terça-feira, março 11, 2014
Manual de sobrevivência para mulheres solteiras #12/12
12.
Compreende que sempre haverá coisas das quais não consegues dar conta sozinha.
Perdoa-te por isso, e pede ajuda.
domingo, março 02, 2014
Manual de sobrevivência para mulheres solteiras #11/12
11.
Encontras muitas alegrias na companhia dos gatos. Não te rales com
insinuações palermas sobre leis da compensação. Os gatos não são compensação
para nada. É apenas bom olhá-los nos olhos e sentir que lhes pertencemos.
domingo, fevereiro 23, 2014
Manual de sobrevivência para mulheres solteiras #10/12
10. Toma
cuidado, não vão as regras para a sobrevivência tornar-se mais importantes que
as próprias vivências. Se tal acontecer, deves parar para reflectir. Volta à
regra n.º 5 sempre que necessário.
quarta-feira, fevereiro 19, 2014
Manual de sobrevivência para mulheres solteiras #9/12
9. Receita
para combater o envelhecimento: investir na carreira profissional. À medida que
ficares enrugada, não te faltará dinheiro para comprar bons cremes.
domingo, fevereiro 16, 2014
Manual de sobrevivência para mulheres solteiras #8/12
8. Se não tiveres companhia nas férias, vai sozinha. Na certeza de que a experiência será bastante melhor do que esperas, não sendo tão boa quanto imaginas.
quarta-feira, fevereiro 12, 2014
Manual de sobrevivência para mulheres solteiras #7/12
7. Ao longo da tua vida de solteira, vão começar por
perguntar-te se já namoras. Mais tarde, perguntar-te-ão quando é que te
casas. Por outro lado, amigas e conhecidas tuas casadas e com filhos irão falar do quanto te invejam, porque acham que tens tempo para fazer imensas
coisas interessantes que elas não têm oportunidade de fazer. Para todas
estas conversas, se não vires nelas maldade, basta que tenhas previamente
preparado um sorriso de mofa e uma resposta tão superficial quanto o conteúdo
das observações. A mais não estarás obrigada.
domingo, fevereiro 09, 2014
Manual de sobrevivência para mulheres solteiras #6/12
6. Olha que o GPS é um bom amigo. Não resolve tudo, mas
deixa-te lá perto.
quarta-feira, fevereiro 05, 2014
Manual de sobrevivência para mulheres solteiras #5/12
5. Para aqueles
momentos que abalam, inquietam, estruturam, determinam: Pizza e vinho tinto. Não te preocupes; na
hora certa, saberás muito bem quais são.
domingo, fevereiro 02, 2014
Manual de sobrevivência para mulheres solteiras #4/12
4. É perfeitamente razoável que um dos princípios
fundamentais da tua existência seja nunca trocar um pneu nos dias da vida. É
porém aconselhável ter um seguro automóvel com assistência em viagem ao quilómetro
zero.
quarta-feira, janeiro 29, 2014
Manual de sobrevivência para mulheres solteiras #3/12
3. Não desistas à primeira dificuldade: uma boa parte
das coisas que não consegues acartar, consegues arrastar! :-)
domingo, janeiro 26, 2014
Manual de sobrevivência para mulheres solteiras #2/12
2. Corrige o ditado popular: mais vale só do que
mal-amada. Valoriza-te.
quarta-feira, janeiro 22, 2014
Manual de sobrevivência para mulheres solteiras #1/12
Nota prévia: Nas próximas semanas, publicação periódica de uma dúzia de parvoíces (ou nem tanto) com algumas dicas importantes para a sobrevivência de mulheres solteiras. Aceitam-se contributos para enriquecer este manual. :-)
1. É certo e sabido que tudo na vida de uma mulher solteira gira em torno do objectivo de encontrar o homem certo: o mecânico certo; o canalizador certo; o electricista certo; o homem-que-põe-candeeiros-e-cortinados-e-repara-electrodomésticos-e-faz-tudo-de-um-modo-geral, certo.
1. É certo e sabido que tudo na vida de uma mulher solteira gira em torno do objectivo de encontrar o homem certo: o mecânico certo; o canalizador certo; o electricista certo; o homem-que-põe-candeeiros-e-cortinados-e-repara-electrodomésticos-e-faz-tudo-de-um-modo-geral, certo.
quinta-feira, dezembro 05, 2013
Da revolução
Recordo a visão de duas linhas paralelas que me deixaram à deriva de mim. A revolução começou aí mas já tinha começado antes, como sempre acontece com tudo o que se manifesta em nós, ou perante nós, em algum momento começou e nem ligámos, estávamos ocupados com outras coisas que julgávamos mais importantes. Levamos a vida enganados e nem sempre sabemos que nada sabemos.
Recordo um dia em Lisboa com uma fila de trânsito tão gigante que ia de uma ponta à outra de todo o meu mundo e me obrigava a parar, a parar, e que teimava em não me deixar chegar onde eu julgava ser o meu destino. O destino afinal estava certo, apenas não naquele dia. Mas em cada pára-arranca havia uma dor a dilacerar-me por dentro, perdida, tão perdida que eu andei, à procura de mim própria e sem me encontrar em lado nenhum, nem no que já não podia voltar a ser, nem no que a revolução me transformara já, mesmo enquanto a recusava e tentava deitá-la no lixo.
Recordo o medo, não há revolução que não o traga consigo, acho eu. Recordo uma jorna que afinal não era para mim e por causa disso, num segundo toda eu era medo da revolução que já era, no segundo a seguir toda eu me tornei medo que a revolução deixasse de me ser. Vejo agora quanto de mim gastei a ter medo, e disso me arrependo para o resto dos meus dias.
Recordo o silêncio que impregnou as folhas das árvores que estão no lugar das conversas difíceis. Gemeram baixinho à medida que a revolução passava por elas e depois se calaram para sempre. Outras vozes se fizeram ouvir, nos lugares das conversas dos afectos, no calor das mãos que se agarraram às minhas, nos passos que me acompanharam pelos caminhos. Foram essas as vozes que não me deixaram perder os pontos cardeais do que sou, nem permitiram que a revolução me fizesse abismo, ou o silêncio me fizesse rancor.
Recordo os olhares tristes dos prenúncios da morte, uma vez, depois outra, depois outra, até à sentença final que já se fazia anunciar e então nada mais restou do que um corredor comprido feito de todos os estágios da dor que se encontram identificados, mais todos os outros que ainda ninguém foi capaz de pôr por escrito, porque para tanto ainda não houve conhecimentos ou coragem. Percorri-o até ao fim sem pretensões de heroísmo, não vejo mérito na inevitabilidade. Cheguei ao outro lado sem ponta de mim própria, esvaída de tudo menos de perguntas, órfãs de destinatário e é claro, de respostas.
Recordo enfim o pensamento de que a revolução cessara e de que tudo fora, afinal, em vão. Não é verdade. A revolução abalou, trespassou, demoliu, não deixou pedra sobre pedra. Mas o ground zero em que me tornei é agora o espaço onde me reconstruo, num processo duro e doloroso, próprio do nascimento, que afinal acontece muitas e muitas vezes ao longo de toda uma vida. A revolução continua no que vier a tornar-me por causa dela.
Da minha filha que não chegou a nascer.
Recordo um dia em Lisboa com uma fila de trânsito tão gigante que ia de uma ponta à outra de todo o meu mundo e me obrigava a parar, a parar, e que teimava em não me deixar chegar onde eu julgava ser o meu destino. O destino afinal estava certo, apenas não naquele dia. Mas em cada pára-arranca havia uma dor a dilacerar-me por dentro, perdida, tão perdida que eu andei, à procura de mim própria e sem me encontrar em lado nenhum, nem no que já não podia voltar a ser, nem no que a revolução me transformara já, mesmo enquanto a recusava e tentava deitá-la no lixo.
Recordo o medo, não há revolução que não o traga consigo, acho eu. Recordo uma jorna que afinal não era para mim e por causa disso, num segundo toda eu era medo da revolução que já era, no segundo a seguir toda eu me tornei medo que a revolução deixasse de me ser. Vejo agora quanto de mim gastei a ter medo, e disso me arrependo para o resto dos meus dias.
Recordo o silêncio que impregnou as folhas das árvores que estão no lugar das conversas difíceis. Gemeram baixinho à medida que a revolução passava por elas e depois se calaram para sempre. Outras vozes se fizeram ouvir, nos lugares das conversas dos afectos, no calor das mãos que se agarraram às minhas, nos passos que me acompanharam pelos caminhos. Foram essas as vozes que não me deixaram perder os pontos cardeais do que sou, nem permitiram que a revolução me fizesse abismo, ou o silêncio me fizesse rancor.
Recordo os olhares tristes dos prenúncios da morte, uma vez, depois outra, depois outra, até à sentença final que já se fazia anunciar e então nada mais restou do que um corredor comprido feito de todos os estágios da dor que se encontram identificados, mais todos os outros que ainda ninguém foi capaz de pôr por escrito, porque para tanto ainda não houve conhecimentos ou coragem. Percorri-o até ao fim sem pretensões de heroísmo, não vejo mérito na inevitabilidade. Cheguei ao outro lado sem ponta de mim própria, esvaída de tudo menos de perguntas, órfãs de destinatário e é claro, de respostas.
Recordo enfim o pensamento de que a revolução cessara e de que tudo fora, afinal, em vão. Não é verdade. A revolução abalou, trespassou, demoliu, não deixou pedra sobre pedra. Mas o ground zero em que me tornei é agora o espaço onde me reconstruo, num processo duro e doloroso, próprio do nascimento, que afinal acontece muitas e muitas vezes ao longo de toda uma vida. A revolução continua no que vier a tornar-me por causa dela.
Da minha filha que não chegou a nascer.
domingo, maio 19, 2013
De madrasta a madrinha
Esta é uma história de amor. E todas as histórias de amor merecem, mais tarde ou mais cedo, que venha o mundo a conhecê-las, não por vaidade de quem as vive, mas apenas porque de desgraça e miséria já todos andamos fartos, e temos por isso obrigação de apontar o dedo às coisas bonitas e boas que sempre sucedem, e que tantas vezes teimamos em não ver.
Há coisa de dois anos atrás, chorava assim a dor de uma separação que parecia inevitável, indo naturalmente a reboque de outra. Só que não foi isso que aconteceu.
Menosprezamos muito as crianças, nós, arrogantes adultos. Devo a este meu amigo para a vida o não se ter conformado com a aparente inevitabilidade de nunca mais me encontrar. Recusou-se, o fedelho, a perder-me o rasto, e com dez anos de idade veio no meu encalço para me dizer que tinha saudades. E eu também as tinha, tantas. Não tinha era a coragem que ele teve. Então, juntaram-se vontades e ultrapassaram-se barreiras para que pudéssemos continuar amigos, pois se isso dava alegria a todos.
É redundante dizer que este é um menino especial, todos o são, aos olhos dos que tenham a sorte de estar por perto a olhá-los. Este para quem eu olho, é mesmo muito determinado, e estava hoje imensamente feliz, porque conquistou algo que para ele tem uma grande importância.
Eu não compreendo que razões levam um pré-adolescente dos dias de hoje a fazer tanta questão de ser baptizado. Nada me diz essa instituição chamada Igreja Católica, onde ele hoje me levou, para participar num ritual onde são ditas coisas que nem consigo ter palavras para classificar. A igreja fala uma linguagem que eu não compreendo. Mas julgo que compreendi desde o início a linguagem dele, no laço que ele quis estabelecer comigo, através deste ritual do baptismo.
Poderá dizer-se que fui bastante hipócrita perante os crentes, aceitando um papel de destaque numa casa que não é minha, ainda para mais carregando tanta objecção de consciência a tudo o que por ali se passa.
Porém, acredito que nesta história de amor tão bonita, em que passei de madrasta a madrinha, fala-se numa linguagem que Deus, se existisse, certamente iria compreender.
Há coisa de dois anos atrás, chorava assim a dor de uma separação que parecia inevitável, indo naturalmente a reboque de outra. Só que não foi isso que aconteceu.
Menosprezamos muito as crianças, nós, arrogantes adultos. Devo a este meu amigo para a vida o não se ter conformado com a aparente inevitabilidade de nunca mais me encontrar. Recusou-se, o fedelho, a perder-me o rasto, e com dez anos de idade veio no meu encalço para me dizer que tinha saudades. E eu também as tinha, tantas. Não tinha era a coragem que ele teve. Então, juntaram-se vontades e ultrapassaram-se barreiras para que pudéssemos continuar amigos, pois se isso dava alegria a todos.
É redundante dizer que este é um menino especial, todos o são, aos olhos dos que tenham a sorte de estar por perto a olhá-los. Este para quem eu olho, é mesmo muito determinado, e estava hoje imensamente feliz, porque conquistou algo que para ele tem uma grande importância.
Eu não compreendo que razões levam um pré-adolescente dos dias de hoje a fazer tanta questão de ser baptizado. Nada me diz essa instituição chamada Igreja Católica, onde ele hoje me levou, para participar num ritual onde são ditas coisas que nem consigo ter palavras para classificar. A igreja fala uma linguagem que eu não compreendo. Mas julgo que compreendi desde o início a linguagem dele, no laço que ele quis estabelecer comigo, através deste ritual do baptismo.
Poderá dizer-se que fui bastante hipócrita perante os crentes, aceitando um papel de destaque numa casa que não é minha, ainda para mais carregando tanta objecção de consciência a tudo o que por ali se passa.
Porém, acredito que nesta história de amor tão bonita, em que passei de madrasta a madrinha, fala-se numa linguagem que Deus, se existisse, certamente iria compreender.
quarta-feira, maio 01, 2013
A minha carta para o Tiago Bettencourt
(Vamos passar à frente o facto de estar há meses sem publicar aqui nada? Vamos. Até porque na verdade ninguém está ralado com isso, nem sequer eu).
Meus amigos, concorri ao passatempo da Rádio Comercial para ir ao concerto mais pequeno do mundo com o Tiago Bettencourt, de quem sou grande fã e groupie em espírito (não posso ser mais do que isso, tenho que trabalhar para viver), e o impossível aconteceu: não fui seleccionada.
O passatempo pedia que escrevêssemos uma versão alternativa da "Carta", o que fiz de forma entusiasmada, mas cujo resultado final parece afinal ter sido sobrevalorizado. Por mim, claro está.
Como não tenho mesmo vergonha nenhuma na cara, aqui fica o que remeti para concurso mas que, infelizmente, não me deu direito a ficar ao colo do Tiago Bettencourt durante um concerto e a passar uma noite com ele num hotel. (Hã?... como assim, nunca seria exactamente isso?...)
Bem, aqui está a minha versão da "Carta":
Não falei contigo
Com medo de não me sair nada de jeito
E de cair aos teus pés…
Acredito e entendo
Que toda a gente queira mais ou menos
O mesmo que eu
Um lugarzinho no concerto...
Vontade é o que vai
Aumentando a toda a hora
De cada vez que te oiço
Na Rádio Comercial
No Concerto Mais Pequeno do Mundo.
Agora que isto está despachado
... E é isto. Então até daqui a cinco meses, sim?...
Meus amigos, concorri ao passatempo da Rádio Comercial para ir ao concerto mais pequeno do mundo com o Tiago Bettencourt, de quem sou grande fã e groupie em espírito (não posso ser mais do que isso, tenho que trabalhar para viver), e o impossível aconteceu: não fui seleccionada.
O passatempo pedia que escrevêssemos uma versão alternativa da "Carta", o que fiz de forma entusiasmada, mas cujo resultado final parece afinal ter sido sobrevalorizado. Por mim, claro está.
Como não tenho mesmo vergonha nenhuma na cara, aqui fica o que remeti para concurso mas que, infelizmente, não me deu direito a ficar ao colo do Tiago Bettencourt durante um concerto e a passar uma noite com ele num hotel. (Hã?... como assim, nunca seria exactamente isso?...)
Bem, aqui está a minha versão da "Carta":
Não falei contigo
Com medo de não me sair nada de jeito
E de cair aos teus pés…
Acredito e entendo
Que toda a gente queira mais ou menos
O mesmo que eu
Um lugarzinho no concerto...
Vontade é o que vai
Aumentando a toda a hora
De cada vez que te oiço
Na Rádio Comercial
Mas sinto que sabes que se chegar a estar no Acústico,
Também vai ser bom para ti
E mesmo que não seja….
Também vai ser bom para ti
E mesmo que não seja….
Para mim vai ser de certeza.
É que hoje acordei e lembrei-me
Que imaginação é coisa que não me falta
E posso pôr tudo numa folha de papel
Nela viajo para as Caldas
Para as Caaaaldas,
Que imaginação é coisa que não me falta
E posso pôr tudo numa folha de papel
Nela viajo para as Caldas
Para as Caaaaldas,
Para ver o Tiago
Bettencourt!....
Desconfio que ainda não reparaste
Que estou mesmo disposta a levar isto por diante
Que estou mesmo disposta a levar isto por diante
E a garantir o meu lugar
No Concerto
Mais Pequeno do Mundo.
E que para isso não me importo mesmo nada
De destruir uma canção tão bonita como a Carta,
Mas o que é que queres,
Foi o que mandaram a malta fazer.
De destruir uma canção tão bonita como a Carta,
Mas o que é que queres,
Foi o que mandaram a malta fazer.
Anseio o dia em que vou pôr os meus pezinhos
No SANA Silver Coast das Caldas da Rainha
É que o programa é mesmo perfeito.
Já sei as músicas todas de cor, aliás
Vou ter que fazer um esforço para me controlar
Não dar barraca e ser chata para as outras pessoas.
É que hoje acordei e lembrei-me
Que imaginação é coisa que não me falta
Que posso pôr tudo numa folha de papel
Nela viajo para as Caldas
Para as Caaaaldas,
Que imaginação é coisa que não me falta
Que posso pôr tudo numa folha de papel
Nela viajo para as Caldas
Para as Caaaaldas,
Para ver o Tiago
Bettencourt!....
No Concerto
Mais Pequeno do Mundo.
Desculpa se suspirar muito alto
Quando cantares o "Caminho de Voltar"
Ou o "Chocámos tu e eu"
Mas isso são coisas que eu cá sei
Desculpa se a Rádio Comercial
Fizer o disparate de não me seleccionar
Logo a mim, que passo a vida a partilhar
As tuas músicas no facebook...
É que hoje acordei e lembrei-me
Que imaginação é coisa que não me falta...
Nela viajo para as Caldas
Para as Caaaaldas,
Para ver o Tiago
Bettencourt!....Para as Caaaaldas,
No Concerto Mais Pequeno do Mundo.
Agora que isto está despachado
Tenho que te confessar uma coisa
Agora que isto está despachado...
Estou bastante convencida
Que tens covinhas por baixo da barba.
É uma ideia que eu tenho...
É uma ideia que eu tenho...
... E é isto. Então até daqui a cinco meses, sim?...
quarta-feira, novembro 14, 2012
Money makes de world go round
Hoje houve greve outra vez. Houve quem fizesse e quem não fizesse, há
quem continue a acreditar na greve como uma boa forma de chegarmos a algum lado
e há quem ache que esta é apenas uma maneira de marcar passo sem sair do mesmo
sítio. Respeito a decisão de cada um, que isto é apenas a
democracia a funcionar, e ainda bem que assim é. Não é disso que me apetece
falar.
Concordo que os motivos para protestar são mais que muitos, mas sobre isso também não tenho nada de novo ou interessante para dizer, e nessas circunstâncias, mais vale ficar calada.
A minha perplexidade conduz-me por vezes a outras reflexões. Vivemos tempos muito desorientados. É sabido que pertencemos a uma época histórica onde a incerteza face ao futuro é um dado adquirido, mas a verdade é que isso hoje em dia atinge um extremo tal que compromete a vida do nosso dia-a-dia. Será que posso fazer planos para daqui a três anos? Quais três anos, será que posso fazer planos para o ano que vem? Mas como assim, para o ano que vem? Que novidades terei eu hoje à noite que poderão pôr em causa tudo o que projectei até ao final deste mês?
Provavelmente, estas são angústias em que muitos se revêm. Aliás, o que vejo e oiço nas notícias diariamente leva-me a acreditar esta é uma desorientação generalizada a toda a gente e isso, meus amigos, é que me mete um medo do caracinhas. Quando digo toda a gente falo das pessoas, pessoas de carne e osso que compõem o “povo” e a “classe média”, das pessoas que compõem os “empresários” e os “patrões”, das pessoas que compõem o “governo” e a “oposição”. Até das pessoas que compõem a “troika” e os “mercados” e a “Merkel”, porque afinal, por muito que a gente se esqueça disto (e como é fácil a gente esquecer-se disto), estamos sempre a falar de pessoas – até mesmo a Merkel, até prova em contrário, é uma pessoa. E todas estas pessoas, especialmente aquelas que era suposto saberem o que andam a fazer, parece-me que andam todas desorientadas, sem terem a mínima ideia de para onde é que tudo isto caminha. Ou seja, para onde é que caminhamos todos.
Não tenho conhecimentos suficientes de economia, de política ou de finanças para sustentar uma opinião sobre esta crise, se ela é ou não substancialmente diferente de outras crises vividas no passado. Mas o bom senso diz-me que as soluções a encontrar têm que ser ajustadas ao período histórico em que estamos. E a sociedade, a conjuntura económica, com toda a certeza, não é a mesma da que foi vivida noutros períodos de crise. Se o único casaco que tenho hoje para vestir for aquele que tinha em 1982, quando tinha dez anos, não é preciso ser muito esperta para perceber que vou passar frio, porque o casaco já não me serve.
Julgo que isto também se aplica às formas de protesto social, se não estiverem ajustadas no tempo, para que servem elas? Por isso o meu pensamento a cada nova greve é sempre este: greve? Nos nossos dias? Sim senhor é para protestar, está bem. O (des?)governo lá tomará conhecimento do descontentamento. As pessoas sentirão que ao menos fizeram alguma coisa, que não se conformaram às aparentes inevitabilidades. Mas, e depois a seguir? Nos dias de hoje, fazer greve é para combater e modificar que circunstâncias? Para afectar que entidades? Para influenciar o quê? Para produzir que resultados? Não consigo responder, e sinceramente, ainda ontem ouvi um dirigente sindical a falar na televisão que também não conseguiu.
Ah, mas eu tenho a certeza que tenho poder. Cada um de nós , aliás,tem imenso poder. E sem dúvida que se formos capazes de juntar o poder individual, ganhamos todos um poder de influência que de outra forma não temos, claro que sim. Como diria o outro, é só fazer contas. O poder do voto, pois sim, falemos desse. Mas falemos também de um outro poder, que exercemos todos os dias, quase tão constantemente quanto respiramos: o poder do consumo. O dinheiro que todos os dias entregamos nos mais diversos sítios e que faz o mundo girar, como tão bem cantava a Liza Minnelli. Afinal, se o que move o mundo é o capital e o consumo, aquilo que decidimos consumir ou não consumir é o que faz tocar as bandas todas, não é? O que acontecia ao mundo se por trás de cada acto de consumo estivesse uma consciência cívica? Por exemplo, um gajo que não pague estacionamento numa zona tarifada é multado e está lixado. Então, e se ninguém pagar? Sistemática e generalizadamente, quero eu dizer. O que é que acontece? E nos transportes? E nos combustíveis? E nos diferentes artigos à venda nos supermercados? E nos bancos? Não me entendam mal, eu não estou a falar de anarquia. Pelo contrário, estou a falar de organização.
Sei que não sou de todo a única a ouvir cada vez mais ao longe os sindicatos e os partidos políticos. Falam uma linguagem que pouco ou nada me diz, vivem lá no seu mundo, eu vivo no meu, o que até seria uma boa maneira de vivermos todos se o que eles por aí falam e fazem não acabasse por influenciar a minha própria realidade, quase sempre de forma que não me agrada. Fico a questionar-me, por onde andarão as associações de consumidores? Será que em algum momento tomarão consciência do poder e influência que podem vir a ter?
Poderá toda esta linha de pensamento ser fruto de uma desorientação individual, e nada disto faça sentido. Mas termino concordando com as palavras de Estrela Serrano, quando diz que há "matéria para repensar tudo o que tínhamos por adquirido".
Concordo que os motivos para protestar são mais que muitos, mas sobre isso também não tenho nada de novo ou interessante para dizer, e nessas circunstâncias, mais vale ficar calada.
A minha perplexidade conduz-me por vezes a outras reflexões. Vivemos tempos muito desorientados. É sabido que pertencemos a uma época histórica onde a incerteza face ao futuro é um dado adquirido, mas a verdade é que isso hoje em dia atinge um extremo tal que compromete a vida do nosso dia-a-dia. Será que posso fazer planos para daqui a três anos? Quais três anos, será que posso fazer planos para o ano que vem? Mas como assim, para o ano que vem? Que novidades terei eu hoje à noite que poderão pôr em causa tudo o que projectei até ao final deste mês?
Provavelmente, estas são angústias em que muitos se revêm. Aliás, o que vejo e oiço nas notícias diariamente leva-me a acreditar esta é uma desorientação generalizada a toda a gente e isso, meus amigos, é que me mete um medo do caracinhas. Quando digo toda a gente falo das pessoas, pessoas de carne e osso que compõem o “povo” e a “classe média”, das pessoas que compõem os “empresários” e os “patrões”, das pessoas que compõem o “governo” e a “oposição”. Até das pessoas que compõem a “troika” e os “mercados” e a “Merkel”, porque afinal, por muito que a gente se esqueça disto (e como é fácil a gente esquecer-se disto), estamos sempre a falar de pessoas – até mesmo a Merkel, até prova em contrário, é uma pessoa. E todas estas pessoas, especialmente aquelas que era suposto saberem o que andam a fazer, parece-me que andam todas desorientadas, sem terem a mínima ideia de para onde é que tudo isto caminha. Ou seja, para onde é que caminhamos todos.
Não tenho conhecimentos suficientes de economia, de política ou de finanças para sustentar uma opinião sobre esta crise, se ela é ou não substancialmente diferente de outras crises vividas no passado. Mas o bom senso diz-me que as soluções a encontrar têm que ser ajustadas ao período histórico em que estamos. E a sociedade, a conjuntura económica, com toda a certeza, não é a mesma da que foi vivida noutros períodos de crise. Se o único casaco que tenho hoje para vestir for aquele que tinha em 1982, quando tinha dez anos, não é preciso ser muito esperta para perceber que vou passar frio, porque o casaco já não me serve.
Julgo que isto também se aplica às formas de protesto social, se não estiverem ajustadas no tempo, para que servem elas? Por isso o meu pensamento a cada nova greve é sempre este: greve? Nos nossos dias? Sim senhor é para protestar, está bem. O (des?)governo lá tomará conhecimento do descontentamento. As pessoas sentirão que ao menos fizeram alguma coisa, que não se conformaram às aparentes inevitabilidades. Mas, e depois a seguir? Nos dias de hoje, fazer greve é para combater e modificar que circunstâncias? Para afectar que entidades? Para influenciar o quê? Para produzir que resultados? Não consigo responder, e sinceramente, ainda ontem ouvi um dirigente sindical a falar na televisão que também não conseguiu.
Ah, mas eu tenho a certeza que tenho poder. Cada um de nós , aliás,tem imenso poder. E sem dúvida que se formos capazes de juntar o poder individual, ganhamos todos um poder de influência que de outra forma não temos, claro que sim. Como diria o outro, é só fazer contas. O poder do voto, pois sim, falemos desse. Mas falemos também de um outro poder, que exercemos todos os dias, quase tão constantemente quanto respiramos: o poder do consumo. O dinheiro que todos os dias entregamos nos mais diversos sítios e que faz o mundo girar, como tão bem cantava a Liza Minnelli. Afinal, se o que move o mundo é o capital e o consumo, aquilo que decidimos consumir ou não consumir é o que faz tocar as bandas todas, não é? O que acontecia ao mundo se por trás de cada acto de consumo estivesse uma consciência cívica? Por exemplo, um gajo que não pague estacionamento numa zona tarifada é multado e está lixado. Então, e se ninguém pagar? Sistemática e generalizadamente, quero eu dizer. O que é que acontece? E nos transportes? E nos combustíveis? E nos diferentes artigos à venda nos supermercados? E nos bancos? Não me entendam mal, eu não estou a falar de anarquia. Pelo contrário, estou a falar de organização.
Sei que não sou de todo a única a ouvir cada vez mais ao longe os sindicatos e os partidos políticos. Falam uma linguagem que pouco ou nada me diz, vivem lá no seu mundo, eu vivo no meu, o que até seria uma boa maneira de vivermos todos se o que eles por aí falam e fazem não acabasse por influenciar a minha própria realidade, quase sempre de forma que não me agrada. Fico a questionar-me, por onde andarão as associações de consumidores? Será que em algum momento tomarão consciência do poder e influência que podem vir a ter?
Poderá toda esta linha de pensamento ser fruto de uma desorientação individual, e nada disto faça sentido. Mas termino concordando com as palavras de Estrela Serrano, quando diz que há "matéria para repensar tudo o que tínhamos por adquirido".
segunda-feira, outubro 22, 2012
Elisa, filha de ninguém #7/7
Com o tempo as filhas casaram e tiveram os
seus filhos, o Manuel abraçou e beijou muitos netos. Mas o seu envelhecimento
foi precoce, e um certo modo de olhar por cima do ombro tornou-se numa coisa
comum. Os seus olhos nunca mais perderam um brilho peculiar, o do terror de
quem espera o seu castigo a qualquer momento, que certamente será terrível,
inclemente, que se não vier dos homens virá de Deus, ou quem sabe de si próprio.
A nós só nos resta reflectir sobre qual dos três juízes é o pior, e qual deles
dará a sentença que mais faz sofrer os condenados.
Nesta cabeça que foi atravessada por tantos pensamentos numa só noite, apenas um prevaleceu e tomou conta de todo o seu espírito. Cristalizou-se dentro de si uma certeza, a de que o castigo chegaria, a qualquer momento, na figura de um polícia que o levaria preso. Tudo começou com o enterro da filha de ninguém mas continuou pelos anos fora, pobre Manuel, nesta história pelo menos o pior dos três juízes foi ele próprio, que se condenou para o resto da vida, sem apelo nem perdão. A justiça dos homens talvez tivesse sido mais branda, quanto à de Deus fica-se sempre nesta dúvida, basta lembrar que se nem para a Elisa filha de ninguém há garantias dela ter sido recebida no Paraíso, que dizer do homem que a enterrou por duas vezes.
Mais de vinte anos depois, um velho muito velho está sentado à soleira da porta para apanhar o sol do fim da tarde. Vencido pela demência, olha aterrorizado para um homem que abre o portão do quintal, seguido de uma mulher e duas crianças que vêm direitas a ele. Reconhece a filha mais nova e pergunta, tal como faz constantemente, que homem é aquele e se é o polícia que o vem buscar. Elisa passa-lhe a mão pela cabeça e pergunta, Meu pai, então não vês que é o meu marido, e vinha a polícia buscar-te porquê. Manuel olha-a bem de frente para responder, Tu bem sabes, tu bem sabes porquê. Elisa beija o pai e entra em casa, deixa o velho entregue a si próprio. Estes episódios tornaram-se banais e já ninguém lhes dá importância. Para quê recordar um tempo infeliz que não fez história? Todos fizeram por esquecer aquela simples forma de vida, que de tão pouco o tempo que existiu, foi como se já tivesse nascido morta. Acreditemos nisto e será assim na memória de todos, uma menina que nasceu morta.
Todos conseguiram fazê-lo menos este homem que aqui está. Sem testemunhas nem denunciantes, prisioneiro de si próprio, condenado à morte pela própria consciência, Manuel sabe bem que não foi assim que tudo se passou. Na sua mente não há trevas. Quanto a nós, que estamos do lado de fora, a luz do sol também nos deixa ver com clareza, há um bebé morto naquele quintal que está vivo, há um homem vivo naquele quintal que está morto.
Nesta cabeça que foi atravessada por tantos pensamentos numa só noite, apenas um prevaleceu e tomou conta de todo o seu espírito. Cristalizou-se dentro de si uma certeza, a de que o castigo chegaria, a qualquer momento, na figura de um polícia que o levaria preso. Tudo começou com o enterro da filha de ninguém mas continuou pelos anos fora, pobre Manuel, nesta história pelo menos o pior dos três juízes foi ele próprio, que se condenou para o resto da vida, sem apelo nem perdão. A justiça dos homens talvez tivesse sido mais branda, quanto à de Deus fica-se sempre nesta dúvida, basta lembrar que se nem para a Elisa filha de ninguém há garantias dela ter sido recebida no Paraíso, que dizer do homem que a enterrou por duas vezes.
*
Mais de vinte anos depois, um velho muito velho está sentado à soleira da porta para apanhar o sol do fim da tarde. Vencido pela demência, olha aterrorizado para um homem que abre o portão do quintal, seguido de uma mulher e duas crianças que vêm direitas a ele. Reconhece a filha mais nova e pergunta, tal como faz constantemente, que homem é aquele e se é o polícia que o vem buscar. Elisa passa-lhe a mão pela cabeça e pergunta, Meu pai, então não vês que é o meu marido, e vinha a polícia buscar-te porquê. Manuel olha-a bem de frente para responder, Tu bem sabes, tu bem sabes porquê. Elisa beija o pai e entra em casa, deixa o velho entregue a si próprio. Estes episódios tornaram-se banais e já ninguém lhes dá importância. Para quê recordar um tempo infeliz que não fez história? Todos fizeram por esquecer aquela simples forma de vida, que de tão pouco o tempo que existiu, foi como se já tivesse nascido morta. Acreditemos nisto e será assim na memória de todos, uma menina que nasceu morta.
Todos conseguiram fazê-lo menos este homem que aqui está. Sem testemunhas nem denunciantes, prisioneiro de si próprio, condenado à morte pela própria consciência, Manuel sabe bem que não foi assim que tudo se passou. Na sua mente não há trevas. Quanto a nós, que estamos do lado de fora, a luz do sol também nos deixa ver com clareza, há um bebé morto naquele quintal que está vivo, há um homem vivo naquele quintal que está morto.
Fim de publicação
segunda-feira, outubro 15, 2012
Elisa, filha de ninguém # 6/7
Nascida para logo morrer, enterrada para se
desenterrar a seguir, o corpo de Elisa demorou a alcançar o tão aclamado eterno
descanso. Voltou aos braços do avô que seguiu a passos rápidos, furtivo, de regresso
a casa. Olhando para todos os lados, a cada momento esperava encontrar alguém que
finalmente apontasse o dedo e trouxesse a luz a toda esta escuridão. Mas a
noite continuou tranquila e o povo permaneceu adormecido. As forças já iam
faltando a este homem. Foi enfim no fundo do quintal, a meia dúzia de metros da
porta de sua casa que se abriu o segundo e definitivo buraco. Ali não havia o
perigo de alguém se pôr a escavar. O medo de ser descoberto tomou novamente
conta de si e por várias vezes se sobressaltou, imaginando alguém a espreitar
por cima do muro, bons dias Manuel, que fazes tu, a abrires buracos na terra a
estas horas da madrugada. A sua cabeça continuou a funcionar por conta própria,
pensando nas coisas mais absurdas, como se exibisse filmes de outras realidades
para seu próprio entretenimento. Lembrou-se de quando era criança e jogava ao
berlinde com outras crianças como ele. Lembrou-se da primeira mulher que o teve
nos braços, não sabia nada, ela é que me ensinou tudo, por onde andará. O
buraco está aberto, desta vez ficou mais fundo. Ocorreu-lhe de repente que um
pouco mais para o lado ali enterrou também um cão do qual gostava muito, só que
dessa vez fora diferente, o cão morrera de velho. Pensou em pronunciar uma
prece para pedir perdão a Deus, se para a absolvição basta o arrependimento
este homem já ia arrependido quando cometeu o seu crime, agora é só pedir. Mas
o cansaço venceu-o e esqueceu-se logo a seguir de pronunciar a prece que lhe
poderia dar a salvação.
Finalmente, tudo acabou. Os primeiros raios de luz vieram a tempo apenas para testemunhar o arrumar da enxada, encostada junto à porta das traseiras, por onde agora vai entrar este velho, que não o era ontem mas que assim se tornou durante a noite. Se ficarmos nós cá fora neste tempo e neste lugar, poderemos ver os homens a passar na direcção das máquinas que já os esperam, passaram mesmo junto ao muro, espreitaram para dentro mas não foi por mal, isto de espreitar por cima dos muros é próprio do ser humano, espreitam mesmo que não haja nada para ver, como é agora o caso, apenas uma enxada encostada a uma parede.
Manuel fechou a porta atrás de si. Três mulheres o aguardavam, mas ninguém falou do que se passara, há muitas maneiras para fazer com que o passado deixe de existir, e esta é uma delas. O dono da casa pediu água para se lavar, a quem primeiro pertencia servi-lo assim fez, as outras duas voltaram a deitar-se, cada uma com os seus pensamentos. Fechado na cozinha, imerso na tina cheia de água bem quente, Manuel procurou então impor o silêncio aos seus pensamentos. Em vão. Três pancadas bem dadas na porta despertaram novamente todos os alarmes, levantou-se de um pulo, a água transbordou pelo chão, é a polícia, vêm-me buscar. Quis mexer-se dali mas as pernas não lhe obedeceram, sentiu a urina quente deslizar e misturar-se com a água. Alguém me viu e denunciou-me, vou preso, não mereço outra coisa. É a polícia, já me vêm buscar, perguntou quando sua mulher entrou na cozinha. O rosto da mulher fechou-se, Não digas disparates, é o Joaquim a saber porque te demoras tanto a sair para o campo, quis saber se estás doente e eu disse-lhe que sim, que hoje não podes ir.
No dia seguinte já pôde ir, assim como nos outros todos. As mulheres seguiram também em frente com as suas vidas, a Maria fez das tripas coração e lá foi trabalhar ao fim de três dias, mais tempo de ausência e já seria de estranhar. Portas adentro, nunca mais aquela casa foi a mesma. Não se falou mais no assunto, cada um remoeu consigo mesmo tudo o que se passou. Ninguém perguntou à mãe, como foste capaz, à irmã, como não acordaste antes, à avó, como não deste por isso, ao avô, o que fizeste aos pensamentos.
Finalmente, tudo acabou. Os primeiros raios de luz vieram a tempo apenas para testemunhar o arrumar da enxada, encostada junto à porta das traseiras, por onde agora vai entrar este velho, que não o era ontem mas que assim se tornou durante a noite. Se ficarmos nós cá fora neste tempo e neste lugar, poderemos ver os homens a passar na direcção das máquinas que já os esperam, passaram mesmo junto ao muro, espreitaram para dentro mas não foi por mal, isto de espreitar por cima dos muros é próprio do ser humano, espreitam mesmo que não haja nada para ver, como é agora o caso, apenas uma enxada encostada a uma parede.
Manuel fechou a porta atrás de si. Três mulheres o aguardavam, mas ninguém falou do que se passara, há muitas maneiras para fazer com que o passado deixe de existir, e esta é uma delas. O dono da casa pediu água para se lavar, a quem primeiro pertencia servi-lo assim fez, as outras duas voltaram a deitar-se, cada uma com os seus pensamentos. Fechado na cozinha, imerso na tina cheia de água bem quente, Manuel procurou então impor o silêncio aos seus pensamentos. Em vão. Três pancadas bem dadas na porta despertaram novamente todos os alarmes, levantou-se de um pulo, a água transbordou pelo chão, é a polícia, vêm-me buscar. Quis mexer-se dali mas as pernas não lhe obedeceram, sentiu a urina quente deslizar e misturar-se com a água. Alguém me viu e denunciou-me, vou preso, não mereço outra coisa. É a polícia, já me vêm buscar, perguntou quando sua mulher entrou na cozinha. O rosto da mulher fechou-se, Não digas disparates, é o Joaquim a saber porque te demoras tanto a sair para o campo, quis saber se estás doente e eu disse-lhe que sim, que hoje não podes ir.
No dia seguinte já pôde ir, assim como nos outros todos. As mulheres seguiram também em frente com as suas vidas, a Maria fez das tripas coração e lá foi trabalhar ao fim de três dias, mais tempo de ausência e já seria de estranhar. Portas adentro, nunca mais aquela casa foi a mesma. Não se falou mais no assunto, cada um remoeu consigo mesmo tudo o que se passou. Ninguém perguntou à mãe, como foste capaz, à irmã, como não acordaste antes, à avó, como não deste por isso, ao avô, o que fizeste aos pensamentos.
Próxima (e última) publicação: 22 de Outubro
quinta-feira, outubro 11, 2012
Alienação
Sonho com casas de madeira à beira de lagos.
Com cobertores partilhados, a proteger do frio da tarde
e risos porque são pequenos para nos tapar aos dois.
Sonho com o lugar da tua companhia.
Com as portadas fechadas a proteger-nos do mundo,
e a parar os relógios, as lógicas e as consciências.
Há uma curva no teu braço que é o meu refúgio.
Quando lá chego, tudo o resto é paisagem.
Com cobertores partilhados, a proteger do frio da tarde
e risos porque são pequenos para nos tapar aos dois.
Sonho com o lugar da tua companhia.
Com as portadas fechadas a proteger-nos do mundo,
e a parar os relógios, as lógicas e as consciências.
Há uma curva no teu braço que é o meu refúgio.
Quando lá chego, tudo o resto é paisagem.
terça-feira, outubro 09, 2012
Elisa, filha de ninguém #5/7
Os pensamentos, os sentimentos, a maior parte
dos que o assaltam são terríveis. Pensa em como estão agora fechadas para
sempre as portas do Paraíso, pensa que não há no mundo inteiro perdão para um
crime tão medonho, e as mãos tremem-lhe enquanto enrola o corpo num lençol, enquanto
pega na enxada que será a sua única companhia em tão triste empreitada, pobre
homem que assim exerce o seu papel de pai, a absolvição da filha leva-o à
própria condenação. A noite permanecia silenciosa e escura, porém já não por
muito mais tempo. Quando pôs o pé na rua todos os seus pensamentos se dirigiram
para o terreno que ficava atrás da casa, perto o suficiente para chegar lá em
dez minutos, longe o suficiente para afastar de vez este horror, este horror,
tomara já que acabe para que enfim possa sentar-me e chorar. Assim pensava
Manuel quando chegou ao sítio destinado, o suor escorrendo no rosto, se alguém
decide madrugar e passar por estas bandas, que vai ser de mim, denunciam-me à
polícia, amanhã já me estão a bater à porta, prendem-me para o resto da vida. O
tempo urge, já o dissemos, e não é esta a altura mais própria para grandes
considerações teóricas sobre o bem e o mal. Se a decisão está tomada há que
pô-la em prática, deixemos os remorsos para quando for o tempo deles.
Porém já vimos que não será assim. Ao mesmo tempo que trabalham as mãos, são muitas e nefastas as considerações que aquela cabeça vai congeminando sozinha. Dir-se-ia até que se dividiu em dois, para um lado aquele que toma as decisões práticas, vamos por ali, naquele lugar o terreno é macio, vai ser mais fácil abrir o buraco, já está o corpo lá dentro, agora é só tapar. Para o outro lado, como pode isto ser, que estou eu a fazer, deitei-me esta noite e tudo era igual a todos os dias, ainda o dia não rompeu e estou a enterrar uma neta, que vai ser de nós todos se isto se sabe, pobre criança que não tem culpa de nada, a esta não se negará o Senhor a receber nos seus braços, e daí nunca se sabe, nem baptizada foi, não tem nome, o Padre diz sempre que quem não for baptizado não entra no reino dos Céus, oxalá tenham pena desta, senão até essa culpa terei que carregar daqui para a frente, a de ficar uma recém-nascida abandonada às portas do Céu, ao Deus-dará, e que estranho tudo isto me parece, acho que estou a ficar louco.
Enterrada a Elisa, Manuel respirou fundo e tentou pôr em ordem os seus pensamentos, a dura tarefa estava concluída. E no entanto prevalecia um sinal de alarme, uma inquietação incipiente mas persistente, o que foi, está terminado, deixem-me em paz um momento, isto dizia Manuel aos seus pensamentos, que em verdade se diga, quando eles são muitos ao ponto de nos encherem a cabeça, o barulho pode ser de tal forma ensurdecedor que nem conseguimos pensar nada que preste. Sentado no chão fechou os olhos, respirou fundo. Vou para casa, foi o que pensou, mas quando abriu os olhos o alarme que antes apenas se insinuara disparou como se fossem trombetas nos seus ouvidos, já antes tinha olhado mas só agora via, as máquinas estavam a postos para arar o terreno, foram ontem postas a jeito pelos homens que hoje irão manobrá-las, este terreno é de cultivo, mal o sol nasça vão rasgar a terra, abrir os sulcos e lançar as sementes, desta terra irão nascer coisas vivas, mas antes que para isso haja tempo irão pôr a descoberto o corpo de uma recém-nascida que, enterrado às pressas há apenas umas horas não ficou a mais de três palmos, se ali ficar não faltará muito tempo para que, mesmo morto, aquele corpo diga a quem quiser ouvir, aqui estou.
Esta noite é de pesadelo e parece não ter fim. Se permanecer onde está, a pequena Elisa estará em breve à vista de todos. O sol já não demora muito a nascer e com ele virão os homens. Mais uma vez foram os pensamentos práticos que tomaram conta de tudo, que deram a ordem ao braço, pega na enxada outra vez, e o braço obedeceu, num frenesim o braço e a enxada recomeçaram o seu trabalho para desenterrar o que ainda agora foi enterrado, o suor misturado com as lágrimas, o estômago apertado numa náusea que logo toma conta do corpo todo, e a outra parte, perguntarão os mais curiosos, a parte dos inúmeros pensamentos que giram descontrolados, bom, se estão descontrolados e são inúmeros, já nem vale a pena tentar descortiná-los, a não ser talvez este enorme terror de ser apanhado. Coisa assombrosa o nosso corpo, os braços nunca fraquejaram. Elisa, minha neta, aqui não podes ficar, quis levar-te para mais longe mas afinal é para bem perto que terás que vir.
Porém já vimos que não será assim. Ao mesmo tempo que trabalham as mãos, são muitas e nefastas as considerações que aquela cabeça vai congeminando sozinha. Dir-se-ia até que se dividiu em dois, para um lado aquele que toma as decisões práticas, vamos por ali, naquele lugar o terreno é macio, vai ser mais fácil abrir o buraco, já está o corpo lá dentro, agora é só tapar. Para o outro lado, como pode isto ser, que estou eu a fazer, deitei-me esta noite e tudo era igual a todos os dias, ainda o dia não rompeu e estou a enterrar uma neta, que vai ser de nós todos se isto se sabe, pobre criança que não tem culpa de nada, a esta não se negará o Senhor a receber nos seus braços, e daí nunca se sabe, nem baptizada foi, não tem nome, o Padre diz sempre que quem não for baptizado não entra no reino dos Céus, oxalá tenham pena desta, senão até essa culpa terei que carregar daqui para a frente, a de ficar uma recém-nascida abandonada às portas do Céu, ao Deus-dará, e que estranho tudo isto me parece, acho que estou a ficar louco.
Enterrada a Elisa, Manuel respirou fundo e tentou pôr em ordem os seus pensamentos, a dura tarefa estava concluída. E no entanto prevalecia um sinal de alarme, uma inquietação incipiente mas persistente, o que foi, está terminado, deixem-me em paz um momento, isto dizia Manuel aos seus pensamentos, que em verdade se diga, quando eles são muitos ao ponto de nos encherem a cabeça, o barulho pode ser de tal forma ensurdecedor que nem conseguimos pensar nada que preste. Sentado no chão fechou os olhos, respirou fundo. Vou para casa, foi o que pensou, mas quando abriu os olhos o alarme que antes apenas se insinuara disparou como se fossem trombetas nos seus ouvidos, já antes tinha olhado mas só agora via, as máquinas estavam a postos para arar o terreno, foram ontem postas a jeito pelos homens que hoje irão manobrá-las, este terreno é de cultivo, mal o sol nasça vão rasgar a terra, abrir os sulcos e lançar as sementes, desta terra irão nascer coisas vivas, mas antes que para isso haja tempo irão pôr a descoberto o corpo de uma recém-nascida que, enterrado às pressas há apenas umas horas não ficou a mais de três palmos, se ali ficar não faltará muito tempo para que, mesmo morto, aquele corpo diga a quem quiser ouvir, aqui estou.
Esta noite é de pesadelo e parece não ter fim. Se permanecer onde está, a pequena Elisa estará em breve à vista de todos. O sol já não demora muito a nascer e com ele virão os homens. Mais uma vez foram os pensamentos práticos que tomaram conta de tudo, que deram a ordem ao braço, pega na enxada outra vez, e o braço obedeceu, num frenesim o braço e a enxada recomeçaram o seu trabalho para desenterrar o que ainda agora foi enterrado, o suor misturado com as lágrimas, o estômago apertado numa náusea que logo toma conta do corpo todo, e a outra parte, perguntarão os mais curiosos, a parte dos inúmeros pensamentos que giram descontrolados, bom, se estão descontrolados e são inúmeros, já nem vale a pena tentar descortiná-los, a não ser talvez este enorme terror de ser apanhado. Coisa assombrosa o nosso corpo, os braços nunca fraquejaram. Elisa, minha neta, aqui não podes ficar, quis levar-te para mais longe mas afinal é para bem perto que terás que vir.
Próxima publicação: 15 de Outubro
Subscrever:
Mensagens (Atom)