terça-feira, setembro 08, 2009

Debates à parte #2

O cabelo da Judite de Sousa estava fantástico.

(Se o gajo da SIC pode, eu também posso.)

quinta-feira, setembro 03, 2009

Debates à parte #1

E o prémio "O que eu gostava mesmo era de ser apresentador do Fama Show" vai para...

O jornalista de exteriores da SIC à porta dos estúdios de Paço d'Arcos que tudo o que soube perguntar ao Jerónimo de Sousa antes do início do debate foi esta pergunta fundamental:

"Porque é que escolheu essa gravata entre o vermelho e o bordeaux?"

... À qual se seguiu uma conversa de profundo teor, com o senhor dirigente político, algo embaraçado (pudera!), a ver-se obrigado a dizer que é a esposa quem o ajuda nessas coisas.

Ao que o jornalista ainda insistiu, passando da gravata à cor do fato.

E terminando ainda com esta frase da maior relevância no que ao dever de prestar toda a informação pré-debate diz respeito:

"Francisco Louçã optou pela cor azul oxford".

Isto para mim, é uma de duas coisas: falta de preparação, uma. Ou então, é mesmo um bocado panisgas.

(Reinaldo Serrano volta que estás perdoado)

segunda-feira, agosto 17, 2009

Espiral

A balança não terá essa capacidade de medição, mas eu sei bem que estou mais pesada. Carrego às costas as culpas que são minhas e as que não são, carrego angústias, medos, ansiedades, revoltas. Se tivesse a força das convicções talvez a carga fosse menos pesada, ou talvez não. Não tenho certezas disso tal como não tenho certezas de quase nada por estes dias.

Dou comigo que nem peixe no aquário, dotado de apenas um neurónio. De cada vez que completo uma volta vejo sempre a mesma porta e no entanto, surpreendo-me como se a visse pela primeira vez. E então dói como se fosse a primeira vez, e tenho que me explicar tudo de novo, desde o início, para que eu própria volte a entender porque é que tivemos que chegar a este ponto deles irem para ali. Entretanto inicia-se mais uma volta e pela altura em que chego ao fim e me vejo de frente para a porta, torna a doer. Então explico tudo de novo a mim própria, enquanto recomeço mais outra volta.

Aquilo tem uns corredores muito compridos onde ela persegue uma esperança qualquer de não deixar de andar tão cedo. Quando lá vou vê-los vou como num sonho, ando mas queria correr para lá chegar mais depressa, chego mas só queria sair e levá-los comigo para não voltar mais.

Aquilo tem um pomar muito lindo onde se espera que ele ocupe o corpo e o espírito. Receio que sejam demasiado altas as expectativas em torno daquela meia dúzia de árvores de fruto: espera-se que delas nasçam peras, figos e uma qualquer ilusão de liberdade, de bem-estar. Sim, é pelo melhor que ele lá está, embora por ele nem fosse preciso. Sim, é por vontade própria que ele lá está, por amor, por dever, por grandeza de espírito, maior que a minha, sem dúvida. Sim, sim, já me lembro disso tudo, tem tudo imensa lógica. Deixa-me cá dar mais uma volta no aquário.

E ao mesmo tempo há tanta coisa para fazer. Há uma imensidão de coisas para fazer tão grande, que me esmagam ao ponto de me faltar o ar. Coisas que eu não quero fazer, que não vejo onde arranjar forças para fazer, que não poderei deixar de fazer.

Não sei que presente é este e muito menos que futuro está por vir. Assim de repente, vejo ali uma porta que eu já devia reconhecer, mas que ainda preciso de voltar a explicar-me o que é que significa. E que espécie de pessoa serei eu, que a vou transpor.

Esgoto-me, para me distrair concentro-me em pormenores onomásticos: porque será que lhes chamam lares? Se calhar é pelo conforto que a palavra transmite, mas não deixa de ser um bocadinho hipócrita...

segunda-feira, agosto 10, 2009

Três Cantos


22 de Outubro, no Campo Pequeno. Bilhetes à venda a partir de 13 de Agosto. Para mim, é um lugar na 1.ª fila, por favor. :-)
Mais informação, aqui.

sábado, agosto 08, 2009

segunda-feira, agosto 03, 2009

Me liga, vai

"A TUA MENSAGEM FOI ENVIADA CORRECTAMENTE, SORTE NA PROCURA DE PARCEIRO!"

Começou assim ontem à tarde, mensagem enigmática vinda de um 49990 para um telefone que não me pertence, e do qual sou mera utilizadora. Mau, pensei eu, queres ver que a gente vai-se chatear? Logo a seguir, nova mensagem, ainda por cima tratando-me por um gajo em vez de uma gaja:

"OLÁ (...) MUITO PRAZER O MEU NOME É LAURA E SOU DE AVERI (Aveiro?... Who cares?...), TENHO 24 ANOS, POSSO SABER QUE IDADE TENS TU E DONDE ÉS?"

Parti do princípio que a conversa não era comigo, sendo que a minha idade e de onde era eu seria de pouco interesse para a Laura. Mais tarde mudou o tom, deixámos a mera curiosidade amigável para algo que apelava mais ao sentimento:

"E ENTÃO MEU FOFINHO ESTÁS MESMO A DEIXAR-ME COM SAUDADES DE TI, MAS O QUE SE PASSA CONTIGO"

O que se passava, claramente, era um abuso dos meus direitos de consumidora e dos meus dados pessoais, mas pareceu-me que mais uma vez não era de mandar resposta, já que fofinho não sou e o que se passa comigo não dizia respeito ao 49990.

Mas o que foi giro nisto foi a subida gradual de tom. Ora uma vez que a amizade de esplanada de café não tinha resultado, e a conversa lamechas também não, eis senão quando nos deixámos de rodeios e o 49990 foi direito ao que verdadeiramente interessa:

"OLÁ MEU AMOR, ESTAVA A PENSAR CÁ COMIGO E GOSTAVA DE SABER COMO GOSTAS UMA CONA , COM PELOS, OU MESMO RASPADINHA?"

Ora bem. Tirando as opções que tomo em relação à minha própria, devo dizer que isto é assunto sobre o qual, na generalidade, não tenho opinião formada. De moldes que fui averiguar afinal o que é que se passava. Na Linha de Apoio TMN deram-me um número de telefone para me desligar de um serviço ao qual não aderi. Foi o que fiz, ao mesmo tempo que mandei barrar a entrada deste lixo telefónico.

Percebi entretanto que não sou a única vítima. E que os senhores de uma dita empresa chamada "NVia" não têm culpa nenhuma disto, na medida em que só fazem... fazem o quê, deixa cá ver ao link do outro desgraçado... Ah, é isso fazem uma "conexão técnica". A culpa está algures nas malhas da internet e ninguém sabe de quem é, nem quem são os criminosos que induzem pessoas a esta porcaria, nem de que forma (e isso é que é ainda mais grave) têm acesso aos números de telefone que metem no sistema sem o consentimento dos próprios.

Felizmente fui prudente não respondendo, e pelo menos não incorri em custos inúteis para a entidade que paga aquele telefone. Diz que só cobram (2,00 €!) a quem mandar mensagens e entrar neste disparate.

Pois caros senhores da "NVia", como tenho a certeza que vão continuar impunes e ainda vão burlar muita gente pelos anos fora sem que ninguém vos deite a mão, vai daqui a minha mensagem que tem duas vantagens, não vos dá dinheiro a ganhar e deixa-me a mim com a bília mais aliviada: que vão todos levar na conexão técnica, tenha ela pêlos ou não, de forma persistente e violenta, causando-vos muita dor. É o que vos desejo.

domingo, julho 26, 2009

É que não há limites para a competição feminina

Ele (casual, descontraído): Eh pá, que noite tão agitada. Tive dois sonhos eróticos!...

Ela (curiosa, fingindo-se indiferente): Sim?... Com quem?...

Ele (sincero, totalmente inconsciente do perigo): Um deles, contigo. O outro, com uma garota que já não devo ver há uns 20 anos. Que raio de coisa...

Ela (ligeiramente ressabiada): Então e qual dos dois é que foi melhor? O que tiveste comigo ou o que tiveste com a outra?!...

sábado, julho 25, 2009

Assim, sem mais nem menos...

... vem a pergunta do banco de trás do carro, saída do pirralho com 9 anos:
- Já cometeste erros?

A resposta, politicamente correcta porém sincera, sai em tom pedagógico e afectuoso:
- Ehr... Já, claro, sabes que é normal errar, toda a gente comete erros...

Breve pausa e nova pergunta:
- Que erros cometeste?...

Resposta irreflectida, deitando abaixo toda a pedagogia da anterior:
- Queres que te fale do maior de todos, ou ficamo-nos por um ou outro mais corriqueiro?!...

(esta miudagem pequena não imagina o que são 37 anos de bagagem emocional!...)

quarta-feira, julho 22, 2009

Rotinas de Verão

São boas. Mesmo com um tempo meio estranho, agradam-me estes dias a um ritmo menos acelerado.

Sair de casa mais tarde porque já sei que não há trânsito e há mais lugares disponíveis para estacionar. Ler o jornal enquanto se toma o pequeno-almoço sentada, com calma.

Invariavelmente pergunto-me qual a razão objectiva de não me dar a estes luxos também no resto do ano. Aparentemente, nenhuma. Mas a verdade é que... não dá. Porque é preciso chegar cedo para adiantar qualquer coisa, porque o telefone começa a tocar antes das nove da manhã e se calhar depois das nove da noite ainda não parou, porque por mais livros de auto-ajuda que a malta leia, não me venham com tretas, o ritmo não somos nós que o queremos assim, mas não querendo ficar para trás, resta-nos correr atrás dele.

Ah e tal, mas só é assim porque queres, ou permites, ou qualquer coisa do género. É verdade. A opção por um ritmo menos exigente é sempre possível. Lá chegaremos, o Alentejo não se vai acabar tão depressa.

Por agora, é aproveitar bem o prazer das rotinas de Verão. Ou como diria alguém, aproveitar as descidas, que as subidas custam muito...

terça-feira, julho 07, 2009

Requiem

A questão é que penso demasiado na morte, ultimamente. E não é por nenhuma tendência suicida, por mania ou outro qualquer problema do foro mental. É só porque há alturas em que a consciência da morte se impõe mais do que outras, e esta é seguramente uma delas.

Toda a gente sabe que a morte existe e não poupa ninguém. Toda a gente se depara por vezes com esse olhar sobre si próprio, sobre aqueles que ama, e nessa altura pensamos, existe esta coisa da morte que faz com que tudo termine. A grande vantagem é logo de seguida a nossa cabeça se ter que ocupar com outras coisas da vida, e rapidamente o nosso cérebro produz aquele pensamento reconfortante, está bem, isso vai ser assim, mas por enquanto ainda não, segue em frente.

Acontece que por estes dias a morte materializa-se e não me permite esse conforto. Curiosamente, já há uns meses me deu um sinal muito claro, quando me acidentei na Auto-Estrada, e só por mera casualidade (essa entidade de longe muito mais misteriosa que a própria morte), aqueles segundos não foram os meus últimos e/ou os últimos de quem ia comigo. Qual dos dois cenários o pior.

Mas a maior consciência da morte vem hoje em dia dos meus pais, especialmente da minha mãe, à medida que a vejo mais debilitada dia após dia. A pergunta que se impõe é o que fazer, não contra a morte em si, porque essa já sabemos que nada podemos contra ela, mas o que fazer face ao tempo que antecede a morte, face ao sofrimento físico, mental e emocional inerente aos dias que passam sem que possamos ser aquilo que sempre fomos. E que pode ser de dias, meses, anos.

O que fazer? O que é que cada um de nós (filhas, netos, marido) podemos e estamos dispostos a fazer, que sacrifícios poderemos nós fazer em nome de algo que diminua esses sofrimentos? E se o que fizermos apenas contribuir para os aumentar? E se aquilo que imaginamos ser apoio e bem-estar para os dois for apenas infelicidade, isolamento, abandono? E se com isto estivermos a abrir as portas à demência para quem está são?...

Hoje, no dia em que os levo a ambos ao funeral de um parente próximo, todos mais ou menos da mesma idade, temos bem presente a consciência de que qualquer um deles poderá ser o próximo, tal como diz a anedota. Não imagino, não consigo imaginar quanto me fará sofrer a morte dos meus pais. Mas tenho já uma noção muito clara do quanto me atormenta a ideia de que, pelas minhas acções bem intencionadas, possa estar a contribuir para que qualquer um deles morra mais depressa, ou lhes traga mais sofrimento à sua vida.

Estou certa de que nada pode continuar como está, e por isso alguma coisa tem que se fazer. Mas levar os meus pais para uma instiuição está a ser das decisões mais dolorosas que já tive que tomar em toda a minha vida.

domingo, junho 28, 2009

How terribly strange to be seventy

Numa fase especialmente ambígua a nível de sentimentos e emoções, tentei hoje expressá-los aqui, mas não consegui. Entretanto lembrei-me desta música, que sempre me fez chorar quando a ouvia. Dá conta de uma dura realidade que infelizmente me bate à porta.



Para certas coisas na vida, nunca se está preparado. Como diria Gabriel Garcia Márquez, "Deus nos livre daquilo que conseguimos aguentar".

sexta-feira, junho 12, 2009

Abriu a época balnear


Praia sem vento. Primeiros raios de sol. Protector solar factor 30. Carapaus grelhados com o sabor maravilhoso que vem do carvão, da vista de mar e das amizades mais profundas, mais fortes que há no mundo. Fortes como o aço. Parabéns, irmã!... ;-)

sábado, junho 06, 2009

Educar pela arte

Por vezes, encontramos quem consiga expressar exactamente aquilo que pensamos sobre um determinado assunto, com a clareza que infelizmente não possuimos. Nestas alturas, humildemente calamo-nos e deixamos o outro falar:




terça-feira, maio 26, 2009

The woman who can't be moved *

Não gosta da canção. Acha a ridícula, irrita-a. A ideia de alguém que cristaliza a própria vida enquanto o outro segue em frente, eternamente à espera do especial favor de ser amado, a si não lhe parece romantismo. Parece-lhe, isso sim, algo muito, muito estúpido.

Quando passa na rádio, muda de estação. É que não suporta ouvir aqueles versos, declamados por quem afirma não ter escolha e nada mais lhe restar a não ser esperar. "How can I move on when I'm still enlove with you". Desprezível. Seguir em frente não é uma opção, é uma inevitabilidade, que palermice vem a ser esta. E aliás, ninguém merece não viver a sua vida.

No correr dos seus dias não podia estar mais longe desta utopia romântica que a canção apregoa. Buraco no seu mundo uma ova, prefere sem dúvida os buracos nos sapatos. Ninguém ama assim, um amor assim não existe, ponto final. Se existisse seria ainda mais ridículo do que todas as cartas de amor ridículas do Fernando Pessoa, mais trágico do que a mais trágica das tragédias de Shakespeare, e toda a gente sabe que isso não é possível. Este não-sei-quantos que inventou esta cançãozeca (que daqui a dois dias já ninguém se lembra quem é), não se vai com certeza comparar a verdadeiros entendidos destas coisas do amor e do romantismo, como são Fernando Pessoa ou Shakespeare, e isto só para dar dois nomes, haja ordem nisto, quer dizer.

A esquina onde o encontrou pela primeira vez, já não se lembra onde é, nem lhe interessa. Não pretende acampar lá nem sonha com o dia em que a ele lhe dê jeito voltar ao mesmo local de sempre. Não lhe oferece de bandeja essa satisfação. Segue em frente, todos os dias um lugar diferente, há os amigos, há coisas para fazer no trabalho e há as coisas para fazer nos tempos livres, há namorados novos, e quando não os há, há ela própria bastando-se a si mesma com tudo o que faz e que construiu, depois que ele a deixou parada numa esquina igual àquela em que, o tal homenzinho idiota, está parado à espera.

Um amor assim não existe. É por isso que odeia a tal canção, e é isto que grita à parte de si que está emparedada no fundo da masmorra, no buraco mais fundo e obscuro de si própria. Que um amor assim não existe.

Esse eu que está encarcerado, de tanto ouvir falar no ridículo do amor, acabará por morrer à fome e um dia será apenas mais um cadáver arrumado num armário. O eu encarcerado é aquele que está disposto a esperar. Mesmo sabendo que todos os outros eus caminham, espera, mesmo percebendo que não há esperança, espera, porque não encontra outro sentido em si mesmo que não seja esperar. Por enquanto, não se lhe pode dar a ouvir "the man who can't be moved".

De portas trancadas pela firmeza das suas convicções, ela não tem dúvidas que a canção é ridícula e fala de coisas que não existem. Porém, nas noites mais longas, a maldita música ecoa dentro de si mesma mais do que gostaria e muitas vezes fá-la rebolar na cama, sem que consiga dormir.

À superfície, surgem então as lágrimas que não se conseguem conter.

No fundo da masmorra, monta-se a tenda para mais uma noite passada ao relento.

* Inspirado em "The man who can't be moved", dos The Script,
e nos amores ridículos do dia-a-dia.

quarta-feira, maio 13, 2009

Cortesia vs Sinceridade

Veio isto hoje a propósito de coisa nenhuma. Mas provavelmente já toda a gente conhece bem aquelas situações em que nos oferecem algo, especialmente comida, por mero gesto de cortesia. "É servido?", perguntam-nos, esperando apenas que o outro responda "não, obrigado". Para os mais refinados até há quem prolongue a coisa, e acrescente um "veja lá, não faça cerimónia", só para ouvir o outro dizer, "obrigadíssimo, mas não quero, deixe estar".

Não sei se foi o meu pai que inventou, eu por mim nunca ouvi a mais ninguém. Se calhar é aquilo que vai na cabeça de muitos quando, educadamente, fazem a perguntinha polida, à espera da resposta politicamente correcta. É, digamos, uma forma mais sincera de colocar a pergunta:

É servido, deste pouco que mal me chega, oferecido de má vontade, quem aceita não tem vergonha nenhuma?...

sexta-feira, abril 17, 2009

Do amor e outros demónios*

* Título vilmente roubado a um livro muito bonito de Gabriel Garcia Márquez cuja qualidade nada tem a ver com os disparates que irão agora seguir-se. Fica o aviso.

O meu querido companheiro tem duas características relativas ao sono das quais me apetece falar.

Uma das características, que tem a sua graça, é que ele por vezes fala durante o sono. E não deixa de ser peculiar acordar durante a noite a ouvir uma voz muito séria e compenetrada a dizer "com este já são dois presidentes da república". Ou simplesmente a dizer "jfrtsd lpvzx çptrqs".

A outra que não tem assim tanta graça chama-se ressonar. Algo que lhe causa a ele próprio bastante embaraço e tristeza por me sujeitar a tal coisa, mas que obviamente, não pode controlar. Enquanto estou acordada e durante o dia é coisa que encaro com calma, compreensão, e não o amo menos por causa disto. Mas em certas noites mais problemáticas, e estando eu desesperada a tentar dormir fico capaz de lhe desentupir as vias respiratórias com os fios dos candeeiros das mesas de cabeceira e desejar que todas, mas todas as noites da minha vida a partir daquela sejam passadas a dormir sozinha.

É especialmente bizarro quando há sexo. Porque a malta vai para a cama, aconchega-se, conversa sobre o dia que correu, os que estão para vir, faz planos e tal (o chamado convívio), a dado momento atira-se para a trungalhundice (o chamado sexo), a seguir há mais aconchego, mais carícias, muito carinho e quando finalmente se instala o cansaço, é hora de dormir. Beijinho, beijinho, até amanhã, até amanhã, e finalmente o silêncio total. Ora quando eu já estou naquele limbo entre o sono e o acordado, quase a passar-me para o lado de lá, eis que surge deitada ao meu lado uma besta que eu desconheço, com quem jamais trocaria quaisquer fluidos, mas que afinal está ali, disposta a roncar até que a minha noite se torne num verdadeiro inferno.

Já sei que, com sorte, se o conseguir fazer voltar-se sobre o seu lado direito o ronco pára. Mas como é que se faz com que um peso morto de 75 kg se volte na cama para um lado que ele não quer ir? Não é com força, porque isso é impossível. Falar também não adianta, porque quando há diálogo ele é sempre igual e é assim:

(Abanão. Abanão com mais força.)
- Amigo, vira-te para o lado, estás a ressonar...

(Resmungo, seguido de resposta em tom muito ofendido comigo e note-se, enquanto continua a dormir profundamente)
- Como é que eu posso estar a ressonar se eu estou acordado?...

(Sempre que lhe digo que ele está a ressonar, isso é sempre impossível porque ele está sempre acordado. Sempre, sempre. No dia seguinte nunca se lembra de nada. Tão querido.)

De maneiras que na maior parte das vezes o que me valem são as cócegas. Ai gostas de dormir de barriguinha para cima com os braços atirados por cima da cabeça? Então espera aí que já te lixas. Deixa cá fazer-te uma cócegazinha no sovaco que é um instante enquanto tu dás um salto para o outro lado, até parece que tens uma mola. O problema é que por vezes resulta, por vezes não...

Aqui há uns dias atrás, depois de uma noite mal dormida em que o ronco ganhou às cócegas e eu fui parar ao sofá da sala, comentava este problemazito com outra colega de infortúnio. Que depois de me ouvir lamentar-me dos roncos do meu companheiro, sensibilizada e totalmente solidária (been there, done that) pronunciou estas palavras da mais profunda sabedoria:

"Eu sinceramente não sei para que é que as mulheres levam tanto tempo a escolher um homem. A sério, se são todos iguais, para quê tanto trabalho a escolher? Podia ser um qualquer!..."

sexta-feira, abril 10, 2009

Boa Páscoa

"No cortejo dos penitentes
Vão culpados pecadores da gula
Vão culpados da sensualidade
Castigados até à medula
Vão os tíbios e frouxos no amor
Imaculados como o Criador
Vão culpados por abstinência
Vão culpados das suas carências
No cortejo dos penitentes
Os homens cortam suas próprias carnes
São ofertas que fazem aos céus
Ao mais alto de todos os céus
No cortejo dos penitentes
Os sacerdotes da austera vida
Vão contentes e muito enfeitados
Sobre as cinzas dos sacrificados
E cantam louvores
Ao Deus

Abranda Senhor
A pena dos mortos
P’ra que te louvem
Com sono quieto

No cortejo
Os penitentes
Bebem tragos da bebida amarga
Da urina que depois vomitam
Pela noite mal aventurada
No cortejo
Os penitentes
Comem postas de sangue coalhado
Da sangria dos outros romeiros
Suavemente mutilados
E cantam louvores
Ao Deus

Abranda Senhor
A pena dos mortos
P’ra que te louvem
Com sono quieto"

Fausto Bordalo Dias, "O Cortejo dos Penitentes"

Este blog

Ressente-se da minha vida actual. E receio que vá continuar a ser assim, não é apenas uma questão de falta de tempo (que é um facto), mas também de falta de outras coisas. O cansaço tolhe-me a inspiração para ficções. E quanto às realidades, tenho perfeita noção de que, para meu próprio bem e de muitos à minha volta, quanto menos expostas estiverem, melhor.

Penso cada vez mais nos meus textos, guardados na gaveta a ganhar pó, e que poderiam ser dados a conhecer por ese meio, pelo menos a alguns de vós, que à distância aprendi a estimar como se de amigos se tratassem. Porém, receio pela exibição on-line de textos inéditos, como protegê-los da apropriação de terceiros? A preguiça ainda não me deixou ir registá-los, é verdade. Mas se o fizer, será suficiente? Não é que lhes ache especial qualidade literária, mas ainda assim pertencem-me, e bons ou maus, não os quero associados a outro nome que não o meu.

Entretanto, e porque a época da Páscoa me põe sempre a pensar nas contradições da religião católica, alguém me indica ó fáxavor onde encontro a letra de uma canção do Fausto, "O Cortejo dos Penitentes"? De forma algo distorcida, é certo, julgo ser uma canção apropriada para a época, mas não a consegui encontrar.

Obrigadinha, e votos de uma grande overdose de amêndoas para todos.

quarta-feira, março 18, 2009

Era uma vez um homem velho que não queria morrer

Era um homem como outro qualquer, com virtudes e defeitos, estes mais salientes pelo azedume próprio da idade, aquelas porém fazendo-se notar apesar deles e dando conta do seu verdadeiro modo de ser. Um homem banal, que havia já cumprido a sua vida, e gozava agora o passar de dias menos agitados, próprios para a sua idade. Mas este homem, silencioso nas suas reflexões e receios, sabia para onde o levavam aqueles agradáveis dias por preencher, e embora o seu corpo pedisse já pelo merecido descanso, a cabeça segredava-lhe lá de dentro que se parasse, morria. A cabeça daquele homem velho ainda não sabia o que fazer à morte. Por isso, o homem velho lia.

Sentava-se à janela e lia muitos livros, gostava dos clássicos (afinal era um homem velho), dizia que Júlio Verne era o melhor autor de sempre. Quando não tinha nada novo para ler, relia os livros do Júlio Verne. E para se alimentar de novas leituras, pedia à filha que lhe trouxesse livros, daqueles que ela não tinha tempo para ler porque vivia ainda num tempo em que os dias eram muito agitados e à sua cabeça nem lhe ocorriam cogitações que tivessem a morte como possibilidade.

A filha gostava de ver o homem velho a ler à janela. Olhava para as suas prateleiras e escolhia livros para lhe levar, tinha muitos, mas com o passar do tempo já todos haviam sido lidos. No entanto, era preciso continuar a alimentar a cabeça do homem velho com livros, porque aquela leitura para passar o tempo era a chave que fazia com que o tempo não passasse tão depressa. Então um dia a filha, que muito estimava o seu pai e queria que ele vivesse para sempre, começou a comprar novos livros que lhe agradariam a si própria ler, mas que não lia, por causa da agitação dos seus dias. E foi assim que, por muitos e muitos anos, o homem velho foi descobrindo antes dela a magia daqueles livros que serviam para prolongar a vida, ocupando depois o seu lugar nas prateleiras. Aqueles livros tornaram-se também num excelente tema de conversa e de partilha, deste não gostei, aquele é interessante, este já podes levar, li-o em dois dias, não conseguia parar.

Quando enfim a lógica da vida se impôs, que é como quem diz, a morte chegou e levou o homem velho, a filha estava grata aos livros por cada minuto a mais de vida plena que o seu pai tinha alcançado com a ajuda deles. É claro que os livros não conseguiram, nem a isso estavam obrigados, preencher o imenso vazio que se instalou com a morte do homem velho, e que todos os que o amaram vieram a descobrir dentro de si próprios. A mesma lógica de vida fez novamente o seu papel, e apesar do vazio, ou melhor, levando-o o consigo para sempre, todos seguiram com os seus assuntos. Ficaram os livros, à espera.

Chegou enfim o tempo em que a filha se tornou ela própria numa mulher velha, de dias pouco agitados. Como quem regressa à companhia de velhos amigos, voltou a percorrer com os dedos as suas prateleiras, pejadas de livros dos quais apenas tinha ouvido falar. A sua cabeça dizia-lhe baixinho que se parasse, morria. Os livros ali estavam, para que se alimentasse deles.

Segura de que a vida ainda tinha muita coisa nova para lhe dar a descobrir, e que a morte tinha ainda que esperar que terminasse a leitura de muitos milhares de páginas, sentou-se à janela, colocou os óculos e começou a ler.