segunda-feira, setembro 06, 2010

Episódios dispersos das férias #1

Primeira noite. Janelas abertas, que a noite estava quente. Lá fora, apenas o ruído dos grilos cortava o silêncio, todo o espaço ajardinado envolto em calma e paz, convidando ao descanso. As pálpebras começavam a pesar e os pensamentos sucumbiam lentamente ao som dos grilos, quando de repente: Miau. E logo a seguir, outra vez: Miau. E de novo: Miau. Miau. Miau. E pela noite fora assim foi, até que o cansaço acabou por vencer e até os miaus serviram para embalar o sono.

Na noite seguinte, à chegada à hospedaria já depois do jantar, de novo os miaus se faziam ouvir, tristes, lamentosos. Ora eu no que toca a gatos, sou uma sentimental. Quando o dono do estabelecimento me disse que o miau vinha do topo de uma árvore frondosa, comecei a lacrimejar. Então o pobre bichano estava encurralado no topo da árvore desde a noite passada? Um gatinho pequenino sem capacidade para se defender, coitadinho, provavelmente sentindo falta da mãe e dos restantes irmãozinhos, prestes a sucumbir ao pavor, à fome e à sede? Ajoelhei aos pés do estalajadeiro e supliquei clemência para o bichaninho que, no topo da árvore, continuava a cortar a noite com os seus miaus cada vez mais angustiados, sobretudo porque a luz da lanterna devia estar a incomodar-lhe os frágeis olhinhos.

Ok, talvez esteja a dramatizar um bocadinho. Não me ajoelhei nem supliquei, mas devo ter feito uns olhos semelhantes ao do gato das botas no Shrek e o dono da hospedaria foi gentilmente buscar uma escada para tirar o gato da árvore. Ou isso ou levou em consideração que eu não parava de miar ao gato para ele responder, pelo que começava a perspectivar-se uma noite negra em que, já não bastaria ter um gato a miar, quanto mais um gato e uma mulher maluca, os dois a miarem ao desafio. Enfim, fosse por pena do animal, fosse apenas para evitar que os outros clientes, na manhã seguinte, começassem a procurar alojamento noutro sítio, o senhor lá subiu ao escadote para salvar o gatinho da morte certa.

Mal lhe tocou com a ponta dos dedos, o bichano literalmente voou da árvore abaixo, desatando a correr pelo relvado e fugindo pelo portão para a rua, o que me deixou sinceramente aliviada pelo gato finalmente liberto, mas também um pouco na dúvida sobre a sua real incapacidade para sair da árvore quando bem lhe apetecessse. Já o dono da hospedaria parecia não ter dúvidas nenhumas. Fiquei desconfiada disso por conta de um certo enfado na voz quando me disse, Vou arrumar o escadote, boa noite e até amanhã.

Enfim, eu estava contente e mais descansada. Fui para o meu quarto feliz com o desfecho do episódio. Quando me deu o sono deitei-me e dormi, desta vez apenas embalada pelo som dos grilos.

Seria talvez uma hora da manhã quando acordei de novo. Os grilos tinham-se calado.

- Miau.

domingo, setembro 05, 2010

Férias a solo

Por um conjunto de circunstâncias várias, a opção este ano ficou-se entre passar mais um Verão em que o período de férias maior seria passado em casa, do sofá da sala para o computador e vice-versa (o que até não é mau por um período de alguns dias, mas convenhamos, depois começa a chatear) ou, em alternativa, fazer férias sozinha. Segui pela primeira vez a última possibilidade, fiz as malas e lá fui eu uma semana para a Costa Alentejana.

A grande vantagem de estarmos muito tempo sozinhos é que podemos por a conversa em dia connosco próprios. É uma coisa que me parece continuar subvalorizada, desde os tempos de Sócrates (não, não é esse, é o outro), basta ver que o homem levou a vida a dizer "conhece-te a ti mesmo" e ver depois o que lhe aconteceu. Adiante, a mim fez-me muito bem a estadia e a conversa, partindo é claro do princípio que não me vai acontecer o mesmo que aconteceu ao Sócrates (sim, continuo a falar do mesmo).

Para além de um volume significativo de roupa para lavar, vim de lá com novas energias e um conhecimento factual do que foi bom e menos bom nisto de estar de férias sozinha. Com a generosidade que me é característica, mas sobretudo porque estou a fazer tempo para ir tomar banho, passo a descrever as vantagens e as desvantagens.

Ir de férias sozinha é bom porque:

- Fica-se na praia o tempo todo que nos apetecer. Mesmo todo, tipo, até ser de noite e começar a fazer um ventinho frio que nos põe a bater o dente. Sem ninguém que, 2 horas antes de nos apetecer vir embora já está a ladainhar Quando é que vamos embora? Já estamos aqui há horas. Vamos embora... Ainda vais tomar banho? Eu já não vou tomar banho. Se já não vamos tomar banho o que é que estamos aqui a fazer?... Vamos embora.... And soion and soion.

- Não se perde tempo às voltas com o carro à procura de um lugar para estacionar mesmo à porta do restaurante/praia/loja/seja onde for quando duas ruas mais abaixo há resmas de lugares disponíveis, sendo apenas necessário andar a pé 20 metros, se tanto.

- No seguimento do item anterior, percorrem-se calmamente a pé ruas, ruinhas e ruelas só para ver onde é que vão dar, mesmo que seja para concluir que não vão dar a lado nenhum em especial, apreciando as casas só pelo prazer de as ver e imaginando como seria ter uma delas, ali mesmo à beira da praia.

- Enfia-se o nariz em tudo o que são lojas de artesanato, roupas, lembranças, curiosidades e quinquilharias de um modo geral, em alguns casos mais do que uma vez, eventualmente até tomando a decisão de comprar alguma coisa, sem aquela pressão de olharmos para o lado e vermos o nosso companheiro de mãos nos bolsos a olhar o vazio e com uma cara de desespero que nos diz Estou a sofrerrrrrrrrrrrr!.................

- Lê-se muito. As saudades que eu tinha de ler um livro do princípio ao fim! Recomendado aqui, li isto com muita, muita satisfação e acabou por ser a melhor companhia possível nas manhãs e tardes que passei estendida ao sol.

Porém, ir de férias sozinha é mau porque:

- Chega-se a hora de sair para almoçar e jantar, e há qualquer coisa de melancólico em entrar num restaurante e dizer que é só uma pessoa e uma mala grande para sentar, se faz favor. Eu vivo sozinha, comer sozinha é o pão nosso de cada dia (olha que coisa tão apropriada, está giro), mas estar de férias e ter a cadeira à nossa frente vazia, sem ninguém com quem conversar, devo dizer, é uma bela merda.

- Numa zona tão pródiga em praias escondidas, cada uma com as suas belezas peculiares, esqueçam. Praias isoladas perdem todo o seu encanto quando se está sozinha. Eu fui lá, atenção. Mas chegando lá, começaram a surgir pensamentos do tipo, então e se agora me aparece aqui alguém mal intencionado? Então e se eu entrar no mar e me engasgar ou torcer um pé, quem é que me vale e quem é que sabe que estou aqui? A vaca que está lá em cima a pastar e me viu estacionar o carro não me pareceu ser muito dada a intrigas. Comecei a lembrar-me da Bridget Jones e do seu receio em que a encontrassem um mês depois de morta, meio comida por lobos da alsácia, agarrei nos trapinhos e voltei para as praias vigiadas, repletas de gente barriguda e crianças barulhentas. Estava-se melhor.

- Não há sexo. Quer dizer, isto é claro decorre de uma opção individual, se eu quisesse sexo tinha-o arranjado, já para não falar do próprio onanismo, que está no fundo dentro do espírito socrático e, como tal, na minha opinião devia ter mais reconhecimento pelo valor que tem. Mas partindo do princípio que ir para outro lado não significa ser outra pessoa, o facto é que não há sexo. E não haver sexo, especialmente quando se está de férias, fisica e psicologicamente disponível é, também, uma grande merda.

- Não há ninguém que nos chame à razão e trave as idas demasiado frequentes à gelataria, não há ninguém que nos espalhe creme nas costas, não há ninguém que chame a atenção para as coisas em que não reparámos mas que teríamos gostado de ver, se as víssemos.

- Não há partilha. E quando damos por isso, instalou-se uma saudadezinha irritante das coisas que diariamente nos irritam e nos dão vontade de estarmos sozinhos. Ou seja, estar sozinha de férias fez-me ter saudades de andar irritada. Sinceramente, essa parte foi uma coisa que me irritou um bocado.

Seguir-se-ão nos próximos dias alguns posts mais breves (ficai descansados) sobre pequenos episódios que me foram acontecendo. Mas no essencial é isto.

Em circunstâncias semelhantes, voltarei de certeza a ir de férias sozinha.

Irei já com o conhecimento de causa, de que a experiência é bastante melhor do que se espera, não sendo tão boa quanto se imagina.

quarta-feira, agosto 25, 2010

Dúvidas da sociedade de consumo #4

Se já há ambientadores que esguicham o seu perfume para o ar quando pressentem movimento, qual será a especial dificuldade de criar um dispositivo semelhante para o autoclismo?

Um sistema que detecte movimentos ao redor da sanita e que accione o autoclismo automaticamente uns minutinhos depois, não deve ser uma coisa assim tão complexa de inventar pelos gajos que inventam estas coisas. A sério, espero sinceramente que isto já exista, porque uma coisa destas numa casa faz de certeza maravilhas pela relação homem / mulher.

Então isto não será uma coisa muito mais útil do que esguichinhos da treta para disfarçar o cheiro a casa-de-banho-de-centro-comercial-ao-fim-de-semana que invade a nossa querida casa de banho criteriosamente acabada de limpar e desinfectar, depois do nosso querido cada uma sabe muito bem que nome tem lá ter ido? E que, confrontado com a calamidade pela qual é responsável, tudo o que dá de resposta é um encolher de ombros e um descontraído esqueci-me...

Gente que inventa coisas. Pensem nisto. Ou melhor, mulheres que inventam coisas. Pensem nisto. Autoclismos com detectores de movimento. Accionados automaticamente.

Ah, a casa de banho do futuro liberta-nos de perseguir o impossível...

quarta-feira, agosto 18, 2010

Filosofia para massas (mas não menos relevante)

"As we drive along this road called life, ocasionally a gal will find herself a little lost. And when that happens, I gess she has to let go of the coulda, shoulda, woulda, bukle up and just keep going."
Carrie Bradshaw
(the one and only)

segunda-feira, agosto 09, 2010

Objectividade, no fundo

O meu endocrinologista pesou-me e concluiu que perdi 2 kgs em três meses.

As balanças nas farmácias dizem que eu tenho mais 1,5 kgs do que a balança do meu endocrinologista.

O meu endocrinologista diz coisas sobre o meu peso que fazem dele um homem extremamente atraente.

As balanças das farmácias estão calibradas de forma a deprimir-nos e a levar-nos a adquirir comprimidos de dieta. São umas mentirosas e não têm qualquer credibilidade.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Dúvidas da sociedade de consumo #3


O que é feito das canetas Pentel? Percorro Jumbos, percorro Modelos, Pingos Doces, Staples e nada de canetas Pentel. Onde andam elas? A marca faliu, mandou gente para o desemprego, o que é que foi que se passou? Sou obcecada por canetas de ponta fina e aquelas eram mesmo boas.

Dou alvíssaras na forma de canetas de variadas formas e feitios de ponta grossa que não me servem para nada, a quem me indicar superfície comercial na Grande Lisboa que tenha canetas Pentel.

Agradecida, do fundo do coração.

domingo, agosto 01, 2010

Dúvidas da sociedade de consumo #2

Porque é que há tanta gente aos gritos na publicidade das rádios*?

Julgo que os supra-sumo disto são os gajos da MediaMarkt, marca na qual me recuso solenemente a gastar um tostão que seja por causa das campanhas publicitárias para atrasados mentais que sistematicamente são produzidas. E é claro, por causa dos gritos.

Actualmente são as raspadinhas mais os saldos do Freeport que, a passarem constantemente, por vezes um spot a seguir ao outro, dão cabo da paciência a um santo. A sério, será que a malta que trabalha nisto acha que a falta de criatividade se compensa com gritaria? Ou que por não haver imagem só mesmo aos gritos é que se capta a atenção do ouvinte?

Tenho uma novidade para vocês: detesto gritos e não devo ser a única. Não raras vezes desligo o rádio no momento em que passam os spots por já não suportar mais tanta agressão auditiva. E depois esqueço-me de o voltar a ligar.


* Sou uma ouvinte de rádio preguiçosa. Aliás, nem posso dizer que seja ouvinte de uma rádio. Sou ouvinte do Pedro Ribeiro e como ele está na Comercial, é a rádio que ouço. No resto do tempo, tenho preguiça de mudar de posto. Mas julgo que para a questão em apreço, é tudo igual.

terça-feira, julho 27, 2010

Dúvidas da sociedade de consumo #1

Porque é que os produtos em promoção vêm embalados de tal forma que parece que, depois de os pagarmos, continuamos a não ter direito a eles?

Ele é um plástico duríssimo, ele é cola que para se tirar arranca os rótulos, quase destrói as embalagens... Eh pá, não querem vender aquilo àquele preço não vendam!...

Hoje para finalmente separar duas embalagens de champô Pantene, teve que ser com uma faca de cozinha das grandes, depois de concluir que à dentada não dava e com golpes de artes marciais também não... :-)

segunda-feira, julho 12, 2010

Que não se lixe o romantismo!



Muitos países deste mundo suspiram porque gostariam de estar no lugar da Espanha. Muitas mulheres deste mundo suspiram porque gostariam de estar no lugar da Sara Carbonero.

Que linda forma de terminar o Mundial de Futebol!! :-)

domingo, julho 11, 2010

Má onda

O Restaurante da Praia da Princesa, na Costa da Caparica, é provavelmente o sítio onde fui mais mal servida e mal atendida nos últimos anos.

Ao contário deste episódio, em que as bizarrias só deram mais charme ao local e aí sim, comemos principescamente, hoje fomos parar a uma espelunca em que tudo falhou. Trouxeram bebidas quando pedimos que só viessem com a comida e, quando veio a comida, a bebida não aparecia. Estivemos perto de uma hora à espera de quatro sardinhas e três carapaus, que ainda assim vieram mal grelhados, alguns ainda em sangue, impossíveis de comer. Quando perguntei por batatas cozidas (o peixe veio só com salada) fizeram um ar de pânico como se nunca tivessem ouvido falar, nos dias da vida, em batatas cozidas a acompanhar peixe grelhado. Quando vieram vinham quase cruas. Tenho o hábito de temperar com azeite e limão (vinagre em cru é coisa de que não gosto), pedi meio limão que, está claro, nunca chegou a aparecer. Levantámo-nos e fomos buscar pão a outra mesa, a bebida acabámos por ir buscar ao balcão, porque tudo o que pedíamos levava eternidades a chegar!...

Na mesa ao lado, outro desgraçado reclamava ainda com mais angústias que nós face à demora, já que tinha crianças a quem alimentar...

A sério. Que saudades da Praia da Mata, onde hoje não consegui estacionar. No restaurante de lá, a decoração é tosca, não há música ambiente, nem sofázinhos nem panos a esvoaçar à entrada. Mas a comida é boa e vem bem servida.

Fica o aviso à navegação. Restaurante da Praia da Princesa, na Costa da Caparica, é um sítio a evitar. Por mim, a visita valeu por três: foi a primeira, a única e a última...

quarta-feira, julho 07, 2010

Esta insatisfação

Os dias tranquilos são os que se passam de bem com o presente que temos.

Os dias intranquilos são quando o passado nos faz recordar, com saudade, de um presente que nunca chegou a ser.

O futuro é aquilo que ainda não foi, não se pode contar com ele. Mas impõe-se na intranquilidade dos dias e pergunta por vezes, que futuro serei eu, se este presente deixar de te bastar.

sexta-feira, junho 18, 2010

1922-2010


Julgo já ter dito em momento anterior que no ano de 1988, para o bem e para o mal, me transformei eu na pessoa que sou hoje, e a isso não foram alheios os professores que me calharam naquele ano escolar, nem tão pouco os livros que na altura me pus a ler. Foi numa das muitas incursões que nessa altura fiz à biblioteca da minha escola que, aos 16 anos de idade, li pela primeira vez O Memorial do Convento.

Como quem roda a chave numa fechadura, aquele livro abriu portas dentro da minha cabeça que eu não sabia que existiam. Hoje, sentada aqui no meu escritório de casa, olho para a prateleira onde tenho perfiladas as obras do José Saramago que pela minha vida fora têm continuado a abrir-me portas e janelas na cabeça: Terra do Pecado (Romance); Os Poemas Possíveis (Poesia); Provavelmente Alegria (Poesia); Deste Mundo e do Outro (Crónicas); A Bagagem do Viajante (Crónicas); O Ano de 1993 (Conto); Manual de Pintura e Caligrafia (Romance); Objecto Quase (Contos); A Noite (Teatro); Levantado do Chão (Romance); Que Farei com Este livro? (Teatro); Viagem a Portugal (Crónicas); Memorial do Convento (Romance); O Ano da Morte de Ricardo Reis (Romance); A Jangada de Pedra (Romance); A Segunda Vida de Francisco de Assis (Teatro); História do Cerco de Lisboa (Romance); O Evangelho Segundo Jesus Cristo (Romance); In Nomine Dei (Teatro); Cadernos de Lanzarote I a V (diário); Ensaio Sobre a Cegueira (Romance); Todos os Nomes (Romance); Discursos de Estocolmo; O Conto da Ilha Desconhecida (Conto); Folhas Políticas 1976-1998 (Crónicas); A Caverna (Romance); A Maior Flor do Mundo (Conto); O Homem Duplicado (Romance); Ensaio sobre a Lucidez (Romance); Don Giovanni ou O dissoluto absolvido (Teatro); As Intermitências da Morte (Romance); As Pequenas Memórias (Memórias); A Viagem do Elefante (Romance); O Caderno (Blog); Caim (Romance). Olho para todas estas obras e pergunto-me se, por esta altura, já terão decidido ou não decretar o luto nacional. Arrisco-me a pensar que o próprio José Saramago daria pouco ou nenhum valor a tal decisão, vá ela num sentido ou noutro. Imagino-o a dizer aos senhores ministros que não se incomodem em reunir-se só por causa da simples morte de um escritor, ainda para mais quando, por este dias, têm tantas coisas importantes em que pensar.

Volto aos livros. Ao primeiro que li, O Memorial do Convento. Que reli vezes e vezes sem conta e que tantas vezes me fez rir e chorar. Recordo como me emocionei há uns anos atrás quando, no Palácio de Mafra, assisti a esta história contada em Teatro, essa mesma história que vi há poucos dias, numa Escola Secundária, representada por jovens alunos que ainda apenas puderam dizer as palavras, sem maturidade para compreender tudo o que elas significam. Mas lá chegarão, estou certa, assim não lhes falte a vontade que põe passarolas a voar.

Volto ao Levantado do Chão, que me ensinou coisas de um tempo que os meus olhos já não viram. Coisas de quando estivemos atirados ao chão e tivemos que nos levantar. Sim, é claro, é panfletário, o homem eram comunista. Pois era. Mas "se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" (Ensaio sobre a Cegueira). A pensar pela minha cabeça, ouvi a história que o Saramago me contou.

Volto ao Evangelho Segundo Jesus Cristo, tal como os anteriores, colado na lombada com fita cola, páginas amarelas e gastas do uso. Ao Ensaio Sobre a Cegueira, assinado pelo próprio a 26 de Outubro de 1995, guardo-o com carinho, mesmo não sendo muito dada a autógrafos.

Já se sabe que mais tarde ou mais cedo todos morremos, e hoje morreu ele. Então eu acho que a maior homenagem que se lhe pode prestar é lê-lo, sem complexos de ordem política ou religiosa, sem puritanismos de linguística e de amor aos pontos e às vírgulas e aos travessões e aos parágrafos. Porque o que vai naquelas páginas é muito superior a tudo isso.

"Enquanto não alcançares a verdade, não poderás corrigi-la. Porém, se a não corrigires, não a alcançarás. Entretanto, não te resignes." (História do Cerco de Lisboa). Julgo que não se resignou ele, isso não se lhe poderá apontar. A sua herança, para todos quantos apreciem a sua obra, será talvez esta condição de não-resignação, mesmo que por vezes a resignação fosse o mais dócil dos caminhos.

Não falemos por isso da imortalidade da sua obra, do valioso património cultural que deixa a este País, da referência literária mundial que representa, ou outras eventuais palavras de peso, com todas as vírgulas nos seus devidos lugares (nada de maluqueiras à Saramago), que amplamente serão ditas pelos próximos dias afora.

Quanto a mim, prefiro recordar-me de mim própria com os tais 16 anos, sentada cá fora nos intervalos das aulas a ler o Memorial do Convento, deslumbrada com os mundos que tinha por descobrir. Prefiro falar das vontades.

"Dentro de nós existem vontade e alma, a alma retira-se com a morte, vai lá para onde as almas esperam o julgamento, ninguém sabe, mas a vontade, ou se separou do homem estando ele vivo, ou a separa dele a morte, é ela o éter, é portanto a vontade dos homens que segura as estrelas, é a vontade dos homens que Deus respira (...)" (Memorial do Convento).

Para o José Saramago

domingo, junho 13, 2010

Demasiado tempo entre mãos

(mudei o layout desta porra. Queria personalizar isto um bocado mas quanto mais mexo pior fica. E já não consigo voltar para o modelo antigo que tinha. Agora isto parece que não é o meu blog. Mas que se lixe, agora fica como está. Vou-me deitar. Ou jogar mais supaplex.)

sábado, junho 12, 2010

O vício, meu deus

Não sei se isto está ao nível de cromo para a caderneta do Nuno Markl. Só sei que voltou um enorme vício da minha adolescência, o Supaplex! Eternamente grata a quem mo instalou de volta, já são muitas as horas dedicadas a este jogo que corre em MS DOS, do mais básico que há (para alguns), mas que a mim me fascina, enerva, vicia até não poder mais. Já nem a internet me diz nada, meus amigos. Melhor que isto, só mesmo se voltasse um jogo de pinball que era com um dragão, e que também recordo com saudade.

PlayStation o quê? Vão-se lixar. Supaplex. Grande domínio.

domingo, junho 06, 2010

Up your ass

São os meus sinceros votos para o responsável, na sua génese, pela ideia das vuvuzelas.

sexta-feira, junho 04, 2010

Do Alentejo profundo

Fim de semana em Moura, restaurante de qualidade, conversa com empregado de mesa digna de suquete do Gato Fedorento.

Primeiro momento não sei quê:
Nós: para beber, queremos litro e meio de água...
Ele (com ar circunspecto): A questão é que só há garrafas de litro e meio de plástico...
Nós: Então, mas... por nós tudo bem...
Ele (explicando-se finalmente): Sim, mas por lei não podemos ter garrafas de plástico (novo ênfase no plástico, com ar ligeiramente enojado), só podemos ter de vidro, e de vidro a maior é de um litro...

Segundo momento não sei quê, já depois de adjudicada a garrafa de vidro de um litro de água:
Nós: Queremos o lombo de porco...
Ele (escandalizado): Lombo de porco? Mas nós não temos lombo de porco!...
Nós: Não tem? Mas ainda agora disse que havia, até está escrito na ementa e tudo...
Ele: Não, não, temos lombinhos de porco, não é a mesma coisa...
(e de facto, não é)

Terceiro momento não sei quê, com água em garrafa de vidro e dose generosa e de lombinhos de porco na mesa:
Nós: Podia trazer metade de um limão, se faz favor...
Ele (abana consternado a cabeça em negativa, como se tivesse acabado de lhe morrer um parente próximo)
Nós (já com medo do que é que ali vem, questionando-nos que alarvidade gastronómica teremos acabado de cometer, ao querer juntar limão aos lombinhos de porco depois de termos começado por os insultar tratando-os por lombos)
Ele (esclarecendo, de novo com um certo delay, a razão do seu desapontamento): Peço muita desculpa mas não temos limão, acabou-se...

Suspirámos de alívio e continuámos a comer, que a comida era maravilhosa. E o atendimento também, temos é que dar tempo ao tempo. Amanhã vamos lá outra vez!... :-)

quinta-feira, junho 03, 2010

quarta-feira, maio 12, 2010

Eu não ACREDITO...

... Que mataram o Sayid! Não, não, é demais para mim, eu não aguento... De uma maneira tão estúpida, tão estúpida...

Estou com verdadeiro e profundo ódio aos autores de Lost. Se é para matar toda a gente não vale a pena ver isto até ao fim, xiça!!!