segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Água

Vivi toda a minha infância e adolescência numa casa pequenina e muito degradada, que hoje em dia já não existe, e da qual guardo as melhores e as piores lembranças. Recordo-me perfeitamente da pior de todas: a água que teimava em pingar do tecto do meu quarto, por cima da minha cabeça, enquanto eu dormia. Até ao ponto de um fenómeno ainda hoje por explicar, que foi o de, desviada a cama no minúsculo quarto para evitar a goteira por cima da cabeceira, a água deixasse de aparecer do lugar onde aparecia de início para voltar, teimosamente, a pingar por cima da almofada.

Lembro-me doutra ocasião em que foi preciso abrir sulcos no chão (dessa vez resolveu aparecer por esse lado) e da sensação de desalento e desconsolo que era ver aqueles circuitos de água a fazer-me sentir que estava pouco menos do que na rua. E lembro-me do rosto do meu pai nessa época, e dele a subir ao telhado para ver se havia telhas partidas, e a pôr lonas por cima do telhado, e a cavar os sulcos no chão de cimento. Ele punha uma expressão que eu não entendia na altura mas que hoje percebo melhor, que era a cara de um pai que tinha uma casa que metia água pelo quarto da filha, e isso ser o melhor que se podia arranjar.

Agora que penso nisso acho que me ficou alguma coisa de trauma em relação a esses tempos. Naquela altura, o mais simples aguaceiro representava para mim algo de negativo e motivo de angústia, e ficava ali a torcer para que parasse depressa, antes que descobrisse o caminho para o meu espaço. Esta angústia permanece até hoje. Não gosto de chuva. Bole-me com os nervos. E acho que vai ser assim para todo o sempre.

Curiosamente, ainda não consegui ter nenhuma casa onde o problema de lá entrar água não se coloque. Na que tinha anteriormente, a marquise mal amanhada e já ressequida pelo sol, deixava entrar água quando ela vinha tocada a vento. Era um desconsolo. Actualmente, são os bidés das casas de banho que devem ter alguma coisa nos canos a entupir, e quando são usados, lá vem uma pequena, porém irritante, quantidade de água, destruir o meu refúgio, que ser quer aconchegado e principalmente, seco.

(Que isto são doces comparado com o que aconteceu a muitas pessoas hoje. Longe de mim. Mal por mal, nunca tive que ir com a roupa do corpo dormir sabe-se lá onde. Adiante.)

Hoje também foi dia de muita água. Sozinha dentro do carro, passei lençóis de água sempre a acelerar e a rezar para que o carro não me falhasse, levei horas intermináveis nas filas de trânsito, e enquanto olhava para fora e via carros e mais carros, toda a gente parada, e a chuva, maldita chuva cada vez mais violenta, o sentimento que surgiu foi o daquela mesma angústia do tempo em que acordava de noite, com a água a molhar-me a cama.

Passada a borrasca, paragem na casa dos pais para cumprimentar e contar as desventuras do dia. Manifesto a apreensão, de certeza que infundada, de que ao longo do dia, a água tenha subido para dentro de casa, afinal é um rés-do-chão e os bidés andam armados em parvos. Falo no assunto de modo despreocupado, é só um pequeno receio, nada objectivo o faz esperar, a casa é quase nova. Mas sei que o que fala cá mais fundo é esta angústia que nunca mais desapareceu totalmente, e me faz andar de janela em janela sempre que começa a cair com mais força, pelo sim pelo não.

Já de mão na porta para sair, o pedido veio da sala inevitável, "depois quando chegares, diz qualquer coisa". Quando cheguei as apreensões dissiparam-se e fui de imediato dissipar as dele, que estava tudo bem, fica descansado.

De maneiras que por hoje, pai, apesar da muita água que caiu, podemos mandar calar o nosso pequeno trauma. A angústia que ambos conhecemos tão bem vai poder dormir descansada, porque a água permanece do lado de fora, enquanto que nós estamos secos e a salvo, do lado de dentro.

9 comentários:

Pedro Aniceto disse...

Sozinha dentro do carro, passei lençóis de água sempre a acelerar

Desculparás o eventual ar paternalista que este comentário poderá parecer ter mas não me consigo calar...

Acelerar sobre um lençol de água é um disparate quase criminoso. Por várias razões: Porque a movimentação da água é maior (o vazio central que a aceleração provoca, causa um refluxo da água para o centro do canal deixado pelo carro) e se a ideia era evitar que a água chegasse ao motor, já foi por água abaixo. Além disso, não há componentes eléctricos na parte inferior do motor pelo que a preocupação é um bocado infundada. Se tiveres água na parte eléctrica isso quer dizer que já tens água pelos joelhos, o que não me parece muito saudável. Um lençol de água esconde por vezes surpresas MUITO desagradáveis. Imaginas o efeito que terá no teu carro o facto de passares por cima de uma tampa de esgoto aberta? Mais do que no teu carro, imaginas o efeito que poderá ter em ti? Lençóis de água significam aqua planning se forem pequenos, significam um desastre à espera de acontecer se forem passados a acelerar. Por isso aceita um conselho: Lençóis de água evitam-se se possível, se tal não for possível devem ser feitas a baixa velocidade e de olho bem aberto a turbulências ou remoinhos bem marcados (significam buracos relevantes).

De resto o teu texto fez-me sorrir, também vivi demasiados anos em habitação degradada e há marcas que ficam para sempre.

Patrícia disse...

:)

hertista disse...

Pois! Assim como assim, junto-me ao Pedro e à Blimunda! Mas isso já passou!
E sim, o Pedro tem razão! Nada de acelarar à passagem de lencóis de água! :)*

blimunda sete luas disse...

Hum, não me expliquei bem. Acelerar no sentido de manter o pé sempre no acelerador, mas ia em primeira! A baixa velocidade ficou salvaguardada, e por acaso sempre me disseram que aquele movimento de subir o pé do acelerador e meter outra mudança era arriscado, no meio de um lençol de água, que o carro pode afogar.

Foi nesse sentido, de resto, aquele lençol de água impossibilitava qualquer velocidade cima dos 10 Kms! :)

monikyta disse...

gtei mt do texto :)

tb n gt de chuva, trovoadas então, mt pior...tb me entrava água pelas janelas de casa e tinha q andar c os meus pais c panos e baldes a limpar...mas n em cima da cama...

bj meu

Gira disse...

Como te compreendo! Acontece isso nos meus Pais mas por culpa de entupimentos no prédio vizinho! Aquela noite foi passada de olhos abertos e a rezar ao Sao Pedro que cá por baixo ja chegava de tanta água!

Libelinha disse...

Eu compreendo essa angústia da água nos invadir o nosso espaço...também o senti quando era puto...a água mts vezes roubou me o conforto, uma pequena frincha era o suficiente para a luz ser desligada com medo de curtos circuitos e lá se ia a Tv,a música,a quelas "coisinhas" boas que me aqueceram a minha infância, mas dps tudo passava o sol raiava e a goteira arranjava se...agora quando chove penso nos desgraçados que têm goteiras e sofrem com a chuva....e eu no meu Lap top rio me não de gozo, mas do conforto que diariamente dou à minha pequena família, não esquecendo o passado, precavendo o futuro e torcendo para que cada dia seja melhor que o outro!!! até amanhã....

patologista disse...

Ao que parece todos temos um passado de água dentro de casa, sem ser nos locais devidos. Que bons são os nossos construtores civis... Em criança tive a sorte de crescer com conforto. Só depois de casar é que fui morar para uma casa velha que se revelou pior do que parecia (e já parecia má!). Desde limpar paredes com toalhas, a ver sair água do esgoto do chão tive um pouco de tudo. Até direito numa das vezes a escorregar e cair de costas num banho de esgoto e lama, um verdadeiro banho de merda!!!
E tb eu pensava com tristeza que tinha a minha filha a crescer ali no meio e com problemas respiratórios.
Agora é tudo ao contrário. Vivo numa casa grande e nova, com jardim e as filhas a crescer com tudo de bom. Até com uns pais que lhes fazem perceber a sorte que têm.

redjan disse...

Bli: texto bom de ler, que nos levou aos sonhos e tristezas de uma menina Bli de muitos anos atrás. Por ironia eu ... adoro a chuva, tempos lembrados em que quando ela era forte eu lhe mostrava meu canto fechado, iluminado e quente onde devorava BD's e outros que tais. Mas qualquer coisa teria de me calhar. A louça que por vezes se amontoava numa cozinha que não dava vazão a uma casa de gente muita, por vezes pouco interessada. Quando hoje, por aqui e com os meus filhos, acaba o jantar, eles vão lavar os dentes e eu me preparo para um café e cigarro, já tudo foi lavado, escorre ali ao lado, arrumado será após a ultima passita !