domingo, agosto 14, 2011
A teoria do alçapão
Neste programas das manhãs e das tardes proliferam actuações de pessoas denominadas de "artistas", e todos cumprem mais ou menos o mesmo padrão: as músicas passam em play-back. Os homens suam dos sovacos à bruta e têm ar de ter saído de trás da banca da feira onde vendem cassetes-pirata, directamente para a frente da câmara da televisão. Muitos deles precisam de arranjar os dentes. As mulheres vestem coisas demasiado justas e curtas, repletas de cores vivas e lantejoulas, usam demasiada maquilhagem e parecem ter saído directamente, não da banca da venda de música, mas talvez da esquina mais próxima. A música que ecoa tem sempre uma base de ter-lin-tin-tin constante, e os "performers" saltitam furiosamente de um lado para o outro, com um grupo de duas ou três bailarinas atrás.
Olho para aquilo como quem abranda o carro para ver um desastre e sempre me surgem os mesmos três pensamentos. O primeiro é, que horror. O segundo, mas quem são estas pessoas? E por fim, de onde é que vêm e para onde é que voltam quando terminam a sua actuação saltitante?
Sim, quem são estas pessoas? Onde é que os canais de televisão os desencantam nesta altura do ano, porque embora sejam todos mais ou menos iguais, a verdade é que existem numa quantidade absurda, em diferentes feitios, tamanhos e cores. É aí que surge a minha teoria do alçapão dos cantores pimba.
Tomai atenção, porque este pode muito bem ser o segredo mais bem guardado de sempre das televisões generalistas. Existe um alçapão, a porta de entrada para um buraco bem fundo debaixo do chão. É lá que estão enterrados todos os cantores pimba deste país. RTP, SIC e TVI partilham este segredo e só existem 3 chaves para o alçapão, presas ao pescoço do Jorge Gabriel, da Júlia Pinheiro e do Manuel Luís Goucha. Os cantores pimba na verdade não são pessoas, são bonecos de corda. Antes de cada programa em directo, eles abrem o alçapão, tiram cá para fora aqueles de que necessitam, tiram-lhes o pó, dão-lhes corda e eles vão a saltitar directamente para a frente das câmaras. Fazem lá aquela cena que eles fazem e logo que termina, voltam a empurrá-los para o buraco. Por isso é que depois já ninguém mais os vê ou ouve falar deles.
É disto que se alimentam as televisões generalistas, meus amigos. Bonecos de corda escondidos em buracos. Só que isto nem sempre corre bem. Já houve casos de alguns que fugiram numa das vezes em que os deixaram sair. Fazem concertos regulares, atraem multidões e enchem pavilhões. Aprenderam a dar corda a eles próprios e agora já ninguém os consegue agarrar.
terça-feira, setembro 11, 2007
O "Pequeno T2" dá-me nos nervos cá duma maneira...
E a coisa até que começa bem, o pior é depois. Senão vejamos:
"Eu sonhei que o mundo estava a acabar,
E isso fez-me pensar em tudo o que me resta fazer.
Lamentei tudo o que não fiz.
Vou fintar qualquer obstáculo para concretizar os meus sonhos."
Eh pá, até aqui sim senhor. Se bem que esta visão do final da vida e o desgosto do que está por fazer, esteja mais para uma crise de meia-idade do que propriamente para um jovem na casa dos vintes, em que tudo o que lhe resta fazer ainda pode muito bem vir a acontecer. Mas isso, as crises existenciais não têm idade para aparecer, e portanto o que conta é essa vontade firme, grande, de fintar os obstáculos e concretizar os sonhos. Muito bem! Assim é que é! Com uma vontade destas, só pode ter um grande futuro pela frente! E o que vai ser, jovem, por onde vais começar nessa empreitada gloriosa de tomar a tua vida nas próprias mãos? O que é? O que é?!...
"Apenas tenho que virar
A minha vida de pernas para o ar,
E procurar uma casa para eu morar
Um pequeno T2,
Onde podemos viver os dois.
Com vista para o mar e o jardim.
Um carro com tecto de abrir."
Ah... Mas então... Era só isso?... Deixa cá ver. Vais fintar qualquer obstáculo para concretizar os teus sonhos, e o que tu queres é um... um pequeno T2? Pequeno? Mas pequeno, em que sentido? Pequeno, assim, tipo, como é que eu hei-de dizer isto... pequenino? A sério? Ok, se queres com vista para o mar e com jardim, não podes estar à espera de milagres, mas ainda assim... Um carro com tecto de abrir? É quanto basta? Não estaremos com as expectativas um bocadito, ah... hum... pequeninas?...
"Tenho que virar
A minha vida de pernas para o ar,
E procurar uma casa para eu morar."
Pronto, sim senhor, no fundo eu até te entendo. Sem casa e sem carro, fica difícil arranjar um local apropriado para ter sexo. Não há condições. Pronto jovem, olha, vai em frente, vira lá a vida de pernas para o ar, e compra a casita, enfim, sempre vale mais isso do que andares por aí metido na droga.
"Só me falta arranjar um emprego
Para poder estar contigo, só contigo!
Vou tentar encontrar."
Espera lá, que eu agora é que estou mesmo baralhada. Não devo ter percebido bem, só pode ser. Dizias tu que só te falta arranjar o quê? Só te falta? Arranjar um emprego? Portanto, só te falta arranjar essa questãozita de pormenor, que por acaso é a fonte de financiamento para os teus sonhos: o belo do pequeno T2 e o carro com tecto de abrir. Então quer-se dizer, o menino ainda não tem trabalho? Está giro, e tal. Mas também tem razão, quem está disposto a saltar qualquer obstáculo, e a virar a vida de pernas para o ar à procura da casinha, como é que depois tem cabeça para mais, não é?...
Portantos, a ver se eu percebi bem (que eu hoje estou muito lenta): ah e tal, quero uma casa e um carro, nada de muito exagerado que eu sou meiguinho a pedir, a casa até pode ser pequenina desde que fique junto ao mar e tenha muito verde à volta, o carro tem que ter tecto de abrir. Para poder estar contigo, que eu sou muito romântico. Pronto, já defini estes objectivos fundamentais para o meu projecto de vida. Agora, vamos às questões, vá lá, secundárias: O que é que falta? Eh pá, acho que já só me falta uma coisa, tipo, como é que se chama aquilo... Exacto! Um emprego! Só me falta arranjar um emprego, que é aquela coisa das nove às cinco que a malta faz aos dias de semana e que dá um dinheirito ao fim do mês para pagar o pequeno T2! Então, o que é que eu, rapaz firme e determinado vou fazer? Vou tentar encontrar. Vou tentar, que eu também não estou assim para me maçar muito com pormenores. Se encontrar, encontro, se não encontrar, paciência. Vou tentar. Porque isso foi o que eu determinei, vou fintar qualquer obstáculo, portanto, vou tentar encontrar. Um emprego. Porque o resto está tudo, agora só falta mesmo isto.
"Tenho que virar
A minha vida de pernas para o ar,
E procurar uma casa para eu morar."
A sério, quanto mais penso nisto mais esmagada fico com o peso destas palavras. Dilthey? Nietzsche? Sartre? Heidegger? Meus amigos, esqueçam-nos a todos, pertencem ao passado! Ricardo Azevedo. É este o nome de vulto do Existencialismo no Século XXI!!...