde deste mundo são sádicos. Ou grandes taradões. Ou as duas coisas. Especialmente os que estejam envolvidos em práticas cirúrgicas, de um modo geral.

E também tenho muitas dúvidas, em relação àqueles aparelhómetros em que eles espreitam para os olhos das pessoas, até onde é que aquilo permite ver coisas.

É que deviam ouvir o tom entusiasmado / lascivo com que o gajo hoje dizia, olhando para as imagens no computador: "a pupila é muita boa"!...

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Desejos para 2012?

Que não continue vivo aquilo que já estiver morto. Que não morra aquilo que tanta falta faz à vida. Que não falte a capacidade para lidar com a dor dos desejos concretizados. Que não falte a coragem para reconstruir a dura realidade dos dias.

terça-feira, novembro 29, 2011

Zézé Camarinha, volta que estás perdoado

Pois que estou por aqui a puxar pela cabeça, e não me ocorre nenhuma tradução possível para Inglês, da nossa portuguesa expressão "vou andando". Então como é que estás, e tal, e a malta responde, "vou andando", mas se quisermos responder isto em Inglês, não sei realmente como fazê-lo.

Já a malta que domina mal o Inglês não tem problema destes. À cortez pergunta "how are you?", responderão prontamente, "I'm coming".

Pergunto-me o que terá ficado a pensar o interlocutor, face à resposta dada. É que, das duas uma, ou está a chegar, ou está-se a vir!... :-)

terça-feira, novembro 22, 2011

Da solidão e outros demónios

Perguntaram-lhe uma vez, se sentia raiva. Disse que não, que não tinha raiva. Tinha pragmatismo. E algum cinismo, também. A vida é o que é, e muitas vezes é uma merda, foi a brilhante conclusão a que chegou depois de ler todos os livros de auto-ajuda do mundo. Deitou-os fora logo a seguir, juntamente com a Bíblia, o Amor de Perdição, o Kama Sutra, a Crítica da Razão Pura e o Plano Oficial de Contabilidade. Guardou só os livros do Fernando Pessoa, que diziam que toda a metafísica do mundo estava na confeitaria, que vivem em nós inúmeros, que o único sentido oculto das coisas é elas não terem sentido oculto nenhum, e que nada mais restava do que ser eu mesma, que remédio.

Depois perguntaram-lhe, nesse caso, sem psicologia, nem deus, nem amor, nem sexo, sem filosofia e sem organização, como sobrevives. Ela respondeu que quando está fraca, come chocolates, toma ansiolíticos, engorda e tenta convencer-se de que está tudo bem. E quando ganhas forças. Nessa altura, respondeu, as frustações substituem-se por muitas horas de ginásio, livros que ensinem a pensar, activismo social, e no tempo que reste, contemplação das coisas bonitas do mundo, que em regra nada nos devem nem nós a elas, e por isso tudo é perfeito. Vais ver o mar, perguntaram, e ela disse, vou ver o mar.

Disseram-lhe, mas ninguém pode ser feliz com tanta solidão. Ela disse, não me venhas falar em solidão. Que sabes tu sobre a solidão? Deixa-me a mim dizer-te o que é isso. Solidão não é não ter ninguém com quem falar. É engolir as próprias angústias e auto censurar-se, ficar calada para não o aborrecer mais, coitado, já tem tantos problemas a atormentá-lo. É enganar-se e inventar desculpas, porque ele nem reparou que estava cansada, que estava triste, que estava bem disposta, que tinha ido arranjar o cabelo. Solidão não é estar sozinha. É estar acompanhada mas não ter companhia para o pequeno almoço, é pedir por favor, que ao menos hoje não te aborreças com o senhor do restaurante, porque faço anos e quero jantar em paz.

Celibato? Onde te convenceram que o celibato é solidão? Ficar a um canto com a vida entre parêntesis, e ver ao longe o homem que se ama a passar, na companhia da mulher que ele escolheu, isso sim, é solidão.

Então e no meio de tudo isso, a felicidade, achas que existe? Tenho a certeza que sim. Em alguns momentos, já nos temos encontrado.

Mas não sorriu quando respondeu.

segunda-feira, outubro 31, 2011

sábado, outubro 22, 2011

segunda-feira, outubro 10, 2011

Reclama as tuas infoexclusões porque elas pertencem-te #3

O que raio é #FF no Twitter!!!???... Hein?!... Devo ficar contente ou responder "VAI TU!!..."??

Reclama as tuas infoexclusões porque elas pertencem-te #2

Quero criar uma corrente no Facebook. Vai-se chamar "se receber mais outra corrente no Facebook vou-me tornar numa potencial assassina de criancinhas". Como é que se faz?

E já agora, alguém que me explique...

... porque carga d'água é que Steve Jobs parece ser o novo Jesus Cristo?...

(Eu disse que hoje estou em dia não, no que às tecnologias diz respeito. Cinco horas depois, ainda não me passou.)

Reclama as tuas infoexclusões porque elas pertencem-te

Agendas electrónicas não são para mim. Em papel é que é bom. Tivesse eu a minha agendazinha comigo no dia em que, de férias e em casa, liguei a marcar uma consulta de oftalmologia, e não teria acabado por faltar à dita.

Desde Agosto à procura, na agenda do telefone, da data, meu deus, da data da consulta, que eu ia jurar que tinha escrito ali no telemóvel, mas onde, mas onde. É em Outubro mas quando, meu deus, mas quando.

Era hoje. Disse o sofisticado BlackBerry, fazendo emergir do vale dos mortos a informação perdida e tantas vezes procurada, quando faltavam apenas 15 MINUTOS e cerca de 30 QUILÓMETROS para a dita cuja.

Hoje estou muito agastada com as tecnologias em geral e com as agendas telefónicas em particular.

sexta-feira, setembro 30, 2011

Sinto

A roda do destino em movimento. No entretanto, a vida segue o seu ritmo normal, mas por baixo do ruído do dia-a-dia, oiço o ranger da engrenagem e sinto o chão a tremer debaixo dos pés.

terça-feira, setembro 13, 2011

Porque isto é mesmo muito bonito

há sempre um sítio pra fugir,
se queres saber um sítio onde podes descansar.
há sempre alguém pra te agarrar, pra te esconder.
se vais cair eu vou-te ver antes da dança, antes da fuga, eu sei-te ver.
antes do tempo te mudar eu vou saber, antes da névoa te vestir e te levar,
há um sítio onde o escuro não chegou pra onde podes ir, um rio pra libertar.

há sempre alguém pra te salvar, se queres saber, se queres sentir a todo o gás.
há sempre alguém pra te dizer se vais cair pra te travar e adormecer.
antes do dia, antes da luta, eu sei-te ver.
antes da noite te sarar eu vou saber, antes da chuva te romper e te lavar,
há um sítio onde a estrada te deixou por onde tens que ir se te queres libertar.

e tudo o que for por bem, tudo o que der razão pelo ponto vai ligar.
tudo te vai unir, tudo se faz canção, no caminho de voltar, no caminho de voltar.

há sempre paz noutro lugar, entre nuvens,
um sítio onde podes perceber que há sempre alguém para te ver,
em segredo, te descobrir e renovar, e renovar.
te descobrir e renovar.
te descobrir e renovar.
te descobrir e renovar

Tiago Bettencourt, "Caminho de Voltar"

quinta-feira, setembro 08, 2011

By location

De vez em quando lá vou espreitar no site meter os visitantes que aqui chegam, ao que vêm e vindos de onde. Já me habituei às muitas visitas do Brasil, esporadicamente lá surgem visitantes de outros países por este mundo fora.

Confesso no entanto que dois locais em particular andam a intrigar-me. Vai por isso daqui o desafio para que se manifestem os meus leitores assíduos provenientes de Moutain View na California, e do mais que improvável Kuwait!

E sejam bem-vind@s, é claro! :-)

quarta-feira, setembro 07, 2011

Igualdade "my ass"

Conheço uma pessoa que costuma dizer uma coisa muito pertinente: as mulheres fazem tudo o que os homens fazem, e ainda por cima de saltos altos!
Eu acrescento: e às vezes, em cima disso tudo, estamos também menstruadas...

terça-feira, agosto 30, 2011

quarta-feira, agosto 24, 2011

Os Pilares da Terra


Toda uma nova forma de olhar para os homens das obras.

(a série também é muito boa, by the way)

domingo, agosto 14, 2011

A teoria do alçapão

É uma teoria que eu já tenho há algum tempo, e que sempre fica reforçada nesta altura do ano, em que as televisões generalistas se desdobram em programas em directo do género "Verão Total", e outros cujo nome felizmente não retenho. Também sai reforçada pelo facto de ter passado as últimas semanas de férias, logo com mais disponibilidade para estar em frente à televisão, e de vez em quando lá me distraio e sintonizo demasiado cedo (antes dos telejornais da hora de almoço) estes maravilhosos canais.

Neste programas das manhãs e das tardes proliferam actuações de pessoas denominadas de "artistas", e todos cumprem mais ou menos o mesmo padrão: as músicas passam em play-back. Os homens suam dos sovacos à bruta e têm ar de ter saído de trás da banca da feira onde vendem cassetes-pirata, directamente para a frente da câmara da televisão. Muitos deles precisam de arranjar os dentes. As mulheres vestem coisas demasiado justas e curtas, repletas de cores vivas e lantejoulas, usam demasiada maquilhagem e parecem ter saído directamente, não da banca da venda de música, mas talvez da esquina mais próxima. A música que ecoa tem sempre uma base de ter-lin-tin-tin constante, e os "performers" saltitam furiosamente de um lado para o outro, com um grupo de duas ou três bailarinas atrás.

Olho para aquilo como quem abranda o carro para ver um desastre e sempre me surgem os mesmos três pensamentos. O primeiro é, que horror. O segundo, mas quem são estas pessoas? E por fim, de onde é que vêm e para onde é que voltam quando terminam a sua actuação saltitante?

Sim, quem são estas pessoas? Onde é que os canais de televisão os desencantam nesta altura do ano, porque embora sejam todos mais ou menos iguais, a verdade é que existem numa quantidade absurda, em diferentes feitios, tamanhos e cores. É aí que surge a minha teoria do alçapão dos cantores pimba.

Tomai atenção, porque este pode muito bem ser o segredo mais bem guardado de sempre das televisões generalistas. Existe um alçapão, a porta de entrada para um buraco bem fundo debaixo do chão. É lá que estão enterrados todos os cantores pimba deste país. RTP, SIC e TVI partilham este segredo e só existem 3 chaves para o alçapão, presas ao pescoço do Jorge Gabriel, da Júlia Pinheiro e do Manuel Luís Goucha. Os cantores pimba na verdade não são pessoas, são bonecos de corda. Antes de cada programa em directo, eles abrem o alçapão, tiram cá para fora aqueles de que necessitam, tiram-lhes o pó, dão-lhes corda e eles vão a saltitar directamente para a frente das câmaras. Fazem lá aquela cena que eles fazem e logo que termina, voltam a empurrá-los para o buraco. Por isso é que depois já ninguém mais os vê ou ouve falar deles.

É disto que se alimentam as televisões generalistas, meus amigos. Bonecos de corda escondidos em buracos. Só que isto nem sempre corre bem. Já houve casos de alguns que fugiram numa das vezes em que os deixaram sair. Fazem concertos regulares, atraem multidões e enchem pavilhões. Aprenderam a dar corda a eles próprios e agora já ninguém os consegue agarrar.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Candida Albicans, epílogo

Já se passaram quase cinco anos sobre este post. Na altura, escrevia com o peso de um problema que parecia não ter solução à vista, quando tudo o que queria era poder descrever de que maneira ele tinha ficado resolvido. A conversa com um amigo fez-me hoje reflectir que ainda nunca escrevi este epílogo, e sobretudo numa fase em que os epílogos parecem avolumar-se na minha vida, aqui fica registado mais um, na forma de um resumo do que passei durante mais de um ano em que vivi com uma inflamação vaginal por candida albicans.

Devo dizer, aliás, que este blog acabou por se tornar (sem que fizesse mais por isso do que o conjunto de posts relativos ao assunto) num ponto de referência, ponto de encontro, muro de lamentações, eu sei lá, para muitas centenas de mulheres desesperadas e angustiadas com um problema de saúde que é de facto desesperante e angustiante, e que estranhamente parece continuar a ser pouco valorizado. Essas mulheres que aqui vêm também já mereciam este post, até porque muitas delas têm-me contactado por email ou através dos comentários no blogue, pedindo ajuda, informações, ou apenas alguma forma de apoio moral. A muitas tenho respondido, à medida do que também me vai sendo possível. No conjunto de posts sob o marcador "candida albicans" registo, à data de hoje, 1095 comentários. Mil-e-noventa-e-cinco.

A minha infecção por candida albicans surgiu em Janeiro de 2006 e durou até Março de 2007. Hoje em dia está ultrapassada, mas infelizmente a medicina convencional não chegou para resolver o problema. Costumo dizer que passei das drogas leves (gino-canesten, gino-pevaryl) às drogas duras
(fluconazol) no que aos tratamentos possíveis para a candida dizem respeito e, ao fim de um tempo, tinha a sensação de que quanto mais medicamento tomava ou aplicava, pior me sentia.

Na verdade, tudo começou por ser uma infecção mista (bactéria e fungo), o que só piorou as coisas. Piorou porque para se tratar uma coisa foi inevitável piorar a outra. Ou seja, para matar a bactéria com antibióticos tive que enfraquecer (ainda mais) o sistema imunitário, o que fortaleceu a candida. A candida é um fungo, não é tratável com antibióticos. Ela habita no nosso organismo naturalmente. Se o nosso sistema imunitário estiver a funcionar bem, mantém a cândida a níveis controlados. Se o sistema imunitário enfraquecer (e isso sucede muitas vezes com a toma de antibióticos), é natural que a cândida tenha terreno para se esticar. Foi o que me aconteceu.

Informação importante que acho que qualquer mulher deve conhecer sobre este problema e, de resto, sobre a nossa flora vaginal, é que o princípio de combate à candida é na verdade muito básico: a nossa flora vaginal é naturalmente ácida, porque a acidez destrói as bactérias. É um sistema de defesa natural do nosso organismo, que tem uma "porta aberta para o mundo". Mas os fungos florescem em ambiente ácido. Logo, para combater um fungo, é necessário aumentar o ph da flora vaginal. Ou de todo o organismo, se o fungo estiver a generalizar-se pelo corpo, através do intestino.

E agora, aquilo que realmente interessa: como é que me livrei da candida? A resposta é, com a homeopatia. Os tratamentos têm o grande contra de serem muito caros, mas no meu caso foi a única alternativa. Consultei também um alergologista, fiz uma vacina contra o fungo durante quatro anos. Só tive alta recentemente. Fiz análises de tudo e mais alguma coisa e a candida está desaparecida. O alergologista despediu-se de mim, ao fim deste tempo todo dizendo, durante muito tempo, espero que esteja imunizada. Se a coisa voltar, sabe onde me encontrar... Portanto, isto é sempre uma coisa da qual não se está propriamente curada... Mas estou agora há vários anos sem qualquer crise, o que me deixa muito satisfeita e, por outro lado, mais confiante, porque ao mínimo sinal de alarme já saberei agora melhor o que devo fazer.

Quanto à homeopatia, para quem queira seguir esse caminho, a única coisa que aconselho é que procurem profissionais que vos dêem algumas garantias de fidedignidade. O que eu receio nestas medicinas alternativas é a proliferação de pessoas a praticá-las sem que possamos comprovar se prestam para alguma coisa ou não... no meu caso consultei um homeopata em Lisboa, que dá consultas na Ervanária Científica Garcia da Orta, em Alcântara. O nome é Dr. Amândio Marques e a lista para marcação de consultas costuma ser longa. O que ele fez comigo foi muito simples. Deu-me antiácidos, para eliminar a acidez dos próprios alimentos que eu comia. Alguns antifúngicos naturais. E suplementos alimentares para fortalecer a imunidade. Ao fim de pouco tempo comecei a melhorar e até hoje. Quanto ao custo dos medicamentos, pensai cada uma de vós quanto dinheiro já enterrou em medicamentos que não vos trataram, e é uma questão de verem qual o caminho a seguir.

Em relação à alergologia, consultei um médico na Clínica de Santo António, em Sacavém, o nome é Dr. Marques Ferreira. Para mim a surpresa a este nível foi perceber que muitos ginecologistas desconhecem totalmente que existe uma vacina contra a candida albicans... Acho estranho. Mas pelos vistos a medicina também tem as suas quintas, o que nos deixa a nós, doentes, com a obrigação de nos documentarmos e promover a interdisciplinariedade...

Outras dicas importantes. Começo por produtos que não são medicamentos, mas podem ajudar. O Alkagin tornou-se num amigo para a vida. Uso a solução íntima na minha lavagem diária. Quanto ao gel, pode ser um grande alívio para quem se sinta muito "seca", por vezes alguns tratamentos locais podem deixar essa sensação.

Há ainda outro produto excelente, e que me foi aconselhado a dada altura num comentário aqui mesmo no blogue, por um ginecologista, chamado Geliofil. Há nas farmácias convencionais, se não tiverem peçam para encomendarem. É óptimo para limpar logo a seguir ao período e também não tem contra-indicações. Outra curiosidade: na altura em que recebi esta "dica", eu andava em consultas de ginecologia na Maternidade Alfredo da costa. Quando lá cheguei e falei deste medicamento, desconheciam que ele existisse... É verdade que era algo muito recente, mas de novo estranhei que, no sítio que supostamente está na vanguarda, precisasse de uma utente para lhes levar a boa nova...

Isto para dizer que, infelizmente, há muitos ginecologistas que continuam a achar que a candidíase é um problema menor, facilmente tratável, e que não representa nada de especialmente grave. Relativizam o sofrimento por que se passa quando se sucedem os tratamentos sem que hajam melhoras, insinuam que estamos a imaginar coisas (aconteceu-me, mais um bocadinho e dizia que eu
era maluca), e desvalorizam o mal que isto faz à nossa auto-estima quando percebemos que não conseguimos ter uma vida sexual normal. Ignoram que isto nos pode levar à depressão, como chegou a acontecer comigo.

Que conselhos mais vos posso dar? Se o vosso ginecologista desvaloriza o problema, mandem-no passear. Arranjem outro, e outro, e outro, até acertarem. Explorem outras especialidades médicas, especialmente a alergologia, se virem que associados a estes problemas estão outros, tais como pele atópica, intolerância alimentar, alergias. Não me entendam mal, eu nunca desprezei os médicos. Agarrei-me a eles como lapa, faço os exames todos, vou a consultas regulares. E nada do que aqui digo ou sugiro substitui o acompanhamento médico. Absolutamente nada. Mas nenhum médico pode substituir-nos no nosso empenho de zelarmos pelo melhor acompanhamento possível.

Mas não é menos verdade que há coisas muito importantes que só dependem de nós, desde logo os hábitos alimentares. Água, muita água. Chá, bebi litros e litros de chá. A camomila é um anti-inflamatório natural, e eu também gosto muito duma erva chamada tomilho-limão, faz um chá super agradável e o tomilho é anti-fúngico. Há alimentos que é imperativo evitar durante as crises: cogumelos, coisas com amido ou fermento (pão, bolos), álcool, açúcares. Alimentos ácidos, tais como alguns frutos, laranja, limão, ananás. O leite e o café também devem ser evitados.

E finalmente, o mais difícil de tudo: Não nos deixarmos deprimir, porque a depressão também enfraquece a imunidade e é claro, só dá ainda mais força à candida. Se for preciso tomar
anti-depressivos, pois que seja. Tudo o que for preciso para dar cabo dela.

Isto de certa forma resume tudo o que aprendi e vai ao encontro das muitas perguntas que tantas de vós me têm feito sobre este assunto. Espero que o meu testemunho sirva para vos ajudar a encontrar um caminho para um tratamento que resulte convosco, e que não será necessariamente igual ao meu. O meu epílogo está feito. Desejo a todas as que chegaram a este último prágrafo (e só o farão aquelas a quem isto realmente interessa, de certeza), que o vosso epílogo possa ser escrito o mais brevemente possível.

sexta-feira, agosto 05, 2011

Mas afinal que karma é este com as ecografias à tiróide?

Que eu tenho, de um modo geral, sempre histórias ridículas para contar em torno de exames médicos. Na verdade não é preciso serem ecografias à tiróide. É um karma cujo sentido cósmico ainda não alcancei, quem sabe quando um dia destes for fazer um retiro espiritual para o Tibete consiga almejar a sua compreensão, por enquanto, permaneço na ignorância.
No caso das ecografias à tiróide, a primeira que fiz, aos 19 anos, entrei na sala para o dito e prontamente disseram-me, "dispa-se da cintura para baixo". Confesso que fiquei ali uns segundos a fazer contas de cabeça e a pensar que eu afinal era tão ignorante em matéria de saúde que chegava ao consultório convencida que a tiróide era no pescoço. Ou que de alguma forma perversa, para chegarem à observação da tiróide tinham que ir por... ou pelo... bem, não interessa, a situação foi rapidamente esclarecida com um "ai desculpe lá, mas hoje têm sido tantas grávidas...".

Hoje. 20 anos depois. Ecografia à tiróide e às partes moles do pescoço, que é logo um exame com uma designação algo deprimente, porque uma pessoa tem consciência que, aos 39 anos e daqui para a frente, o que não faltarão são partes moles observáveis, no pescoço e em todo o lado... E face ao humilhante nome do exame, perguntarão os estimados leitores, pode ficar pior? A resposta é: pode sim senhor.

Ora deixa cá ver o recibo: eco tiroideia e eco prostática. "Eco prostática?", penso eu, e de novo aqueles segundos para fazer contas de cabeça. Mas como é que?... E por onde?...

Quando retomei a compostura, fui acertar contas com a recepcionista. Bati com o recibo no balcão e gritei em plenos pulmões, ó sua cabra, corrija-me lá isto ó fáxavor, porque das partes moles já eu sei que não me livro e ao menos são minhas, agora próstata, nesta encarnação que eu saiba não me calhou nenhuma!...

quinta-feira, julho 28, 2011

Desabafos da sociedade de consumo

Chateia-me este espírito das empresas de telecomunicações, em tudo semelhante ao genericamente atribuído a pessoas de uma certa etnia que normalmente vendem em mercados e em feiras.

Algumas destas empresas, das quais sou cliente há muitos anos, descobriram agora recentemente que eu sou "muito importante" para eles. Mas só sou importante agora, que lhes telefonei a dizer que o meu dinheirinho vai passar a ir para outro lado.

Primeiro, foi o telemóvel. Alterei tarifário, ao fim de pouco tempo lá veio o telefonema preocupado de alguém para quem eu sou muito importante, especialmente porque lhes dava mensalmente mais dinheiro do que o serviço do qual necessito.

Agora, foi a televisão e a internet cá de casa. Já tinha conseguido uma redução de 5€ no operador ao qual aderi, simplesmente por dizer que ia telefonar ao meu operador actual pedindo preços para as mudanças que pretendo fazer, e comparar. Hoje, quando liguei a desactivar o serviço, caíram do céu aos trambolhões duas propostas com reduções mensais e ofertas de tudo e mais alguma coisa, porque "a senhora é uma cliente muito importante para nós". Pois. Mas só sou importante quando digo que me vou embora. Antes disso posso continuar a pagar o mundo e mais um par de botas, e para descobrires que estás mal, estás sozinha nessa luta.

Não há dúvida, eu tenho é pouca paciência para me movimentar neste mundo de ciganagem, pouca paciência e pouco tempo. Mas o que eu devia fazer (o que devíamos todos fazer!) era apontar já na agenda, daqui a 2 anos, que é quando termina o contrato de fidelização que agora assinei, estar a fazer uns telefonemas a dizer que me vou embora de volta para outro operador qualquer. Que é para continuar a ser importante para esta gentalha.

segunda-feira, julho 18, 2011

O encantador de serpentes

Este menino que eu conheço é pestanudo, fala demasiado alto e tem um sorriso encantador. De manhã acorda sempre com uma energia incontrolável e embora se esforçasse muitas vezes por nos deixar dormir mais um bocado, acabava sempre por vir ao quarto fazer-nos perguntas tontas, que mais não eram do que a sua vontade de nos ver a pé. É viciado em jogos de computador e isso preocupa-nos.

Este menino que eu conheço já soma muitos azares trazidos pelas perversidades da vida, mas ainda não cresceu o suficiente para os compreender plenamente, e por isso não tem mágoas, nem ressentimentos, nem sabe ainda o que isso é.

Li-lhe muitas histórias à noite (enquanto ele não as soube ler sozinho) e também ajudei a inventar outras, para os trabalhos da escola. "O pai é bom na matemática mas na língua portuguesa tu és melhor!". Ri até às lágrimas de cada vez que lhe perguntávamos que cores de comportamento tinha ele na escola, invariavelmente verde pelas suas palavras, mas que gritava "nããããooooo!...." angustiado, quando dizíamos que íamos à escola ver o quadro onde estavam as cores!... :-)

Num aniversário ofereci-lhe um passeio de teleférico na Expo e ele disse-me que tinha sido o melhor presente de sempre. Outra vez levei-o a andar de comboio no lugar do maquinista, porque houve um tempo em que não havia nada mais belo no mundo do que os comboios. Foi assim que ele me levou a andar de teleférico e a andar de comboio, no lugar do maquinista.

Este menino que eu conheço falava mais baixinho quando me pedia para eu lhe dar um irmão.

No meio dos desencantos, penso nele. Para além das saudades, conforta-me o pensamento de que sempre honrei a amizade inocente que ele me entregou, sem hesitações. Tenho o meu quinhão de erros cometidos ao longo da vida. Mas com ele, sei que não falhei. Tenho a certeza.

Foi graças ao pequeno encantador de serpentes que algumas vezes consegui ser uma pessoa melhor.

sexta-feira, julho 15, 2011

De volta à estaca zero


Limpar as feridas, sacudir a saia, ajeitar o cabelo. Só chorar à noite. Seguir em frente.

("carrega no batom, abusa do verniz, nem Deus tem o dom de escolher quem vai ser feliz")

terça-feira, junho 28, 2011

sábado, junho 18, 2011

Sobre a morte de um amigo ou Nunca deixamos de ser crianças com medo do escuro

É verdade que em algumas coisas na vida tenho tido muita sorte. Noutras nem tanto, o que no fundo faz de mim uma pessoa perfeitamente igual a tantas outras, apenas mudam as coisas nas quais uns têm sorte e outros nem tanto. Por exemplo, eu tenho tido muita sorte na minha vida profissional. Sim, claro, tenho trabalhado para isso e não sei quê, a sorte dá trabalho, tá bem tá bem, mas eu cheguei aos dias de hoje sem nunca saber o que é estar desempregada. Sem saber o que é não ter perspectiva de emprego. E isto a mim, especialmente nos dias de hoje, parece-me algo que não posso ignorar e muito menos desvalorizar.

Tenho tido menos sorte no que toca a relacionamentos, por exemplo. A esse nível, como diz a canção do Rui Veloso, má fortuna, erros meus, de tudo um bocadinho se calhar, tem levado a uma existência menos feliz, mais sofrida.

Outra coisa na qual tenho tido uma sorte tremenda: cheguei quase aos 40 anos de idade sem saber o que era morrer-me alguém de quem eu gostasse mesmo muito. Sim, claro, morreram pessoas que eu conhecia, umas melhor que outras, que lamentei, que me causaram pesar e tal, mas morrer alguém que me fizesse mesmo mossa no coração, que me abrisse um buraco cá dentro, nunca me tinha acontecido até muito recentemente, e vejo agora quanta sorte tem sido a minha, e que agora se acabou, com a morte de um amigo que me fez perceber um bocado melhor o que é isso de nos morrer alguém e o que é isso de ter saudades de alguém que deixou de existir.

A amizade é uma coisa muito gira, porque toca-se no amor em muitos aspectos, não é? Em relação a muitas coisas, é igual. É talvez consumada de maneira diferente, mas o bem que desejamos a alguns amigos, o bem que nos faz estarmos com eles, não é assim tão desvalorizável em relação ao amor. Acho eu. Depois, aquela sensação mágica que temos em relação a certas pessoas, que podemos ter conhecido nem há cinco minutos e que percebemos no mesmo instante que a amizade sempre esteve lá, apenas não nos conhecíamos, e que os laços são tão fortes que são mesmo para a vida toda, até que a morte nos separe.

Tenho muita sorte porque consigo aqui puxar pela cabeça e lembrar-me de várias pessoas na minha vida a quem estou ligada por estes laços assim. Que já eram meus amigos e amigas desde sempre, muito antes do momento em que se sentaram à minha frente numa secretária para trabalharmos juntas, muito antes de nos juntarmos às 3.ªs e às 6.ªs Feiras para fazer um espectáculo de teatro, muito antes de sermos apresentados na rádio local, muito antes de eu ter nascido. Muito antes de muitos acontecimentos que apenas foram as circunstâncias que nos permitiram descobrir e vivenciar uma amizade que sempre existiu.

Não sei se é sorte ou falta dela, mas esta semana estou a descobrir coisas, sentimentos que não conhecia, dos quais apenas tinha ouvido falar. Desconhecia que podia ser assim. Não sabia que a nossa cabeça continua durante muito tempo sem conseguir compreender uma determinada realidade mesmo que ela apareça crua na frente dos nossos olhos, mesmo que falemos dela conscientemente todos os dias. Já tinha ouvido falar do vazio da perda, mas não sabia que isso era na verdade um enorme silêncio que nada consegue preencher, já tinha ouvido falar em saudades, mas desconhecia que isso fosse afinal uma tão grande escuridão interior.

É bonito dizer que o nosso amigo estará sempre vivo nas nossas recordações, nos nossos corações. Mais difícil é falar da parte de nós que morreu com ele. Contudo, parece-me ser tão verdadeira uma como a outra. Tive tanta, tanta sorte em tê-lo conhecido, que chega a ser igualmente uma sorte e um privilégio ter agora morrido um bocadinho com ele.

sábado, maio 28, 2011

Todo um national geographic a acontecer à volta da minha casa

De entre a comunidade felina autócnone do espaço verde exterior ao meu prédio, há um jovem macho que anda a ser vítima de bullying por parte de um outro gato, três vezes maior do que ele, que não é de cá e que só aparece para roubar a comida dos outros e arranjar confusões.

sexta-feira, maio 20, 2011

Sempre fui, sempre serei uma betinha marrona

Mal habituada que venho com as notas do 1.º semestre, ontem calhou-me uma classificação insatisfatória que, embora positiva, não corresponde aos meus próprios padrões de exigência... Levo tudo demasiado a sério, eu sei. Mas há coisas numa pessoa que não mudam...

segunda-feira, maio 09, 2011

Peso à portuguesa, com certeza


Isto da globalização cultural tem coisas muito boas mas a bem da verdade também pode ser uma chatice. Porque como temos cada vez mais acesso à versão original de certos produtos televisivos, quando estes chegam a Portugal é mais ou menos como aquela carne supostamente fresca que nos querem impingir no supermercado, mas que como veio importada de Timbuktu e demorou uma semana a cá chegar, de fresca já só tem o nome e a luz fluorescente avermelhada que lhe põem por cima, para ela ficar mais corderosinha, no balcão onde a gente encosta a barriga.

Ora barriga foi mesmo a deixa que veio a calhar para falar do "Peso Pesado", que começa logo mal pelo título que lhe deram, porque pese embora (isto é um tema que se presta mesmo a umas bocas bem metidas, e olha já aqui mais outra) se compreenda que "The Biggest Loser" seria algo impossível de traduzir de forma adequada para o nosso Português, não percebo porque raio não chamaram ao programa "Peso Certo". Porquê? Por ser o título de um espectáculo de revista do Fernando Mendes? É que "Peso Certo" seria muito mais apropriado ao espírito do programa, julgo eu. "Peso Pesado"?... Enfim, não percebo.

(Mas isto das decepções com as versões portuguesas de alguns programas não é a primeira vez que me acontece. Quem como eu seguiu avidamente na TV espanhola a primeiríssima edição da "Operación Triunfo" (e que pena que eu tenho de não arranjar aquilo em dvd, que comprava, palavra de honra), percebe bem as diferenças. Embora por cá as primeiras edições também tenham valido a pena, enfim, sempre achei uma pena que o Jorge Gabriel não tivesse apresentado a OT por cá. Ou mais recentemente a versão do "Project Runway", um programa tão giro, como é que foi possível fazer em Portugal... bem, aquilo que se viu, ou que eu só vi o primeiro programa, porque a seguir desisti logo).

Adiante. Tal como já receava, grande fã que sou do "Biggest Loser", esta versãozinha à portuguesa está-me a sair uma coisa desnxaibida e sem ritmo, de brandos costumes, repleta de concorrentes "mais ou menos", de esforços moderadamente difíceis e com uns desafios razoaveizinhos, mas nada de muito extremado, que isto é só para parecer que nos estamos aqui a esforçar muito e o verdadeiramente importante neste programa é, já se sabe, chorar. Chorar muito. Tudo bem, já perdi a virgindade há uns anos, também não tenho a ilusão de que os americanos se esfalfem até ao limite do absurdo, mas pelo menos disfarçam melhor, caraças! Embora, diga-se em abono da verdade, na versão original eles também choram que se fartam, coisa que aliás é a única que me chateia em todo o programa. É a choradeira que para ali vai do princípio ao fim.

(o que me leva a uma reflexão que já tinha antes de iniciar a versão portuguesa: então mas será que não se arranja um raio de um obeso que diga assim, estou gordo porque como até me fartar e aquilo sabe-me bem! Não tive nenhum trauma de infância, a minha família não morreu toda, não estou chateado com a vida, sou sexualmente activo - sim, é que dá a sensação que os obesos não têm vida sexual, e desconfio que isso não seja verdade - simplesmente o meu metabolismo, os meus hábitos de alimentação, a minha vida sedentária, levaram-me a uma obesidade que está descontrolada e aqui estou, alegre e contente, de cabeça resolvida, pronto para mudar de vida! Qualquer coisa assim, um concorrente especial que nunca chorasse, era do meu ponto de vista um bom contributo para este programa. Fica a sugestão, para o vazio das pessoas pertinentes para tomarem esta decisão e que nunca irão ler este texto.)

Então e os treinadores? Os treinadores, pelamordedeus. A forma como a treinadora (ainda não sei como se chama) dizia há bocado para um concorrente da equipa castanha qualquer coisa como "vá, dá o teu máximo, esforça-te", parecia qualquer coisa como, "vá, um bracinho a seguir ao outro meu querido, agora a perninha para a direita, a outra perninha para a esquerda". O texto foi decorado e é dito ainda com menos expressividade que a do Mourinho nos anúncios do BCP. E isto eu nunca pensei que fosse possível ver em televisão.

(Embora o Mourinho se tenha uma vez mais superado. Levou os anúncios a bancos protagonizados por gente do futebol para todo um outro nível, muito para além do Ronaldo que tem o dinheiro no Bejarender. Mas continua brutalmente atrante. O Mourinho, nada de confusões. O outro nem calado marchava.)

Onde é que eu ia? Ah! A treinadora. A senhora a incentivar os concorrentes durante o treino parece aquelas meninas do call-center que falam connosco sempre com a mesma entoação que aprenderam no workshop e que se desmancham à primeira pergunta que a gente lhe faça e que não esteja no guião. Do treinador ainda não vi o suficiente. Mantiveram o padrão, o homem é o bonzinho, ela é a cabra. Não consegui ainda perceber se ele vai fazer bem de bonzinho. Mas ela enquanto cabra, meu deus, tragam cá a Jillian e ela que dê um treino de gritaria e de asneirada a esta treinadora que arranjaram, a ver se melhora o interesse e os concorrentes transpiram mais um bocadinho.

E depois, é claro, a apresentadora. O que dizer sobre a apresentadora? Porquê, pergunto eu, porque é que hoje, Domingo à noite, refastelada no meu sofá a empaturrar-me com amêndoas de chocolate que sobraram da Páscoa enquanto vejo um programa sobre perca de peso e aquisição de hábitos de vida saudável, porque é que de repente tive a sensação de que estava a ver um qualquer programa das tardes ou das manhãs de um qualquer canal generalista? "Então, concorrente "xpto", estou a vê-la com uma carinha tão triste, o que é que se passa?...". E depois os concorrentes, como são portugueses, dizem coisas extremamente assertivas, como "não se passa nada de especial", ou, "estou assim mais ou menos". Exacto. Pois. Disseram à Júlia Pinheiro para moderar o tom de voz. Mas quase que preferia vê-la aos gritos como o costume. Seria mais autêntico.

Mais outra coisinha: o programa de hoje foi demasiado longo. É muito encher de chouriço num programa que se destina a perder peso, a sério. Não teve ritmo nenhum, o realizador também devia ir aprender umas coisas lá com os americanos. E aquela conversinha a puxar a lamúria como se fossem as "Tardes da Júlia", com uns concorrentes totalmente embaraçados, mal preparados, que poucas palavras conseguem pronunciar, dão uma comichão nos dedos para mexer no comando da televisão e ver o que está a dar na FoxLive que eu nem vos digo. Bem sei que ao Domingo são só séries repetidas. Mas estão tão bem feitas que são como a comidinha caseira, mesmo requentada, raramente decepciona.

quarta-feira, maio 04, 2011

Às vezes a vida não é tão difícil assim

Aluna: Professor, sobre aquele livro que fez circular na aula anterior...

Professor: Sim?...

Aluna: Deve ser muito recente, porque procurei por ele aqui na biblioteca da Faculdade, e não estava lá...

Professor: ...

Aluna: Pode dizer-me onde consigo encontrá-lo, ou talvez emprestar-me o seu?...

Professor: Não deve ser necessário... Eu comprei o meu no Pingo Doce...

sexta-feira, abril 22, 2011

Culinária, essa arte abominável

Julgo não ter ainda explanado nesta minha chafarica o quanto eu detesto, odeio, abomino cozinhar. Preparem-se então as almas, pois hoje é chegado o dia.

Seriously. Dêem-me casas de banho para limpar e é verem-me a esfregar sanitas e bidés com alegria, se estiver para aí virada, com a música em altos berros, dando piruetas e cantando em plenos pulmões enquanto loiças, espelhos e azulejos resplandecem à passagem das minhas mãos, frementes por higiene radical.

Agora na cozinha, é o horror. Para começar, convenhamos que mexer em carne e em peixe crú é um grandessíssimo nojo. Basicamente, a carne e o peixe, quando estão crús, cheiram mal. E escorregam das mãos, e têm gorduras, e escamas, e outras porcarias agarradas, o que me deixa logo com uma enorme vontade de ir fazer qualquer outra coisa, menos mexer naquilo.

Depois, é todo aquele mundo das receitas, quantas vezes ainda mais incompreensíveis e impossíveis de decifrar do que o estado das finanças do País. A ver se vos consigo explicar mais ou menos como sou eu a ler uma receita:
Ingrediente A: "não tenho"
Ingrediente B: "não tenho"
Ingrediente C: "não tenho e não sei onde se compra"
Ingrediente D: "não sei o que é"

Quando eventualmente consigo ultrapassar esta parte dos ingredientes, passo à parte da descrição da receita propriamente dita:
"Misture o ingrediente A com o ingrediente D e reserve. De seguida faça um não sei quê com os ingredientes B e C e depois de esperar 10 min...", não costumo ler muito mais que isto. ´É mais ou menos nesta altura que ponho de lado e desisto, exaurida só de pensar no trabalho que aquilo me vai dar.

E por outro lado, julgo que da mesma forma que um qualquer animal pressente as pessoas que não gostam dele, e reage a isso mesmo, acho que as cozinhas e os alimentos de um modo geral também pressentem esta minha aversão a eles. Só assim se explica que quando me dedico a cozinhar algo, os ovos explodam, o óleo espirre, o caldo entorne, as colheres e as tampas caiam para o chão com grande estrondo, para além de outras coisas imprevisíveis que sempre me acontecem.

Aqui há uns tempos atrás, resolvi fazer puré de batata. Sobrevivi. Mas estraguei dois passe-vites e depois de almoço andei a limpar puré de batata dos móveis da cozinha, em sítios que ainda hoje me parece que desafiaram as mais elementares leis da física...

Depois, há todo um drama a acontecer em torno dos filetes de pescada, não sei se alguém já reparou. Vivi num paraíso durante anos, porque havia isto, que era só meter no forno e eram mesmo bons. Ultimamente passo noites sem dormir, sem qualquer explicação que venha acalmar a minha angústia, porque deixei de os encontrar à venda. Não há filetes de pescada destes em lado nenhum! :-( Senhores da Pescanova: por favor, por favor, não os retirem do mercado. Agora só encontro pázadas disto e não me venham com conversas, porque não é a mesma coisa. Consequência: fazer filetes em casa à boa maneira tradicional (pois, pois...). Com óleo gordurento e de comportamento irrascível, a salpicar-me e a causar dores alucinantes, já para não falar da farinha espalhada por todo o lado, o polme que encaroça com a farinha, e no fim, já se sabe, toda uma cozinha imersa na maior imundície. Parecia que tinha acontecido um tornado de gorduranga por aquela bancada fora. Depois desta última experiência horripilante, concluo que só me restam duas alternativas, se quiser continuar a comer filetes de pescada. Ou descubro um ninho de filetes da Pescanova (mas terá que ser noutro lugar para além deste, julgo eu), ou compro um fato de astronauta para usar da próxima vez que os for fazer. Não me livra da cozinha destruída, mas pelo menos protege-me das queimaduras do óleo e da necessidade de tomar um banho de imersão e de por a roupa toda para lavar.

Mas a verdade é que é Páscoa. E por motivos emocionais que agora não vêm ao caso, germina em mim um imperativo categórico para que não passe mais esta ocasião festiva sem que se faça arroz doce cá em casa. Assim será. Mas palavra de honra, receio pela minha integridade física e pela daqueles que me estão próximos...

Estar velha é...

... Aceitar pedidos de amizade no Facebook vindos de criaturas que fomos visitar à maternidade quando tinham menos de uma semana de vida!... :-)

terça-feira, abril 19, 2011

sexta-feira, abril 15, 2011

Pragmatismo e desencanto

Não me mintas, pá. Não me canses a beleza com conversinhas de merda, não me esgotes as energias do dia com promessas do céu e da lua que já sabes de antemão que não vais poder cumprir.

Se como julgo, só me queres para um encontro ocasional e depois estás-te a borrifar para o que eu sinto, para o que eu penso, para quem eu sou e se fico bem ou mal, ao menos diz-me isso mesmo, que sempre fico a saber com o que posso contar. Confia em mim, a sério. Sou crescidinha, tenho muito juizinho, tenhas tu coragem para dizer as coisas como elas são, eu terei as forças para (me) aguentar.

Agora, não me digas que estás cá para mim para depois me ignorares no momento a seguir, quando eu mais precisar. Se não tens nada para me dizer, não me digas que depois falamos. Se os teus interesses são outros, não faças de conta que te interesso para alguma coisa, que eu dispenso essa tua condescendência. Dares-me um pouco da tua atenção não é um favor que me faças, percebes? É para essas merdas todas que já não há pachorra.

Não me queiras iludir, que eu já não tenho idade para isso e isso sim, é que me ofende. Ofende-me na minha inteligência e na minha dignidade. Sei que acima de tudo, dependo de mim própria. Não estou à espera que me venhas salvar a vida. Por isso, fala claro comigo.

É tudo o que te peço, querido futuro governante do meu País.

quinta-feira, março 31, 2011

É incrível

A falta de humildade, o fingimento, a cobardia, a incapacidade de reconhecer os próprios erros que existe neste mundo.

Vejo e no fundo não é que me surpreenda, mas ainda assim não consigo deixar de pensar, é incrível.

terça-feira, março 29, 2011

Don't stand so close to me

A religião católica determina que tanto é pecado pensar como fazer. Felizmente, não professo tal religião. Dentro da minha cabeça, sou uma libertina!... :-)

domingo, março 06, 2011

A luta é alegria!!!



Kirikirikirikiriki! Os homens da luta ganharam o festival da canção e foi o povo que lhes deu a vitória. O que quererá dizer esta vitória, pergunto eu? Quer dizer que estamos perante mais outro exemplo do poder das redes sociais e de quem delas souber fazer bom uso face aos seus objectivos? Pergunto-me: quantas pessoas que votaram nos homens da luta através da internet para o apuramento inicial, e esta noite pelo telefone, quantas delas foram às urnas no passado dia 23 de Janeiro para eleger o Presidente da República?

Quererá dizer apenas que o povo agarrou finalmente a oportunidade de gozar com aquele festivalzinho de merda, pouco diferente desde 1964 só que agora com piores canções e piores cantores (excepção e honra feita ao Nuno Norte e à Wanda Stuart)? Pergunto-me: esta gente ainda acha que ganha concursos a gritar em plenos pulmões?

Quererá dizer que o povo quis levar este gozo para além do festivalzinho de merda que tem cá, e finalmente dizer aos senhores da Eurovisão que enfiem o Festival onde melhor lhes aprouver?

Ou quererá dizer que "Os Homens da Luta" têm a energia e a criatividade suficientes para agitar, incomodar a portugalidade balofa que se vê nas canções do Festival da Canção e no nosso dia-a-dia?

É tão irónico que seja justamente à Alemanha que a Luta agora vá chegar. E foi muito giro de ver hoje, depois dos resultados apurados, a tensão no Teatro Camões, o nervosismo da apresentadora, os olhares incomodados, os apupos. São uns palhaços, as canções não prestam. A crise não se resolve de megafone na mão, a dizer disparates e a cantar cantigas.

Dizem que no tempo do Zeca Afonso também era assim.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Mr. Darcy



Nota: O acesso a esta cena deixou de se poder incorporar, para ver no youtube, vão por aqui: http://www.youtube.com/watch?v=_vhtqVQIBZA

Estou apaixonada por Mr. Darcy. Desde sempre, aliás, já nasci apaixonada por ele. Por este conceito de homem seguro de si próprio até aos limites da arrogância, mas capaz da maior das sensibilidades, ainda que quase sempre dissimulada. Há muitos exemplos de Mr. Darcy por este mundo fora, mas este aqui de cima é para mim o melhor de todos. Melhor ainda que este Mr. Darcy:


Ou este outro Mr. Darcy:



Passo a explicar porque é que me parece que aquele Mr. Darcy do filme "Orgulho e Preconceito", representado por Matthew Macfadyen, é o melhor de todos, e porque é que acho esta cena em particular um verdadeiro espectáculo de representação.

Primeiro que tudo, a voz. Com uma voz daquelas, o tipo podia segredar-me ao ouvido "o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos", ou até uma letra de uma qualquer canção dos GNR, que eu ia para a cama com ele na mesma. É mesmo assim, não há nada mais a dizer.

Mas de regresso a esta cena em particular, independentemente dos atributos físicos (a voz e... e... bem, tudo o resto) o tipo tem aqui um trabalho de actor muito, muito bom. Ok, ela por acaso também não vai mal, mas o ressentimento e outros sentimentos muito negativos levam-me a colocar isso de lado. Ignoremos pois a cabra que teve a oportunidade de uma vida de representar uma cena destas e voltemos ao que interessa. Reparai como ele (Mr. Darcy, o personagem) começa o discurso que tinha previamente decorado ("Miss Elisabeth..."), seguro de que ia despejar tudo de seguida e que iria manter o seu ar altivo de quem comanda tudo. E depois cai o boneco ao segundo 00:43 quando finalmente se confessa: "I love you...". Reparem como de seguida, o "most ardently" é trespassado de emoção, completamente diferente do discurso inicial. E depois, entre o minuto 3:40 e 3:57, quase sem palavras, vejam: tristeza, desilusão; amor; desejo; e finalmente, de novo o orgulho e a altivez. Espectacular. Lindo. Homens, aprendam: é disto que se fazem os sonhos!.. (suspiro).

Pesquisando um pouco mais sobre o amor da minha vida, constato que este Mr. Darcy, pasmem-se as almas, é casado. E fico a perguntar-me: haverá ainda neste mundo algum Mr. Darcy que não o seja?... ;-)

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Meio comida por lobos da alsácia

Estamos em 2052. Tenho 80 anos de idade. Nunca casei, nunca tive filhos. Os pais desapareceram há muito, a irmã já falecida também. Restam dois sobrinhos, com um deles não falo há cerca de 50 anos, outra perdi-lhe o rasto, falámos pela última vez no Natal, ao telefone, está tudo bem, está, e contigo, também, cá vamos. Estou sozinha. E então? Não estamos todos?

A vista já me cansa muito, não consigo estar muito tempo ao computador, onde há muitos anos atrás comunicava para o mundo inteiro que me quisesse ouvir, e que eu ouvia sempre que queria escutar. Estou sempre a enganar-me a digitar as letras e isso irrita-me, eu que dantes conseguia que os dedos corressem velozes e certeiros pelo teclado, à mesma velocidade do pensamento. A internet é demasiado rápida e já me cansa tanta informação.

Mas continuo amiga das tecnologias. Conforme fui envelhecendo tratei de pôr as facturas todas a descontar directamente na conta bancária. A pensão vai para lá todos os meses, também. A casa ficou paga no ano em que comemorei 74 anos de idade, grande conquista, nesse ano fiz uma viagem à Escócia. Sozinha.

Agora já não viajo. Estou em casa. Resisti até ao limite à ida para aquele sítio a que chamam de "lar", um dia destes irei, tenho dito sempre, mas nunca fui. Não conheço os meus vizinhos. Eles também não me conhecem a mim.

Daqui a uns anos, daqui a uns dias, horas, minutos, algo irá acontecer-me e serei mais uma versão patética dos piores receios da Bridget Jones, que temia ser encontrada morta no chão do apartamento, meio comida por lobos da alsácia. Presunçosa rapariga! Até na morte se achava uma grande coisa, porque haveriam de ser lobos da alsácia, e não vulgares cães de rua?

A mim, quando me acontecer isso, nem cães para me virem comer. Não tenho bichos. Melhor assim. A mim, quando me acontecer, continuarei a pagar as minhas dívidas a tempo e horas, muito tempo poderá passar até que alguém, se é que alguém, dê pela minha falta. Até que finalmente alguém diga, olha, está morta, e então sim, passar realmente e estar. Porque até que alguém o diga não é claro que verdadeiramente o esteja.

Estarei morta? Se calhar já estou morta. E então? Não estaremos todos?

sábado, janeiro 29, 2011

Rapunzel revisitada

A verdade é que já lhe fiz o mesmo a ele. Logo, tive que pôr de lado as recriminações, amuos, recusa de sexo para castigo, e coisas do género a que me apeteceu recorrer. Com pena, mas em nome da mais elementar justiça, lá teve que ser.

Mas a verdade é que, sendo eu despistada, tenho um homem muito mais despistado do que eu. Assim despistado ao nível de estratosférico. Porque se é verdade que eu própria já saí de minha casa e o deixei a ele a dormir trancado do lado de fora, porque quando saí me esqueci completamente que ele lá tinha ficado dentro, quando chegou a vez dele me fazer o mesmo levou isto para toda uma nova dimensão.

Passo a explicar. Em casa dele, ele saiu e eu fiquei. Acordei já atrasada, vesti-me preparei-me para sair, puxo pela porta e ela não mexe. Trancada. Bonito. Puxo do telemóvel a pensar, vais ouvir das boas e agora voltas para trás que te lixas. Telefone começa a tocar e eu oiço: ti-ni-ni-ni-ni. Ti-ni-ni-ni-ni. Estou trancada em casa dele. E aquela besta deixou cá o telemóvel! Não sei a que horas volta. Não tenho como falar com ele.

Senti-me como uma Rapunzel dos tempos modernos, só que a realidade é menos romântica e bem mais ridícula. Solução? Ligar a uma irmã que depois de controlar o riso que a levou às lágrimas (é sempre bom pôr alguém bem disposto às 08h30 da manhã), ligou à mãe que por sorte estava em casa e por sorte tinha a chave suplente que lá costuma estar, não vá ele esquecer-se da dele em algum lado... Coisa que, como facilmente se imagina, nunca acontece!...

A pobre senhora lá veio a pé, empenhada no meu salvamento e depois de me libertar do meu cativeiro ia dizendo, conforme descia as escadas, e depois diz-me o meu filho que eu estou a ficar senil e que me esqueço de tudo...

Fui-me embora a pensar que está na hora desta minha relação dar um passo em frente. Quero uma chave da casa dele. Não é para entrar quando quiser. É para sair quando precisar! :-)

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Realidades distorcidas e ligeiramente doentias :-)

Tendo em consideração que já oiço esta pessoa desde os tempos do Correio da Manhã Rádio, nos inícios dos anos 90, é justo afirmar que tenho acordado mais vezes com ele do meu lado do que com qualquer outro que já tenha passado pela minha vida.

É, portanto, a relação mais duradoura e mais funcional que alguma vez estabeleci em toda a minha vida adulta!...

(eu comecei por dizer que era ligeiramente doentio, certo?...) :-)

terça-feira, dezembro 28, 2010

Case Study?...

Parece-me bem que sim. É impressionante o efeito que isto está a ter na blogoesfera e na web 2.0.

O empenho que a Ensitel está a ter, na sua página do Facebook, em apagar(!) os comentários de desagrado que por lá vão ficando é apenas coerente com as acções que encetou para que a autora deste blog apague(!!!) os relatos da sua má experiência com a empresa.

Está-lhes o tiro a sair pela culatra e este post é mais um tiro na culatra deles...

domingo, dezembro 26, 2010

Versão estafada do Natal

Hoje. Conversa de circunstância, arrematada com um toque de sinceridade:

Eu: Olá, estás boa? Há quanto tempo não te via, vieste passar o Natal com a tua mãe? Está tudo bem?

Ela: Tudo bem, obrigada. Tiveram um bom Natal?

Eu: Sim, tudo bem. E o vosso Natal, também correu bem?

Ela: Sim... E está quase a acabar, graças a Deus!...

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Votos de Boas Festas em tempo de crise

Que tenham todos um Natal sem acumulação de dívidas e que o ano de 2011 seja bastante razoavelzinho!... ;-)

domingo, dezembro 19, 2010

...

Têm sido muitos os murros no estômago, ultimamente. Uns mais fortes do que outros, é verdade. Porém, todos conduzem àquela constatação mais ou menos banal de que a nossa vida vale muito pouco ou nada. E em boa verdade digo hoje em dia, felizes daqueles que acreditam que nada acontece por acaso. Feliz de mim nos tempos em que acreditava, convictamente, que nada acontecia por acaso.

E isto não tem nada a ver com Deus, atenção. Neste contexto, acreditar ou não em Deus é perfeitamente acessório. Mas numa lógica, num tal sentido oculto para as coisas, acreditava sim senhor. Desgraçadamente, estou cada vez mais com o Fernando Pessoa. O único sentido oculto das coisas é elas não terem sentido oculto nenhum. É perfeitamente aleatório. É conforme calha. Tal e qual como os raios quando caem no meio de uma trovoada. E isto é uma coisa que irrita.

Irrita porque levamos a nossa vida inteira a tentar dar-lhe um sentido qualquer, a tentar construir algo, uma identidade, a marcar um percurso, a sermos coerentes. E depois não interessa nada se um tipo é um homem íntegro, bom filho, talentoso, inteligente e bonito, não interessa se só tem 30 anos de idade, toma lá um cancro porque calhou assim, olha, paciência, agora pões aqui a tua vida e a da tua família toda entre parêntesis, a ver quem te mata mais depressa, se o cancro, se a quimioterapia, e vocês todos à volta deste garoto, suspendam a respiração e observem, pode ser que se safe, pode ser que não, agarrem-se a essa ideia absurda de que a lógica da vida certamente não permitirá que o pior aconteça, agarrem-se a isso, se é do que precisam para prosseguirem com as vossas vidas ridículas.

Não interessa nada se um outro homem aos 60 anos de idade tem ainda muito para dar a filhos, a netos, a amigos, não interessa que o seu percurso e as suas opções de vida tenham ajudado a formar o carácter de muitos jovens, ajudado a descobrir talentos, a encontrar vocações. Vem uma qualquer contingência do acaso, baixa-se uma névoa na cabeça deste homem e já não reconhece ninguém, não sabe onde está, nem de onde veio, e tudo o que foi e construiu, para ele já não existe. E a gente pensa, é injusto, e há uma mulher que diz, é injusto, uma mulher com pouco mais de 40 anos que um dia chega a casa e se deita na cama para já não acordar no dia seguinte, a ela calhou-lhe assim, à irmã calhou-lhe meter a chave à porta que estava de reserva "para qualquer eventualidade", porque tinham combinado coisas muito lógicas e coerentes e ela estava atrasada. E foi isto que os acasos da vida deram àquela família.

E eu hoje estou assim muito irritada e revoltada com isto tudo, com as coisas muito importantes às quais me dedico todos os dias, nas quais esgoto as minhas energias enquanto uma parte de mim está 24 horas por dia a dizer-me que o meu pai já tem 79, e a minha mãe já tem 75, e que um dia destes um qualquer acaso vai bater à minha porta, e não necessariamente por causa deles, afinal, também eu posso acordar morta já amanhã.

E fico a pensar que o melhor mesmo era largar esta merda toda, dizer que se foda a tudo na minha vida, arranjar um trabalho a esfregar o mesmo chão todos os dias, alguma coisa que não me desse muito que pensar, que não vale a pena fazer coisas muito relevantes na nossa vida, se tudo se desfaz no minuto a seguir. Penso nisto mas sei que não o farei, porque isso não teria lógica nenhuma, e apesar de tudo, a lógica e a coerência é o que nos faz levantar todos os dias de manhã. Mesmo sabendo que não há coerência, que não há lógica, e que nada faz sentido.

Vivemos de paradoxos. E depois morremos.

quarta-feira, novembro 03, 2010

O dinheiro não traz felicidade mas uma copa B tamanho 36, traz sim senhor

Deram uma reportagem no Canal 1 sobre a felicidade, e coisas que podem contribuir para a mesma. Falaram dos factores que permitem a libertação de serotonina no cérebro, tais como o riso, o amor, até o budismo.

O que eu acho estranho, e abona pouco em favor do rigor da dita reportagem, é que nunca, em momento algum, falaram de uma actividade que potencia a libertação de serotonina em grande escala, e que contribui sempre, mas sempre, para aumentar a felicidade: não, não é isso. Quer dizer, isso também liberta serotonina. Mas no caso em concreto refiro-me a outra coisa: comprar lingerie nova. Nunca falha, o que liberta de serotonina e deixa uma pessoa bem disposta, pá! E não apareceu na reportagem, vá-se lá saber porquê.

E note-se que até tem um efeito que se perpetua no tempo: liberta-se a serotonina quando se compra, quando se veste, e com um bocado de sorte, liberta-se mais serotonina, inclusivamente em mais do que uma pessoa, quando se despe, e por aí fora, é um libertar de serotonina que é tudo uma grande alegria.

Quais anti-depressivos quais quê. Lingerie nova, ouçam o que vos digo. Aliás, bem vistas as coisas, não percebo porque é que, se a Paroxetina é comparticipada, porque raio não há também comparticipação na compra destes produtos aqui ou aqui? Hein?... Pois se também libertam a tal da serotonina?...

Tomai nota, que isto é que tem rigor científico: felicidade. Serotonina. Cuecas e soutiens novos. Tudo a mesma coisa.

sexta-feira, outubro 29, 2010

Sem sentido

"Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada para compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: -
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas."

Alberto Caeiro
As coisas são o que são, mas a falta de sentido delas não dói todos os dias da mesma maneira.

sábado, setembro 25, 2010

A geografia das emoções

A questão essencial é que voltei à escola e a semana que passou foi a primeira de aulas. Um mestrado há muito desejado, demasiadas vezes adiado e agora, finalmente, encarado de frente, para levar até ao fim.

A outra questão essencial é que voltei a estudar, não na minha querida Faculdade de Letras, mas numa outra Universidade nas imediações, o que significa que, não só voltei a estudar, como voltei a estudar regressando praticamente ao mesmo espaço geográfico, na Cidade Universitária, que me é muito querido e que, às vezes sem que eu me dê conta ou lhe dê o devido valor, na verdade me tocou muito fundo no coração.

De moldes que andei nisto de me deslocar para a Cidade Universitária, vivenciando esta coisa da geografia das emoções, a saber, que chegando nós a um espaço ele nos faz lembrar de coisas há muito esquecidas, e por isso o meu cérebro tem-me oferecido memórias de amigos que nunca mais vi, pormenores distintos de episódios passados nos corredores, nos bares, nas bibliotecas, enfim. Boas recordações.

Porém surgiram outras emoções também. As aulas iniciaram esta semana para todos. Eu, de dentro do meu carro, parada no trânsito e atrasada para chegar ao destino, vou olhando com algum paternalismo para os caloiros de cara pintada e os supostos alunos seniores trajados a rigor, tudo na rua, bebendo cerveja, dizendo e fazendo disparates. Eu passo e o meu cérebro faz-me pensar, porra. Sim, porra pode ser o resultado de um pensamento perfeitamente lógico e dedutivo. Porra, pensava eu. São todos tão novos. Parecem crianças. Não, são mesmo crianças. Então, passo à frente da Faculdade de Letras e fico com uma sensação estranha de que algo não bate certo. Mas o quê? Ah, já estou a ver. O que me causa estranheza são aqueles miúdos pequenos que estão a subir as escadas para entrarem na minha Faculdade. E aqueles outros recém-nascidos além que estão a sair de lá de dentro. Eles entram e saem e parece que vieram todos só fazer uma visita de estudo para cá voltarem um dia, quem sabe...

Um pouco mais à frente vejo edifícios novos que antes não existiam, parques de estacionamento gigantes a pagar (ladrões!) e digo de mim para comim, tem lá calma contigo, mal seria se tudo estivesse exactamente igual ao que estava quando para cá vieste a primeira vez, há... há...

E foi nesta altura que o meu cérebro, literalmente, me deu um murro no estômago. Quando me deu a noção exacta de que o meu primeiro ano de Faculdade foi há vinte anos atrás. Porra.

É claro que outras partes do meu cérebro começaram logo a tagarelar (o nosso cérebro em auto-defesa também é uma coisa muito gira). Então e isso que tem, nem é tanto tempo assim, quantos não passaram por cá também e nunca voltaram, teres esta força de vontade é sinal de vitalidade e até de alguma juventude, e todo um enorme blá, blá, blá, que entretanto, infelizmente, deixei de me conseguir ouvir porque já ia a pé a caminho da escola e passava por mim um cortejo de meninos do infantário, encabeçados por uns miúdos da primária vestidos de negro, que faziam todos muito barulho.

De maneiras que passei esta primeira semana muito contente, sem dúvida, mas também a sentir-me, julgo que pela primeira vez na minha vida, verdadeiramente, incomensuravelmente, velha, velha, velha.

A questão essencial desta semana resume-se afinal a isto: vinte anos. Porra.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Episódios dispersos das férias #4

Tomai cuidado, gente incauta, que nas praias da Costa Alentejana, aos fins-de-semana, circulam pelo areal perigosos hipnotizadores. Atraem-nos com os seus cânticos, subjugam-nos à sua vontade e levam-nos a práticas que vão contra os nossos princípios mais sólidos.

Esvaem-se em fumo, esses princípios, misturam-se na areia e são levados pelo mar, e tudo o que resta é aquela música hipnotizante, que percorre a praia e nos faz correr contra a nossa vontade:

Boliiiinhaaaaas! Boliiiiiiiiiinhaaaaaaaaas! Olha a bolinha de berliiiiiiiimmmmmm!!!

Patifes.