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quarta-feira, fevereiro 01, 2017

conta quilómetros

Um dia saíram juntos. Andaram 100 quilómetros e regressaram. Noutro dia, quando deram por isso já tinham chegado aos 200 quilómetros. Tornaram a voltar. A cada novo encontro, maior era a distância percorrida, maior o tempo e o esforço para o regresso. Um dia perceberam que estavam a milhares de quilómetros do ponto de origem e que regressar se tornara impossível.

Então, viveram.

quinta-feira, junho 23, 2016

Minimalismos

- Consegues descrever um amor perfeito numa única frase?

- Claro que sim.

- Então diz lá.

- Antes de me fazer vir, tem que me fazer rir.

terça-feira, março 24, 2015

Transcendência

- Tantas pessoas no mundo e não há ninguém para mim.

Dito isto, encolheu os ombros e seguiu o seu caminho.

terça-feira, dezembro 02, 2014

Natureza morta

Era uma vez um fotógrafo de excelência, reconhecido e respeitado pelo seu olhar sobre o mundo. Bem protegido por trás da sua preciosa câmara, retratava a vida e assim se escondia dela, aterrorizado. De cada vez que carregava no botão, convencia-se a si próprio de que também ele estava vivo.

terça-feira, julho 08, 2014

Que tempos, estes

No início de cada ano, oferecia-lhe sempre uma agenda. Arranjou aquela maneira de lhe dar o tempo que não tinham.

Figura pública

A dona de todas as verdades, decisora certeira no limite de cada momento, seguida e idolatrada por milhares, fechou a porta atrás de si. Sentada no chão e em silêncio, chorou sozinha as suas angústias.

terça-feira, novembro 22, 2011

Da solidão e outros demónios

Perguntaram-lhe uma vez, se sentia raiva. Disse que não, que não tinha raiva. Tinha pragmatismo. E algum cinismo, também. A vida é o que é, e muitas vezes é uma merda, foi a brilhante conclusão a que chegou depois de ler todos os livros de auto-ajuda do mundo. Deitou-os fora logo a seguir, juntamente com a Bíblia, o Amor de Perdição, o Kama Sutra, a Crítica da Razão Pura e o Plano Oficial de Contabilidade. Guardou só os livros do Fernando Pessoa, que diziam que toda a metafísica do mundo estava na confeitaria, que vivem em nós inúmeros, que o único sentido oculto das coisas é elas não terem sentido oculto nenhum, e que nada mais restava do que ser eu mesma, que remédio.

Depois perguntaram-lhe, nesse caso, sem psicologia, nem deus, nem amor, nem sexo, sem filosofia e sem organização, como sobrevives. Ela respondeu que quando está fraca, come chocolates, toma ansiolíticos, engorda e tenta convencer-se de que está tudo bem. E quando ganhas forças. Nessa altura, respondeu, as frustações substituem-se por muitas horas de ginásio, livros que ensinem a pensar, activismo social, e no tempo que reste, contemplação das coisas bonitas do mundo, que em regra nada nos devem nem nós a elas, e por isso tudo é perfeito. Vais ver o mar, perguntaram, e ela disse, vou ver o mar.

Disseram-lhe, mas ninguém pode ser feliz com tanta solidão. Ela disse, não me venhas falar em solidão. Que sabes tu sobre a solidão? Deixa-me a mim dizer-te o que é isso. Solidão não é não ter ninguém com quem falar. É engolir as próprias angústias e auto censurar-se, ficar calada para não o aborrecer mais, coitado, já tem tantos problemas a atormentá-lo. É enganar-se e inventar desculpas, porque ele nem reparou que estava cansada, que estava triste, que estava bem disposta, que tinha ido arranjar o cabelo. Solidão não é estar sozinha. É estar acompanhada mas não ter companhia para o pequeno almoço, é pedir por favor, que ao menos hoje não te aborreças com o senhor do restaurante, porque faço anos e quero jantar em paz.

Celibato? Onde te convenceram que o celibato é solidão? Ficar a um canto com a vida entre parêntesis, e ver ao longe o homem que se ama a passar, na companhia da mulher que ele escolheu, isso sim, é solidão.

Então e no meio de tudo isso, a felicidade, achas que existe? Tenho a certeza que sim. Em alguns momentos, já nos temos encontrado.

Mas não sorriu quando respondeu.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Meio comida por lobos da alsácia

Estamos em 2052. Tenho 80 anos de idade. Nunca casei, nunca tive filhos. Os pais desapareceram há muito, a irmã já falecida também. Restam dois sobrinhos, com um deles não falo há cerca de 50 anos, outra perdi-lhe o rasto, falámos pela última vez no Natal, ao telefone, está tudo bem, está, e contigo, também, cá vamos. Estou sozinha. E então? Não estamos todos?

A vista já me cansa muito, não consigo estar muito tempo ao computador, onde há muitos anos atrás comunicava para o mundo inteiro que me quisesse ouvir, e que eu ouvia sempre que queria escutar. Estou sempre a enganar-me a digitar as letras e isso irrita-me, eu que dantes conseguia que os dedos corressem velozes e certeiros pelo teclado, à mesma velocidade do pensamento. A internet é demasiado rápida e já me cansa tanta informação.

Mas continuo amiga das tecnologias. Conforme fui envelhecendo tratei de pôr as facturas todas a descontar directamente na conta bancária. A pensão vai para lá todos os meses, também. A casa ficou paga no ano em que comemorei 74 anos de idade, grande conquista, nesse ano fiz uma viagem à Escócia. Sozinha.

Agora já não viajo. Estou em casa. Resisti até ao limite à ida para aquele sítio a que chamam de "lar", um dia destes irei, tenho dito sempre, mas nunca fui. Não conheço os meus vizinhos. Eles também não me conhecem a mim.

Daqui a uns anos, daqui a uns dias, horas, minutos, algo irá acontecer-me e serei mais uma versão patética dos piores receios da Bridget Jones, que temia ser encontrada morta no chão do apartamento, meio comida por lobos da alsácia. Presunçosa rapariga! Até na morte se achava uma grande coisa, porque haveriam de ser lobos da alsácia, e não vulgares cães de rua?

A mim, quando me acontecer isso, nem cães para me virem comer. Não tenho bichos. Melhor assim. A mim, quando me acontecer, continuarei a pagar as minhas dívidas a tempo e horas, muito tempo poderá passar até que alguém, se é que alguém, dê pela minha falta. Até que finalmente alguém diga, olha, está morta, e então sim, passar realmente e estar. Porque até que alguém o diga não é claro que verdadeiramente o esteja.

Estarei morta? Se calhar já estou morta. E então? Não estaremos todos?

domingo, abril 25, 2010

Todo o mundo é composto de mudança

Eram unha com carne. No caminho para a escola, sentadas lado a lado nas aulas durante anos, no recreio, nas horas livres, as melhores amigas desde sempre.

Depois, é claro, veio a vida. A adulta, bem entendido, que antes dessa também de vida se tratava. E daí, talvez não fosse.

Será que se pode chamar vida àquele planar inconsciente pelos dias, pelas estações do ano, em que quase nada era exigido, todos nos protegiam dos males do mundo e por isso o pior que nos podia acontecer era sermos enfarinhadas pelo Carnaval. Será que se pode chamar vida a uma existência em que tudo o que interessava era que ao fim-de-semana havia desenhos animados e tortas com creme (e nunca mais, nenhuma terá o sabor que aquelas tinham), e o bife com batatas fritas já vinha cortado e sabia ao amor com que nos era posto no prato. Vida seria, mas numa estranha forma, porque a simplicidade do mundo era o desconhecimento do mundo, e por isso é que, necessariamente, quando se alcança uma coisa perde-se a outra, afinal não é preciso ler a bíblia para ficar a conhecer a história de Adão e Eva, olhe-se para uma criança e lá estará.

Onde isto nos levou, onde nos levará. Falava-se de duas amigas de infância, as melhores do mundo, que à medida que o foram descobrindo, se foram afastando. Esta é afinal a mais banal de todas as histórias, repetidamente acontecida na vida de qualquer um de nós.

Reencontraram-se estas amigas algures no tempo, e no olhar de ambas uma alegria genuína pelo reencontro, mas também uma certa amargura por tudo o que já não existe. Veio à memória o tempo em que tudo era simples, porque quase nada se sabia, apenas as letras das canções das doce, cantadas nos intervalos para toda a escola ouvir. As duas amigas inseparáveis permanecem nesse tempo, nessa vida, não nesta.

Nesta vida, a adulta por assim dizer, resta apenas a conversa de circunstância. Pergunta uma, no que é que trabalhas, e a outra responde, não trabalho, tenho filhos. E pergunta a outra por sua vez, já tens filhos, e a resposta é que não, tenho um trabalho. Nesta vida de gente crescida, estas duas mulheres já não têm nada em comum.

Mas não façamos da vida adulta a grande culpada de todos os males. Existe, ainda assim, a vontade. O livre-arbítrio. Foram este e a falta daquela os verdadeiros responsáveis pelo fim da amizade que, a dado momento, se deixou de cultivar. Não se colhe aquilo que não se semeia.

Quando nos pomos a pensar nisso, vivem-se muitas vidas pela vida fora. E encontram-se muitas pessoas diferentes, por vezes várias dentro da mesma pessoa. Começando em cada um de nós, todo o mundo é composto de mudança.

terça-feira, maio 26, 2009

The woman who can't be moved *

Não gosta da canção. Acha a ridícula, irrita-a. A ideia de alguém que cristaliza a própria vida enquanto o outro segue em frente, eternamente à espera do especial favor de ser amado, a si não lhe parece romantismo. Parece-lhe, isso sim, algo muito, muito estúpido.

Quando passa na rádio, muda de estação. É que não suporta ouvir aqueles versos, declamados por quem afirma não ter escolha e nada mais lhe restar a não ser esperar. "How can I move on when I'm still enlove with you". Desprezível. Seguir em frente não é uma opção, é uma inevitabilidade, que palermice vem a ser esta. E aliás, ninguém merece não viver a sua vida.

No correr dos seus dias não podia estar mais longe desta utopia romântica que a canção apregoa. Buraco no seu mundo uma ova, prefere sem dúvida os buracos nos sapatos. Ninguém ama assim, um amor assim não existe, ponto final. Se existisse seria ainda mais ridículo do que todas as cartas de amor ridículas do Fernando Pessoa, mais trágico do que a mais trágica das tragédias de Shakespeare, e toda a gente sabe que isso não é possível. Este não-sei-quantos que inventou esta cançãozeca (que daqui a dois dias já ninguém se lembra quem é), não se vai com certeza comparar a verdadeiros entendidos destas coisas do amor e do romantismo, como são Fernando Pessoa ou Shakespeare, e isto só para dar dois nomes, haja ordem nisto, quer dizer.

A esquina onde o encontrou pela primeira vez, já não se lembra onde é, nem lhe interessa. Não pretende acampar lá nem sonha com o dia em que a ele lhe dê jeito voltar ao mesmo local de sempre. Não lhe oferece de bandeja essa satisfação. Segue em frente, todos os dias um lugar diferente, há os amigos, há coisas para fazer no trabalho e há as coisas para fazer nos tempos livres, há namorados novos, e quando não os há, há ela própria bastando-se a si mesma com tudo o que faz e que construiu, depois que ele a deixou parada numa esquina igual àquela em que, o tal homenzinho idiota, está parado à espera.

Um amor assim não existe. É por isso que odeia a tal canção, e é isto que grita à parte de si que está emparedada no fundo da masmorra, no buraco mais fundo e obscuro de si própria. Que um amor assim não existe.

Esse eu que está encarcerado, de tanto ouvir falar no ridículo do amor, acabará por morrer à fome e um dia será apenas mais um cadáver arrumado num armário. O eu encarcerado é aquele que está disposto a esperar. Mesmo sabendo que todos os outros eus caminham, espera, mesmo percebendo que não há esperança, espera, porque não encontra outro sentido em si mesmo que não seja esperar. Por enquanto, não se lhe pode dar a ouvir "the man who can't be moved".

De portas trancadas pela firmeza das suas convicções, ela não tem dúvidas que a canção é ridícula e fala de coisas que não existem. Porém, nas noites mais longas, a maldita música ecoa dentro de si mesma mais do que gostaria e muitas vezes fá-la rebolar na cama, sem que consiga dormir.

À superfície, surgem então as lágrimas que não se conseguem conter.

No fundo da masmorra, monta-se a tenda para mais uma noite passada ao relento.

* Inspirado em "The man who can't be moved", dos The Script,
e nos amores ridículos do dia-a-dia.

quarta-feira, março 18, 2009

Era uma vez um homem velho que não queria morrer

Era um homem como outro qualquer, com virtudes e defeitos, estes mais salientes pelo azedume próprio da idade, aquelas porém fazendo-se notar apesar deles e dando conta do seu verdadeiro modo de ser. Um homem banal, que havia já cumprido a sua vida, e gozava agora o passar de dias menos agitados, próprios para a sua idade. Mas este homem, silencioso nas suas reflexões e receios, sabia para onde o levavam aqueles agradáveis dias por preencher, e embora o seu corpo pedisse já pelo merecido descanso, a cabeça segredava-lhe lá de dentro que se parasse, morria. A cabeça daquele homem velho ainda não sabia o que fazer à morte. Por isso, o homem velho lia.

Sentava-se à janela e lia muitos livros, gostava dos clássicos (afinal era um homem velho), dizia que Júlio Verne era o melhor autor de sempre. Quando não tinha nada novo para ler, relia os livros do Júlio Verne. E para se alimentar de novas leituras, pedia à filha que lhe trouxesse livros, daqueles que ela não tinha tempo para ler porque vivia ainda num tempo em que os dias eram muito agitados e à sua cabeça nem lhe ocorriam cogitações que tivessem a morte como possibilidade.

A filha gostava de ver o homem velho a ler à janela. Olhava para as suas prateleiras e escolhia livros para lhe levar, tinha muitos, mas com o passar do tempo já todos haviam sido lidos. No entanto, era preciso continuar a alimentar a cabeça do homem velho com livros, porque aquela leitura para passar o tempo era a chave que fazia com que o tempo não passasse tão depressa. Então um dia a filha, que muito estimava o seu pai e queria que ele vivesse para sempre, começou a comprar novos livros que lhe agradariam a si própria ler, mas que não lia, por causa da agitação dos seus dias. E foi assim que, por muitos e muitos anos, o homem velho foi descobrindo antes dela a magia daqueles livros que serviam para prolongar a vida, ocupando depois o seu lugar nas prateleiras. Aqueles livros tornaram-se também num excelente tema de conversa e de partilha, deste não gostei, aquele é interessante, este já podes levar, li-o em dois dias, não conseguia parar.

Quando enfim a lógica da vida se impôs, que é como quem diz, a morte chegou e levou o homem velho, a filha estava grata aos livros por cada minuto a mais de vida plena que o seu pai tinha alcançado com a ajuda deles. É claro que os livros não conseguiram, nem a isso estavam obrigados, preencher o imenso vazio que se instalou com a morte do homem velho, e que todos os que o amaram vieram a descobrir dentro de si próprios. A mesma lógica de vida fez novamente o seu papel, e apesar do vazio, ou melhor, levando-o o consigo para sempre, todos seguiram com os seus assuntos. Ficaram os livros, à espera.

Chegou enfim o tempo em que a filha se tornou ela própria numa mulher velha, de dias pouco agitados. Como quem regressa à companhia de velhos amigos, voltou a percorrer com os dedos as suas prateleiras, pejadas de livros dos quais apenas tinha ouvido falar. A sua cabeça dizia-lhe baixinho que se parasse, morria. Os livros ali estavam, para que se alimentasse deles.

Segura de que a vida ainda tinha muita coisa nova para lhe dar a descobrir, e que a morte tinha ainda que esperar que terminasse a leitura de muitos milhares de páginas, sentou-se à janela, colocou os óculos e começou a ler.

quarta-feira, julho 02, 2008

A louca

Impõe-se na assistência. Fala claro, dá nomes, datas, factos. Toda a gente a escuta, impotentes todos, porque nada mais se pode fazer do que ouvi-la. Alguns arriscam sorrir ou gracejar com o vizinho do lado, outros mexem-se nas cadeiras, incomodados. A louca fala e todos a escutam, desejando não estar ali, e que ela não estivesse ali.

Por fim, cala-se. E aos nomes, datas, factos que não existem senão nela própria, são-lhe contrapostos nomes, datas, factos que existem para todos os outros, excepto para ela.

Sai invariavelmente gritando injúrias, revoltada com todos quantos, por maldade, a querem fazer passar por louca, e não vêem aquilo que é tão óbvio aos seus olhos. Na sua cabeça, já se vão formando novas realidades cujas razões e contornos não somos capazes de compreender, nem sequer de imaginar.

Na próxima oportunidade que tiver, dar-nos-á conta delas, com toda a força das suas convicções. Do lado de cá da muralha, escutaremos, derrotados.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Ser diferente

Não ser capaz de alinhar com o rebanho em que se nasceu. Haverá maior provação do que essa?

Se estás destinado a ser carpinteiro tens que ser carpinteiro e mais nada, escultura é coisa para maricas. Desde quando é que os serventes de pedreiro se põem a desenhar casas? Se nasceste no meio de analfabetos para que te agarras aos livros como se fossem a coisa melhor do mundo? Se aqui toda a gente arrota e dá traques à mesa, para que te pões tu com esses modos de senhora chique, a virar a cara para o lado?

E então fica-se a um canto da sala, a congeminar outros mundos que não aquele a que se está confinado. No dia de Carnaval os outros põem as máscaras, a sua fica agarrada à cara o ano inteiro. Passam-se muitas horas em silêncio, a sós com desejos e sonhos e raivas e medos, tantos medos, tantos. A casa é pequena e tem tectos baixos, obriga a andar curvado. Mas é uma casa, e nunca nos vai abandonar, se não a abandonarmos. Fora dela é a escuridão, o vazio, o desconhecido.

O diferente.

Quantos não ficam vergados por esses medos e se deixam ficar, num esforço eterno para alinharem com o rebanho onde, por fatalidade ou desafio divino, foram parar. Quem os poderá censurar, a solidão custa tanto a suportar.

Outros porém, não conseguem lidar com esta insatisfação. Aceitam a solidão como boa companheira e desalinham do rebanho. Colocam uma nova máscara, feita de bom-humor perante a incompreensão, indiferença face à rejeição. Revestem-na com determinação, para assegurar que a parte da frente não se desmorona. E com ela caminham, à procura dos mundos que lhe pertencem, não por nascimento, mas pela vontade de mais Ser.

Para os que caminham, para os que ficam parados, a provação é grande e o preço a pagar é elevado. Em dia de Carnaval tiram as máscaras e choram baixinho a dor das escolhas que ficaram por tomar.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Teoria da relatividade

Passeavam ao meio da tarde, de braço dado, os passos e os espíritos alinhados, aproveitando a última meia-hora de sol daquele dia. À sua frente o esqueleto de um projecto que não vingou, rodeado de um estaleiro que, ao que tudo indica, se instalou para destruir e não para construir. E dizia ele, mais vale deitarem abaixo de uma vez, a Expo já foi há quase dez anos, se não vingou, que venha algo novo.

Realmente, dizia ela olhando para o alto da torre, que coisa estranha é pensar que já passaram quase dez anos sobre a Expo! E pensava ainda, que coisa estranha é, por vezes, pensar em tudo o que passa e se passa ao longo de dez anos nas nossas vidas.

A par destas conjecturas, pressentiu mais do que viu uns olhos postos nela, e foi então que reconheceu alguém bem seu conhecido, passando de bicicleta.

Sorriu perante a ironia dos factos e dos pensamentos. Não era na torre que estava a mais visível marca da passagem do tempo. A grande marca estava afinal no passeio a pé, no braço dado, e no outro braço que saudou sem mágoas o homem da bicicleta, deixando-o levar consigo o tempo que já passou.

terça-feira, dezembro 04, 2007

São quatro

Mas apenas a três deles já lhes consegui aprender a personalidade. O outro continua fugidio, mais solitário, nem sei ainda se é gato ou gata.


Nenhum deles parece gato de rua, de tão meigos que são. Há um então que é uma graça, porque ainda tem reminiscências de gatinho. Corre atrás de qualquer coisa que mexa, é um destemido, vem para o colo de modo próprio, e já esteve à beira de me entrar em casa.

A outra é a fêmea do grupo, e fazendo jus a isso, quem sabe se também com autoridades de mãe, lidera. Faladora, faz questão de chamar sempre que passo por ela, outra característica tipicamente feminina, que aos outros ainda não lhes conheço um miau.

E depois há o tímido. O que quer e não quer. O que me vira as costas quando o chamo, e faz de conta que não ouve. O que abala a fugir quando vê a mão erguer-se, quase a tocar-lhe a cabeça, para fazer festas. Que se senta a um metro de onde eu me sento mas não arreda pé, a fingir para ele próprio que não quer saber de mim para nada. Que dá imediatamente um passo para trás quando vê os companheiros a chegarem-se à frente e fica só a olhar, tal e qual como tantos de nós fazemos pela vida fora.

É a ele que eu vejo com mais frequência, porque ultimamente passa muito tempo próximo da minha janela. Quando o chamo começa a rebolar no chão de felicidade, vai se aproximando sempre a rebolar, deita-se no parapeito da janela com as patas para o ar, mas sempre a uma distância tal que não me permite chegar-lhe. Ele próprio estica as patas até ao limite e ficamos ali os dois, suspensos neste toque que não chega a ser, eu porque não consigo lá chegar mesmo querendo, ele porque não consegue ainda querer o suficiente.

No outro dia conseguimos, os dois. Ao fim de um tempo infinito à janela, ao frio (será por isso esta dorzita de garganta? Mas que se lixe, para os gatos nunca me faltou paciência), lá o consegui atrair a mim à conta de brincadeira, numa altura em que os companheiros andavam por outras paragens. Aceitou as festas até ao ponto de lhas fazer na barriga, o local mais sensível para os bichanos, e que eles não consentem a qualquer um. Totalmente rendido, colocou uma pata no meu braço, como quem quer retribuir os afagos, e olhou-me de uma forma tão intensa que senti sinceramente o meu carinho a ser correspondido. Foram apenas alguns segundos de silêncio e magia. Mas encheram-me o coração de coisas positivas.

A seguir lembrou-se que era tímido, deu um salto e foi-se embora, porque afinal, o senhor gato precisa de continuar a ser fiel a si próprio e à sua reputação!...

segunda-feira, setembro 10, 2007

Cinzas

Às vezes, sonho contigo.

Porém, vivo melhor sem ti.
Estar próxima de ti tornou-me sempre em alguém pior do que sou.
E tu, nunca quiseste ser diferente daquilo que serias, comigo longe.
Vives melhor sem mim.

Estive demasiado tempo mergulhada no teu abismo.
Subi a pulso, caí e tornei a cair, cheguei ao cume.
Lambi as feridas, sacudi o pó, segui em frente.
Não volto para trás.

E no entanto, adivinho-te os passos.
Não sei como sei, mas sei, minutos antes de dobrar a esquina,
que vou cruzar-me contigo nesse dia.

Falamos de banalidades.
Já não vale a pena dizer as coisas que não se disseram quando deveriam ter sido ditas.
Ou então nada mais se diz porque tudo foi dito, e repetido vezes a mais.

Olhamo-nos nos olhos, temos essa coragem.
Nesses momentos, há algo em mim que te reconhece.
Continuas a ser o maior mistério da minha vida.

És como a marca de nascença que trago no braço esquerdo.
Raramente me lembro que a tenho.
Mas ela faz parte de mim.

Deu-me hoje para escrever esta banalidade.
Às vezes, sonho contigo.

terça-feira, agosto 07, 2007

Que dia é hoje?

Mora no rés-do-chão de um prédio com todo o ar de que vai cair um dia destes. No andar de cima já não mora ninguém há muitos anos. A porta da entrada tem um postigo daqueles antigos, com umas barras de ferro, e todos os dias ela se deixa ficar ali horas e horas, a olhar a rua. Quem lhe passa à porta só consegue ver as mãos dela de velha muito velha, agarradas com firmeza às barras de ferro. Lá mais para dentro não se consegue ver nada, nem sequer 0 rosto, é só escuridão, como se nada mais houvesse para além daquelas mãos, nem mesmo uma casa, um corpo, alguém.

Porém não passa despercebida. Tem este hábito, incomodativo e demente, de se meter com todas as pessoas que passam na rua. A todos pergunta o mesmo, que dia é hoje? Que dia é hoje? É Segunda, é Domingo, é Quarta, vai assim tentanto manter presentes as contas dos dias, porque tirando os nomes que eles têm, ela já não lhes encontra nada que os distinga. Se calhar repete a pergunta porque, de cada vez que alguém lhe dá a resposta, já não a consegue manter na memória. Ou então, porque chamar assim pelas pessoas foi a maneira que encontrou de se manter ligada ao mundo deste lado, do lado de cá da porta que a encerra na escuridão, e que a cada momento a pode engolir para sempre, assim lhe faltem as forças para se agarrar às grades do postigo.

No outro dia, surpreendentemente, foi a uma janela onde batia o sol, e quem passava pôde enfim ver-lhe o rosto. Chamou, e chamou, e chamou, mas as pessoas já sabem que ela é maluca, e além disso sabem muitíssimo bem que dia da semana é e que exigências ele irá trazer, para estarem ali a perder tempo com ela. Quando finalmente alguém se aproximou, foi motivo de grande alegria e de muitas palavras de ternura, porque serão tão más todas as outras que chamei e não vieram. Que por favor lhe dissesse que saco era aquele encostado à sua parede, cheio de papéis que ela não entendia. Que vive sozinha no mundo, sem marido, e sem filho, e com isto chora. E enfim a derradeira pergunta, que dia é hoje. E ali ficou, suspensa nas respostas dadas, se calhar à espera de quem iria passar a seguir para recomeçar a chamar, enquanto o benemérito foi à sua vida de dias de semana agendados ao pormenor.

É esta a existência daquela mulher nos últimos anos da sua vida, agarrada ao postigo como se estivesse presa do lado de dentro, ou como se quisesse fazer dele tábua de salvação. Entre uma coisa e outra, venha o Diabo e escolha. E já agora quando vier, que lhe responda com simpatia à pergunta, que dia é hoje. De certeza absoluta que quando o vir, é o que ela terá para lhe perguntar.

sábado, novembro 18, 2006

Novela da vida real

Às vezes os concursos para a Função Pública têm destas coisas.

Eram sete vagas para uma carreira de auxiliar, um salário relativamente baixo mas a garantia de estabilidade ao longo de um ano inteiro de trabalho, com boas perspectivas de continuidade. As candidatas foram às dezenas, tal como já se esperava. Feito o concurso, as sete primeiras seleccionadas e colocadas, eis que surge uma vaga para colocar mais outra. Numa escolinha no meio do campo, a meio caminho de atrás do sol posto.

Portadora de boas novas, vi a colega a ligar à oitava classificada. Que disse já estar empregada, ainda bem para ela, pelo que declinou a oferta. Passou-se à nona classificada. Que a escola era muito fora de mão, não lhe dava jeito nenhum, pelo que também preferiu não aceitar. Ligou-se à décima classificada, que rejeitou o horário, por não ser compatível com não sei o quê. Às tantas estávamos todas atentas a ver onde iria isto dar.

Seguia-se a décima primeira. Esta já conhecíamos. Tinha colaborado connosco noutras ocasiões, uma garota de vinte e poucos anos que a custo lá terminou o Secundário, ao mesmo tempo que se esfolava a trabalhar para garantir o sustento da família. Há uns tempos atrás apareceu-nos lá em desespero, só tinha trabalho ao fim-de-semana em regime de part-time como caixa de supermercado, se não tínhamos mais nada que lhe arranjássemos. Andava a caminho do hospital, deprimida, com acessos de pânico, tudo coisas que na verdade só precisavam do mais simples dos tratamentos: trabalho. Meios suficientes para viver condignamente.

Quando percebeu que ia ser colocada começou logo a chorar. Não questionou transportes, nem horário, só agradecia a quem lhe estava a ligar, como se a minha colega tivesse acabado de lhe salvar a vida. Às tantas chorava uma e chorava outra. E à volta, outras tantas galinhas tontas, que entretanto se tinham juntado a ouvir a conversa, fungavam discretamente e coçavam o canto dos olhos.

Há muitas maneiras diferentes de sair o euromilhões às pessoas.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Cidália e Julieta

Lá no escritório ninguém gosta muito da Cidália. É um bocado burra, tem um corpo meio desconchavado e nunca diz nada que interesse aos outros à sua volta. Parece uma versão feminina do Mr. Bean. Anda sempre sozinha. As pessoas riem-se à socapa daquela figura que parece sempre deslocada na sua profissão, deslocada nas roupas que veste, deslocada nas coisas que diz quando tenta ser simpática, deslocada dentro de si mesma. Solteirona e encalhada, se ainda não tem os 40 já não falta muito de certeza. Olha-se-lhe para dentro dos olhos e não se vê nada, ninguém sabe que pessoa é, nem o que é que verdadeiramente pensa, se é que pensa alguma coisa.

A Julieta é uma das pessoas que não a grama nem à lei da bala. Não perde uma oportunidade para a reduzir à sua insignificância, de preferência puxando dos seus galões de profissional superior e do seu estatuto de mulher bem casada. No outro dia o sarcasmo roçou a crueldade, quando se referiu a um hipotético namorado, coisa que não consta que exista ou alguma vez tenha existido para a Cidália. Uma boca foleira ao género toma-lá-que-já-te-entalei, especialidade exclusiva de mulher para mulher.

A outra deu-lhe uma resposta já meio entaramelada pela timidez e respeito à hierarquia, rodou nos calcanhares e sentou-se a engolir a frustração virada para o ambiente de trabalho. É uma questão de tempo até que lhe passe pelas mãos um qualquer processo de grande importância para a Julieta, e nessa altura, alguma coisa irá desaparecer ou correr mal, por motivos que ninguém entenderá.

A anos-luz das frustrações desta insignificante Cidália (será que ainda é virgem, coitada), a bem sucedida Julieta encaminha-se para casa tarde a más horas. Não há pressas. Hoje, tal como na maior parte dos dias da semana, tem à sua espera uma casa em silêncio, só terá a companhia do marido lá para as tantas da manhã. Também ele é um homem muito bem sucedido e atarefado.