terça-feira, fevereiro 05, 2008

Ser diferente

Não ser capaz de alinhar com o rebanho em que se nasceu. Haverá maior provação do que essa?

Se estás destinado a ser carpinteiro tens que ser carpinteiro e mais nada, escultura é coisa para maricas. Desde quando é que os serventes de pedreiro se põem a desenhar casas? Se nasceste no meio de analfabetos para que te agarras aos livros como se fossem a coisa melhor do mundo? Se aqui toda a gente arrota e dá traques à mesa, para que te pões tu com esses modos de senhora chique, a virar a cara para o lado?

E então fica-se a um canto da sala, a congeminar outros mundos que não aquele a que se está confinado. No dia de Carnaval os outros põem as máscaras, a sua fica agarrada à cara o ano inteiro. Passam-se muitas horas em silêncio, a sós com desejos e sonhos e raivas e medos, tantos medos, tantos. A casa é pequena e tem tectos baixos, obriga a andar curvado. Mas é uma casa, e nunca nos vai abandonar, se não a abandonarmos. Fora dela é a escuridão, o vazio, o desconhecido.

O diferente.

Quantos não ficam vergados por esses medos e se deixam ficar, num esforço eterno para alinharem com o rebanho onde, por fatalidade ou desafio divino, foram parar. Quem os poderá censurar, a solidão custa tanto a suportar.

Outros porém, não conseguem lidar com esta insatisfação. Aceitam a solidão como boa companheira e desalinham do rebanho. Colocam uma nova máscara, feita de bom-humor perante a incompreensão, indiferença face à rejeição. Revestem-na com determinação, para assegurar que a parte da frente não se desmorona. E com ela caminham, à procura dos mundos que lhe pertencem, não por nascimento, mas pela vontade de mais Ser.

Para os que caminham, para os que ficam parados, a provação é grande e o preço a pagar é elevado. Em dia de Carnaval tiram as máscaras e choram baixinho a dor das escolhas que ficaram por tomar.

8 comentários:

Anónimo disse...

Olá,
...o sentido da vida diverge, as normas e os valores sociais questionam-se e quando nos pedem respostas, não as temos......a descoberta só se concretiza com a procura.

Joshua@Tree disse...

Excelente post. Parabéns!

redjan disse...

Bli.... ainda bem que voltou a dar ... que saudades de um Bli's text like this one !!!!

Anónimo disse...

Paar bom observador/a, bacalhau basta!
Gostei!!!!
;-)

suz disse...

Este texto fez-me lembrar os dias em que sinto a ovelha negra da família... e simultaneamente aqueles em que me acho a menina-prodígio... qual deles virei a ser, só o futuro o dirá. Neste momento acho que sou totipotente, posso ser tudo e, no entanto, noutras coisas não sou mais do que nada...

Anónimo disse...

Só foi pena o "há procura"... teria sido perfeito.

blimunda sete luas disse...

Não foi só pena, foi (e é) uma vergonha, caro anónimo.

Vai-se já corrigir! Obrigada!

Anónimo disse...

Nem uns nem outros sabem ser de outra maneira. Por cada inconformado haverá sempre um resignado.

Meaningless mantra

Speak
No harm will come from that.
Feel
All you should feel, become aware of how it is to be alive.
Decide
Change your life, make a move.
Be happy
If you can find the courage to be so.
And if there's no one to join you
Be brave
and do it all by yourself.