domingo, julho 03, 2005

Será isto a tradição?

Quando cheguei da Festa trazia os pés a latejar de tanta dor. Os cabelos e a roupa, incluindo a interior, cheiravam a suor, febras, couratos, sardinhas e tabaco, tudo ao mesmo tempo. Enquanto lá estive, e munida do meu sorriso profissional número 32, lá fui palmilhando ruas e mais ruas, procurando ser sempre delicada e simpática para toda a gente, incluindo os fadistas que tinha que convencer (obrigar, mesmo) a cumprir o horário de actuações previamente estabelecido, os bêbados que me tentaram engatar (um deles bem giro, por sinal), e os magotes de gente a quem ia pedindo para nos deixarem passar. Nesta longa noite ouvi as mesmas pessoas cantarem os mesmos fados umas três vezes pelo menos. Rapei tanto frio, mas tanto frio, que já não sabia o que fazer à minha vida…

Em cada lugar por onde passámos deram-nos de comer e de beber, tínhamos tudo à disposição, desfeita era não aceitar. As imperiais vinham-me (perigosamente) parar às mãos sem que eu as pedisse e sem saber sequer quem as oferecia ou as estava a pagar. Cantei o fado. Ri com gosto de todas as anedotas que me contaram. Encontrei e abracei amigos que não via há anos e como sempre conversámos e tirámos prazer de estarmos novamente juntos, e isso deixou-nos a todos muito felizes.

Quando cheguei da Festa tinha o corpo numa desgraça. Porém a minha alma vinha a transbordar desta sensação maravilhosa que é a de se pertencer de facto a alguma coisa. Como se a Festa, tão ruidosa e fatigante, fosse afinal uma espécie de colo de mãe, quente e aconchegante. Será isto a tradição?...

2 comentários:

Sou Eu Tá claro disse...

Ai é tradição é...
Sua maluca, olvidaste-te foi de mencionar que para início do dia foste apanhar o bronze não é? depois querias estar descansadita, não é?
A mim nunca me enganaste, debaixo desse ar de Dotora loura, tu gostas é gajos bebidos e mal cheirosos, que te agarrem e levem para o mau caminho, e depois a culpa é da tradição.
Tradição é chegar ao dia seguinte uma lástima e lá ir cravar o almocito, não é?

chokinha disse...

Viva a Festa mais ribatejana de todas! A tradição é isso mesmo! Um beijinho!