terça-feira, julho 07, 2009

Requiem

A questão é que penso demasiado na morte, ultimamente. E não é por nenhuma tendência suicida, por mania ou outro qualquer problema do foro mental. É só porque há alturas em que a consciência da morte se impõe mais do que outras, e esta é seguramente uma delas.

Toda a gente sabe que a morte existe e não poupa ninguém. Toda a gente se depara por vezes com esse olhar sobre si próprio, sobre aqueles que ama, e nessa altura pensamos, existe esta coisa da morte que faz com que tudo termine. A grande vantagem é logo de seguida a nossa cabeça se ter que ocupar com outras coisas da vida, e rapidamente o nosso cérebro produz aquele pensamento reconfortante, está bem, isso vai ser assim, mas por enquanto ainda não, segue em frente.

Acontece que por estes dias a morte materializa-se e não me permite esse conforto. Curiosamente, já há uns meses me deu um sinal muito claro, quando me acidentei na Auto-Estrada, e só por mera casualidade (essa entidade de longe muito mais misteriosa que a própria morte), aqueles segundos não foram os meus últimos e/ou os últimos de quem ia comigo. Qual dos dois cenários o pior.

Mas a maior consciência da morte vem hoje em dia dos meus pais, especialmente da minha mãe, à medida que a vejo mais debilitada dia após dia. A pergunta que se impõe é o que fazer, não contra a morte em si, porque essa já sabemos que nada podemos contra ela, mas o que fazer face ao tempo que antecede a morte, face ao sofrimento físico, mental e emocional inerente aos dias que passam sem que possamos ser aquilo que sempre fomos. E que pode ser de dias, meses, anos.

O que fazer? O que é que cada um de nós (filhas, netos, marido) podemos e estamos dispostos a fazer, que sacrifícios poderemos nós fazer em nome de algo que diminua esses sofrimentos? E se o que fizermos apenas contribuir para os aumentar? E se aquilo que imaginamos ser apoio e bem-estar para os dois for apenas infelicidade, isolamento, abandono? E se com isto estivermos a abrir as portas à demência para quem está são?...

Hoje, no dia em que os levo a ambos ao funeral de um parente próximo, todos mais ou menos da mesma idade, temos bem presente a consciência de que qualquer um deles poderá ser o próximo, tal como diz a anedota. Não imagino, não consigo imaginar quanto me fará sofrer a morte dos meus pais. Mas tenho já uma noção muito clara do quanto me atormenta a ideia de que, pelas minhas acções bem intencionadas, possa estar a contribuir para que qualquer um deles morra mais depressa, ou lhes traga mais sofrimento à sua vida.

Estou certa de que nada pode continuar como está, e por isso alguma coisa tem que se fazer. Mas levar os meus pais para uma instiuição está a ser das decisões mais dolorosas que já tive que tomar em toda a minha vida.

5 comentários:

Andreia disse...

Cara blimunda,
compreendo perfeitamentamente a tua angústia. É muto difícil para nós filhos sofrer na pele a inversão de papéis... Até uma certa altura da nossa vida não pensamos nem temos noção de como as coisas mudam... aqueles que durante toda a nossa vida vimos como os nossos protectores, o nosso porto seguro a envelhecerem e a precisarem mais de nós do que aquilo que alguma vez imaginamos... não é nada fácil essa decisão de que falas, mas concerteza será a melhor para eles e para a família toda. Realmente é uma decisão muito dolorosa, principalmente se eles não compreendem ou se os mais próximos nos julgam... força para ti e família, um bjinho com carinho, pois sei a dor e a inquietação que sentes.

pepita chocolate disse...

Permite que te invada o espaço, dizendo-te que sei bem pelo que passas. Nada do que te possa dizer te vai aliviar a alma ou ajudar a tomar a resolução. porque essa terás mesmo de ser tu a tomá-la. Infelizmente, no ano paasado passei pela provação de uma grave doença familiar. Não era minha mãe, mas alguém a quem quase poderia chamar isso. Foi doença complicada, com distâncias muito grandes pelo meio. Mas o seu acompanhamento em casa deu-me muita força enquanto ser e mulher que sou. É difícl. Faltam-nos as forças. Mas percebemos que demos tudo de nós para que o seu fim fosse junto de quem ama. Hoje voltaria a fazer tudo de novo. Espero um dia fazê-lo aos meus pais. Voltar a ter a coragem que fui buscar não sei onde.

Se tiveres oportunidade de ter alguém em casa com eles, fá-lo, se não puderes ser tu!Acredita que estarão mais felizes junto daqueles que viram nascer e crescer.
Mas esta é a minha modesta opinião.

Um beijinho e que tomes a resolução que seja melhor para todos.

Anónimo disse...

Não sei dizer!

Na minha história muito concreta e muito pessoal (como todas!), passei pelo período de doença da minha mãe, quase exclusivamente, à distância (estava em França na altura), sem poder ver as diversas fases, sem poder dar-lhe apoio ou ao meu pai. Foi um período de grande ansiedade, acrescida de uma imensa sensação de impotência, frustração e sentimento de culpa, que dura até hoje.

Tudo isto misturado com as esperanças trazidas por uma reacção atipicamente boa a um transplante e com o choque de uma recaída quando menos se esperava! (embora o quadro final fosse omnipresente).

E vir a correr (de avião) só para lhe acariciar pela última vez o cabelo e as mãos…

Depois o meu pai. Tudo mais rápido. Menos de uma semana para pensar em arranjar um espaço onde ele pudesse ficar (e assimilar a ideia), uma vez que a recuperação total seria impossível. Um espaço que veio a revelar-se inútil pois ele acabou por não resistir.

Foi melhor assim, disseram-se e assim penso a maior parte do tempo. Egoisticamente, acho que os momentos difíceis e as lágrimas depois de lhe virar costas numa qualquer instituição, após cada visita, seriam compensados pela sua presença.

E com a morte do meu pai a minha mãe, que subsistia nas memórias comuns, morreu de novo e definitivamente. Esta sensação foi uma surpresa!

E após tudo isto. O pior para mim!! Arrumar. Esvaziar uma casa onde durante mais de 30 anos se foram construindo as nossas vidas. Encontrar as tralhas escondidas, esquecidas, das nossas vidas. Escolher os objectos que passarão para as gerações futuras, os símbolos a preservar, os apontamentos significativos daquilo que foi uma família. O peso do dever de preservar algo. Custou-me ser filho único pela primeira vez neste momento! Por necessidade, desfazer-me de quase tudo.

E depois um vazio. Ainda hoje, com uma vida cheia de outras coisas, todos os dias, sinto as ausências, sinto os vazios deixados. Sei que será assim para sempre! Serenamente!

blimunda sete luas disse...

Meu amigo,

Não leves a mal a opção por publicar o teu comentário. Conheço a tua história o suficiente para saber que veio das entranhas.

É também com a partilha das nossas histórias que nos vamos apoiando uns aos outros. Sim, fez-me bem. Fará bem também a outros que não conhecemos mas que passam por aqui.

Obrigada.

Susana disse...

O meu avô era o verdadeiro "patriarca" da família, aquele que deu tudo para nos erguer, para nos ver feliz, era amado e querido por todos nós sem excepção...vê-lo perdido numa doença terrível que o transportou para outro mundo, para um mundo só dele, no qual nós não pertencíamos, no qual nem nos reconhecia, foi terrivelmente doloroso para todos nós...
Cedo percebemos que não conseguiamos providenciar-lhe todo o apoio de que necessitava em casa...a decisão foi a mais dolorosa, mas foi tomada mais uma vez pela família toda. Assumimos o compromisso de que mesmo longe, ele nunca estaría só...e nunca esteve, nem por um dia! Teve todos os cuidados básicos de que necessitava e teve visitas diárias da família, muitas vezes de toda a família e sei, tenho a certeza, que nunca lhe faltou Amor, carinho e ternura de todos nós! Pela minha parte cresci muito nesse processo, para além de ter ganho uma nova família...no meio de tantas pessoas que nunca tiveram uma visita de um familiar, eu tive a oportunidade de fazer amizades, de distribuir atenção e ternura por tantos que também precisavam...Ainda hoje os visito, mesmo um ano após o meu avô ter desaparecido!
Foi uma decisão díficil sim, mas foi tomada em conjunto e em todos os dias que visitei o meu avô, fiz questão de lhe dizer o quanto o amava, mesmo que ele não me ouvisse ou reconhecesse... isso foi sempre o mais importante.
Quando partiu, a dor foi imensa, mas tive a certeza que sabia o quanto foi amado!

Força