quinta-feira, novembro 01, 2007

Pão por Deus?!...

Hoje bateram-me à porta duas jovens criaturas a pedirem o pão por Deus. Que é um conceito do mais hipócrita que pode haver, primeiro, porque ninguém está realmente à espera de receber pão, e depois, porque como em tudo na vida, quando se pede por Deus pede-se na verdade por nós próprios, e mais valia que assim fosse dito alto e bom som, "pão por mim", ou melhor ainda, "qualquer coisa doce para eu me refastelar a comer, neste dia em que não tenho mais nadinha que fazer".

Mal por mal, acho mais honesto o "doçuras ou travessuras" importado dos Americanos, se bem que, também neste caso, existe alguma perfídia, que isto de se ter que pagar para não nos chatearem soa-me vagamente a chantagem, mas devo ser eu que não estou imbuída do espírito da coisa.

Adiante. O certo é que hoje em dia este hábito é cada vez mais raro, e qual não é o meu espanto perante o toque da campainha e um apelo ao pão por Deus. Mais bizarro, que fossem dois rapazes com os seus treze, catorze anos, com alguma profusão de acne juvenil, vestidos de preto e com umas correntezitas ao pescoço (Punk? Dread? Gótico? Metal? You name it...), e com o triste saquinho de plástico pela mão e a bela frase, "pão por Deus".

Pareceu-me um quadro bastante surrealista, aquele. Quando este tipo de coisas me acontece, chego mesmo a ficar na dúvida se realmente aconteceram, ou se foram mero produto da minha imaginação. Só tenho a certeza que aconteceram mesmo porque eu não tenho uma imaginação assim tão fértil para imaginar adolescentes que mais valia andarem a já a tentar engatar umas garotas, munidos de saco de plástico a andarem de porta em porta reclamando "pão por Deus".

A minha religião nem deveria permitir embarcar neste tipo de coisas. Mas simplesmente não me apeteceu ser má para eles, fiquei com medo de os traumatizar, e resolvi cooperar. Só que não se safaram nada bem comigo, coitados. A única coisa levemente semelhante com um doce que consegui encontrar (sim, ainda há caixotes por abrir) foram uns pacotes de bolachas integrais que vêm em bolsitas individuais e até estavam um bocado esmigalhadas, deve ter sido na mudança. Duas ou três, que aquilo são pretensamente bolachas digestivas e boas para a dieta.

Mas tinham pepitas de chocolate, atenção. E agora podem dizer, ah e tal, grande dieta, bolachas com pepitas de chocolate, que é isso. E eu respondo, que é isso digo eu, que aquilo não eram criancinhas de "pão por Deus" que se apresentassem à porta de uma pessoa. Surrealismo com surrealismo se paga.

13 comentários:

Cati disse...

LOL
Realmente dois mancebos imberbes a pedir bolinhos de porta em porta não me parece nada mal... Gostei da história das bolachas!!! Eu também como dessas...

Espero que tenha tido um excelente feriado! Um beijinho!

C disse...

Mas o pior não é isso...o pior é pessoal que anda com uns caixotes com a devida ranhura por cima a pedir dinheiro...porta a porta! Já tenho visto figuras destas...

Por acaso, no meu prédio há dois miúdos (irmãos) super amorosos, daqueles que já não existem, que aparentam ter recebido daquelas educações à moda antiga (muito educados, muito diligentes!), que todos os anos se vestem para a ocasião, recortam e pintam uma caixa para parecer uma abóbora e, com as suas vozes celestiais, batem à porta do pessoal todo, desde o rés-do-chão ao sétimo andar...

Por acaso tinha uns queques da Dan Cake, recheados e tudo, portanto não foram mal aviados. E eles até são amorosos. Ainda que pequeninos, eguram-me sempre a porta do elevador. E viram-se para trás a dizer "bom dia!" antes de entrar para a garagem.

Assim, dá gosto!

Anónimo disse...

Que dor de barriga...

S. disse...

Pois... aqui no bairro onde moro juntam-se em tropes!!! Andam aos 15 e 20 a pedir os bolinhos juntos! Mas quem?! Quem é que no seu juízo perfeito abre a porta a esses marmanjos?!? E já não são pequenitos... não! a maioria já anda no 3º Ciclo e há muito que passou da idade de pedir o pão por Deus! Aliás, sabemos muito bem que não são doces ou os tradicionais frutos secos que eles querem... Querem é dinheirito e a dar dinheiro aos 15 ou aos 20 de cada vez, hoje era eu que andava aí a bater de porta em porta a pedir... portanto, em vez de pedirmos "pão por Deus" que tal um valente "valha-nos Deus"!?!

blimunda sete luas disse...

Dinheiro não me pediram. Se tivessem pedido, então aí é que não havia hipótese: levavam uma ensaboadela sobre as práticas pagãs mascaradas de cristianismo, e sobre o significado teológico da expressão "pão por Deus", que por Deus, aposto que nunca mais me batiam à porta! :-)

Anónimo disse...

Mas qual é o drama? Sinceramente ainda não percebi.
Afinal, essas "criaturas imberbes" apenas fazem o que vêem fazer (e cada vez mais): amealhar quando se pode, contra tudo e contra todos.
E lá diz o povo que "antes mais vale pedir que roubar"...e, felizmente, somos livres de dizer que "não".
O ser "por Deus", convenhamos que não me parece sacrilégio nenhum. O Seu nome é cada vez mais invocado em vão, muitas vezes por
aqueles(as) que batem constantemente com a mão no peito e se fazem passar por "imaculados".
Pelo menos, esses rapazes vestidos de preto fizeram tudo às claras e fizeram "chantagem" um único dia no ano.
Outros existem que não olham a dia, hora e oportunidade para atingirem os seus objectivos!!!!

Anónimo disse...

texto espectacular, como sempre!... por acaso, ate tenho saudades de andar à cata dos doces de casa em casa.. dinheiro não, eu gostava era do sabor a vitória e a doce quando chegava a casa de saco cheio!

vá la, q concordo c o senhor neo-realista... é assim q nascem e estao a ser educadas as criaturinhas de hoje em dia...

quanto aos piquenos amorosos q percorrem desde o res do chao ao setimo andar... bem! não sabia que ainda os havia assim! É obra, realmente!

um beijinho!

Anónimo disse...

NAda contra a continuação de uma tradição, que efectivamente perdeu nos dias de hoje, o significado que já teve em tempos.
Quando os doces ou guloseimas eram uma raridade, só possível em alguns dias do ano, pedi-las fazia todo o sentido.
Hoje, ao contrário, temos cada vez mais crianças obesas, com todas as condições para se tornarem em adultos diabéticos e com outras maleitas.
Porque acredito no equílibrio, é bom que certas tradições se mantenham e sobretudo era bom que se explicasse aos piquenos de hoje o motivo pelo qual andam a pedir o "Pão por Deus".
Qt ao nome, não me choca nada, é este como podia ser outro qualquer, este herdou-se a par com o costume, não acrescenta nem tira nada à essencia da coisa.

Ana Princesa disse...

É deixá-los tocar à porta, e tocar e tocar até se fartarem...
A mim não me calhou... ou se calhar tocaram eu é que não acordei!
Beijinho**

patologista disse...

No próximo ano, vão pensar duas vezes antes de bater á tua porta. "Aqui não, pá, não vês que é aquela das bolachas esmigalhadas e sem açucar. Aquelas que tivemos de dar ao cão!"

blimunda sete luas disse...

Bem vindo! O comentário que me deixaste há uns tempos atrás perdeu-se-me de vista, e eu gosto bastante do teu trabalho, meu caro!

Quando acabar a preguiça de actualizar os links, vais parar aqui à coluna da direita, ok? ;-)

Olinda Dinis disse...

Hehe aqui na aldeia ainda se cumpre a tradição, os miudos, até 8/9anos andam de porta em porta e nós já temos alguma coisa(muita) para lhes dar. Eu dou rebuçados :)

redjan disse...

Pão por Deus ? Mas que pão ? E que Deus ? E se antes fosse Deus por pão ? Recebiam umas de dicas amor pelo próximo e à troca deixavam uma bucha, talvez a coisa resultasse, saissem uns quantos mais espiritualizados e gozassem um devaneio da eterna missa cantada e seguida ao domingo, outros pudessem abrir a porta 10 vezes naquele dia, e ao menos saber que bastava a mesa posta que do corpo cuidavam ex-imberbes matulões !!