sábado, agosto 13, 2005

Somos todos cegos que vêem

Ontem fui ver “Ensaio sobre a Cegueira”, uma adaptação para teatro do romance do Saramago, com o mesmo nome. Este valente desafio foi agarrado pelo Teatro O Bando, e está em cena no Teatro da Trindade até 18 de Setembro.

Para os poucos incautos que ainda não tenham percebido, aqui a dona deste estabelecimento é uma grande admiradora de (leia-se: tem uma grande panca por) José Saramago. No caso concreto deste romance, Ensaio sobre a Cegueira (que apenas tive coragem para ler duas vezes), considero ser um dos textos mais geniais do nosso Nobel. Genial sim, mas também um dos mais inquietantes, mais angustiantes, mais complexos, e diria eu, mais impossíveis de adaptar para Teatro.

Fui então ver a peça, munida do meu pessimismo céptico, ou em alternativa, do meu cepticismo pessimista. E estive para não ir. Pensava eu, se aquilo tentar ser fiel ao texto vai ser uma porcaria, se aquilo não for fiel ao texto vai ser uma banhada sem jeito nenhum. Ainda por cima, tinha visto há pouco tempo em DVD a decepcionante adaptação para cinema de A Jangada de Pedra, de moldes que já tinha os pés todos atrás que tinha para ter…

… E fiquei tão esmagada pela peça quanto fiquei já pelo livro. Que enorme coragem teve aquele grupo de pessoas para montar um espectáculo assim! Conseguiram reproduzir toda a história na íntegra, com momentos tão brutais quantos os do próprio livro em si. Quem sabe se até mais brutais ainda, porque ali estamos perante todo o espectáculo da miséria humana ao vivo e a cores, com imagens, sons e cheiros. E o espaço cénico, meus amigos, é extraordinário!

Da parte de mais esta cega que vê, aqui fica a minha humilde vénia para todos os elementos d’“O Bando”, que para além de terem concebido e montado o espectáculo, ainda lhes sobra força anímica para o levar à cena todos os dias. Olhem que é preciso terem uns tomates muito rijos e muito pretos.

Ah! Escusado será dizer que o meu pessimismo e cepticismo saíram do Teatro ontem com o rabo entre as pernas, mudos e quietos, e ainda hoje não abriram a boca. Estão pr’áli enfiados no canto mais escuro da casa, com uma grande crise de amuo. Tadinhos.

2 comentários:

Joaquim Varela disse...

Pretos?!

A peça é bem catira sim sra. Pena é que a malta não adira muito a este tipo de coisas, mas lá vamos se calhar parar à conversa da eterna minoria esclarecida...

Carla Marques disse...

Ora, sim senhoras! Isto sim, é serviço público! Não posso deixar passar esta! Se a xô dono Blimunda diz que é bom, é mesmo é verdade. Até porque eu adormeci a ver a "Jangada de pedra", tal era o sacrifício, apesar de Saramago ser o meu escritor preferido (eu ainda sou daqueles que pensam que nada chega aos calcanhares de um bom livro).
À primeira oportunidade, lá estarei!